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Viagem à Lua, de Cyrano de Bergerac (tradução de Fulvia M.L. Moretto; Globo; 240 páginas; 29 reais) – Muitas lendas românticas se criaram em torno do escritor francês Cyrano de Bergerac (1619-1655) e seu proverbial narigão. Nenhuma supera a surpresa e a originalidade de sua literatura. Espécie de romance de ficção científica avant la lettre, Viagem à Lua, com sua fantasia exuberante, seu deboche das autoridades religiosas e sua divulgação de novas idéias científicas, tinha um conteúdo explosivo para a época. Foi publicado pela primeira vez dois anos depois da morte do autor, com vários trechos expurgados – e o texto integral só foi restabelecido no século XX. A presente edição traz ainda cartas de Cyrano, que incluem ataques ferinos a seus inimigos e até considerações heréticas sobre a feitiçaria.

Leia trecho

ERA LUA CHEIA, o céu estava claro, e haviam soado nove horas da noite quando voltávamos de uma casa próxima a Paris, quatro amigos e eu. Os diversos pensamentos que nos provocaram a visão daquela bola de açafrão nos entretiveram no caminho. Com os olhos mergulhados naquele grande astro, ora um de nós o tomava por uma lucarna do céu, através da qual entrevíamos a glória dos bem-aventurados, ora um outro protestava que era a platina em que Diana prepara as voltas3 de Apolo, ora outro exclamava que poderia perfeitamente ser o próprio Sol que, tendo à noite se despojado de seus raios, olhava através de um buraco o que se fazia no mundo quando ele lá não mais estava.

"E eu", disse, "que desejo misturar meu entusiasmo aos vossos, creio, sem me deter nas imaginações desabridas com que estimulai o tempo para fazê-lo avançar mais depressa, que a Lua é um mundo como este, ao qual o nosso serve de lua."

O grupo obsequiou-me com uma boa gargalhada. "Assim, talvez", disse-lhes, "há quem se divirta na Lua com alguém que afirme que este nosso globo é um mundo." Mas aleguei em vão que Pitágoras, Epicuro, Demócrito e, em nossa época, Copérnico e Kepler, tinham essa opinião; apenas os fiz esganiçar-se ainda mais.

Esse pensamento, cuja ousadia divagava em meus humores, fortalecido pela contradição, mergulhou tão profundamente em mim que, durante o resto do caminho, permaneci carregado de mil definições de lua, das quais não podia me libertar; e à força de apoiar essa idéia burlesca com raciocínios sérios, quase os aceitei, mas escuta, leitor, o milagre ou o acidente de que se serviram a Providência ou o acaso para mo confirmar.

Estava de volta à minha casa, para descansar do passeio, acabara de entrar em meu quarto quando encontrei sobre a minha mesa um livro aberto que eu não colocara lá. Eram as obras de Cardano;4 e embora eu não tivesse a intenção de lê-las, minha vista caiu, como obrigada, justamente sobre uma história contada por aquele filósofo: escreve ele que, ao estudar à noite, à luz de vela, percebeu que haviam entrado, através das portas fechadas de seu quarto, dois velhos altos, os quais, interrogados longamente, responderam que eram habitantes da Lua e, tendo-o dito, desapareceram.

Permaneci tão surpreso, tanto por ver um livro que para lá fora sozinho, quanto pela época e pela folha em que estava aberto, que tomei todo esse encadeamento de incidentes por uma experiência de Deus que me impelia a dar a conhecer aos homens que a Lua é um mundo.

"Como!", dizia comigo mesmo, "após ter, todo o dia de hoje, falado de uma coisa, um livro, que é talvez o único no mundo em que tal matéria é tratada, voar de minha biblioteca para a minha mesa, tornar-se capaz de raciocinar para abrir-se justamente no lugar de um fato tão maravilhoso, e fornecer em seguida à minha fantasia as reflexões, e à minha vontade os desígnios que formulo!... Sem dúvida", continuei, "os dois velhos que apareceram a esse grande homem são os mesmos que deslocaram meu livro e que o abriram nesta página para poupar o trabalho de repetir-me essa arenga que fizeram a Cardano."

"Mas", acrescentei, "eu não poderia esclarecer esta dúvida sem subir até lá?"

"E por que não?", respondi logo a mim mesmo. "Prometeu foi, efetivamente, ao céu para roubar fogo."

