Dança
da Chuva, de Dennis Lehane (tradução de Luciano Vieira Machado;
Companhia das Letras; 424 páginas; 44 reais) Conhecido principalmente
pelo romance Sobre Meninos e Lobos, que resultou numa estupenda adaptação
cinematográfica dirigida por Clint Eastwood, o escritor americano Dennis
Lehane renovou o gênero policial ao investi-lo de um tom amargo e fatalista.
Dança da Chuva, lançado nos Estados Unidos em 1999, é
anterior a seu maior sucesso, mas já traz essas características
bastante desenvolvidas. Em Boston (cidade que é o cenário habitual
do autor), um de seus personagens recorrentes, o detetive Patrick Kenzie, investiga
um suicídio, trazendo à tona circunstâncias sinistras
que, de novo, têm a ver com a corrupção da inocência.
Leia
trecho No
sonho, eu tenho um filho. Ele tem uns cinco anos, mas sua voz e sua inteligência
são de alguém de quinze. Ele está sentado no assento ao meu
lado, cinto de segurança bem apertado, as pernas mal chegam à borda
do banco do carro. É um carro grande, velho, com um volante do tamanho
de um aro de pneu de bicicleta, e nós avançamos por uma manhã
de fim de dezembro cor de cromo fosco. Estamos em alguma área rural, ao
sul de Massachusetts mas ao norte da linha Mason-Dixon - talvez no Delaware, ou
no sul de Nova Jersey -, e silos axadrezados em vermelho e branco apontam à
distância, erguendo-se de campos lavrados em tom cinza-claro de jornal,
queimados pela neve da última semana. Não há nada à
nossa volta, exceto os campos e os silos longínquos, um moinho de vento
gelado e silencioso, milhas de negros cabos telefônicos rebrilhando com
o gelo. Nenhum outro carro, ninguém. Apenas meu filho e eu e a dura estrada
cor de ardósia, rasgada nas congeladas plantações de trigo. Meu
filho diz: "Patrick". "O
quê?" "Hoje
é um bom dia." Lanço
um olhar à quieta manhã cinzenta, absolutamente silenciosa. Para
além do silo mais distante, uma pequena nuvem de fumaça ergue-se
de uma chaminé. Embora eu não possa ver a edificação,
consigo imaginar o calor da casa. Sinto o cheiro do assado num forno e vejo as
vigas aparentes de cerejeira encimando uma cozinha construída com madeira
cor de mel. Do puxador da porta do forno pende um avental. Sinto o quanto deve
ser bom estar dentro de casa numa silenciosa manhã de dezembro. Olho
para meu filho e digo: "Sim, é". Meu
filho responde: "Vamos seguir em frente o dia inteiro. A noite inteira. Vamos
seguir em frente sempre e sempre". "Claro",
respondo. Meu
filho olha pela janela e diz: "Pai". "Diga." "Vamos
seguir em frente, sem parar nunca." Volto
a cabeça, e ele me olha com meus próprios olhos. "Certo,
vamos seguir em frente, sem parar nunca." Ele
põe sua mão na minha. "Se a gente parar, fica com falta de
ar." "Sei." "Se
a gente ficar com falta de ar, morre." "É
verdade." "Não
quero morrer, pai." Passo
a mão em seu cabelo liso. "Eu também não." "Então
vamos seguir em frente, sem parar nunca." "Certo,
amigão", digo-lhe sorrindo. Sinto o cheiro de sua pele, de seu cabelo,
um cheiro de recém-nascido num corpo de cinco anos de idade. "Nós
nunca vamos parar." "Ótimo." Ele
se reclina no banco e adormece com o rosto encostado na minha mão. Diante
de mim, a estrada cinzenta estende-se pelos campos brancos empoeirados, e minha
mão segura o volante com leveza e segurança. A estrada é
reta e plana e estende-se diante de mim por milhares de quilômetros. A neve
mais antiga, varrida pelo vento, eleva-se dos campos num farfalhar suave e vai
se depositar nas fendas do asfalto, diante da grade do radiador. Nunca
vou parar o carro. Nunca vou sair dele. A gasolina nunca vai acabar. Nunca vou
ficar com fome. Aqui está quentinho. Tenho meu filho. Ele está em
segurança. Eu estou em segurança. Vou avançar sempre. Não
vou me cansar. Não vou parar nunca. Infinita,
a estrada se abre diante de mim. Meu
filho afasta a cabeça de minha mão e diz: "Onde está
mamãe?". "Não
sei", respondo. "Mas
está tudo bem?", diz ele olhando para mim. "Está
tudo bem", respondo. "Tudo ótimo. Volte a dormir." Meu
filho adormece novamente. Continuo dirigindo. E
ambos desaparecemos quando eu acordo. 1 Na
primeira vez que vi Karen Nichols, ela me deu a impressão de ser o tipo
de mulher que passa as meias a ferro. Ela
era loira, delicada, e desceu de um VW Bug 1998 verde-amarelado no momento em
que eu e Bubba cruzávamos a avenida em direção à igreja
de São Bartolomeu, levando na mão nosso café-da-manhã.
