Houghton
Miflin/AP
 |  | Philip
Roth: o sexo e a velhice vistos com ironia | |
O
Animal Agonizante, de Philip Roth (tradução de Paulo Henriques
Britto; Companhia das Letras; 128 páginas; 29 reais) Na trilogia
formada pelos romances Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A
Marca Humana, Philip Roth montou um corrosivo painel da sociedade americana
das últimas décadas. O Animal Agonizante veio logo em seguida.
Embora seja uma obra menos ambiciosa, é uma bela amostra do estilo incisivo
e irônico com que Roth desvenda a sexualidade de seus personagens. A narrativa
acompanha a velhice do professor aposentado David Kepesh, personagem que Roth
já usou em livros dos anos 70. Depois de uma vida inteira de casos ligeiros
com alunas bem mais jovens do que ele, Kepesh tem uma relação intensa
com uma rica e sensual filha de imigrantes cubanos. Leia
trecho Eu
a conheci há oito anos. Era minha aluna. Não sou mais professor
em horário integral, não sou mais professor de literatura no sentido
estrito - há anos que só dou o mesmo curso, para uma turma grande
de alunos do último período, sobre crítica, chamado Crítica
Prática. Muitos dos alunos são do sexo feminino. Por dois motivos:
porque é um tema com uma combinação atraente de glamour intelectual
e glamour jornalístico, e porque elas me conhecem de me ouvirem fazendo
resenhas de livros na rádio educativa, ou então de me verem no canal
13 falando sobre cultura. Nos últimos quinze anos, minha atuação
como crítico de cultura televisivo fez com que eu me tornasse uma figura
razoavelmente conhecida na cidade, e é isso que atrai as garotas para o
meu curso. No início, eu não me dava conta de que aparecer na televisão
por dez minutos uma vez por semana podia impressionar tanto aquelas alunas. Mas
elas sentem uma atração irresistível pela celebridade, mesmo
que seja uma celebridade pífia como a minha. Ora,
sou muito vulnerável à beleza feminina, como você sabe. Todo
mundo se torna indefeso diante de alguma coisa, e no meu caso é isso. Diante
de uma mulher bonita, não enxergo mais nada. Logo na primeira aula descubro
quase imediatamente qual daquelas garotas é a minha. Mark Twain tem uma
história em que ele foge de um touro e sobe numa árvore, e o touro
olha para ele e pensa: "O senhor é a minha refeição".
Pois bem, leia-se "a senhorita" em vez de "o senhor", e é
isso que eu penso quando vejo as garotas na sala de aula. Já se vão
oito anos - eu já estava com sessenta e dois anos, e a garota, que se chama
Consuela Castillo, tinha vinte e quatro. Ela não é como as outras
da turma. Nem parece uma aluna, pelo menos uma aluna comum. Não é
uma pós-adolescente, não é uma dessas garotas desmazeladas,
tronchas, que dizem "tipo assim" cada vez que abrem a boca. Ela fala
bem, é equilibrada, tem uma postura perfeita - parece saber alguma coisa
a respeito da vida adulta, além de saber se sentar, ficar em pé
e andar. Assim que você entra na sala, percebe que essa garota sabe mais,
ou então quer saber mais. A maneira como ela se veste. Não é
exatamente o que se chama de chique, ela com certeza não se veste de modo
exagerado, mas, para começar, nunca usa jeans, nem passado nem amassado.
Usa umas roupas escolhidas a dedo, com um bom gosto discreto, saias, vestidos
e calças feitas sob medida. Não para se tornar menos sensual, e
sim, ao que parece, para se profissionalizar - ela se veste como uma secretária
bonita de uma firma de advocacia de prestígio. Como se fosse a secretária
do presidente de um banco. Usa uma blusa de seda creme por baixo de um blazer
azul feito sob medida, com botões dourados, uma bolsinha marrom com aquela
pátina de couro caro, botinhas que chegam até o tornozelo e combinam
com a bolsa, e uma saia de tricô cinza, um tecido ligeiramente elástico,
que revela as linhas de seu corpo com aquela sutileza de que só mesmo uma
saia assim seria capaz. O penteado é natural, porém bem cuidado.
A tez é clara, a boca é curva, embora os lábios sejam cheios,
e a testa é arredondada, uma testa polida, lisa, com uma elegância
de Brancusi. Ela é cubana. Filha de uma próspera família
cubana que mora em Nova Jersey, do outro lado do rio, no condado de Bergen. O
cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é grande.
