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O Valete de Espadas, de Boris Akunin (tradução de Mônica Braga; Suma de Letras/Objetiva; 192 páginas; 33,90 reais) – Nos anos finais da União Soviética, o filólogo Grigori Tchkartchvili ganhava a vida traduzindo textos técnicos do japonês para o russo. Depois da queda do comunismo, resolveu lançar-se como escritor, em um gênero tipicamente "burguês" – o romance policial –, e fez um tremendo sucesso. Sob o pseudônimo Boris Akunin, criou a série estrelada por Erast Fandórin, um detetive que atua na Rússia czarista, e já vendeu 11 milhões de livros no mundo todo. Nesse quinto episódio, Fandórin enfrenta um vigarista que faz suas vítimas perder não só o dinheiro, mas também a reputação. O impostor tem uma assinatura célebre: deixa um valete de espadas na casa das pessoas que enganou.

Leia trecho

Capítulo primeiro
O "Valete de Espadas" passa dos limites

Não existia neste mundo homem mais desafortunado que Anissi Tiulpanov. Talvez, para ser bem preciso, fosse possível encontrar um em alguma parte da África negra ou no extremo sul da Patagônia, porém, mais próximo, sem dúvida, não.

Julguem vocês mesmos. Para começar, seu nome: Anissi. Já viram um homem honrado, funcionário da Câmara ou até mesmo chefe de seção chamado Anissi? Já de início lembrava a lamparina que vela o ícone, a sacristia.

E seu sobrenome! Não dava para não rir. Ele carregava o maldito patronímico de seu bisavô, sacristão de uma igreja de vilarejo. Quando o antepassado de Anissi estudava no seminário, o padre reitor teve a idéia de trocar os sobrenomes que soavam mal para futuros servos da Igreja por outros que agradassem mais a Deus. Por uma questão de facilidade e comodidade, um ano, ele deu aos seminaristas apenas nomes de festas religiosas; no ano seguinte, nomes de frutas; e ele, o bisavô, caiu no ano das flores: jacinto, jasmim, ranúnculo... A ele, coube a tulipa. O bisavô não terminou o seminário, mas passou o sobrenome idiota a seus descendentes. E ainda feliz por se chamar Tiulpanov, e não Pissenlitov ou algo do gênero.

Mas o nome não era nada comparado ao físico! Para começar, as orelhas: elas saltavam de cada lado como as alças de uma sopeira. Ele tinha tentado escondê-las sob o boné, mas elas não obedeciam e não paravam de escapulir e apontar de novo, como para servir de apoio à copa do boné. Eram elásticas e cartilaginosas demais para ficar no lugar.

De início, Anissi passava longos instantes na frente do espelho. Ele se virava de um lado, de outro, puxava para frente o cabelo, que propositalmente deixava crescer, para lá e para cá, na esperança de esconder suas orelhas de abano, o que parecia melhorar as coisas, ao menos por um momento. Mas quando seu rosto aos poucos cobriu-se de espinhas (isso já fazia dois anos), Tiulpanov relegou o espelho ao celeiro, pois a visão de sua figura suja era uma prova que estava além de suas forças.

Para trabalhar, Anissi acordava quando o sol nascia ou ainda de noite, nos meses de inverno. Ele tinha um longo caminho a percorrer. Sua casinha, herança do pai sacristão, encontrava-se no terreno do mosteiro da Intercessão, pertinho da Porta São Salvador, e, mesmo andando rápido, gastava bem uma hora para chegar à Direção da polícia, percorrendo ruas desertas e bairros mal-afamados. E, como hoje, quando fazia frio e o caminho se cobria de gelo, não faltava acontecer mais nada. Com as botinas deformadas e o sobretudo gasto até rasgar, ele dava pena. Batia os dentes e se lembrava dos dias melhores, da adolescência despreocupada, de sua querida mamãe, que Deus a tenha.

No ano anterior, quando ficara de serviço na fiação, tudo fora bem mais fácil. Ele recebia um salário de 18 rublos, mais um adicional para as horas extras, para o trabalho noturno e, às vezes, até para os gastos com transporte. Houve meses em que chegou a receber 35 rublos. Mas Tiulpanov, coitado, não conseguiu parar nesse emprego excelente e lucrativo. Ele foi julgado - pelo tenente-coronel Svertchinski em pessoa - um agente sem futuro e, de um modo geral, um molenga. Em primeiro lugar, ele foi justamente acusado de abandonar seu posto de observação (mas como fazer de outra forma se sua irmã, Sonia, não comia desde a manhã?). E houve fato mais grave, no episódio em que deixou uma perigosa revolucionária fugir. Quando de uma operação cujo objetivo era um apartamento clandestino, ele devia montar guarda na porta de serviço que dava para o pátio situado nos fundos do imóvel. Por precaução, tendo em vista sua pouca idade, não deixaram Tiulpanov participar da invasão em si. Ora, foi preciso que os homens encarregados da operação, detetives experientes, conhecedores de seu trabalho, deixassem escapar uma jovem estudante. De repente, Anissi viu uma moça com uns óculos pequeninos indo na sua direção, com o ar transtornado, desesperado. Ele conseguiu gritar "Pare!", mas não conseguiu se decidir a detê-la: a moça tinha braços tão frágeis. E ele permaneceu plantado como uma árvore, observando-a fugir. Nem chegou a usar o apito.

Por esse erro flagrante, resolveram pura e simplesmente demitir Tiulpanov mas, tomada por pena do órfão, a Direção contentou-se em rebaixá-lo ao posto de comissionado. Desde então, Anissi tem uma função bem modesta, senão humilhante, para um homem instruído que havia feito cinco anos de liceu técnico. E, sobretudo, uma função que não oferecia nenhuma perspectiva. Ele passaria a vida toda correndo como um pobre iniciante, sem a esperança de um dia subir mais na vida do que ao posto de secretário de colégio.

Aos 20 anos, qualquer um veria com amargura o fato de precisar enterrar o próprio futuro, mas não era nem ques tão de amor-próprio. Tente sobreviver com 12 rublos e meio por mês. Ele não precisava de grande coisa, mas Sonia... Como explicar que seu irmãozinho vivia quase de caridade? Ela queria comer manteiga, queijo branco, sem contar que ele precisava mimá-la com algumas guloseimas de vez em quando. E a lenha para o fogão - naqueles dias, cada estéreo custava três rublos. Sonia era uma pessoa simples, mas isso não a impedia de gritar e chorar quando sentia frio

Antes de sair, Anissi tirou um tempo para trocar sua irmã, que estava molhada. Ela mal abriu os olhinhos puxados e, com um sorriso sonolento, balbuciou para o irmão:

- Nissi, Nissi.

- Comporte-se direito, bobinha, e não faça bobagens - intimou-lhe Anissi, com falsa severidade, virando o corpo pesado e quente de sono.

Sobre a mesa, ele deixou, como combinado, uma moeda de 10 copeques, para a vizinha encarregada de cuidar da infeliz. Engoliu um pãozinho de passas, que o leite frio ajudou a descer, e saiu para enfrentar a escuridão e a tempestade de neve.

Escorregando o tempo todo, enquanto atravessava a pequenos passos o terreno baldio coberto de neve em direção à Taganka, Tiulpanov reclamava da própria sorte. Como se não bastasse ser pobre, feio e inútil, ele ainda teria que cuidar de Sonia pelo resto de seus dias. Sua vida era horrível, ele nunca teria mulher, nem filhos, nem uma casa confortável.


 
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