A tais repentes de febre alta, sucedeu a esperança de conseguir realizar uma tão bela viagem. Para isso encerrei-me numa casa de campo bastante afastada onde, após ter embalado meus devaneios, com algumas maneiras capazes de fazê-lo, eis como me lancei ao céu. Eu fixara ao redor do meu corpo uma grande quantidade de frascos cheios de orvalho e o calor do Sol que os atraía elevou-me a tal altitude, que ao final encontrei-me acima das mais altas nuvens. Mas como essa atração me fazia subir com demasiada rapidez, e como em lugar de me aproximar da Lua, como pretendia, ela me parecia mais afastada do que à minha partida, quebrei vários de meus frascos, até sentir que meu peso vencia a atração e que eu descia em direção à Terra.

Minha opinião não estava errada, pois caí nela novamente algum tempo depois e, comparando com a hora da partida, devia ser meia-noite. Todavia, reconheci que o Sol se encontrava então no mais alto ponto do horizonte e que era meio-dia. Podeis imaginar como me senti surpreso: evidentemente, eu o senti de maneira tão correta que, não sabendo a que atribuir tal milagre, tive a insolência de imaginar que, por consideração para com minha ousadia, Deus ainda uma vez havia refixado o Sol nos céus, a fim de iluminar um tão generoso empreendimento.

O que aumentou meu assombro foi o fato de não conhecer a região em que me encontrava, pois que me parecia que, tendo subido verticalmente, eu devia ter descido no mesmo lugar de onde partira. Equipado como estava, encaminhei-me para uma choupana em que percebi fumaça; e encontrava-me apenas à distância de um tiro de pistola quando me vi rodeado por um grande número de selvagens. Pareceram muito surpresos ao ver-me, pois eu era a primeira pessoa, creio, que já tinham visto vestida de garrafas. E, para destruir ainda mais todas as interpretações que teriam podido dar a tal traje, viam que ao caminhar eu quase não tocava o chão: assim, não sabiam que, ao primeiro impulso que eu dava ao meu corpo, o calor dos raios do Sol me levantavam com meu orvalho, e como meus frascos não eram mais suficientemente numerosos, eu teria podido, diante deles, elevar-me nos ares. Quis abordá-los, mas como se o pavor os tivesse transformado em pássaros, um instante os viu perderem-se na floresta próxima. Todavia, agarrei um, cujas pernas sem dúvida traíra o coração. Perguntei- lhe com muita dificuldade (pois eu estava ofegante) a que distância estava Paris, desde quando na França as pessoas andavam completamente nuas, e por que fugiam com tanto terror. O homem a quem eu falava era um velho, cor de azeitona, que logo se lançou aos meus joelhos e, juntando as mãos ao alto atrás da cabeça, abriu a boca e fechou os olhos. Resmungou por muito tempo, mas não discerni que não articulava, e assim tomei sua linguagem pelo sussurro de um mudo.

Depois de algum tempo, vi chegar um grupo de soldados a toque de caixa e notei dois que se separaram do grupo para examinar- me. Ao se encontrarem suficientemente perto para me ouvir, perguntei-lhes onde estava.

"Estais na França", responderam-me, "mas quem diabo vos pôs nesse estado? E por que não vos conhecemos? Os navios terão chegado? E ides comunicá-lo ao senhor governador? E por que repartistes nossa aguardente em tantas garrafas?"

A tudo aquilo repliquei que o diabo não me pusera naquele estado, que eles não me conheciam porque não podiam conhecer todos os homens; que eu não sabia que o Sena podia carregar navios; que nada tinha a comunicar ao sr. De Montbazon; e que eu não estava carregando aguardente.

"Oh! Oh!", disseram-me, tomando-me pelo braço, "bancais o atrevido? O senhor governador vos identificará perfeitamente." Levaram-me a seu chefe, falando-me dessa maneira, e soube assim que eu estava na França, e não na Europa, pois estava na Nouvelle France.5 Fui apresentado ao sr. De Montmagny, que era seu vice-rei. Perguntou-me qual era meu país, meu nome e meu título; e quando se mostrou satisfeito, ao contar-lhe eu o agradável resultado de minha viagem, que o tivesse acreditado ou fingido acreditar, teve a bondade de oferecer-me um quarto em sua residência. Minha felicidade foi grande ao encontrar um homem capaz de grandes idéias e que se surpreendeu quando eu lhe disse que a Terra deveria ter girado durante a minha subida, visto que, tendo começado a elevar-me a duas línguas de Paris, eu caíra perpendicularmente no Canadá.

