Lapa
e Noturno
da Lapa, de Luís Martins (José Olympio/Biblioteca Nacional;
172 e 286 páginas; 55 reais o pacote com os dois livros) Freqüentada
por prostitutas e malandros, compositores e poetas, a Lapa era o grande reduto
boêmio do Rio de Janeiro dos anos 30. O escritor Luís Martins (1907-1981)
traçou um retrato sombrio da região em seu romance de estréia,
Lapa, de 1936. Na época, o livro foi censurado, e seu autor quase
foi preso. Mais tarde, Martins revisitaria a zona boêmia de sua juventude
em Noturno da Lapa, livro de memórias publicado em 1964. As duas
obras reaparecem agora numa edição conjunta. O pacote ainda inclui
um CD com seis sambas sobre a Lapa, interpretados por figurões da velha-guarda
como Francisco Alves e Aracy de Almeida.
Leia
trecho de Lapa
O
baixo meretrício carioca principiou judeu-polonês. As mulheres importadas
nos tempos pré-históricos da prostituição da cidade
eram escravas da já célebre organização semita do
proxenetismo com eu as polícias do mundo ainda não conseguiram acabar. Segundo
os cronistas do tempo do Império e dos primeiros anos da República,
elas viviam nas ruas mais centrais da cidade, em estabelecimentos às vezes
mascarados de pequenos negócios, como charutarias, que se fechavam com
simplicidade cada vez que a proprietária ia lá dentro com um freguês
fazer o amor. As francesas eram geralmente cocottes chics. As mulatas já
principiavam a concorrência, que antes da abolição da escravidão
não era possível. No
tempo da minha infância, o baixo meretrício polonês-mulato
vivia nas ruas Vasco da Gama e Tobias Barreto. Na rua Silva Jardim, isolava-se
a zona francesa de cinco mil-réis. Já começara então
o próspero comércio intensivo da traite des blanches nas doces terras
de Jeanne dArc. Na Lapa beco das Carmelitas, rua Joaquim Silva e
rua Moraes e Vale ficava uma zona melhorzinha, de dez mil-réis.
O beco das Carmelitas era francês; a rua Joaquim Silva, nacional-polonesa
e a rua Moraes e Vale, da mulataria. Na Glória, ficava a zona das pensões,
começando de vinte mil-réis. Nesse
tempo, as francesas eram importadas em grande quantidade, barateando o produto.
Eram as mulheres mais bonitas e mais sabidas, praticavam a prostituição
cientificamente e enchiam a cidade, desde o aperitivo caro, nas pensões
de cem mil-réis, até os humildes e apressados cinco bicos, na rua
Silva Jardim, nos fundos do Teatro São José. O
meu tempo de preparatórios está cheio daquelas visões atormentadoras.
Eram bonitas como o diabo, as mulheres da vida, ou assim me pareciam. Ficavam
nas portas das casas em toda a extensão da rua. Usavam apenas uma camisolinha
justa para cobrir o sexo e o umbigo. Faziam tudo o que era gostoso. Eu imaginava
o que seria. E passeava de um lado para o outro, sem dinheiro, cheio de febre,
de desejo, de temor, de susto, de encantamento, um delírio!
Leia
trecho de Noturno da Lapa A
fisionomia da Lapa (mesmo independentemente de qualquer impressão pessoal
e subjetiva) sofrera várias alterações. Por exemplo: não
havia mais garçonetes. Ribeiro Couto, que mais ou menos por esse tempo
passou dois anos no Rio, em estágio no Itamaraty, observava numa crônica:
Não ficarei na Lapa. Dos seus bares o regulamento policial afastou
as caixeirinhas risonhas que imitavam o Reno à sobra dos Arcos. Onde cultivar
o anonimato, o chope sentimental e a meditação confusa a esta hora
em que me assaltam os demônios da nostalgia? Na praia. E
era mais ou menos isso o que todos faziam: iam para a praia, isto é, para
Copacabana. Foi então o tempo de grande esplendor do Alcazar, o famoso
bar-restaurante com terrasse do Posto 5. Eu, carioca legítimo e não
de adoção, não me conformava muito com isso. Em 1948 escrevia: Como
o Rio tem mudado nos últimos anos! Pode-se quase dizer que Copacabana vai
aos poucos matando o Rio. Porque Copacabana pouco ou nada tem a ver com o Rio.
Copacabana é alegre, é luminosa, é turística, cosmopolita,
vitaminada, esportiva e incontestavelmente bela. Mas
não é o Rio. O Rio é a velha cidade imperial das ruas mal
calçadas que os crepúsculos se iluminavam a bico de gás.
Soa os becos estreitos e sinuosos, com recordações coloniais apontando
a cada passo. É a evocação persistente e viva dos romances
de Macedo, da música de Nazareth, das serenatas boêmias dos bairros
sossegados dos subúrbios tristonhos, em noites profundamente quietas de
misterioso luar... O Rio é a rua da Misericórdia, a praça
da Bandeira, o Catete, o largo do Machado, a Tijuca, Vila Isabel, Flamengo, Laranjeiras,
Andaraí, Engenho Novo. O Rio é a Lapa. Foi
por isso que muitos anos depois, em 1957, quando Renato Perez, entrevistando-me
para o Correio da Manhã, quis saber se eu, carioca, em São Paulo
Tinha muitas saudades do Rio:
Não respondi. Tenho muitas saudades do Rio quando estou no
Rio. |