Todas
as Cosmicômicas, de Italo Calvino (tradução de Ivo
Barroso e Roberta Barni; Companhia das Letras; 368 páginas; 46 reais)
Mestre em jogos literários que colocam em questão a natureza da
realidade, o italiano Italo Calvino (1923-1985) brincou com a narrativa científica
em coletâneas de contos publicadas na década de 60. O presente volume
reúne o primeiro livro da série, As Cosmicômicas, já
conhecido no Brasil, e sua continuação, T = 0. As duas coletâneas
trazem contos estrelados por Qfwfq, personagem de nome impronunciável que
faz uma espécie de crônica da evolução do universo
enquanto elucubra sobre teorias científicas (verdadeiras ou fajutas, não
importa). Sempre com o humor e a inteligência próprios de Calvino,
essa figura curiosa é capaz de recordar o Big Bang ou o tempo em que foi
um dinossauro.
Leia
trecho A DISTÂNCIA
DA LUA Houve
tempo, segundo sir George H. Darwin, em que a Lua esteve muito próxima
da Terra. Foram as marés que pouco a pouco a impeliram para longe: as marés
que a própria Lua provoca nas águas terrestres e com as quais a
Terra vai perdendo lentamente energia. Bem
sei disso!, exclamou o velho Qfwfq, vocês não podem se lembrar,
mas eu posso. A Lua estava sempre sobre nós, desmesurada: no plenilúnio
- as noites claras como o dia, mas com uma luz cor de manteiga -, parecia a ponto
de explodir; quando chegava a lua nova, rolava pelo céu como um negro guarda-chuva
levado pelo vento; e, no crescente, avançava com o chifre de tal forma
baixo que parecia prestes a espetá-lo na crista de um promontório
e ali ficar ancorada. Mas o mecanismo das fases se processava de modo diverso
do de hoje; isso porque eram outras as distâncias do Sol, e as órbitas,
bem como a inclinação de não sei bem o quê; daí
ocorrerem a todo momento eclipses, com a Terra e a Lua assim tão juntas:
imaginem se aquelas duas bolonas não faziam sombra continuamente uma à
outra. A órbita?
Elíptica, é claro, elíptica: achatava-se um pouco sobre nós,
depois erguia o vôo. As marés, quando a Lua estava em seu ponto mais
baixo, se levantavam de tal forma que era impossível contê-las. Havia
noites de plenilúnio em que estava tão baixa e as marés tão
altas, que para a Lua banhar-se no mar faltava um fio; digamos: poucos metros.
Se nunca tentamos subir nela? Claro que sim. Bastava ir até embaixo da
Lua, de barco, nela apoiar uma escada portátil e subir. O
ponto em que a Lua passava mais baixo era nos Escolhos de Zinco. Lá íamos
nas barquinhas a remo que se usavam então, redondas e chatas, de cortiça.
Éramos vários a ir: eu, o capitão Vhd Vhd, a mulher dele,
meu primo, surdo, e às vezes também a pequena Xlthlx, que devia
ter então uns doze anos. A água naquelas noites era claríssima,
prateada que parecia de mercúrio, e dentro dela os peixes, roxos, não
podendo resistir à atração da Lua, vinham todos à
tona, bem como os polvos e as medusas da cor do açafrão. Havia sempre
um vôo de animais minúsculos - pequenos caranguejos, lulas e até
mesmo algas leves e diáfanas, eflorescências de corais - que se desprendiam
do mar e acabavam na Lua, e lá ficavam dependurados naquele teto calcinado,
ou então ficavam ali no ar, como um enxame fosforescente que tínhamos
de espantar agitando grandes folhas de bananeira. Nosso
trabalho consistia no seguinte: levávamos na barca uma escada portátil;
um a segurava, outro subia por ela, enquanto um terceiro ia remando para baixo
da Lua; por isso, era preciso contar com algumas pessoas (de que só me
referi às principais). O que estava no alto da escada, à medida
que a barca se aproximava da Lua, gritava apavorado: -
Parem! Parem! Se não vou dar uma cabeçada nela! - Era a impressão
que nos dava ao vê-la ali em cima de nós tão grande, tão
eriçada de farpas cortantes e bordos salientes e serrilhados. -
Agora pode ser diferente, mas então a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre
da Lua, em suma, a parte que passava mais perto da Terra, quase a ponto de roçá-la,
era coberta de uma crosta de escamas pontiagudas. Chegava a parecer o ventre de
um peixe e, mesmo o cheiro, pelo que me lembro, era, se não de todo de
peixe, levemente mais tênue, como o de salmão defumado. Na
verdade, no alto da escada conseguia-se de fato tocá-la: bastava erguer
os braços, apoiando-se no último degrau. Havíamos tomado
cuidadosamente as medidas (sem suspeitar ainda que ela estava se afastando); a
única coisa para a qual se devia estar bem atento era o lugar onde se punham
as mãos. Eu escolhia uma escama que me parecesse sólida (devíamos
subir todos, por turnos, em grupos de cinco ou seis), agarrava-a com uma das mãos,
e depois com a outra, e imediatamente sentia a escada e a barca escaparem debaixo
de mim, e o movimento da Lua arrancar-me da atração terrestre. Sim,
a Lua tinha uma força que nos arrancava e de que nos dávamos conta
no momento de passagem de uma para a outra; era preciso fazê-lo bem rápido,
com uma espécie de cambalhota, agarrar-se às escamas, atirar as
pernas para o alto, para então se encontrar de pé sobre o solo lunar.
