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Minoridade Crítica: a Ópera e o Teatro nos Folhetins da Corte, de Luís Antônio Giron (Ediouro; 416 páginas; 49 reais) – Fruto de uma dissertação de mestrado, o livro do jornalista Luís Antônio Giron debruça-se sobre as origens da crítica cultural no Brasil. Numa pesquisa minuciosa, Giron vasculhou jornais do tempo do Império em busca de textos a respeito de óperas e recitais de música clássica apresentados entre 1826 e 1861. Descobriu textos pouco conhecidos de escritores do calibre de José de Alencar e Machado de Assis, que analisa com verve e rigor, em busca de quais seriam seus pressupostos teóricos.

Leia trecho do livro

Um capítulo esquecido

Muito do que foi escrito sobre música no início da história do Brasil independente não consta de tratados ou mesmo de publicações especializadas. Está mesmo na letra efêmera dos jornais. Os periódicos de interesse geral constituem um universo fértil para a pesquisa sobre a vida musical. E esta não compreende apenas partituras, tratados, documentos manuscritos, mas também tudo o que se refere à recepção do espetáculo. Aqui se enquadram crítica, crônica, resenha, ensaio - todos os gêneros, enfim, que eram publicados nos folhetins de teatro dos jornais. Tais elementos encontram um escoadouro na chamada crônica teatral. É neste universo que a vida musical do Brasil dos anos 20 aos 60 do século XIX se afigura retratada e perpetuada. O material compreende o cotidiano no flagrante, na vertigem de vaidades que animava a vida artística da capital do Império, com seus teatros, companhias de ópera, orquestras, virtuoses e compositores e um público fascinado com as modas que eram trazidas por navio diretamente de Paris. O objetivo deste ensaio é acrescentar um capítulo ignorado dos primórdios da história musical brasileira: o da crítica. O menosprezo à produção artística da época é grande, e ainda maior em relação àqueles que atuaram como folhetinistas de espetáculos de suposta pródiga vaidade. Verificar em que consistia a atividade destes primeiros críticos, reunir e analisar os textos à luz dos movimentos estéticos da época, interpretar sua origem, linguagem e estrutura e examinar de que forma ela influenciou a formação da idéia de nacionalidade no Brasil são os fins deste estudo. Em anexo, figuram alguns textos canônicos da atividade, selecionados por meio de pesquisa em diversos arquivos de periódicos. As justificativas para tal empresa são muitas. A crítica musical foi posta de lado pelos historiadores das idéias e da literatura, notadamente porque ela parece ter pouco a contribuir na série literária e filosófica. A razão pode estar em que ela não interessa tanto à literatura como ao estudo da música. Na realidade, porém, o menosprezo é completo. Os precursores da crítica não são conhecidos, nem mesmo para efeito de rejeição. A palavra desses anônimos antecessores está oculta na urgência ultrapassada das crônicas teatrais. Tem-se definido o percurso da crítica das artes plásticas ainda no século XIX, nas obras de Gonzaga Duque (A Arte Brazileira, 1888), Manoel de Araújo Porto-Alegre (Memória sobre a Antiga Escola de Pintura Fluminense, 1841) e Félix Ferreira (Belas Artes: Estudos e Apreciações, 1885), mas nenhum trabalho que trace a genealogia da crítica musical. Consolidar a trajetória desse gênero de prática do conhecimento é um estágio necessário para ter clara a vida musical e os pensamentos em curso no nascedouro da cultura brasileira. O Primeiro Império (1822-1831), o período regencial (1831-1840) e as duas primeiras décadas do governo de Dom Pedro II (1841-1861) são os momentos que testemunham a efetiva emergência da crítica e a necessidade do raciocínio estético no Brasil, com a emergência das publicações literárias e musicais. Nesses três momentos, por exemplo, começam a ser organizadas as primeiras sociedades de concerto, como a Philarmonica (1835-1851). As repercussões do interregno liberal que foi a Regência (1831-1840) acontecem até meados dos anos 1860, com a fundação da Ópera Nacional (1857). Outro exemplo: em 1852, o Teatro Provisório é inaugurado com a ópera Macbeth, de Verdi. No âmbito dos estudos musicológicos sobre o Brasil sabe-se, por exemplo, a história que vai do compositor José Maurício (1767-1830), mestre-de-capela da corte, a seu discípulo, Francisco Manuel da Silva. Mas não há notícia do que se produziu em crítica de música e estética musical na mesma seqüência temporal. Com isso, o movimento da música é prejudicado no plano da recepção. Como, por exemplo, as músicas de Mozart e Rossini foram recebidas? E a de Verdi? Que repertório era tocado, e como era interpretado? De que maneira a ópera nacional teve repercussão? Qual era o comportamento do público nos concertos? São perguntas que, ao que tudo indica, apenas o estudo da crítica e da estética musical do período pode responder. A investigação realizou-se ao longo de quatro anos, durante os quais diversos arquivos e bibliotecas foram esquadrinhados à cata de um texto crítico ideal. A busca revelou-se à primeira vista decepcionante, já que não apareceram personalidades críticas fortes antes de Oscar Guanabarino, o fundador da crítica especializada no Brasil, cujos primeiros folhetins surgiram na década de 1870. Até então, a crítica era exercida pelos folhetinistas, escritores e/ou jornalistas que, em sua grande maioria, freqüentavam as páginas dos periódicos sem assinar os textos. Formavam a confraria dos cronistas teatrais, que se liam e se influenciavam mutuamente e julgavam a temporada musical do alto de suas funções de líderes de opinião e entertainers. Do exercício da crítica nos rodapés e páginas especializadas participaram, no início de suas carreiras, intelectuais de relevo como Gonçalves Dias, Luís Carlos Martins Pena, José de Alencar e Machado de Assis, para citar os mais conhecidos. Chefes de escolas estéticas, como Manuel de Araújo Porto-Alegre, um dos fundadores do Romantismo no Brasil, tomaram parte dos debates e animaram o folhetim. Mas raramente comparece na imprensa da época a crítica pura, voltada para a especulação gnoseológica em torno da arte. O que aparece é uma impressionante série de anônimos com opiniões as mais subjetivas e pessoais, muitas vezes tomados por interesses extramusicais. Ora são desafetos de um empresário, ora dândis com pendores estéticos e amorosos, ora cronistas mais subjugados pelos floreios da prima-dona que pelos aspectos musicais. Perseguimos a demonstração das seguintes hipóteses: - No século XIX, a crítica musical raramente foi exercida sistematicamente no Brasil. Partiu de manifestações fragmentárias e se ocupou mais das polêmicas do momento do que da especulação estética. É filha da digressão dos folhetins, rodapés dos jornais que se dedicavam à cobertura crítica dos eventos da cidade e a publicar narrativas seriadas. No entanto, o espólio de tal atividade sugere um rastro de sistema, que pode ser descrito. - O pensamento estético no Brasil surge na prática da crítica musical da pedagogia - dicionários e tratados - e da crônica. Há uma dupla necessidade: a da pedagogia e a da definição do gosto da sociedade e do público nascente. - Apesar de ter existido anteriormente uma vida musical incipiente, sobretudo nos centros mineradores, o circuito total da música - da produção ao consumo - concretiza-se no Brasil na década de 20 do século XIX. A crítica musical e o interesse pela música de concerto e a ópera coincidem com a luta pela independência e o nascimento do público e da liberdade de imprensa. Crítica musical é sinônimo de crônica teatral. - A vida musical do Brasil durante o Primeiro e Segundo Reinados pode ser descrita a partir dos textos analisados, ainda que por um ponto de vista viciado ou anômalo. - A crítica musical corresponde à chegada da música profana no país. Os primeiros críticos comentam espetáculos dos teatros líricos em atividade. A defasagem temporal entre a fonte - Europa - e a ainda colônia cultural se verifica tanto na prática musical como no exercício da crítica, da estética e da crônica. - O Folhetim teve influência do pensamento romântico e da crítica portuguesa, alemã e francesa praticadas na mesma época. Apesar de se pautar pelo diletantismo, a crônica vem acrescentar elementos iluminadores da vida musical, via narrativa das atitudes do público e dos músicos. - O papel da crítica, mesmo a diletante, é fazer a mediação entre, de um lado, uma doutrina e uma concepção estética, e, de outro, um espetáculo.

