O
Mal de Montano,
de Enrique Vila-Matas (tradução de Celso Paciornik; Cosac Naify;
328 páginas; 49 reais) Em Bartleby e Companhia, o espanhol
Vila-Matas criou um personagem obcecado por escritores que a certa altura da vida
deixaram de escrever. Em O Mal de Montano, ele retoma a mesma mescla de
ficção e ensaio para falar de outra "doença literária":
a dos autores que transformam a própria vida em literatura. O crítico
que narra o livro organiza um dicionário de escritores que compuseram um
diário íntimo o gênero em que mais intensamente se
cruzam biografia e literatura. Katherine Mansfield, Franz Kafka e Salvador Dalí
(melhor escritor do que pintor, segundo o personagem de Vila-Matas) estão
entre os autores revisados pela crítica fictícia de O Mal de
Montano.
Leia
trecho Vou
me deitar, sinto-me cansado depois da viagem e também fatigado de tanto
escrever neste diário que mantenho há anos e que hoje, já
desde a primeira linha - quando es-crevi isso de "Em fins do século
20, o jovem Montano..." -, notei que podia se converter, movido por um impulso
misterioso, no ponto de partida de uma história que exigiria leitores,
sem poder ficar oculta entre as páginas deste diário íntimo.
É absurdo, só faltava eu me converter em na-rrador. E é absurdo,
sobretudo porque vim a Nantes para espairecer um pouco e evitar que, ao menos
durante alguns dias, a literatura continuasse me asfixiando. Vim a Nantes para
ver se conseguia me esquecer um pouco de que sou um doente de literatura. E todavia
aqui estou agora, no Hotel La Pe-rouse, mais doente de livros do que quando saí
de Barcelo-na. Talvez Rosa tivesse razão quando me disse que escolher Nan-tes
- com Montano também doente de literatura, ainda que com uma febre distinta
- não era exatamente a solução mais adequada para, durante
uns dias, eu descan-sar de minhas temidas críticas, de minha obsessão
doentia pelos livros e de minha mania de ver tudo sob o ângulo da literatura.
Rosa me disse que eu precisava de uma viagem urgente, mudar minha exagerada respiração
literária por paisagens e canções, fazer turismo não-cultural,
desintoxicar-me de meu absorvente trabalho de crítico, dedicar-me à
serena contemplação da Mãe Natureza - "olhar com calma
como nascem, por exemplo, os tomates no campo", disse-me textualmente -,
contemplar pores-do-sol e pensar nela, pensar mais nela, que não podia
me acompanhar na viagem - por razões profissionais -, mas sobretudo isto,
pensar muito mais nela. Mas Rosa também me disse que não fosse a
Nantes, onde meu filho - também ferido pelas letras, ainda que por motivos
distintos dos meus - poderia agravar ainda mais minha doença. E aqui estou
eu agora, pior do que quando saí de Barcelo-na, mais doente depois de ter
vivido o asfixiante encontro entre um pai e um filho feridos, com cicatrizes distintas,
pela maldita literatura: um (Montano) querendo seguramente voltar a ela, à
literatura; o outro, desejando esquecê-la ao me-nos por uns dias, mas sem
por enquanto consegui-lo, e mais, embrenhado, para completar, no começo
de algo parecido com uma narrativa um tanto literária e ainda por cima
escrevendo-a em seu diário. Que esquisito tudo isso. Pai e filho doentes,
com fe-bres diferentes, de literatura. Que esquisito Montano hoje, sentado em
sua poltrona da casa da rua do Calvário, segurando, angustiado, a mão
de Aline, com seu horizonte literário bloqueado pelo romance perigoso,
preso em sua própria ficção ou, talvez, simplesmente - se
não estiver inventando - pelas recordações pessoa-is de Arward
e Navarro, preso entre os presos e de qualquer forma, ágrafo entre os ágrafos,
ágrafo trágico em Nantes, convencido de que não escreverá
mais nada, jamais. |