Visto da Terra, era como se estivéssemos dependurados de cabeça
para baixo, mas para nós mesmos era a costumeira posição
de sempre, e a única coisa que parecia estranha era, ao erguer os olhos,
ver-se embaixo a capa cintilante do mar com a barca e os companheiros de cabeça
para baixo, a balançar como um cacho de uva na parreira. Quem
demonstrava um talento todo especial naqueles saltos era meu primo surdo. Suas
mãos rudes, mal tocavam a superfície lunar (era sempre o primeiro
a pular da escada), se tornavam de repente macias e seguras. Encontravam logo
o ponto em que deviam apoiar-se para o salto, até parecia que apenas com
a pressão das palmas conseguia aderir-se à crosta do satélite.
Uma vez tive mesmo a impressão de que a Lua lhe vinha ao encontro no momento
em que ele lhe estendia as mãos. Igualmente
hábil se mostrava na descida à Terra, operação ainda
mais difícil. Para nós todos, consistia em dar um salto para cima,
o mais alto que podíamos, com os braços erguidos (visto da Lua,
pois visto da Terra, ao contrário, era mais parecido com um mergulho ou
com um nado em profundidade, os braços pendentes), idêntico ao salto
da Terra, em suma, só que então nos faltava a escada, porque não
havia na Lua nada onde se pudesse apoiá-la. Mas meu primo, em vez de lançar-se
de braços erguidos, inclinava-se sobre a superfície lunar de cabeça
para baixo como numa cambalhota, e começava a dar pinotes apoiando-se sobre
as mãos. Nós, na barca, o víamos retesado no ar como se estivesse
segurando a enorme bola da Lua e a fizesse saltitar tocando-a com as palmas das
mãos, até que suas pernas ficavam ao nosso alcance e conseguíamos
agarrá-lo pelos tornozelos e trazê-lo para bordo. Agora
certamente vão me perguntar que diabo andávamos fazendo na Lua,
e eu lhes explico. Íamos recolher o leite, com uma grande concha e um alguidar.
O leite lunar era muito denso, como uma espécie de ricota. Formava-se nos
interstícios entre uma escama e outra pela fermentação de
diversos corpos e substâncias de proveniência terrestre, que se desprendiam
dos prados, das florestas e das lagoas que o satélite sobrevoava. Era composto
essencialmente de: sumos vegetais, girinos de rãs, betume, lentilhas, mel
de abelhas, cristais de amido, ovas de esturjão, bolores, polens, substâncias
gelatinosas, vermes, resinas, pimenta, sal mineral, material de combustão.