A partir da demonstração de tais hipóteses, como traçar um panorama da crítica na primeira metade do século XIX se ela quase que só prestou atenção em partidos de prima-donas? Ela, tal como o objeto de suas preocupações, atuou por coloraturas circunstanciais; enfeitou argumentos para abandoná-los no instante da sua exibição. Obra de diletantes e literatos, não se arvora em saber disciplinado; segue a programação, espia a vida das divas, chega a intuir esse ou aquele traço estético musical. Em um termo, é frívola. O que permanece de tal atividade? Talvez nada muito além do fenômeno do diletantismo, que tomou de assalto o mundo das artes no século XVIII na Europa com o surgimento dos jornais e da possibilidade de manifestação de opiniões publicadas. No Brasil, os folhetinistas pululavam no entusiasmo da liberdade (vigiada) de imprensa e a possibilidade de freqüentar os espetáculos gratuitamente nos camarotes, ao lado do imperador, do fidalgo, do juiz censor e das damas da Corte. Faziam parte da mundanidade que se instalava na antiga colônia. Os folhetinistas descreviam os hábitos, retratavam os comportamentos, julgavam e analisavam os espetáculos. Deixaram testemunhos da prática musical de uma época em que o público e todo o processo de comunicação da arte começavam a dar sinal de atividade. Aparentemente frustrante, o esforço de frivolidade contido nos textos “borboleteantes” dos folhetins compõe o fragmento vivo de um tempo. O teatro das emoções volta a ser encenado no texto crítico da crônica teatral. Nesse sentido, o pensamento sobre a música, mesmo o mais ligeiro e inconseqüente expresso num artigo casual, colabora para o esclarecimento da prática das artes de um determinado período. A razão crítica integra o processo de comunicação artística, está na ponta privilegiada da recepção. A crônica é um exercício paralelo, mas igualmente importante para a história. Circunscrever um corpo de textos representativos é essencial para o entendimento daquele momento cultural e também para compreender que a crítica no Brasil, apesar de aparentemente órfã, tem sua genealogia e vínculos com o saber musical. Existe uma necessidade diária de definir o papel da crítica de jornal, sobretudo contemporaneamente, quando ela amarga uma grande depressão e se deixa engolfar pelo mercado, sem refletir sobre o fenômeno que ela própria aborda. Hoje e na época, crítica é sinônimo de diletantismo. Por que é e por que foi ainda são perguntas que soam enigmáticas. Diletante ou pretensiosa, esforçada ou frívola, a crítica dramatiza em texto a catarse de uma noite passada em enlevo ou abominação estéticos na ópera, no concerto e no palco. O teatro das emoções volta a ser encenado no texto crítico, na crônica teatral publicada nos jornais. Ela foi um veículo indireto para o pensamento estético musical no início da vida cultural brasileira e, sobretudo, testemunho, pedaço dessa vida. Provavelmente seu papel foi tão importante quanto o dos textos pedagógicos, que circulavam impublicados em grupos restritos de professores e estudantes de música. A crônica teatral (dividida entre ópera e teatro declamado, sobretudo o “sério”) constituía um instrumento da informação e da opinião públicas.