Um mulherão grande. A blusa de seda está desabotoada até
o terceiro botão, de modo que dá para ver que ela tem seios poderosos,
lindos. Imediatamente você vê a fenda entre eles. E você vê
que ela sabe. Você percebe que, apesar do decoro, da meticulosidade, do
estilo cuidadosamente refinado - ou por causa disso tudo -, ela tem consciência
de si própria. Ela vem à primeira aula com uma jaqueta abotoada
por cima da blusa, porém cinco minutos depois do início da aula
não está mais de jaqueta. Quando volto a olhar para ela, já
vestiu a jaqueta outra vez. De modo que você compreende que a moça
tem consciência de seu poder, mas não sabe direito como usá-lo,
o que fazer com ele, não sabe nem mesmo até que ponto quer ter todo
esse poder. O corpo ainda é novo para ela, a moça ainda o está
experimentando, tentando compreendê-lo, é um pouco como um menino
que anda na rua com uma arma carregada, sem saber se está armado para se
proteger ou se para dar início a uma carreira no crime. E
essa moça também tem consciência de outra coisa, algo que
eu não poderia ter percebido logo na primeira aula: considera a cultura
importante, tem por ela uma reverência um tanto antiquada. Não que
tenha alguma intenção de dedicar sua vida à cultura. Isso
ela não quer e nem poderia fazer - teve uma educação tradicional
demais para isso -, porém acha a cultura a coisa mais importante e maravilhosa
que conhece. É o tipo de pessoa que sente fascínio pelos impressionistas,
porém é obrigada a ficar muito tempo olhando com atenção
- e sempre com uma incômoda sensação de perplexidade - para
um Picasso da fase cubista, esforçando-se ao máximo para compreendê-lo.
Assim, fica olhando, aguardando uma nova sensação surpreendente,
um pensamento novo, uma emoção nova, e quando nada disso acontece
ela se recrimina por sua incompetência e por lhe faltar... o quê?
Ela se recrimina por nem sequer saber o que é que lhe falta. A arte mais
moderna a deixa não apenas perplexa, como também decepcionada consigo
mesma. Ela gostaria muito que Picasso fosse mais importante para ela, talvez até
a transformasse, porém há uma espécie de cortina translúcida
que a separa do proscênio da genialidade, toldando sua visão e obrigando-a
a adorar a certa distância. Consuela dá à arte, a toda a arte,
muito mais do que recebe em troca, uma espécie de seriedade que chega a
ser tocante. Um coração bom, um rosto lindo, um olhar ao mesmo tempo
convidativo e distanciado, peitos sensacionais, uma mulher ainda recém-saída
do ovo, tanto assim que não causaria espanto encontrar fragmentos de casca
colados naquela testa ovóide. Vi de imediato que aquela garota seria minha. Bom,
tenho uma regra há uns quinze anos que jamais violo. Nunca me aproximo
das alunas em caráter particular enquanto elas não fazem o exame
final e recebem a nota, quando então para elas já não estou
mais oficialmente in loco parentis. Por maior que seja a tentação
- e mesmo que eu receba um sinal inconfundível para começar a flertar
e dar o primeiro passo -, jamais violei essa regra desde que, em meados dos anos
80, o número do disque-assédio foi pela primeira vez afixado à
porta da minha sala. Não entro em contato com elas para não cair
nas mãos daquelas pessoas na universidade que, se pudessem, dariam um jeito
de criar sérios obstáculos ao meu prazer de viver. Todos
os anos dou um curso de catorze semanas, e durante todo esse tempo não
tenho caso com nenhuma aluna. Então aplico um truque. É um truque
honesto, às claras, lícito, mas é um truque assim mesmo.