Estávamos em fevereiro, mas o inverno se esquecera de dar as caras naquele
ano. À exceção de uma nevasca e uns poucos dias de temperaturas
abaixo de zero, o tempo se mostrava bastante ameno. Naquele dia, a temperatura
já beirava os dez graus, e eram apenas dez da manhã. Digam o que
quiserem contra o aquecimento global, mas desde que ele me livre da encheção
de tirar a neve da calçada, sou a favor. Karen
Nichols ergueu a mão à altura das sobrancelhas, embora o sol da
manhã não estivesse assim tão forte, e me deu um sorriso
meio hesitante. "Senhor
Kenzie?" Eu
lhe dei meu sorriso "mamãe-gostou-que-você-raspou-o-prato"
e estendi a mão. "Senhorita Nichols?" Ela
sorriu, não sei por quê. "Karen, sim. Cheguei antes da hora." Sua
mão deslizou suavemente na minha, tão macia e lisa que dava a impressão
de uma luva. "Pode me chamar de Patrick. Este é o senhor Rogowski." Bubba
grunhiu e deu um encontrão no próprio café. A
mão de Karen Nichols afastou-se da minha, e ela recuou quase imperceptivelmente,
como se com medo de ter de estender a mão a Bubba. Temendo que, se o fizesse,
não a teria de volta. Ela
estava com uma jaqueta de camurça marrom que ia até a metade da
coxa, pulôver grafite de gola careca, jeans impecável e tênis
Reebok de um branco cintilante. Nada em sua aparência dava a impressão
de que uma dobra, uma mancha, um grãozinho de poeira tivesse estado em
suas proximidades, num raio de um quilômetro. Ela
tocou com os dedos delicados a tez suave do pescoço. "Puxa, uma dupla
de detetives particulares de verdade!" Seus olhos azul-claros se apertaram,
da mesma forma que o nariz arrebitado, e ela riu novamente. "Eu
sou o detetive particular", disse eu. "Ele está só visitando
os bairros pobres." Bubba
grunhiu novamente e me deu um chute na bunda. "Deitado,
Lulu", disse eu. "Aqui." Bubba
tomou uns goles de café. Karen
Nichols dava a impressão de que achava ter se enganado ao nos procurar.
Decidi então não levá-la ao meu escritório no campanário
da igreja. Se uma pessoa está em dúvida quanto a me contratar ou
não, levá-la ao campanário normalmente não é
uma boa estratégia de relações públicas. Como
era sábado e não havia aulas, e o ar, embora carregado de umidade,
não estivesse nem um pouco frio, Karen Nichols, Bubba e eu andamos até
um banco do pátio da escola. Eu me sentei. Karen Nichols usou um lenço
impecavelmente branco para limpar o assento e se sentou. Bubba franziu o cenho
ao ver que não havia espaço no banco, me fez uma cara feia e então
sentou no chão à nossa frente. Depois de cruzar as pernas, olhou
para nós na expectativa. "Bom
cachorrinho", disse eu. Bubba
me lançou um olhar dizendo que eu iria pagar por aquilo assim que estivéssemos
longe de gente educada. "Senhorita
Nichols", disse eu. "Quem lhe indicou meu nome?" Ela
tirou os olhos de Bubba e me olhou por um instante, totalmente embaraçada.
Seu cabelo loiro era curto como o de um menino e me fez lembrar fotografias que
eu vira de mulheres em Berlim na década de 20. Eles estavam fixados à
cabeça com gel, mas, ainda que não pudessem sair do lugar nem se
expostos ao deslocamento de ar de uma turbina a jato, ela o prendera acima da
orelha esquerda, logo abaixo da risca, com uma presilhinha preta com a figura
de um besouro. Seus
grandes olhos azuis se desanuviaram e ela deu aquele risinho nervoso novamente.