É preciso descobrir que tarefa ela exerceu de fato na passagem do pensamento árcade para o romântico. No início do Romantismo, havia um desejo de ideal da crítica e das artes. Aquela deveria ser um prolongamento desta e até estar contida exclusivamente na obra de arte.1 Toda crítica fora da arte deveria ser considerada bastarda, “sem direito à cidadania no reino da arte”, conforme afirma Friedrich Schlegel. De um lado, pontificava a obra de arte e sua auto-explicação total; de outro, os diletantes, cidadãos “ilegais” em turismo pelo mundo das artes. Assim, não é de todo inconveniente afirmar que uma teoria do diletantismo pode ser inferida dos textos de crônica teatral. Em vez de nos debruçarmos sobre uma fortuna, vamos nos ocupar da miséria crítica da vida musical brasileira. A Minoridade Crítica aqui possui um sentido quase técnico. Corresponde ela mais ou menos à Maioridade de Dom Pedro II (1840), antecipação forçada da situação civil do imperador levada a efeito pelos conservadores da monarquia, que temiam um golpe liberal. Pois enquanto o imperador enfrentava a maioridade abreviada, a crítica, na figura do folhetim teatral, via sua minoridade protelada ao infinito. Se o governante da nação precisa se apressar para cumprir seu dever, os folhetinistas se dão ao luxo da juventude eterna - e, com ela, a frivolidade da crítica menor, assumida como tal. Dividimos o estudo em nove capítulos, inclusive este e o dedicado às conclusões. No segundo, retratamos a origem da estética musical e da crítica musical jornalística na Europa, apontando suas principais tendências até o período pertinente à pesquisa. O terceiro deseja imaginar como foram as noites musicais do Brasil Colonial antes do aparecimento da imprensa: debates, diatribes e momentos de deleite estético. O quarto conta a origem da crítica musical nos primeiros jornais do Brasil Independente. O quinto compreende o período regencial, a interrupção da temporada lírica do Teatro de São Pedro e o aparecimento, em Paris, da revista Nitheroy, cujos editores foram os primeiros pensadores de uma estética nativista relativa também à música. No três capítulos seguintes, descrevemos a atividade dos primeiros folhetinistas teatrais: Martins Pena, Gonçalves Dias, José de Alencar e Machado de Assis, entre outros. Ali analisamos seus textos e detectamos mudanças na postura estética e no estilo dos textos. A conclusão busca refletir sobre a utilidade dessa atividade de três décadas. Em apêndice, apresentamos uma cronologia de acontecimentos pertinentes e reunimos as críticas que julgamos mais importantes realizadas no decorrer do período analisado.
Banido pelo nacionalismo
O Império, sobretudo em sua fase inicial, costuma ser desdenhado pela musicologia histórica, pois, supostamente, não surgiram obras de relevo no âmbito musical e, de acordo com grande parte da historiografia sobre música brasileira, a voga do canto lírico italiano e dos recitais virtuosísticos representou uma espécie de idade de muito ruído e pouca importância para a cultura musical do país. A abundância documental do período em questão, no entanto, demonstra uma situação inversa. Os historiadores musicais tenderam, no passado, a deixar de lado uma época de grande efervescência artística e crítica, apegados que eram ao sistema de prioridades nacionalistas, que privilegiava mestres locais em detrimento de compositores italianos ou portugueses de maior relevo. Para a afirmação da nacionalidade, afigurava-se lícito e necessário descartar um momento em que o cenário internacional era preponderante. A abundância documental do período em questão demonstra que uma situação inversa dominava a corte. Com isso, foi refugada uma época de afirmação da cultura musical brasileira, pela assimilação dos modelos internacionais. O Império corresponde à lenta geração do projeto nacionalista pelos intelectuais da primeira geração romântica; à fundação de instituições, como o Conservatório Nacional de Música, as sociedades filarmônicas e as companhias de ópera italiana e francesa, e sobretudo da Ópera Nacional, abrigadas nos teatros da Corte. O período é marcado por conturbações políticas, sociais e culturais, dando vazão ao surgimento da imprensa livre e da crítica, expressa nos folhetins teatrais dos jornais e revistas do Rio de Janeiro. Surge um público consumidor de cultura, cuja diversão principal estava em freqüentar os teatros, ouvir concertos e assistir a óperas. E como o programa de tais espetáculos se compunha basicamente de peças recém-chegadas da Itália e da França, houve por bem relegar essa atividade ao segundo plano, por se tratar de um capítulo secundário da produção musical européia na passagem do Classicismo ao Romantismo e uma passagem nada meritória para a construção dos heróis artísticos nacionais. A posição de Mário de Andrade é exemplar. Segundo o escritor e crítico paulistano, a manifestação musical erudita do Império se restringiu ao melodrama. É o que ele define como época do internacionalismo musical. “O país que se dava o luxo de distrair verbas graves para sustento e herança duma casa imperial, se dava também o luxo de sustentar a mais rica e brilhante estação de ópera da América de então.”2 Descreve o período como a “segunda fase histórica da nossa música, e resultado da sua evolução técnica”, a “nossa Ars Nova”. Lamenta que a “polifonia colonial” tenha sido substituída pelo exibicionista dos sopranistas importados, que cantavam árias de ópera até durante o ofício divino. A conseqüência, de acordo com ele, foi a importação de cantores de teatro, já que “o Brasil não parece propício à criação de vozes belas e não tinha escolas, não havendo cantor”. Fixaram-se orquestras e elencos para alimentar o melodrama. “A ópera, de que o principal era importado, cantor como peças e instrumentistas, sincronizava sorrindo com a figura preguiçosamente ditatorial do Imperador, e com a fórmula política do Império, espúria e solitária em nossa América. O nosso teatro melodramático, que, como teatro, podia se tornar eficiente, e, a manifestação mais pragmatista de arte que há, não passava de excrescência imperial e ricaça. Não tinha base nenhuma em nosso teatro cantado popular, então no seu período mais brilhante com os reisados, os pastoris, os congos, as cheganças. Antes, era importado e solitário como o próprio Imperador.”3 Luiz Heitor, em seu compêndio de história, igualmente postula a decadência da atividade musical da época que ele define como a de Francisco Manuel da Silva, aluno de José Maurício e autor da música do Hino Nacional Brasileiro.4 A Capela Real se dispersava, os grandes compositores coloniais morriam, a produção escasseava. Sobrevivia ao colapso somente a ópera de Rossini, que pontificava no Teatro de São Pedro de Alcântara e conquistava o público. A predileção por “melodias sensuais” e vivazes, segundo ele, se insinuava nas cerimônias religiosas por influência do italianizado compositor português Marcos Portugal. É a “degradação da música sacra”, na expressão do historiador. Cavatinas e árias eram cantadas na igreja. “Pedro Teixeira, que era regente de ópera no Teatro de São Pedro de Alcântara, especializara-se em contratar essas festas, nas quais fazia executar a missa do Barbiere di Siviglia, a missa da Gazza Ladra ou a missa da Cenerentola. E conta Araújo Porto-Alegre que a mocidade liberal da época achava tais novidades muito ao sabor de seus ideais progressistas, confundindo-as com o laicismo das reformas que apregoava....”5

