Homens
e Não,
de Elio Vittorini (tradução de Maria Helena Arrigucci; Cosac Naify;
264 páginas; 40 reais) O siciliano Elio Vittorini (1908-1966) foi
militante do Partido Comunista e lutou com os partigiani, a resistência
ao nazifascismo na Itália. Sua experiência na guerra foi fundamental
na composição de Homens e Não. A história tem
lugar na Milão ocupada pelos nazistas, em 1944. Ene 2 é um líder
partigiano que trava violentos combates com os alemães, enquanto
vive um romance difícil com Berta. A despeito de sua filiação
comunista, Vittorini não fazia proselitismo fácil nem atrelava sua
literatura aos ditames partidários. Não há exaltação
heróica em Homens e Não: com uma narrativa descontínua,
esse é um romance pessimista, que retrata com crueza a tragédia
moral da Europa em guerra.
Leia
trecho – I – O
inverno de 44 em Milão foi o mais ameno dos últimos vinte e cinco
anos; nevoeiro quase nunca, neve nunca, nenhuma chuva desde novembro e nem uma
nuvem por meses; sol todo dia. Nascia o dia e nascia o sol; caía o dia
e caía o sol. O livreiro ambulante de Porta Venezia dizia: "Este é
o inverno mais ameno que tivemos nos últimos vinte e cinco anos. Desde
1908 não temos um inverno tão ameno". "Desde
1908?", dizia o homem do estacionamento de bicicletas. "Então
não são vinte e cinco anos. São trinta e seis anos." "Bem",
o livreiro dizia. "Este é o inverno mais ameno que tivemos nos últimos
trinta e seis anos. Desde 1908." Ele
tinha perdido sua banca nos dias da destruição de agosto; deixara
a cidade; não retornou senão no princípio de dezembro para
poder ver isto que via: o inverno mais ameno de Milão depois de 1908. O
sol resplandecia sobre os escombros de 43; resplandecia; nos Giardini, sobre as
árvores nuas e as cancelas; e era uma manhã de inverno, era janeiro.
Um homem parou em frente à banca de livros; trazia uma bicicleta pela mão. "Bom
dia", o livreiro lhe disse. "Bom
dia." "Que inverno, hein!" "Que
inverno é esse?" "É
o inverno mais ameno que tivemos nos últimos vinte e cinco anos." O
homem do estacionamento aproximou-se. "Há
vinte e cinco anos?", perguntou. "Ou desde 1908?" "Desde
1908", disse o livreiro. "Desde 1908." –
II – O homem que tinha parado para
olhar os livros olhou o ar, o céu, viu o sol sobre os bondes, viu um bonde
2 que voltava da parada da Porta, e no meio da multidão ali espremida viu,
contra os vidros, o cotovelo e as costas de uma mulher. Então
um som forte irrompeu nele; empurrou correndo a bicicleta e, atravessando os trilhos,
chegou à praça. O bonde já estava distante, ressoavam os
tinidos do trilho além da próxima parada, mas ele montou na bicicleta
e o perseguiu. Correu um trecho e não
pôde rever, no escuro da multidão encerrada no bonde, o cotovelo
e as costas da mulher pelos quais corria. Mas sabia que não se enganara,
o som forte persistia nele, e de cada dia que passara – setembro e outubro, novembro
e dezembro – vinha até ele um esplendor, unindo-se ao que sentia agora. Na
piazza della Scala, a mulher desceu. "Eu
sabia", disse, "que era você". Ela
se apoiou na bicicleta. "Você",
ele disse, "continuou como era". Ela
o pegou e beijou sua mão, deixando que falasse. "Eu
corria, e você continuou como era. Mas o bonde corria, e você continuou
como era." Isto na piazza della
Scala. Mas ele não sabia o que
devia dizer. Mostrou-lhe as casas, o sol, o teatro em escombros e disse: "Já
viu um inverno igual? E você continuou como era". Tirou-a
da multidão e a conduziu até a calçada da via Manzoni: não
do lado do café Cova, do outro. "É o inverno mais esplêndido
que tivemos há um monte de anos", disse. "E
sabe desde quando?", acrescentou. "Sabe desde quando?" Fez
com que parasse e olhou-a novamente. "Desde 1908. Desde
quando você nasceu." Ela
estava pálida, mas não dizia nada. "Desculpe-me",
disse. "Mas eu estava com você quando nasceu. Não
estava com você?" "Sim",
ela respondeu. "Estive sempre
com você", disse-lhe. "Não estive sempre com você?" "Sim",
ela respondeu. – III – Agora
caminhavam de braço dado. O
homem levava a bicicleta com a mão esquerda e a mulher, em sua outra mão,
caminhava dentro dele, não na rua. "E
então?", ele disse. "Está contente que eu a tenha reencontrado?" "Sim",
ela respondeu. Depois, de repente, calou; olhou-o, não
mais pálida, e ficou vermelha. "O que se diz", perguntou, "de
uma mulher que vai para a cama com todos os homens que lhe agradam?". "Falam-se
muitas coisas." "Diga-me
uma." "Por quê?" "Porque
é como me sinto." Ele a
pegou e apertou forte a mão dela, mantendo-a segura. "Mas
o que você quer dizer?" "Não
sei. Faz tempo que não me acontecia." "Faz
tempo? Desde quando?" "Não
da última vez que o vi." "Você
chama isso se sentir daquele jeito?" "Não.
Não. Todo o inverno passado nos víamos, e nunca senti isso. E todo
o ano anterior nos vimos, e nunca me senti assim." "Mas
você sentiu alguma outra vez." "Uma
vez há três anos. E uma outra vez há sete anos." "A
última vez foi há três anos?" "Há
três anos." "Não
pode me dizer como foi?" "Como
foi há três anos? Não posso." "Não
pode?", ele disse. "E agora é igual?" "Agora
é mais", ela disse. "Não foi nunca como agora." Abaixou
a voz. "Você me quer?", perguntou. "Fique comigo e vamos
dar um fim nisso." "É
disso que você tem vontade? De dar um fim nisso?" "Não
sei. Tenho vontade que você me possua." "Também
eu tenho vontade disso." "Então
me leve para qualquer lugar e me possua", disse ela. |