"Meu namorado." "E
o nome dele é...", disse eu, imaginando que devia ser Tad, ou Ty,
ou Hunter. "David
Wetterau." Aquilo
era demais para minhas habilidades paranormais. "Acho
que nunca ouvi falar dele." "Ele
conheceu uma pessoa que trabalhava com você. Acho que uma mulher..." Bubba
levantou a cabeça e me lançou um olhar rancoroso. Ele me culpava
por Angie ter terminado nossa sociedade, por ter se mudado do nosso bairro, comprado
um Honda, e também porque agora ela vestia conjuntos Anne Klein e não
nos visitava mais. "Angela
Gennaro?", perguntei a Karen Nichols. Ela
sorriu. "Sim, esse é o nome da pessoa." Bubba
soltou outro grunhido. Logo, logo ele estaria uivando para a Lua. "E
por que você está precisando de um detetive particular, senhorita
Nichols?" "Karen."
Ela se voltou para mim, enfiou uma mecha de cabelo imaginária atrás
da orelha. "Karen,
por que está precisando de um detetive particular?" Um
sorriso triste e chocho crispou-lhe os lábios, e ela fitou os próprios
joelhos por um instante. "Tem um cara na academia que eu freqüento,
sabe?" Assenti
com um gesto de cabeça. Ela
engoliu em seco. Suponho que com isso ela achava que eu já seria capaz
de adivinhar a história toda. Eu tinha certeza de que ela estava prestes
a me contar alguma coisa desagradável, e uma certeza ainda maior de que
ela possuía, no máximo, um conhecimento bastante superficial de
coisas desagradáveis. "Ele
tem me assediado, vai atrás de mim no estacionamento. A princípio,
era só um aborrecimento, sabe?" Ela levantou a cabeça, procurando
em meus olhos alguma compreensão. "Então a coisa piorou. Ele
começou a ligar para minha casa. Eu o evitava na academia, mas algumas
vezes vi seu carro estacionado na frente de minha casa. David terminou se enchendo
daquilo e foi tomar satisfações. O cara negou tudo e ameaçou
David." Ela piscou, cingiu o punho cerrado da mão direita com os dedos
da mão esquerda. "David não é fisicamente... temível?
É a palavra certa?" Fiz
que sim com a cabeça. "Então,
Cody - esse é o nome dele, Cody Falk - riu de David e ligou para mim na
mesma noite." Cody.
Eu já o estava odiando. "Ele
ligou e me disse que sabia muito bem o quanto eu queria aquilo, que eu com certeza
nunca tinha tido uma boa... uma boa..." "Foda",
disse Bubba. Ela
teve um leve sobressalto, olhou para ele e voltou os olhos depressa para mim.
"Sim. Uma boa, bem... em minha vida. E ele sabia que intimamente eu queria
que ele me desse uma. Eu deixei este bilhete no carro dele. Eu sabia que era uma
bobagem, mas eu... bem, eu o deixei." Ela
enfiou a mão na bolsa, tirou um pedaço de papel de carta roxo amassado.
Numa perfeita caligrafia estilo Palmer, ela escrevera: Senhor
Falk, Por
favor, deixe-me em paz. Karen
Nichols "Na
primeira vez que voltei à academia", disse ela, "quando fui pegar
o carro, ele tinha posto o meu bilhete no pára-brisa, no mesmo lugar onde
eu o deixara no dele. Se você o virar, vai ver o que ele escreveu."
Ela apontou para o papel em minha mão. Virei
o papel. No verso Cody Falk escrevera apenas uma palavra: Não. Eu
estava começando mesmo a odiar aquele escroto. "E
ontem, sabe?" Seus olhos se encheram de água, ela engoliu em seco
várias vezes, e um forte tremor pulsava no meio da garganta. Pus
minha mão na sua, e Karen fechou os dedos sobre ela. "O
que ele fez?" Ela
sorveu o ar com força e eu o ouvi ressoar no fundo da garganta. "Ele
destruiu o meu carro." Bubba
e eu olhamos imediatamente para o VW Bug verde brilhante estacionado próximo
ao portão do pátio da escola. Parecia ter acabado de sair da fábrica,
e com certeza a parte interna ainda cheirava a carro novo. "Aquele
carro?", disse eu. "O
quê?", disse ela seguindo meu olhar. "Oh, não, não.