Bastava afundar a concha sob as escamas que recobriam o solo encrostado da Lua
e então retirá-la cheia daquela preciosa papa. Não em estado
puro, compreende-se; as escórias eram muitas: na fermentação
(quando a Lua atravessava grandes extensões de ar tórrido sobre
o deserto), nem todos os corpos se fundiam; alguns permaneciam ali cravados: unhas
e cartilagens, cravos, pequenos cavalos-marinhos, caroços e pedúnculos,
cacos de louça, anzóis de pescar, às vezes até mesmo
um pente. Por isso, aquele mingau, depois de recolhido, precisava ser desnatado,
passado por um coador. Mas a dificuldade não residia nisso, e sim na maneira
de enviá-lo à Terra. Fazíamos assim: mandávamos o
conteúdo de cada colherada para o alto, manobrando a concha como se fosse
uma catapulta, com ambas as mãos. A ricota voava no ar, e se o impulso
fosse bastante forte ia se esborrachar no teto, ou seja, sobre a superfície
marinha. Ali chegando, ficava à tona e depois era mais fácil recolhê-la
para dentro da barca. Até nesses arremessos, meu primo surdo demonstrava
uma aptidão toda especial; tinha força e pontaria; com um lance
resoluto conseguia acertar o tiro bem dentro de um balde que da barca lhe estendíamos.
Ao passo que eu às vezes fazia um papelão; a colherada não
conseguia vencer a força da atração lunar e vinha de volta
me acertar no olho. Ainda
não lhes disse tudo a respeito dessas operações em que meu
primo era exímio. O trabalho de extrair leite lunar das escamas era para
ele uma espécie de brincadeira: em vez de concha, bastava-lhe às
vezes meter sob as escamas a mão nua, ou apenas um dedo. Não agia
ordenadamente, mas em pontos isolados, deslocando-se aos saltos de um ponto para
o outro, como se quisesse pregar peças à Lua, causar-lhe surpresa
ou mesmo provocar-lhe cócegas. E, onde quer que metesse a mão, o
leite esguichava forte como das tetas de uma cabra. Tanto que nós não
fazíamos outra coisa senão ficar por trás e recolher com
nossas conchas a substância que ele, ora daqui ora dali, fazia esguichar;
mas sempre como que por acaso, pois os itinerários do surdo não
pareciam corresponder a nenhum claro propósito prático. Havia pontos
que tocava, por exemplo, simplesmente pelo prazer de tocá-los: interstícios
entre uma escama e outra, pregas lisas e tenras da polpa lunar. Às vezes,
meu primo não as comprimia com os dedos da mão, e sim - num gesto
bem calculado de seus pulos - com os artelhos (ele subia na Lua de pés
descalços), e isso parecia para ele o máximo do divertimento, a
julgar pelos ganidos que emitia sua úvula e pelos novos saltos que se seguiam. O
solo da Lua não era uniformemente escamoso; ele apresentava zonas irregulares
e nuas de uma escorregadia argila pálida. Esses espaços macios davam
ao surdo a fantasia das cambalhotas ou quase vôos de pássaros, como
se quisesse imprimir na pasta lunar toda a sua figura. E foi assim avançando
que a certo ponto o perdemos de vista. Na Lua havia extensas regiões que
nunca nos despertaram a curiosidade ou nos deram motivo para explorá-las,
e era ali precisamente que meu primo desaparecia; minha idéia era que todas
aquelas cambalhotas e aqueles beliscões com que se comprazia aos nossos
olhos não passavam de uma preparação, um prelúdio,
de algo secreto que devia desenrolar-se nas zonas ocultas. Um
estado de espírito todo especial nos invadia naquelas noites ao largo dos
Escolhos de Zinco; um humor alegre, mas um tanto hesitante, como se dentro do
crânio tivéssemos, em vez do cérebro, um peixe, que flutuasse
atraído pela Lua. E assim navegávamos cantando e tocando instrumentos.
A mulher do capitão tocava harpa; tinha braços muito compridos,
que naquelas noites se mostravam prateados como enguias, e axilas escuras e misteriosas
como ouriços-do-mar; e o som de sua harpa era tão doce e agudo,
tão doce e agudo que quase não o podíamos suportar, e éramos
obrigados a lançar longos gritos, não tanto para acompanhar a música,
mas antes para proteger nossos ouvidos. Medusas
transparentes afloravam à superfície marinha, vibravam um pouco
e levantavam vôo para a Lua, ondulando. A pequena Xlthlx divertia-se em
agarrá-las no ar, porém não era coisa fácil. Certa
vez, estirando os bracinhos para apoderar-se de uma, deu um saltinho e encontrou-se,
também ela, flutuando no ar. Magrinha como era, faltavam-lhe alguns gramas
de peso para que a gravidade a trouxesse de volta para a Terra, vencendo a atração
lunar; assim, ficou voando entre as medusas, suspensa sobre o mar. De repente,
apavorou-se, começou a chorar, depois riu e se pôs a brincar, aparando
no vôo crustáceos e peixinhos, alguns dos quais levava à boca
e mordiscava. Manejávamos a barca para nos mantermos por baixo dela; a
Lua corria em sua elipse, arrastando atrás de si aquele enxame de fauna
marinha pelo céu, e uma longa fileira de algas encaracoladas, com a menina
suspensa em meio àquilo tudo. Tinha duas trancinhas finas, a Xlthlx, que
pareciam voar por conta própria, retesadas para a Lua: mas ela, enquanto
isso, escoiceava, agitava as canelas no ar, como se quisesse combater aquele influxo,
e as meias - havia perdido as sandálias no vôo - escorregavam-lhe
dos pés e balançavam atraídas pela força terrestre.