Terminado o exame final, lançadas as notas, dou uma festa no meu apartamento
para os alunos. A festa é sempre um sucesso, e é sempre a mesma
coisa. Convido os alunos para beber alguma coisa na minha casa por volta das seis
da tarde. Explico que a festa vai das seis às oito, e eles sempre acabam
ficando até as duas da manhã. As alunas mais corajosas, a partir
das dez da noite, se transformam em personagens muito interessantes e me falam
sobre o que realmente lhes interessa. No curso de Crítica Prática,
costuma haver cerca de vinte alunos, por vezes até vinte e cinco, de modo
que ao todo são quinze, dezesseis garotas e cinco ou seis rapazes, dos
quais dois ou três são heterossexuais. Às dez da noite, metade
desse grupo já foi embora. Normalmente, ficam um rapaz hétero, talvez
um rapaz gay e cerca de nove garotas. As que ficam são sempre as mais cultas,
mais inteligentes e animadas da turma. Elas falam sobre o que andam lendo, que
músicas têm ouvido, as últimas exposições que
foram ver - entusiasmos a respeito dos quais não costumam conversar com
pessoas mais velhas, e às vezes nem mesmo com as amigas. Elas se conhecem
na minha turma. E me conhecem também. No decorrer da festa, de repente
se dão conta de que sou um ser humano. Não sou o professor, não
sou a minha reputação, não sou o pai delas. Moro num apartamento
duplex agradável e bem-arrumado; elas vêem minha extensa biblioteca,
estantes com prateleiras dos dois lados, onde estão guardados os livros
que li ao longo de toda a minha vida, que ocupam quase todo o andar de baixo;
vêem o meu piano, vêem como sou dedicado ao meu trabalho, e vão
ficando. Houve
um ano em que minha aluna mais engraçada era como aquela cabra que vai
se esconder dentro do relógio, no conto de fadas. Expulsei os últimos
alunos às duas da manhã, e enquanto me despedia deles dei pela falta
de uma das garotas. Perguntei: "Cadê a palhaça da turma, a filha
de Próspero?". "Ah, acho que a Miranda já foi", alguém
respondeu. Voltei para dentro do apartamento e comecei a arrumar a sala quando
ouvi uma porta se fechando no andar de cima. A porta do banheiro. E Miranda desceu
a escada, rindo, radiante, numa felicidade besta - eu nunca havia reparado, até
aquele momento, que ela era tão bonita -, e disse: "Eu fui muito esperta,
não fui? Me escondi no banheiro do segundo andar, e agora vou dormir com
você". Uma
coisinha de nada, menos de um metro e sessenta, e foi tirando o suéter,
me mostrando os peitos, revelando o torso adolescente de uma virgem de Balthus
transgredindo pela primeira vez, e é claro que acabamos na cama. Como uma
menina que fugisse do melodrama ameaçador de um quadro de Balthus para
participar da festa da turma, Miranda havia passado a noite andando de gatinhas
no chão, com o traseiro para cima, ou esparramada no sofá, indefesa,
ou então encarapitada no braço de uma bergère, aparentemente
sem perceber que, com a saia subindo as coxas e as pernas abertas de modo nada
decoroso, estava com aquele exato ar de uma personagem de Balthus, parecendo estar
seminua embora estivesse vestida. Tudo está escondido e nada está
oculto. Muitas daquelas meninas já tinham vida sexual desde os catorze
anos, e ao chegar aos vinte sempre há uma ou duas que, movidas pela curiosidade,
resolvem transar com um homem da minha idade, mesmo que seja só uma vez,
doidas para no dia seguinte contar tudo às amigas, que vão franzir
a testa e perguntar: "Mas e a pele dele? Ele não tinha um cheiro esquisito?
E aquele cabelo branco comprido? E aquela papada? E a barriga dele? Você
não ficou com nojo?". Miranda
me disse depois: "Você já deve ter transado com centenas de
mulheres. Eu queria saber como era". "E como foi?" Então
ela disse coisas em que não acreditei de todo, mas não tinha importância.
Ela fora audaz - havia se dado conta de que era capaz de fazer aquilo, por mais
decidida e apavorada que se sentisse escondida no banheiro. Ela descobrira o quanto
era corajosa ao se ver diante daquela justaposição insólita,
descobrira que era capaz de vencer seus medos iniciais, bem como qualquer sentimento
de repulsa que tivesse experimentado de início, e eu - com relação
à tal justaposição - simplesmente me esbaldei. Miranda, aquela
menina que se esparramava, que aprontava palhaçadas, fazendo pose, a roupa
de baixo espalhada pelo chão. Só o prazer de olhar já bastava.
Se bem que ela me deu muito mais do que isso. As décadas que se passaram
desde os anos 60 complementaram muito bem a revolução sexual. As
meninas dessa geração são sensacionais em matéria
de felação. Nunca houve nada semelhante a essas garotas, na classe
social delas. |