À noite, quando ia deitar-me, vi-o entrar no meu quarto: "Eu não teria vindo interromper vosso descanso", disse-me, "se não tivesse pensado que uma pessoa que pôde fazer novecentas léguas, em meia jornada, pôde fazê-las sem se cansar. Mas não sabeis", acrescentou, "a divertida querela que acabo de ter com nossos padres jesuítas? Eles querem imperiosamente que sejais feiticeiro; e a maior graça que podeis obter deles é não passar apenas por um impostor. E, na verdade, esse movimento que atribuís à Terra não é um belo paradoxo; o que faz com que eu não tenha certeza sobre vossa opinião é que, embora ontem tivésseis partido de Paris, podeis ter chegado hoje a esta região sem que a Terra tenha girado; pois tendo o Sol vos elevado através de vossas garrafas, não deve ele ter-vos trazido aqui visto que, segundo Ptolomeu, Tycho Brahe e os filósofos modernos, andará ele do mesmo modo com que fazeis andar a Terra? E, além disso, que grandes probabilidades tendes, para imaginar que o Sol esteja imóvel quando o vemos andar? E que a Terra gire sobre o seu centro com tanta rapidez, quando a sentimos firme abaixo de nós?"

"Senhor", repliquei-lhe, "eis as razões que nos obrigam a prejulgá- lo. Em primeiro lugar, o senso comum nos faz crer que o Sol tomou seu lugar no centro do universo, visto que todos os corpos que se encontram na natureza precisam desse fogo radical que habita no coração do reino, para estar em estado de satisfazer prontamente suas necessidades e para que a causa das gerações seja colocada igualmente entre os corpos, onde ela age, assim como a sábia natureza colocou as partes genitais no homem, as sementes no centro das maçãs, o caroço no centro de sua fruta, e assim como a cebola conserva, ao abrigo de cem cascas que a envolvem, o precioso germe no qual outros dez milhões têm de extrair sua essência. Pois essa pequena maçã é em si mesma um pequeno universo, cuja semente, mais quente do que as outras partes, é o sol que derrama ao seu redor o calor, conservador de seu globo; e esse germe, dentro dessa cebola, é o pequeno sol desse pequeno mundo, que aquece e alimenta o sal vegetativo dessa massa. "Com essa suposição, digo que, tendo a Terra necessidade de luz, de calor, e da influência desse grande fogo, ela gira ao redor dele para receber igualmente em todas as partes essa virtude que a conserva. Pois, seria tão ridículo crer que esse grande corpo luminoso gire ao redor de um ponto que para ele nada significa quanto imaginar, quando vemos uma andorinha assada, que para cozê-la, foi preciso girar o fogão ao seu redor. De outra forma, se coubesse ao Sol fazer esse trabalho, pareceria que a medicina tivesse necessidade do doente; que o forte tivesse de curvar-se sob o fraco; que o grande tivesse de servir o pequeno; e que, em lugar de um navio singrar ao longo do litoral de uma província, fosse preciso conduzir a província ao redor do navio.

"Se tendes dificuldade para compreender como uma massa tão pesada pode mover-se, dizei-me, rogo-vos, os astros e os céus que considerais tão sólidos serão mais leves? Nós, pelo menos, que temos a certeza da redondeza da Terra, temos facilidade em deduzir seu movimento por seu traçado. Mas, por que supor o céu redondo, visto que não o poderíeis saber, e já que, se de todas as figuras, ele não possui esta última, será certo que ele não pode se mover? Não vos censuro vossos excêntricos,6 vossos concêntricos,7 nem vossos epiciclos,8 os quais somente saberíeis explicar muito confusamente e com os quais salvo meu sistema. Falemos apenas das causas naturais desse movimento.

"Quanto a vós, sois obrigados a recorrer às inteligências que movimentam e governam vossos globos. Mas eu, que sem interromper o repouso do Ser Soberano, que sem dúvida criou a natureza absolutamente perfeita e cuja sabedoria, dando-lhe o acabamento segundo o qual foi realizada para uma coisa, não a tornou defeituosa para outra; quanto a mim, digo, vejo na Terra virtudes que a fazem mover-se. Digo, portanto, que os raios do Sol, com suas influências, ao vir atingi-la pela sua circulação, a fazem girar como fazemos girar um globo batendo-lhe com a mão; ou que as fumaças que se evaporam continuamente de seu seio no lado em que o Sol a observa, repercutidas pelo frio da região média, jorram novamente sobre ela e, necessariamente, podendo apenas atingi-la de viés, a fazem, assim, piruetar.

"A explicação dos dois outros movimentos é ainda menos complicada, considerai, por favor..."

Diante dessas palavras, o sr. De Montmagny interrompeu-me: "Prefiro", disse, "dispensar-me desse trabalho, afinal li sobre esse assunto alguns livros de Gassendi,9 com a condição de que escuteis o que me respondeu um dia um de vossos padres que defendia vossa opinião.