Em cima da escada, procurávamos agarrá-las. Fora
uma boa idéia a de se pôr a comer os animaizinhos suspensos; quanto
mais Xlthlx ganhava peso, mais propendia para a Terra; além do mais, como
entre todos aqueles corpos em suspensão o seu era o de maior massa, os
moluscos, as algas e o plâncton começaram a gravitar em torno dela,
e logo a menina ficou recoberta de minúsculas conchinhas silíceas,
couraças quitinosas, carapaças e filamentos de ervas marinhas. E,
quanto mais se perdia naquele emaranhado, mais ia se libertando do influxo lunar,
até que aflorou a pele do mar e nele mergulhou. Remamos
rápido para socorrê-la e retirá-la da água: seu corpo
permanecia imantado, e tivemos trabalho para despojá-la de tudo aquilo
que a ela estava agarrado. Moles corais envolviam-lhe a cabeça, e dos cabelos
choviam anchovas e camarõezinhos a cada passada de pente; os olhos estavam
selados por conchas de moluscos que aderiam às pálpebras com suas
ventosas; tentáculos de sépias enrolavam-se em torno de seus braços
e do pescoço; e o vestidinho parecia inteiramente tecido de algas e de
esponjas. Livramo-la do mais grosso; depois ela, por semanas inteiras, continuou
a desprender de si mesma barbatanas e conchas; mas a pele, picotada por minúsculas
diatomáceas, ficou para sempre com a aparência - para quem não
a observasse bem - de estar coberta de um delicado pulverizar de pintas. O
interstício entre a Terra e a Lua era assim disputado por dois influxos
que se equilibravam. Direi mais: um corpo que caía à Terra vindo
do satélite permanecia algum tempo ainda carregado de força lunar
e se opunha à atração do nosso planeta. Até eu, por
grande e gordo que fosse, toda vez que ia lá em cima, custava a reabituar-me
com os altos e baixos da Terra, e os companheiros tinham de me agarrar pelos braços
e manter-me à força, amontoados sobre mim na barca ondulante, enquanto
de cabeça para baixo eu continuava a levantar as pernas para o céu. -
Agarre-se! Agarre-se firme a nós! - gritavam para mim. E
eu, naquele agarrar-me às cegas, acabei certa vez por aferrar uma das mamas
da sra. Vhd Vhd, que as tinha redondas e firmes, e esse contato me pareceu gostoso
e seguro, exercendo sobre mim uma atração semelhante ou ainda mais
forte que a da Lua, principalmente quando naquele mergulho de cabeça eu
conseguia com o outro braço cingi-la pela cintura, e dessa maneira passava
então de volta a este mundo, e caía de chofre no fundo da barca,
até que o capitão Vhd Vhd, para reanimar-me, jogava sobre mim um
balde de água. Foi
assim que começou a história de meu enamoramento pela mulher do
capitão, e a de meus sofrimentos. Porque não demorei a perceber
o que significavam os olhares mais obstinados daquela senhora: quando as mãos
de meu primo pousavam seguras sobre o satélite, eu olhava fixo para ela
e no seu olhar lia os pensamentos que aquela intimidade entre o surdo e a Lua
nela suscitava, e, quando ele desaparecia em suas misteriosas explorações
lunares, via-a mostrar-se inquieta, como se estivesse pisando em brasas, e logo
tudo me pareceu claro, que a sra. Vhd Vhd estava ficando com ciúmes da
Lua e eu com ciúmes de meu primo. Tinha olhos de diamante, aquela sra.