Manuel de Araújo Porto-Alegre foi o primeiro teórico do nacionalismo e um dos responsáveis pela elaboração do mito de José Maurício como emblema nativista. Ele se encarregou de moldar a máscara mortuária do músico - de fato, como artista, e de direito, na pele de teórico do Romantismo - e, já em 1836, fazia publicar na revista Nitheroy o ensaio “Idéias sobre a Música”, a ser examinada adiante, em que apresentava José Maurício como um vulto da música nacional.6 Mais tarde, em depoimento a Taunay, fez a autocrítica de sua geração no afã de pintar o retrato do gênio autóctone.7 A evasão artística e intelectual da época é regida pela “estética do dramalhão”, nas palavras de Wilson Martins.8 O romance de folhetim - estampado, a partir dos anos 1840, no mesmo espaço em que figuram as crônicas teatrais - prolifera e molda o gosto. E o fenômeno da paixão pelo melodrama se dá mesmo antes da eclosão do movimento romântico. A crítica surge, passional e combativa, já nas páginas dos jornais liberais e revolucionários dos anos 1820, que apregoavam o fim do celibato clerical e a instauração da monarquia constitucional. É o momento descrito por Martins como de “metamorfismo imenso” das idéias, que se estende de 1817 a 1831.9 Francisco Curt Lange afirma que o século XIX não foi suficientemente estudado pelos pesquisadores de música no Brasil.10 Em comparação ao período colonial, segundo o musicólogo alemão, a vida cultural experimentou uma súbita mudança no Primeiro Reinado. Com o fim do domínio português, a cultura francesa começou a dominar, os tecidos ingleses foram importados, além das danças de salão e da música. Decai a música eclesiástica para o predomínio da música profana. Chegam novos instrumentos, cantores, instrumentistas e companhias líricas, criam-se corporações. Durante o instável reinado de Dom Pedro I, a população passou a tomar contato com o que se passava na Europa. “O povo brasileiro tomava conta das correntes espirituais da época, já impostas na Europa fazia várias décadas e difundidas no Brasil apenas em círculos intelectuais minoritários”, escreve. “A ausência de imprensa e, portanto, também duma imprensa que se ocupasse dos acontecimentos musicais, a falta de universidades e de outros meios de ensino superior, veio a ser substituída subitamente por uma maior facilidade nas informações, o que repercutiu numa maior ilustração, mais ampla, dos filhos do país.”11 A seguir, ensina Lange, a cena lírica dos primeiros 25 anos do Segundo Império simbolizou o processo da música no século XIX, com o advento do virtuose como profissional autônomo, o surgimento da literatura e da crítica musical, “a íntima participação de poetas, literatos, pintores e escultores nos concertos públicos”.12 O Brasil estava a par dos acontecimentos artísticos internacionais. Paralelamente, dava espaço para a manifestação do lundu, que convivia com as apresentações de ópera.