"De fato", dizia ele, "imagino que a Terra gire, não pelas razões alegadas por Copérnico, mas sim porque o fogo do inferno, como nos ensina a Santa Escritura, estando encerrado no centro da Terra, os condenados que desejam fugir do ardor da chama trepam em direção da abóbada e fazem assim girar a Terra, como um cão faz girar uma roda, quando corre, encerrado nela".

Louvamos, por algum tempo, o zelo do bom padre, e, terminado seu panegírico, o sr. De Montmagny disse que estava muito surpreso que o sistema de Ptolomeu, sendo tão pouco provável, tivesse sido aceito sem reservas.

"Senhor", respondi-lhe, "os homens, na maioria, que somente julgam pelos sentidos, deixaram-se persuadir por seus olhos; e, assim como aquele cujo navio navega sem perder de vista a terra, julga permanecer imóvel e que a costa caminha, da mesma forma os homens, girando com a Terra ao redor do céu, julgaram que era o próprio céu que girava ao redor deles. Acrescentai a isso o orgulho insuportável dos humanos, que os persuade de que a natureza somente foi feita para eles, como se fosse verossímil que o Sol, um grande corpo, quatrocentas e trinta e quatro vezes mais vasto do que a Terra, somente tenha sido aceso para amadurecer suas nêsperas e fazer crescer suas couves. Quanto a mim, bem longe que concordar com a audácia desses brutos, creio que os planetas são mundos ao redor do Sol e que as estrelas fixas são também sóis que possuem planetas ao seu redor, isto é, mundos que não vemos daqui por causa de sua pequenez e porque sua luz emprestada não poderia chegar até nós. Pois, como imaginar, sinceramente, que tais globos tão amplos não sejam apenas grandes campos desertos e que o nosso, porque nele rastejamos como uma dúzia de orgulhosos velhacos, tenha sido feito para comandar todos? Como! Porque o Sol calcula nossos dias e nossos anos, quer isso dizer que ele somente tenha sido feito para que não batamos a cabeça nas paredes? Não, não, se este Deus invisível ilumina o homem é por acidente, como a tocha do rei ilumina por casualidade o carregador que passa pela rua."

"Mas", disse-me ele, "se, como afirmais, as estrelas fixas são outros tantos sóis, poder-se-ia concluir disso que o mundo seria infinito, visto que é verossímil que os povos desses mundos que estão ao redor de uma estrela fixa que tomais por um sol descubram ainda, acima deles, outras estrelas fixas que não poderíamos perceber daqui e que a coisa continue eternamente dessa maneira." "Não tenhais dúvidas", repliquei-lhe, "assim como Deus pôde fazer a alma imortal, pôde fazer o mundo infinito, se é verdade que a eternidade não é outra coisa senão uma duração sem limites e o infinito, uma extensão sem limites. E, além disso, Deus seria ele mesmo finito, se supomos que o mundo não seja infinito, visto que não poderia existir onde não existisse nada, e visto que ele não poderia aumentar o tamanho do mundo sem acrescentar alguma coisa à sua própria extensão, começando a existir onde não existia antes. Portanto, é preciso crer que, assim como daqui vemos Saturno e Júpiter, se estivéssemos num ou noutro descobriríamos muitos mundos que não percebemos daqui, e que o universo é eternamente construído dessa maneira."

"Para dizer a verdade", replicou ele, "podeis dizer o que quiserdes, eu, absolutamente, não poderia entender este infinito."