Vhd Vhd; faiscavam, quando olhava para a Lua, quase num desafio, como se dissesse:
"Não o terás!". E eu me sentia excluído. Quem
menos se dava conta de toda essa história era o próprio surdo. Quando
o ajudávamos na descida, puxando-o - como já lhes expliquei - pelas
pernas, a sra. Vhd Vhd perdia toda a reserva esforçando-se para fazê-lo
tombar sobre sua própria pessoa, envolvendo-o com seus longos braços
argênteos; eu sentia um aperto no coração (nas vezes em que
me agarrava a ela, seu corpo era dócil e gentil, mas não se lançava
para a frente como no caso de meu primo), enquanto ele permanecia indiferente,
perdido ainda em seu êxtase lunar. Eu
reparava no capitão, perguntando a mim mesmo se também ele se dava
conta do comportamento da esposa; mas nenhuma expressão se estampava jamais
naquele rosto avermelhado pela salsugem, sulcado de rugas alcatroadas. Como o
surdo era sempre o último a se desprender da Lua, sua descida era o sinal
para que as barcas partissem. Então, com um gesto insolitamente delicado,
Vhd Vhd recolhia a harpa do fundo da barca e a estendia à mulher. Ela era
obrigada a tomá-la e arrancar-lhe algumas notas. Nada a podia afastar mais
do surdo que o som da harpa. Eu ficava cantarolando aquela canção
melancólica, que diz: "Todo peixe brilhante vem à tona, vem
à tona, e todo peixe sombrio vai ao fundo, vai ao fundo...", e todos,
com exceção do surdo, me faziam coro. Todos
os meses, assim que o satélite passava por nós, o surdo reentrava
em seu isolado desprezo pelas coisas do mundo; só o aproximar-se do plenilúnio
o despertava. Daquela vez eu arranjei as coisas de modo a não estar no
grupo dos que subiriam à Lua, a fim de poder ficar na barca junto à
mulher do capitão. E eis que, mal meu primo pôs o pé na escada,
a sra. Vhd Vhd falou: -
Hoje eu também quero ir lá em cima! Jamais
havia acontecido de a mulher do capitão subir à Lua. Mas Vhd Vhd
não se opôs, ao contrário, quase mesmo a empurrou para a escada,
exclamando: - Pois
vá! E todos
nos pusemos a ajudá-la e eu a segurava por trás, e a sentia nos
meus braços roliça e macia, e para sustentá-la apoiava contra
ela as palmas das mãos e o rosto; quando a senti elevar-se à esfera
lunar, invadiu-me uma ansiedade por aquele contato perdido, tanto que comecei
a correr atrás dela, dizendo: -
Subo eu também para ajudá-la! Fui
contido como se por uma mordaça. -
Você fica quieto aí, pois temos muito o que fazer - ordenou-me o
capitão Vhd Vhd sem erguer o tom de voz. Naquele
momento, já as intenções de cada um estavam claras. Contudo,
eu nada concluí, e até hoje não estou seguro de haver interpretado
tudo com exatidão. Sem dúvida a mulher do capitão havia por
muito tempo acalentado o desejo de isolar-se lá em cima com meu primo (ou
pelo menos de não deixar que ele se apartasse sozinho com a Lua), mas é
possível que seu plano tivesse um objetivo mais ambicioso, talvez mesmo
arquitetado em comum acordo com o surdo: esconderem-se os dois lá em cima
e permanecerem na Lua um mês inteiro. Pode ser também que meu primo,
surdo como era, não tivesse compreendido nada do que ela tentara lhe explicar,
ou, melhor ainda, nem mesmo se desse conta de ser objeto dos desejos da senhora.