Aquele é o carro do David." "Um
cara?", disse Bubba. "Um cara usa aquele carro?" Olhei
para ele e balancei a cabeça. Bubba
fechou a cara, abaixou a vista para suas botas de combate e levantou-as, apoiando-as
sobre os joelhos. Karen
sacudiu a cabeça como para desanuviar os pensamentos. "Eu tenho um
Corolla. Eu queria um Camry, mas não tínhamos dinheiro para isso.
David está entrando num novo negócio, ainda estamos pagando o crédito
educativo, então comprei o Corolla. E agora ele está acabado. Cody
Falk derramou ácido em cima dele e furou o radiador. O mecânico falou
que derramaram xarope no motor." "Você
contou isso à polícia?" Ela
fez que sim, e percebi que seu pequeno corpo tremia. "Não há
provas contra ele. Ele disse à polícia que estava no cinema naquela
noite e foi visto ao entrar e ao sair. Ele..." O rosto traiu um grande desalento,
e ela corou. "A polícia não pode tocar nele, e a companhia
de seguros não vai cobrir a perda." Bubba
levantou a cabeça em minha direção. "Por
que não?", falei. "Porque
eles não receberam meu último pagamento. Mas eu... eu o enviei.
Eu o mandei três semanas atrás. Eles disseram que enviaram um aviso,
mas não recebi. E, e..." Ela abaixou a cabeça, e lágrimas
caíram em seus joelhos. Ela
colecionava animaizinhos de pelúcia, não havia dúvida. Com
certeza o Corolla destruído tinha adesivos tipo rosto sorridente ou um
daqueles peixinhos em que se lê "Jesus". Ela lia romances de John
Grisham, ouvia soft rock, adorava chás-de-cozinha e nunca assistira a um
filme de Spike Lee. Ela
nunca imaginara que aquilo pudesse lhe acontecer. "Karen",
disse eu em voz baixa. "Qual o nome de sua companhia de seguros?" Ela
levantou a cabeça, enxugou as lágrimas com as costas da mão.
"State Mutual". "E
a agência do correio em que você postou o cheque?" "Bem,
eu moro em Newton Upper Falls", disse ela, "mas não estou bem
certa. Meu namorado, sabe?", acrescentou ela fitando os tênis brancos
impecáveis, como se envergonhada, "ele mora em Back Bay, e eu vou
muito lá." Falou
como se aquilo fosse um pecado, e me peguei me perguntando onde criavam gente
como ela, e, se houvesse uma semente, como eu poderia arrumar uma, se algum dia
planejasse ter uma filha. "Você
atrasou algum pagamento antes?" Ela
balançou a cabeça. "Nunca." "Há
quanto tempo você pagava esse seguro?" "Desde
que terminei a universidade. Sete anos." "Onde
Cody Falk mora?" Ela
passou a ponta dos dedos nos olhos, para se certificar de que as lágrimas
tinham secado. Como não usava maquiagem, nada ficou borrado. Ela tinha
a beleza sadia das mulheres dos anúncios de creme Nívea. "Não
sei. Mas toda noite ele está na academia às sete." "Que
academia?" "No
Mount Auburn Club, em Watertown." Ela mordeu o lábio inferior, depois
ensaiou o seu sorriso colgate. "Sinto-me tão ridícula." "Senhorita
Nichols", disse eu. "Você não tem de tratar com gente como
Cody Falk, está entendendo? Ele é uma pessoa ruim e você não
fez nada para criar essa situação. Ele fez." "É?"
Ela se esforçou para abrir um largo sorriso, mas seu olhar ainda traía
medo e perplexidade. "Sim.
Ele é um sujeito mau. Ele gosta de assustar as pessoas." "É
verdade", disse ela balançando a cabeça. "Dá para
ver isso em seus olhos. Quanto mais me fazia sentir incomodada no estacionamento,
mais ele parecia gostar." Bubba
deu um risinho. "Incomodada? Espere só a gente fazer uma visitinha
a Cody." Karen
Nichols olhou para Bubba, e por um instante pareceu ter pena de Cody Falk. Em
meu escritório, liguei para meu advogado, Cheswick Hartman. Karen
Nichols partira no VW do namorado. Eu lhe disse que fosse direto a sua companhia
de seguros para entregar um outro cheque. Quando Karen disse que eles não
cobririam a perda, respondi que eles o fariam quando ela chegasse lá. Ela
se perguntou, em voz alta, se teria condições de pagar meus honorários.