"Ora, dizei-me", disse-lhe eu, "compreendeis melhor o nada que se encontra mais além? De modo nenhum. Quando pensais nesse nada, vós o imaginais pelo menos como vento, como ar, e isso já é alguma coisa, mas o infinito, se não o compreendeis como um todo, vós o compreendeis pelo menos por partes, pois não é difícil imaginar a terra, o fogo, a água, o ar, os astros, os céus. Ora, o infinito não é nada mais do que uma textura sem limites de tudo isso. Decerto, se me perguntardes de que maneira esses mundos foram feitos, tendo em vista que a Santa Escritura fala somente de um que Deus criou, respondo que ela fala apenas do nosso porque ele é o único que Deus quis dar-se o trabalho de fazer com as próprias mãos, mas todos os outros que vemos, ou que não vemos, suspensos no azul do universo, nada são a não ser a espuma dos sóis que se purificam. Pois de que modo esses grandes fogos poderiam subsistir se não estivessem ligados a alguma matéria que os alimenta? "Ora, como o fogo lança longe de si a cinza que o abafa, assim com o ouro no cadinho se separa, destacando-se da marcassita que enfraquece seu quilate, e assim como o nosso estômago se liberta pelo vômito dos humores indigestos que o atacam, assim o Sol vomita todos os dias e se purifica dos restos da matéria que alimenta seu fogo. Mas quando ele tiver consumido totalmente essa matéria que o alimenta, não deveis duvidar de que não se espalhe por todos os lados para procurar outro pasto e que não se ligue a todos os mundos que tiver construído outrora, particularmente os que estiverem mais próximos; então, esse grande fogo, misturando novamente todos os corpos, lançá-los-á de novo em confusão por todos os lados, como antes e, tendo-se pouco a pouco purificado, começará a servir de sol a todos esses pequenos mundos que engendrará, empurrando-os para fora de sua esfera. Foi o que, sem dúvida, fez com que os pitagóricos predicassem o abrasamento universal. "Isso não é uma idéia ridícula; a Nouvelle France, onde nos encontramos, fornece um exemplo bem convincente. Este vasto continente da América é uma metade da Terra, a qual, não obstante nossos predecessores que haviam mil vezes singrado o oceano, ainda não fora descoberta; de fato, ela ainda era então muitas ilhas, penínsulas e montanhas que se ergueram sobre o nosso globo, quando as ferrugens do Sol, que se limpa, foram lançadas para bem longe, e condensadas em novelos suficientemente pesados para serem atraídos pelo centro de nosso mundo, talvez pouco a pouco, em pequenas partículas, talvez também de repente em uma massa. Isso não é tão despropositado, a ponto de santo Agostinho não o ter aplaudido, se a descoberta desta região tivesse sido feita em sua época, visto que esse grande personagem, cujo gênio era iluminado pelo Espírito Santo, assegura que em seu tempo a Terra era chata como uma bolacha e que ela nadava sobre a água como a metade de uma laranja cortada. Porém, se eu tiver um dia a honra de vos ver na França, far-vos-ei observar, por meio de uma excelente luneta que possuo, que certas obscuridades que aqui parecem manchas são mundos que estão se construindo."

Meus olhos, que se fechavam enquanto acabava estas palavras, obrigaram o sr. De Montmagny a desejar-me boa-noite. No dia seguinte e nos subseqüentes tivemos conversas desse mesmo tipo. Mas, como algum tempo depois os obstáculos dos negócios da província detiveram nossa filosofia, voltei ainda com maior interesse ao desígnio de subir à Lua.

Logo que ela se erguia, eu ia para os bosques (sonhando), com a organização e o sucesso de meu empreendimento. Enfim, um dia, na véspera de São João, em que o conselho estava reunido no forte para determinar se se daria aos selvagens da região ajuda contra os iroqueses,10 dirigi-me sozinho para trás da nossa morada, no cume de uma pequena montanha, onde executei o seguinte: Com uma máquina que construí, e que imaginava ser capaz de elevar-me tanto quanto desejasse, precipitei-me no ar do alto de uma rocha. Mas, como não havia tomado bem minhas medidas, caí violentamente no vale.

Confuso como estava, voltei ao meu quarto, sem, contudo, desencorajar-me. Lancei mão de medula de boi com a qual ungi todo o corpo, pois estava machucado da cabeça aos pés, e, após ter-me fortalecido a coragem com uma garrafa de essência cordial, voltei para a minha máquina. Mas não a encontrei, pois alguns soldados, enviados à floresta para cortar madeira para a fogueira de São João, que deveria ser acesa à noite, tendo-a encontrado por acaso, a haviam levado ao forte. Após várias explicações sobre o que aquilo poderia ser, quando foi descoberto o mecanismo, alguns haviam dito que era preciso prender ao seu redor uma quantidade de foguetes voadores para que sua rapidez tendo-o elevado muito, e tendo o mecanismo agitado suas grandes asas, ninguém deixaria de tomar essa máquina por um dragão de fogo.

 

3. Grandes golas em moda no século XVI e início do século XVII. (N. T.)
4. Girolamo Cardano (1501-1576), filósofo, médico e matemático italiano. (N. T.)
5. Nos séculos XVII e XVIII, nome das possessões francesas no Canadá. (N. T.)
6. Que estão fora do centro. (N. T.)
7. Que têm o mesmo centro. (N. T.)
8. Segundo o Dicionário Aurélio, "Nos sistemas cosmológicos de Ptolomeu, o círculo imaginário que cada planeta descrevia em torno do deferente enquanto este girava em torno da Terra". (N. T.)
9. Pierre Gassendi (1592-1655), filósofo, astrônomo e cientista francês, seguidor de Copérnico e de Galileu. (N. T.)


 
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