A pesquisa musical deixou-se fascinar por outros aspectos. Embora tenha contribuído para a dissipação de preconceitos e, com lentidão, se despido de alguns preconceitos trazidos pelo nacionalismo, a musicologia brasileira das décadas de 40 a 80 do século XX saiu à busca de fontes manuscritas e o levantamento de obras de compositores locais antes dadas por perdidas ou desconhecidas. São notáveis as pesquisas do citado Francisco Curt Lange em relação à música mineira do século XVIII.13 Elas se desenrolaram por cinco décadas e estabeleceram um padrão “arqueológico” para a pesquisa musical, que ainda tem seus representantes. A investigação resultou na descoberta de um patrimônio musical que eternizou em arte a exploração do ouro de Minas. Lange dissecou o funcionamento das irmandades de músicos mestiços e recuperou peças de compositores como José Emerico Lobo de Mesquita. Isso não impediu que ele se debruçasse também, embora de forma eventual, sobre a música do Império. Em entrevista de 1994, o musicólogo se dizia interessado em explorar esse período, mesmo porque considerava a produção mineira do Império um prolongamento natural da época colonial, com óperas pastorais e peças instrumentais “anacrônicas” se comparadas à prática européia.14 Igualmente fundamentais para o entendimento da estética da música colonial são as pesquisas de José Augusto Alegria, Régis Duprat e Cleofe Person de Mattos. Alegria descortinou as aspirações especulativas do padre Caetano de Melo de Jesus, que, em seu Discurso Apologético, redigido em Salvador, discutia o sistema cromático, dialogando com sábios da época.15 Fica evidenciado que, em 1734, havia agitados debates filosóficos e teóricos na Colônia. Duprat descobriu e recuperou a partitura de Recitativo e Ária (1759), cantata acadêmica para voz e baixo-contínuo, peça de autor anônimo baiano, presumivelmente escrita pelo citado Caetano de Melo de Jesus. É uma das eças musicais brasileiras mais antigas de que se tem notícia.16 Estudou também a tradição musical de Mogi das Cruzes, cujas obras remontam aos anos 30 do Setecentos.17 Ao longo de 30 anos, encarregou-se de organizar o catálogo da obra de André da Silva Gomes, mestre-de-capela da Sé de São Paulo.18 Além da organização e análise de partituras, trabalhou na edição de A Arte Explicada de Contraponto.19 Atribuído a André da Silva Gomes, escrito provavelmente em 1797, o tratado traz elementos que permitem compreender a mentalidade estética do compositor colonial, mais voltado à solução de problemas formais práticos do que com a especulação. A recuperação e organização do catálogo da obra de José Maurício Nunes Garcia constituiu o trabalho da vida de Cleofe Person de Mattos. Este culminou com a publicação da biografia do compositor, que contém uma extensa pesquisa de periódicos, especificamente pertinentes para este trabalho.20 Outro verificou-se na edição crítica do Método de Pianoforte, de José Maurício, por Marcelo Fagerlande.21 Há, em todo esse esforço de levantamento de fontes, poucas pistas sobre uma atividade crítica - ofício quase impossível com a ausência de imprensa. Em geral, as pesquisas sobre fontes primárias e publicações musicais do Império se debruçam sobre a imprensa musical (partituras) e sua repercussão na vida da cidade. São os casos dos trabalhos de Mercedes Reis Pequeno22 e Cristina Magaldi.23 Seus trabalhos colaboram para fornecer uma visão ampla do período no sentido específico da produção musical impressa. Descortinam-se séries de partituras que integravam a prática amadorística e profissional do Império. Ambas as pesquisas compõem o alicerce deste texto. É preciso cimentar às bases da presente investigação um terceiro termo: o livro Francisco Manuel da Silva e seu tempo, de Ayres de Andrade.24 Trata-se de uma restrospectiva das temporadas de ópera e concerto de 1808 a 1865, tão bem documentada que preencheu algumas lacunas da presente pesquisa, ainda que seja peça de um diletante da ópera sobre diletantismo na ópera. Conquanto exaustiva, trata-se de uma extensão do diletantismo no plano do ensaio. Foi preciso extrair das listas de Ayres de Andrade os elementos que interessavam à reconstituição do percurso da crítica musical. Há grande quantidade de observações que na opinião do autor são laterais, mas que redundaram em material de primeira água para efeito da investigação, como a constatação de que a crítica musical começou a ganhar importância no ano de 1827, com a emergência dos partidos teatrais. Uma quarta obra que inspirou e forneceu material para este estudo foi a coletânea de crônicas teatrais de Stendhal.25 Em seus textos, quase contemporâneos às dos primeiros folhetinistas brasileiros, o escritor francês, ainda na juventude, mostrava a importância de Rossini na era napoleônica e a moda dos partidos de prima-donas.

Por seu turno, os estudos sobre imprensa brasileira costumam desconsiderar o aspecto da crítica, até porque seu universo é amplo.26 Os trabalhos sobre folhetim se apegam mais à questão da literariedade do que o exercício da crônica teatral.27 O tema é a um só tempo fecundo e perigoso, pois toca em diversas áreas e estudos afins, como história da imprensa, musicologia e teoria literária. Procuramos manter uma saudável distância de todos os métodos correlatos. É preciso considerar todos eles, mas, ao mesmo tempo, demarcar um terreno distinto. Folhetim, neste ensaio, é apenas o lado não-ficcional. A história da imprensa é examinada sob o ponto de vista da crítica. E a produção musical comparece na medida em que integra o universo criticado.
Crítica, estética, cânone
Não observamos nenhuma metodologia específica. Teoria e metodologia foram empiricamente construídas a partir das fontes levantadas, talvez a postura mais adequada para a evolução dos raciocínios ao longo dos capítulos. termos definidos por meio de obras de musicólogos como Enrico Fubini.28 O conceito de cânone do pensador Harold Bloom foi igualmente basilar. Bloom utiliza-o para a série literária, especialmente poética.29 A aplicação do conceito mostrou-se funcional, além do que seu uso em história literária já possui uma tradição no Brasil. É o caso do sociólogo literário Antonio Candido, que elabora conceito de “cânon literário” para estabelecer os principais representantes do Romantismo brasileiro.30 A explicação sobre as razões do surgimento da crítica - e da vida musical e artística mais intensa no Brasil - emerge do exame da matéria textual disponível nos jornais. No trabalho de comparação e crítica às fontes, surge a hermenêutica como instrumento principal de reflexão. A análise do momento cultural aqui abordado pode receber auxílio, embora limitado, do trabalho do musicólogo alemão Carl Dahlhaus, no ensaio Musikästhetik (Estética da Música)31 (1967). Afirma ele que os compositores pré-românticos e românticos eram fascinados pelo problema do julgamento estético e a base filosófica que o sustentava, enquanto os contemporâneos se detiveram em questões técnicas. Cita o exemplo do compositor alemão Robert Schumann, que em sua análise sobre a Sinfonia Fantástica, de Héctor Berlioz, considerou a análise formal que fez da obra uma violação do seu espírito. “Hoje, em contraste com os dias de Schumann, a estética é associada à suspeita de ser mera especulação, remota em relação aos fatos, julgando a música de fora, dogmaticamente ou de acordo com um vago padrão de gosto, em vez de prestar atenção ao movimento peculiar de cada obra, à ‘vida impulsiva dos sons’, como Schoenberg definiu uma vez.”32 Assim, argumenta Dahlhaus, a estética teve uma vida breve, vindo a desaparecer no início dos Novecentos. Segundo ele, a estética como foi formulada por Alexander Baumgarten (1714-1762) em 1750, na obra que funda o conceito, Aesthetica, não pode ser atribuída à Antigüidade ou à Idade Média. Sua razão de ser tem sido abalada de geração a geração, e seus traços híbridos a colocam ao lado da filosofia da arte e da teoria da percepção. “Para fazer justiça ao fenômeno é preciso reconhecer que não é tanto uma disciplina com um objeto firme de pesquisa, mas, sim, uma quintessência vaporosa de problemas e pontos de vista que ninguém antes do século XVIII poderia ter imaginado como tendo um nome complexo.”33 Ainda assim, pensa o musicólogo, conquanto confusa e profusa em acidentes históricos, a estética se torna mais atraente aos historiadores. E emenda: “O sistema da estética é a sua história: uma história em que se interpenetram idéias e experiências de origens heterogêneas”.