E o capitão? Não esperava outra coisa senão livrar-se da
esposa, tanto é verdade que, tão logo a mulher se confinou no espaço,
vimo-lo imediatamente entregar-se às suas inclinações e mergulhar
no vício, e agora compreendemos por que nada fizera para impedi-la. Mas
saberia ele, desde o início, que a órbita da Lua estava se alargando? Nenhum
de nós poderia suspeitar. O surdo, talvez apenas o surdo: da maneira larval
com que sabia das coisas, havia pressentido que lhe tocava aquela noite dar adeus
à Lua. Por isso, escondeu-se em seus lugares secretos e só reapareceu
para voltar a bordo. E a mulher do capitão perdeu tempo em segui-lo: vimo-la
atravessar várias vezes a extensão escamosa, para cima e para baixo,
e houve um momento em que se deteve a olhar para nós que ficáramos
na barca, quase a ponto de nos perguntar se o tínhamos visto. Sem
dúvida havia algo de insólito naquela noite. A superfície
do mar, embora tensa como sempre quando era lua cheia, quase arqueada para o céu,
parecia manter-se afastada, frouxa, como se o ímã lunar não
exercesse sobre ela toda a sua força. Além disso, não se
podia dizer que a luz fosse a mesma dos outros plenilúnios, e havia como
que um espessamento das trevas noturnas. Os companheiros que estavam lá
em cima também deviam dar-se conta do que estava acontecendo, pois lançaram
para nós olhares espavoridos. E de suas bocas e das nossas, no mesmo instante,
saiu um grito: - A
Lua está se afastando! Não
havia ainda se dissipado o som daquele grito, quando na Lua apareceu meu primo,
correndo. Não parecia amedrontado, nem mesmo surpreso: apoiou as mãos
no solo na manobra da sua cambalhota de sempre, mas desta vez, depois de haver
se lançado no ar, lá ficou, suspenso, como já havia acontecido
com a menina Xlthlx; então rodopiou um momento entre a Terra e a Lua, ficou
de cabeça para baixo e, com um esforço dos braços como alguém
que ao nadar tivesse de vencer a correnteza, dirigiu-se, com insólita lentidão,
para o nosso planeta. Na
Lua, os outros marinheiros se apressaram em seguir seu exemplo. Ninguém
estava mais pensando em fazer chegar à barca o leite lunar recolhido, nem
o capitão os recriminava por isso. Já haviam esperado demais, a
distância se tornara difícil de atravessar; embora tentassem imitar
o vôo e o nado de meu primo, lá ficaram a bracejar, suspensos em
meio ao céu. -
Ajuntem-se! Imbecis! Ajuntem-se! - gritou o capitão. À
sua ordem, os marinheiros tentaram agrupar-se, fazer um bolo, a fim de se lançarem
juntos para alcançar a zona de atração da Terra: até
que em certo ponto uma cascata de corpos precipitou-se no mar num baque surdo. Os
barqueiros remavam então para recolhê-los. -
Esperem! Está faltando a senhora! - gritei. A
mulher do capitão havia tentado igualmente o salto, mas permanecera flutuando
a poucos metros da Lua, e movia molemente no ar seus longos braços argênteos.
Trepei na pequena escada e, no vão intento de lhe oferecer um ponto de
apoio, estendi a harpa em sua direção. -
Não chega lá! Precisamos ir buscá-la! - E fiz um gesto para
lançar-me, brandindo a harpa. Acima
de mim, o enorme disco lunar já não parecia o mesmo de antes, tanto
havia diminuído, e olhem que ia até se contraindo cada vez mais
como se fosse o meu olhar que o atirasse para longe, e o céu vazio se arreganhasse
como um abismo no fundo do qual as estrelas andavam se multiplicando, e a noite
derramava sobre mim um rio de vácuo, submergindo-me na ansiedade e na vertigem. "Tenho
medo!", pensei. "Tenho medo demais para atirar-me! Sou um covarde!",
e naquele momento mesmo me atirei. Nadava pelo céu furiosamente, e estendia
a harpa para ela, mas, em vez de vir ao meu encontro, ela se revolvia, ora me
mostrando a face impassível, ora o dorso. -
Vamos nos abraçar! - gritei, e já a alcançava, para agarrá-la
para sempre, enlaçando os meus membros nos seus. - Vamos nos abraçar
para cairmos juntos! E
concentrava minhas forças em me unir o mais estreitamente possível
a ela, e minhas sensações no desfrutar a totalidade daquele abraço.
