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Sombra de Allan Poe,
de Matthew Pearl (tradução de Maria Inês Duque Estrada; Ediouro;
400 páginas; 44,90 reais) Mestre do conto de horror, o americano
Edgar Allan Poe (1809-1849) morreu em circunstâncias misteriosas. Saiu de
Richmond, onde morava, em viagem a Nova York, com uma escala prevista na Filadélfia,
mas, depois de um sumiço de cinco dias, acabou aparecendo, doente e desorientado,
em uma taverna de Baltimore, cidade onde morreu quatro dias mais tarde. Autor
de O Clube Dante, romance policial que envolvia os primeiros tradutores
americanos da Divina Comédia, Matthew Pearl toma os dias finais
de Poe como ponto de partida para um thriller histórico em que um devoto
leitor de Os Crimes da Rua Morgue resolve investigar os detalhes da morte
do escritor.
Leia
trecho Olhei
para ele desconcertado. -
A morte de Poe! – ele disse. – Não é maravilhoso? Estudei
o estranho. -
Maravilhoso? -
Com certeza – ele disse de maneira suspeita -, o senhor considera Poe um gênio? -
Do mais alto grau! -
Certamente o senhor acha que não há melhor prosa escrita no mundo
do que "O escaravelho de ouro"? -
Só "Uma descida no Maelström" – repliquei. -
Bem, então é maravilhoso, não é que ela afinal receba
a atenção que merece por parte dos editores dos jornais? Quero dizer,
a triste morte de Poe – ele disse e depois fez um aceno com o chapéu para
o funcionário antes de deixar a sala. -
Mas me diga... o que chamou a sua atenção? – o funcionário
me perguntou. -
Os jornais, ora... – e meus pensamentos se perderam ao lembrar o que o outro homem
dissera. Apontei para a porta. – Quem era aquele senhor que estava aqui, o que
acaba de ser despedir? O
funcionário não sabia. Pedi desculpas e saí correndo até
a esquina da Saratoga Street mas não vi mais sinal dele. Fiquei
tão chocado com a coincidência desses fenômenos – os jornais,
o estranho entusiasta de Poe, a inquietação que dominava a cidade
– que de início não prestei muita atenção a uma mulher
de bochechas e cabelo prateado sentada em um banco não muito longe da biblioteca.
Ela lia um livro de poemas de Edgar A. Poe! A esse respeito, devo dizer, situo-me
num posto de observação privilegiado. Tendo comprado cada volume
publicado dos escritos de Poe, eu era capaz de reconhecer as edições
a grande distância pelos mínimos detalhes de aparência, tamanho
e ilustrações, típicos de cada uma delas. Suponho que minha
empáfia seja atenuada pelo fato de que não havia muitas edições.
Poe não gostava das poucas que foram publicadas. "As editoras trapaceiam",
ele se lamentou em uma carta para mim. "Ser controlado é ficar arruinado.
Estou decidido a ser meu próprio editor". Isto, entretanto, não
se concretizaria. Suas finanças pessoais estavam em desordem, e os periódicos
eram mesquinhos no pagamento pelas histórias dele. Parei
ao lado do banco da mulher e a observei virar com o dedo as páginas manchadas
e com as pontas dobradas. Por sua vez, ela não reparou em mim, tão
enlevada estava com as últimas páginas do conto, o sublime colapso
de "A queda da Casa de Usher". Antes que eu me desse conta, porém,
ela fechou o livro com ar de profunda satisfação e saiu em disparada,
como se desejasse escapar dos destroços dos Ushers. Decidi
perguntar a um livreiro das redondezas se ele estava acompanhando a nova discussão
pública a respeito de Poe. Era um dos livros menos inclinados a encher
suas prateleiras com caixas de charuto e retratos de índios, o que se tornara
uma tendência crescente entre esses estabelecimentos, uma vez que cada vez
mais as pessoas compravam livros por encomenda. Detive-me logo à entrada
da loja ao ver outra mulher, desta vez cometendo o mais singular dos crimes. Ela
estava diante de uma dessas escadas usadas para examinar as prateleiras mais altas.
O crime, se é que pode ser qualificado como tal, não era o furto
de um livro, o que já seria digno de nota e estranho o bastante, mas a
colocação de um livro, que estava enrolado em seu xale, na prateleira.
Então ela se moveu para o degrau acima e acrescentou mais um livro à
coleção da loja. A visão que eu tinha dela era prejudicada
pelos raios vindos da grande clarabóia mas pude perceber que usava vestido
e chapéu de boa qualidade; não era uma das alegres borboletas encontradas
na Baltimore Street. A pele de seu pescoço possuía um tom dourado,
assim como a nesga de braço sob a luva. Ela desceu da escada e derrubou
uma coluna de prateleiras. Dirigi-me ao corredor paralelo e a encontrei à
minha espera no fim do mesmo. -
Não é educado para um homem – ela disse em francês franzindo
os lábios cruzados pela cicatriz – ficar olhando assim. -
Bonjour! – minha antiga seqüestradora na fortaleza de Paris, a compatriota
do Barão Dupin, estava diante de mim. – Muitas desculpas... sabe, às
vezes fico com o olhar parado numa espécie de transe hipnótico. Mas
desta vez não havia sido um daqueles transes. Sua beleza fatal me estonteou
ao primeiro olhar e então me virei para o outro lado para romper seu domínio
sobre mim. Depois de me recuperar, sussurrei: -
Mas o que é isto que você está fazendo? Ela
sorriu, como se fosse óbvio. (Págs:.
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