Baumgarten, na definição de estética, não parece corroborar o estatuto irracional da disciplina que funda. Não a considera arte especulativa, e sim uma ciência menor. “A Estética (como teoria das artes liberais, como gnoseologia inferior, como arte de pensar de modo belo, como arte do análogon da razão) é a ciência do conhecimento sensitivo.”34 No parágrafo 10, ele responde à objeção de que a estética é uma arte e não uma ciência nos seguintes termos: “A arte e a ciência não são maneiras de ser opostas. Quantas artes, que outrora eram apenas artes, agora são também ciências? A experiência provará que nossa arte pode ser demonstrada. É evidente a priori que a nossa arte merece ser elevada à categoria de ciência porque a psicologia e outras ciências fornecem certos princípios e porque as aplicações, mencionadas nos parágrafos 3, 4 e outros, o demonstram”.35 Mais adiante, Baumgarten divide a estética, cuja irmã mais velha, para ele, é a Lógica, em quatro espécies: estética teórica, metodológica, semiótica e prática.36 No sentido moderno, a estética de Baumgarten é menos ciência do que um ramo especulativo da filosofia da arte. Basta ler o que o fundador da estética afirma como sendo a sua meta final: “O fim visado pela Estética é a perfeição do conhecimento sensitivo como tal (...) Esta perfeição, todavia, é a beleza (...) A imperfeição do conhecimento sensitivo, contudo, é o disforme, e, como tal, deve ser evitada”.37 Ele sugere que o esteta deve lidar com o gosto e se ocupar menos da precisão do que do livre exercício do julgamento. A confusão é culpa da estética e começa em sua fundação. Dahlhaus ensaia limpar o terreno ao dizer que ela representa o espírito burguês dos amantes da música, “um espírito que surge no século XVIII e é destruído no XX. Pensar e falar sobre música foi considerado como pertencente à matéria tanto quanto praticar música. A audição adequada de mísica (sic) tem supostamente poucos pré-requisitos filosóficos e literários; essas máximas úsica é essencialmente um fenômeno do século XIX”.

Apesar de consistir em uma disciplina datada e com período de validade curto, a estética se manteve por longo tempo no trabalho da crítica. Por um momento muito efêmero, foi possível unir a pedagogia, o artesanato musical e a especulação. Claro que se trata de simplificação. Dahlhaus quer identificar crítica à estética, ao passo que uma e outra podem ser autônomas, e continuam presentes hoje, seja como gnoseologia (no caso da estética), seja como atividade crítica propriamente dita, em ensaios, resenhas e artigos de jornal. O crítico é, tanto no Romantismo como nos dias atuais, um sujeito ativo no processo da comunicação musical. De certa forma, ele “executa” a música à qual assistiu, para utilizar uma expressão cara ao teórico italiano Luigi Pareyson.38 Segundo ele, a leitura é dotada de “elemento ativo e operativo, próprio da execução, embora incapaz de se exteriorizar publicamente”. Ler não é um abandonar-se à obra, mas, “assenhorear-se da própria obra tornando-a presente e viva, ou seja, fazendo-lhe o efeito operativo”. Assim, a obra de arte depende de quem a execute. “Sua reconhecibilidade é a sua própria executabilidade”, afirma o pensador.39 O crítico, também ele, é um leitor da obra de arte - e esta contém a lei do processo que a produz e do processo que a interpreta, na concepção pareysoniana. O efeito de uma obra de arte se confunde-se com sua existência. Pareyson postula para a obra de arte o caráter de forma e o processo que a rege, a formatividade. Neste, incluem-se os receptores como artistas e filósofos da interpretação. A obra artística contém uma lei para quem a faz e quem a lê: “é lei da própria execução, pois, enquanto formante, é guia do artista que a inventa executando-a e do leitor que a executa interpretando-a”. A lei da execução é a própria obra a executar: ela, como foi lei do artista enquanto a formava, assim também é lei do executante enquanto a traduz e lhe dá vida. “Como foi resultado de um processo de formação, da mesma forma é estímulo de um processo de interpretação; e assim como se tornou o resultado de sua formação somente enquanto era a sua lei, assim também no final de contas se identifica com a execução que a assumiu como a própria norma.”