Tanto que custei a dar-me conta de que estava em vez disso arrebatando-a de seu
estado de libração para fazê-la recair na Lua. Não
me dera conta? Ou talvez fosse essa desde o princípio a minha verdadeira
intenção? Não havia ainda conseguido formular o pensamento,
quando já um grito irrompeu da minha garganta: -
Eu é que vou ficar um mês junto com você! - E até mesmo:
- Em cima de você! - gritava, na minha excitação: - Eu em
cima de você um mês inteiro! - E naquele momento a queda sobre o solo
lunar havia desfeito o nosso abraço, e roláramos eu para um lado
e ela para o meio das frias escamas. Ergui
os olhos como fazia sempre que tocava a crosta da Lua, seguro de encontrar acima
de mim o mar natal como um teto infinito, e o vi, sim, o vi ainda esta vez, mas
muito mais alto, e muito exiguamente limitado por seus contornos de costas, promontórios
e escolhos, e como me pareceram pequeninas as barcas e irreconhecíveis
os vultos dos companheiros e débeis os seus gritos! Um som chegou-me de
pouca distância: a sra. Vhd Vhd havia encontrado a harpa e a acariciava,
provocando um acorde triste como um pranto. Começou
um longo mês. A Lua girava lenta em torno da Terra. No globo suspenso já
não víamos nossa praia familiar, mas uma sucessão de oceanos
profundos como abismos, e desertos de seixos incandescentes, e continentes de
gelo, e florestas borbulhantes de répteis, e os paredões rochosos
das cadeias de montanhas talhados pela lâmina de rios precipitosos, e cidades
palustres, e necrópoles de tufo, e impérios de argila e lama. A
distância espalhava sobre todas as coisas uma cor uniforme: as perspectivas
estranhas tornavam estranhas todas as imagens; bandos de elefantes e nuvens de
gafanhotos percorriam as planícies tão igualmente vastas e densas
e fechadas que não havia diferença. Eu
deveria estar feliz: como nos meus sonhos estava sozinho com ela, a intimidade
com a Lua tantas vezes invejada a meu primo com a senhora Vhd Vhd era agora um
privilégio exclusivo meu, um mês de dias e noites lunares estendia-se
ininterrupto diante de nós, a crosta do satélite nos alimentava
com seu leite de sabor acidulado e familiar, o nosso olhar se erguia para o mundo
onde havíamos nascido, finalmente percorrido em toda a sua multiforme extensão,
explorado nas paisagens jamais vistas pelos seres terrestres, ou então
contemplava as estrelas que havia além da Lua, enormes como frutos de luz
amadurecidos nos recurvos ramos do céu, e tudo ultrapassava as expectativas
mais luminosas, mas, em vez disso, era o exílio. Só
pensava na Terra. Era a Terra que fazia com que alguém fosse de fato alguém
e não outro qualquer; lá em cima, arrebatado da Terra, era como
se eu não fosse mais eu mesmo, nem ela para mim aquela que foi. Estava
ansioso por voltar à Terra, e tremia no temor de havê-la perdido.
A extensão de meu sonho de amor havia durado apenas aquele instante em
que havíamos rodado abraçados entre a Terra e a Lua; privada de
seu terreno terrestre, minha paixão só provava a nostalgia lancinante
daquilo que nos faltava: um onde, um em torno, um antes, um depois. Isso
era o que eu provava. Mas e ela? Ao me fazer tal pergunta, sentia-me dividido
em meus temores. Porque, se ela também só pensasse na Terra, isso
podia ser um bom sinal, o de um entendimento afinal alcançado, no entanto
podia ser igualmente sinal de que tudo havia sido inútil, de que era ainda
só para o surdo que se dirigiam todos os seus desejos. Mas não,
nada disso. Ela jamais erguia o olhar para o velho planeta, pálida perambulava
por aquelas landes, murmurando nênias e acariciando a harpa, como compenetrada
de sua provisória (como eu achava) condição lunar. Significava
isso que eu tinha vencido o meu rival? Não; que havia perdido; uma derrota
desesperada. Porque ela havia compreendido que o amor de meu primo era apenas
pela Lua, e tudo o que ela desejava então era transformar-se em Lua, assimilar-se
ao objeto daquele amor extra-humano. Tendo
a Lua completado a sua volta do planeta, eis que nos encontramos de novo sobre
os Escolhos de Zinco. Foi com desalento que os reconheci: nem mesmo em minhas
mais negras previsões esperava vê-los tão apequenados na distância.
