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As
Pernas da Tia Corália, de
Antonio Prata (Objetiva; 92 páginas; 21,90 reais)
Filho do escritor Mario Prata, o estreante Antonio Prata, de 25
anos, herdou de seu pai o gosto por um gênero literário:
a crônica. Nesse seu primeiro livro, ele demonstra que tem
luz própria e se coloca como uma boa promessa do humor
nacional. Prata escreve textos leves e espirituosos, às vezes
com toques surreais. Em Terça-Feira de Manhã,por
exemplo, narra uma bizarra calamidade mundial cujo ponto de partida
é uma epidemia de calvície. Outra crônica divertida
é Reflexões sobre a Planta Ovo: um Babaganuch Existencial,
na qual ele tece divagações acerca da berinjela.
Com uma imaginação dessas, o pai que se cuide.
Leia
trechos do livro
Terça-feira
de manhã
É
geral. Tanto em Teófilo Otoni, Minas Gerais, quanto em Oslo,
na Noruega, o fenômeno se repete rigorosamente idêntico:
as pessoas acordam e se dão conta de que estão completamente
carecas. Pulam das camas e, assustadas, percebem que não
têm mais nem um pêlo sobre o corpo. Depois de se olharem
no espelho, lavarem o rosto e repetirem a operação,
vão ao telefone e confirmam: mães, pais, primos, filhos,
cunhados, todos, todos carecas, sem nenhuma explicação.
Desnorteados, milhões ligam suas TVs e rádios, onde
apresentadores e locutores, também carecas, debatem o curioso
acontecimento. Cientistas carecas se dizem perplexos, e políticos
carecas pedem calma à população careca. Flashes
ao vivo mostram a Times Square, em Nova Iorque, a Champs Elysées,
em Paris, e o Picadilly Circus, em Londres, e a cena é sempre
a mesma: multidões vagueiam, lustrosas e assustadas, sem
rumo. Na CNN, o presidente dos EUA, de peruca, diz que os serviços
de inteligência já estão trabalhando e que os
culpados pagarão caro por isso. Representantes palestinos
negam qualquer vínculo com o ocorrido e argumentam que para
ninguém a calvície é tão trágica
quanto para os seguidores de Maomé, cujas longas barbas e
melenas sempre foram sinais de devoção. Pelas ruas,
os vizinhos já não se reconhecem de tão diferentes
que ficaram. Aproveitando-se do inesperado anonimato, centenas de
marginais carecas saqueiam supermercados na Baixada Fluminense.
Tropas de choque carecas são acionadas e dezenas de carecas,
de ambos os lados, acabam feridos. No meio da manhã, surge
a notícia, quase simultaneamente, no mundo todo: foi encontrado
no sul do Brasil um ser humano que até então era totalmente
calvo e despertou, também assustado, com uma caudalosa cabeleira,
pêlos no peito e tudo o mais: Esperidião Amim e é
ex-governador de Santa Catarina.. Soldados norte-americanos cercam
a casa do político e levam-no preso. A Globo capta a prisão
de relance, apenas o suficiente para que todos os brasileiros descubram,
perplexos, que Esperidião Amim é ruivo. 0 presidente
do Brasil (sem peruca) vai à televisão e anuncia que
o político brasileiro não foi seqüestrado, e
sim "escoltado" para Washington, onde será estudado
e os resultados das pesquisas poderão ajudar todos. Donos
de lojas e fábricas de perucas fazem fortunas em horas. Donos
de fábricas de pentes e xampus se suicidam em massa. As ações
da Colgate Palmolive e da Gessy Lever caem bruscamente. Os jogos
do campeonato brasileiro são cancelados, assim como todos
os shows, concertos e reuniões sobre a face da Terra: é
melhor evitar aglomerações. Dezenas de curiosos se
concentram em torno da casa de Tony Ramos para ver como ele ficou
sem pêlos e cantam: "Olê, olê, Olê
olá, mostra! Mostra!" A polícia é chamada:
cinco curiosos vão presos e 14 ficam feridos. Caos total.
As Bolsas de todo o mundo despencam. De comum acordo, o mercado
financeiro decide fechar seu pregões até segunda ordem.
Em poucas horas, o mundo entra numa terrível recessão
econômica. Na TV Cultura, uma antropóloga da USP debate
com um sociólogo da PUC as possíveis conseqüências
simbólicas que a perda dos pêlos causará à
humanidade. Não chegam a nenhuma conclusão, mas criam
seis novos termos, entre eles sansanização coletiva,
dessimbolização capilar e calvofobia. Um estagiário
da Record encontra nos arquivos as antigas fitas de Kojac e, durante
alguns minutos, depois de 15 anos, a Record é líder
de audiência.
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