O leitor é artista e juiz ao mesmo tempo. Ele precisa ter o “algo artístico” e, simultaneamente, participar da formação da obra. “Daí a grande dignidade, mas também grave responsabilidade, do leitor e do intérprete, seja ele executante ou crítico: ele tem o privilégio, mas igualmente a obrigação de ter, como lei do próprio trabalho, a mesma lei que teve o artista no seu. O leitor deve ser também um pouco artista, não certamente no sentido de lhe ser permitido reelaborar ou refazer a obra, ou de extrair dela insights para invenções suas pessoais, livres e devaneantes: a execução (...) não deve sair da obra nem pretender mudá-la ou prolongá-la, porque lhe cabe, precisamente, a função de reconhecê-la e interpretá-la. Mas justamente para fazê-lo deve inserir-se no processo vivo de sua formação, e por assim destacar o ‘feito’ do ‘fazer’, não só para reconhecer que assim era ‘feito’ mas também para saber como deve, ainda, ser ‘executado’. De sorte que o ‘leitor’ vai penetrar no laboratório secreto do próprio artista.” No processo, entra o gosto como um instrumento de aprofundamento na obra, e não “critério de juízo”. O leitor e o crítico não podem renunciar ao gosto pessoal na execução e no juízo que fazem sobre a obra. “Todo gosto costuma configurar-se em um determinado ‘ideal’ artístico, e até mesmo em uma determinada ‘poética’, como atesta a normal existência da arte, tanto na atividade do leitor quanto na do próprio artista. Um gosto pessoal tem no fundo natureza normativa, pois tende a manifestar-se em opções e preferências e a criar determinada expectativa e pretensão: em conformidade com essa natureza, ele projeta com a imaginação um ‘ideal’ artístico, que não é propriamente um conceito, uma definição especulativa, mas antes uma ‘idéia’ daquilo que a arte deveria ser ou se gostaria que fosse.” Pareyson acha que o gosto pode engendrar uma determinada “poética” normativa com o fim de propor um programa artístico, “que nos artistas se concretiza em manifestos, e nos leitores determina precisamente as opções”.40 O leitor (o crítico) deve fugir, na visão pareysoniana, de produzir teorias que nada mais são que fantasia que esconde um ideal artístico e uma poética contidos num gosto pessoal. O gosto penetra na arte sem se tornar o seu critério. Mas, mesmo em casos de particularização de conceitos, o leitor é capaz de chegar ao cerne das leis de uma obra de arte pelos desvios do gosto artístico do crítico. A crítica, ou leitura, é, portanto, um dado essencial para a vida de uma obra de arte. Em música, a execução se torna ainda mais fundamental, pois a música, arte não-verbal, precisa reencarnar no texto para prolongar seus harmônicos. A repercussão e a recepção se materializam em texto.

Consideramos aqui a crítica sob o ponto de vista das lições de estética da formatividade de Pareyson. Ela é compreendida como um momento privilegiado da recepção da música, um fragmento de vida e das próprias obras que “executa”. É quase a “ciência empírica” que o poeta alemão Heinrich Heine reivindicava para a atividade crítica.41 Dizia o escritor romântico, em um de seus folhetins, que a crítica musical deveria ter por base a experiência, evitando assim a síntese. “Não há nada mais ineficaz que a teorização em música; é verdade que ela está sujeita a leis, matematicamente determinadas, mas leis que não são a música, e sim sua condicionalidade, assim como a arte de desenhar e a teoria das cores, ou, ainda, palheta e pincel não são a pintura, e sim meros instrumentos indispensáveis. A essência da música é a revelação, que não precisa de prestação de contas, sendo a verdadeira crítica musical uma ciência empírica.” Para Heine, a crítica ideal deveria ser acompanhada de exemplos musicais, ao vivo, numa conversa à mesa, por exemplo. Um exagero romântico que pode ser filtrado por critérios atuais de racionalidade. A crítica aqui estudada é dotada de um certo componente empírico, mas reflete ideais artísticos e concepções filosóficas e poéticas. Apesar de dependente da obra de arte, constitui, ela própria, um gênero de texto artístico: o folhetim, como método digressivo de juízo, análise, interpretação e execução da obra. Para compor uma imagem completa (e talvez idiossincrática e ad hoc para os fins desta pesquisa) do papel da crítica de arte é justo ainda invocar o crítico norte-americano H. L. Mencken, cujas observações sobre o processo crítico são uma apologia à crítica como obra de arte.42 Filia-se à escola esteticista de Oscar Wilde, também ele um apologista da crítica como uma das “belas-artes”.43 Em estilo irônico, Mencken afirma que só os maus críticos cultivam ideais pedagógicos. O crítico que escreve motivado a disseminar determinada doutrina, “psicológica, epistemológica, histórica ou estética”,44 é, um crítico cuja verdade cresce na razão direta de sua falta de qualidade (badness). O motivo, argumenta, que leva um crítico a escrever não é o do pedagogo, mas o do artista. “É nada mais nada menos que o simples desejo de operar bela e livremente a fim de dar forma externa e objetividade a idéias que passam em seu interior e têm um atrativo nelas que o leva a livrar-se delas e fazer um ruído articulado no mundo.” Ele se diferencia do ficcionista por mero temperamento. Inspira-se não por fatos da vida cotidiana, mas por “livros, quadros, música, escultura, arquitetura, religião, filosofia - em suma, em sentimentos de outros homens sobre a vida”. Se permanece na atividade de segunda mão, então não será diferente do policial ou do afinador de piano. No entanto, se seguir seus próprios dons artísticos, “então se mudará inevitavelmente da obra de arte para a vida, e começará a adquirir uma dignidade que ele originalmente não possuía”. Abandonará a crítica de obras de arte específicas e irá trabalhar com os materiais artísticos, convertendo-se em um mercador de idéias. “O mero exercício da resenha, ainda que consciente e competentemente realizada, é simplesmente um negócio muito inferior. Como escrever poesia é sobretudo uma função da imaturidade intelectual. O jovem literato, mal saído da universidade, não tendo ainda capacidade para lidar com os mistérios da existência, se coloca para escrever resenhas de livros, ou peças, ou música, ou pintura. Freqüentemente ele realiza a tarefa muito bem. É, de fato, fácil fazê-lo, mesmo para pedagogos decadentes.” O crítico convicto, ainda que imaturo, ensaia expressar-se. É tomado por uma compulsão à crítica. “Ele está tentando conquistar e desafiar um corpo suficiente de leitores, para fazê-los prestar atenção nele, impressioná-los com sua inteligência agradável (ou chocante), e está tentando por esse meio chegar a uma sensação interna de gratidão de um artista em ação, uma tensão aliviada, uma catarse parecida com a que Wagner conseguiu ao escrever A Valquíria ou uma galinha toda vez que põe um ovo.”

