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Fúria,
de Salman Rushdie (tradução de José Rubens
Siqueira; Companhia das Letras; 304 páginas; 38 reais)
Os anos que Salman Rushdie passou como alvo de uma fatwa (condenação
à morte) dos fundamentalistas religiosos iranianos fizeram
dele uma personalidade política e levaram muita gente a esquecer
quão inventivo e ousado ele pode ser como escritor. Esse
romance é prova renovada de seu talento.O protagonista é
Malik Solanka, que, como o próprio Rushdie, nasceu na Índia,
emigrou para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos. Ex-professor
universitário, ele ganhou fama e dinheiro ao criar bonecos
animados que se tornam um hit na televisão. Certo dia, no
entanto, ele se pilha segurando uma faca sobre os corpos adormecidos
de sua mulher e de seu filho. Temendo cometer uma insanidade, Solanka
foge para Nova York, onde procura domar a fúria que ameaça
tomar conta dele e, na verdade, do mundo que fervilha ao seu redor.
Leia
trechos do livro
O professor
Malik Solanka, historiador de idéias aposentado, irascível
criador de bonecos, e desde o seu recente aniversário de
cinqüenta e cinco anos, celibatário e sozinho por (mui
criticada) vontade própria, em seus anos prateados se viu
vivendo uma idade dourada. Lá fora, um verão longo,
úmido, a primeira estação quente do terceiro
milênio, torrava e transpirava. A cidade fervia de dinheiro.
O valor dos aluguéis e das propriedades nunca havia sido
tão alto, e na indústria de roupas o que se dizia
era que a moda nunca estivera tão na moda. Novos restaurantes
abriam de hora em hora. Lojas, representantes exclusivos, galerias
batalhavam para satisfazer a estonteante demanda por produtos cada
vez mais recherchés: azeites de oliva de produção
limitada, saca-rolhas de trezentos dólares, veículos
Humvees personalizados, o último software antivírus,
serviços de acompanhantes que ofereciam contorcionistas
e gêmeas, instalações de vídeo, arte
marginal, xales leves como pluma feitos com a pelugem do queixo
de cabritos montanheses extintos. Tanta gente estava reformando
seus apartamentos que os preços dos estoques de acessórios
e complementos de alta classe dispararam. Havia listas de espera
para banheiras, maçanetas, madeiras de lei importadas, lareiras
em estilo antigo, bidês, mármores. Apesar da recente
queda no valor do índice Nasdaq e das ações
da Amazon, a nova tecnologia dominava a cidade: ainda se falava
de start-ups, de IPO, de interatividade, do futuro inimaginável
que acabara de começar. 0 futuro era um cassino, todo mundo
estava apostando, e todo mundo esperava ganhar.
Na
rua do professor Solanka, jovens brancos ricos passeavam suas roupas
baggy por baixo das rosáceas dos pórticos, estilosamente
simulando indigência enquanto esperavam os bilhões
que sem dúvida lhes viriam em algum momento próximo.
Havia uma jovem alta, de olhos verdes, de malares centro-europeus
pronunciados que chamou particularmente a atenção
de seu olho sexualmente abstinente, mas ainda ativo. Seu cabelo
loiro-ruivo saía espetado como o de um palhaço de
debaixo do boné preto de beisebol D'Angelo Voodoo, os
lábios eram cheios e sardônicos, ela riu grosseiramente
por trás de uma mão displicente quando o europeu,
quase dândi, pequeno Solly Solanka passou girando a bengala,
de chapéu panamá e terno de linho cor-de-creme em
seu passeio da tarde. Solly: o apelido de faculdade que ele nunca
apreciara, mas que não havia conseguido perder inteiramente.
"O
senhor aí. O senhor, com licença." A loira chamava
por ele, num tom imperioso que exigia resposta. Seus acompanhantes
puseram-se em alerta, como uma guarda pretoriana. Ela estava quebrando
uma regra da vida na cidade grande, audaciosamente, segura de sua
força, confiante de seu território e de seu bando,
sem nada temer. Aquilo era só bravata de menina bonita, uma
bobagem. O professor Solanka parou e virou o rosto para a deusa
ociosa do portal, que continuou, irritantemente, a entrevistá-lo.
"0 senhor anda muito. Quer dizer, cinco, seis vezes por dia
eu vejo o senhor indo para algum lugar. Sentada aqui, vejo que o
senhor vai, vem, sem cachorro, e nunca volta com alguma amiga, com
alguma compra. O horário também é estranho,
trabalhar é que o senhor não está indo. Então,
pensei assim: por que ele está sempre andando sozinho? Tem
um cara na cidade batendo com um bloco de concreto na cabeça
das mulheres, o senhor quem sabe já ouviu falar, mas se eu
achasse que o senhor era um maluco desses, não vinha conversar.
E o senhor tem sotaque inglês, o que é interessante
também, certo? A gente até seguiu o senhor umas vezes,
mas o senhor não estava indo para lugar nenhum, só
andando por aí, passeando. Me deu a impressão
de que estava procurando alguma coisa, e aí pensei em perguntar
o quê. Só para fazer amizade, boa vizinhança.
0 senhor é meio misterioso. Para mim, pelo menos.
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