Naquele charco de mar os companheiros tinham voltado a navegar, agora sem a escada
portátil, que se tornara inútil; mas das barcas ergueu-se como uma
selva de longas lanças; cada um deles brandia a sua, disposta em cima de
um arpão ou gancho, talvez na esperança de arrancar ainda um pouco
da última ricota lunar ou quem sabe para levar a nós pobres lá
no alto algum auxílio. Porém, logo se tornou claro que elas não
tinham comprimento suficiente para atingir a Lua; e tombavam, ridiculamente curtas,
aviltadas, ficando a balouçar nas águas; e houve barcas que, naquela
confusão, acabaram por virar. Mas eis que, então, de outra embarcação
começou a erguer-se uma vara mais longa, arrastada até ali por sobre
a superfície do mar: devia ser de bambu, de muitas e muitas varas de bambu,
engastadas umas nas outras, e para erguê-la era preciso proceder com cautela
a fim de que - leve como era - as oscilações não a quebrassem,
e manobrá-la com muita força e perícia, para que todo aquele
peso vertical não desequilibrasse a barca. E
aconteceu: estava claro que a ponta daquela haste havia tocado a Lua, e vimo-la
roçar o solo escamoso, nele fazer pressão e apoiar-se um momento,
dar quase um pequeno empurrão, e mesmo um forte empurrão que a fazia
afastar-se de novo, e depois voltar a feri-la naquele mesmo ponto como em ricochete,
e de novo afastar-se. E então reconheci, ou reconhecemos nós dois
- eu e a senhora Vhd Vhd -, que era meu primo, não poderia ser outro, a
fazer sua última brincadeira com a Lua, um truque dos seus, com a Lua na
ponta da vara como se esta estivesse em equilíbrio. E percebemos que sua
habilidade não visava a nada, não pretendia obter nenhum resultado
prático, até mesmo poderíamos dizer que a estava empurrando
mais ainda para longe, a Lua, que estava ajudando esse afastamento, que a queria
acompanhar em sua órbita mais distante. E também isso era muito
próprio dele: dele que não sabia conceber desejos em contraste com
a natureza da Lua e seu curso e seu destino, e, se a Lua agora tendia a distanciar-se
dele, pois então se rejubilava com esse afastamento como até agora
se rejubilara com sua vizinhança. Que
devia fazer, diante daquilo, a sra. Vhd Vhd? Só naquele instante ela demonstrou
até que ponto sua paixão pelo surdo não era um frívolo
capricho, e sim um voto sem retorno. Se o que meu primo amava era a Lua distante,
ela iria permanecer distante, na Lua. Isso intuí, vendo que ela não
dava um só passo em direção ao bambu, apenas voltava a harpa
em direção à Terra, alta no céu, beliscando-lhe as
cordas. Disse que a vi, mas na realidade foi só com o canto do olho que
captei sua imagem, pois mal a haste havia tocado a crosta lunar, eu saltei para
agarrar-me a ela, e rápido como uma serpente deslizava pelos nós
do bambu, subia com movimentos dos braços e joelhos, leve no espaço
rarefeito, como impelido por uma força natural a me ordenar que voltasse
à Terra, esquecendo o motivo que me havia feito ir lá em cima, ou
talvez mesmo mais consciente que nunca dele e de seu desfecho malogrado, e já
a escalada pela haste ondulante chegava ao ponto em que não devia fazer
mais esforço algum, apenas deixar-me escorregar de cabeça atraído
pela Terra, até que naquela corrida a vara se rompeu em mil pedaços
e caí no mar por entre as barcas. Era
o doce retorno, a volta à pátria, entretanto meu pensamento era
só de dor por aquela que perdera, e meus olhos se dirigiam para a Lua para
sempre inalcançável, procurando-a. E a vi. Estava lá onde
a havia deixado, estendida numa praia situada exatamente acima de nossas cabeças,
sem dizer nada. Estava da cor da Lua; segurava a harpa de lado e movia uma das
mãos em lentos e raros arpejos. Distinguia-se bem a forma do peito, dos
braços, dos flancos, assim como agora a recordo, agora que a Lua se tornou
aquele círculo achatado e distante, e eu continuo sempre a buscá-la
com o olhar mal se mostra no céu o primeiro crescente, e quanto mais vai
crescendo, mais imagino vê-la, ela ou qualquer coisa dela, porém
nada mais que ela, em cem em mil visões distintas, ela que faz da Lua a
Lua e que faz a cada plenilúnio os cães ladrarem a noite inteira
e eu com eles. |