Nos termos de seu inspirador, o anti-schlegeliano Oscar Wilde: “O crítico ocupa a mesma posição em relação à obra de arte que o artista em relação ao mundo visível da forma e da cor, ou o invisível mundo da paixão e do pensamento (...) Eu chamaria à Crítica - uma criação noutra criação.”45 Pela voz de Gilberto, chega mesmo a dizer que a crítica supera a arte: “Melhor ainda, a Crítica elevada, sendo a mais pura forma de impressão pessoal, parece-me, no seu gênero, mais criadora que a criação, pois que menos relações tem com tal ou tal ideal exterior a si própria, ela é a sua própria razão de ser, e, como o afirmavam os Gregos, ela tem em si e para si o seu próprio fim. A preocupação da verossimilhança não lhe impõe óbices; a baixa concessão às fastidiosas repetições da vida doméstica ou pública jamais a afeta”.46 A crítica, completa, “é a exteriorização da alma de alguém”.47 O crítico, filtrados os exageros dos que o defendem ou o rechaçam, encontra-se na posição do esteta em serviço que produz um texto suplementar ao da obra de arte e possui pendor artístico. Como exemplos desse fato estão Carlyle, Goethe, citados por Mencken, e, no caso brasileiro, aqui mencionados, Machado de Assis, José de Alencar e especialmente Martins Pena - um ficcionista cujas obras dramatúrgica e romanesca foram diretamente influenciadas pela crítica de música, como veremos adiante. A noção de que o ofício do crítico - no nosso caso, do cronista teatral - representa um estágio da vida intelectual é adequada como mote para o título deste trabalho. Trata-se de críticos menores - em idade e em arte - que atuam no início da vida musical do Brasil. De início, até 1841, enquadram-se também na minoridade do próprio monarca que os rege, Dom Pedro II. Minoridade implica os três aspectos: o histórico, o artístico e o etário. Os folhetinistas são dândis, são jovens agressivos e saltitantes que, sob a capa do anonimato, conduzem e, não raro, manipulam o gosto do público. Como, então, organizar uma seleção que sirva a tais propósitos a partir de textos anônimos? Antes de mais nada, cumpre analisar o conceito de cânone, para depois adotá-lo como procedimento metodológico. O vocábulo “cânone” provém dos estudos bíblicos. A palavra grega kanon queria dizer etimologicamente haste, medida de cana, régua e, por metonímia, medida, critério de avaliação. Segundo Frank Kermode,48 a palavra veio a significar outras coisas, até mesmo critério e norma ética, lista de livros canônicos. Assim, tradicionalmente, cânone se identifica com o texto sagrado, canônico, “eternamente fixado”. Desde o princípio, foi visto como uma imposição tardia e arbitrária sobre os livros que continha. Reavaliando o termo a fim de utilizá-lo na interpretação literária, Harold Bloom49 transforma-o em conceito operacionalmente eficaz. “Cânone, palavra religiosa em suas origens, tornou-se uma escolha entre textos que lutam uns com os outros pela sobrevivência, quer se interprete a escolha como sendo feita por grupos sociais dominantes, instituições de educação, tradições de crítica ou, como eu faço, por autores que vieram depois e se sentem escolhidos por determinadas figuras ancestrais.”50 Segundo ele, o cânone compreende uma adoção estética e individual: “A escolha estética sempre orientou todo o aspecto particular da formação de um cânone, mas este é um argumento difícil de manter nesta época, em que a defesa do cânone literário, como o ataque a ele, se tornou fortemente politizado”.51 Bloom diz que a crítica foi inventada por Aristófanes e que a crítica cultural é “mais uma triste ciência social”.52 “Mas a crítica literária, como uma arte, sempre foi e sempre será um fenômeno Apologético, do compositor baiano Caetano de Melo de Jesus, mestre-de-capela da Sé de Salvador entre 1734 e 1760, autor do tratado Escola de Canto de Órgão (1759-1760); A Arte de Solfejar (1771) e Lições de Solfejo (1776), do músico pernambucano Luis Álvares Pinto (1719-1789), o Compêndio de Música Prática (1832) e Artinha, Compêndio de música para uso dos alunos do Imperial Colégio D. Pedro II (1838), ambos do compositor Francisco Manuel da Silva (1795-1865), e o livro anônimo Arte da Música para uso da mocidade brasileira por um seu patrício, de 1823, o primeiro livro sobre música de autor brasileiro a ter sido publicado. É quase um século de teoria musical realizada à sombra da Colônia. Este material é usado como objeto de confronto, tendo ficado em segundo plano para efeito desta pesquisa - sem deixar de funcionar como baixo-contínuo severo no ligeiro concerto jornalístico que o sucede.

O corpus propriamente dito compreende centenas de textos - críticas, crônicas e ensaios - retirados de publicações da época (1826-1880) e divididos em sete períodos, delimitados de acordo com os “surtos” causados pela intensidade ou escassez da programação da corte. Entre os textos compulsados, figuram sessenta e dois,* juntamente com a cronologia de fatos culturais relevantes. A investigação começa antes do debate romântico nas artes plásticas e literatura e tem seu término com a tentativa frustrada de instauração de uma ópera nacional e a repercussão que esta iniciativa teve. Não nos estenderemos às primeiras contribuições de Oscar Guanabarino e à consolidação da música pura no cenário musical do Segundo Reinado, nas décadas de 1870 e 80, por constituir uma cena diversa, voltada à profissionalização e ao incentivo da música de concerto. Os anos de 1826 a 1861 sugerem um arco que completa o ciclo da crítica operística e prepara o palco para a música pura e o surgimento da música nacional. Nas cinco décadas abordadas neste ensaio, a atividade dos folhetinistas foi fundamental para a consolidação do gosto e das instituições.


 
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