Eu lhe disse que, se ela pudesse me pagar um dia de trabalho, tudo bem, porque
aquele caso não me exigiria mais que isso. "Um
dia?" "Um
dia", disse eu. "E
quanto a Cody?" "Você
nunca mais vai ouvir falar em Cody." Fechei a porta de seu carro, ela partiu
e me fez um pequeno aceno ao chegar ao primeiro semáforo. "Dê
uma olhada em ‘fofa’ no dicionário", disse eu a Bubba quando estávamos
no escritório. "Veja se tem a foto de Karen Nichols embaixo da definição." Bubba
olhou para a pequena pilha de livros no parapeito da janela. "Como posso
saber qual é o dicionário?" Cheswick
atendeu o telefone, e eu lhe falei do problema de Karen Nichols com a companhia
de seguros. "Ela
tem pagamentos em atraso?" "Nenhum." "Não
tem problema. Você disse que é um Corolla?" "Ahn-ran." "Que
carro seria esse? Um de vinte e cinco mil dólares?" "É
mais para uns catorze." Cheswick
deu um risinho. "Os carros estão ficando mesmo tão baratos?"
Que eu soubesse, Cheswick tinha um Bentley, um Mercedes V10 e dois Range Rovers.
Quando queria se igualar ao povão, ele usava um Lexus. "Eles
vão pagar o seguro", disse ele. "Eles
disseram que não vão pagar", disse eu, só para provocá-lo. "E
eles vão me enfrentar? Eu pego o telefone já de saco cheio, e eles
vão saber que já estão devendo cinqüenta mil. Eles vão
pagar", repetiu ele. Quando
desliguei, Bubba perguntou: "O que ele disse?". "Disse
que eles vão pagar." Ele
balançou a cabeça. "Cody também, amigo. Cody também." Bubba
passou no depósito onde morava para resolver algumas coisas, e eu liguei
para Devin Amronklin, policial da Homicídios, um dos poucos desta cidade
que ainda falam comigo. "Homicídios." "Diga
isso com mais convicção, baby." "Ei,
ei. Aposto como é a persona non grata número um do Departamento
de Polícia de Boston. A polícia mandou você encostar o carro
recentemente?" "Não." "Então
evite. Você ia ficar admirado com o que alguns caras daqui querem encontrar
em seu porta-malas." Fechei
os olhos por um instante. Ser o primeiro da lista negra do departamento de polícia
não era bem o que eu esperava àquela altura de minha vida. "Não
se pode ser popular demais", disse eu. "Você é o cara que
põe algemas num colega policial." "Ninguém
nunca foi com a minha cara", disse Devin, "mas a maioria deles tem medo
de mim, o que é tão bom quanto. Por outro lado, você é
um famoso bundão." "Famoso?
Não diga." "O
que está havendo?" "Preciso
da ficha de um tal de Cody Falk. Principalmente o que tiver a ver com assédio
sexual." "E
o que eu ganho com isso?" "Minha
eterna amizade?" "Uma
sobrinha minha", disse ele, "quer toda a coleção da Barbie
de presente de aniversário." "E
você não está a fim de ir a uma loja de brinquedos." "E
eu ainda estou pagando uma gorda pensão para um menino que não quer
falar comigo." "Quer
dizer então que você quer que eu compre a coleção da
Barbie." "Acho
que dez bastam." "Dez?",
disse eu. "Você está de..." "Falk
com ‘F’?" "F
de falcatrua", disse eu, e desliguei. Devin
me ligou uma hora depois e me disse que levasse as Barbies ao seu apartamento
na noite seguinte. "Cody
Falk, trinta e três anos. Sem nenhuma condenação." "Mas..." "Mas",
disse Devin, "foi preso uma vez por violar um mandado obtido contra ele por
Bronwyn Blythe. As queixas foram retiradas. Preso por assediar Sara Little. As
queixas foram retiradas quando a senhorita Little se recusou a testemunhar contra
ele e deixou o estado. Apontado como suspeito de ter estuprado uma certa Anne
Bernstein, foi chamado para depor. A coisa deu em nada porque a senhorita Bernstein
se recusou a apresentar queixa, submeter-se a exame de corpo de delito e identificar
o agressor." "Bom
sujeito", disse eu. "Um
docinho-de-coco." "Só
isso?" "Sim,
salvo que ele foi condenado por delinqüência quando ainda era menor
de idade, mas o processo foi arquivado." "Claro." "Ele
está incomodando alguém novamente?" "Talvez",
disse eu com prudência. "Use
luvas", disse Devin, e desligou. |