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Um Lugar Chamado Brick Lane, de Monica Ali (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco; 472 páginas; 52 reais) – A literatura inglesa contemporânea mostra uma presença forte de escritores que têm raízes nas antigas colônias do Império Britânico. É o caso do indiano Salman Rushdie e do inglês de ascendência paquistanesa Hanif Kureishi. Nascida em Bangladesh, em 1967, Monica Ali é uma das mais novas representantes dessa tendência multicultural. Um Lugar Chamado Brick Lane, seu romance de estréia, conquistou uma indicação para o prestigioso prêmio Booker. Narra a história de Nazneen, uma bengalesa infeliz em seu casamento arranjado que, radicada em Londres, aos poucos rompe com as sufocantes tradições familiares.

Leia trecho

Capítulo um
Região de Mymensingh, Paquistão Leste, 1967

Uma hora e quarenta e cinco minutos antes de a vida de Nazneen começar - começar do jeito que continuaria por algum tempo, isto é, de forma incerta - sua mãe Rupban acocorou-se em um banquinho de três pernas do lado de fora da cabana da cozinha. Ela estava depenando uma galinha porque os primos de Hamid tinham chegado de Jessore e ia haver um banquete. "Piu-piu, você é velha e dura", ela disse, chamando a ave pelo nome como sempre fazia. "Mas eu gostaria de comer você, com indigestão ou sem indigestão. E amanhã só vou comer arroz cozido, sem parathas".

Ela puxou mais algumas penas e viu-as flutuar em volta dos pés. "Aaah", ela disse. "Aaah. Aaaah". Aconteceram coisas com ela. Durante setes meses havia amadurecido, como uma manga na árvore. Apenas sete meses. Ela deixou de lado essas coisas que tinham acontecido. Durante algum tempo, uma hora e meia, embora ela não soubesse disto, até os homens voltarem do campo levantando poeira e dando palmadas em seus estômagos, Rupban permaneceu agarrada no pescoço mole e ossudo de Piu-piu e só respondendo "está quase" a todas as indagações acerca da ave. As sombras das crianças jogando bola de gude e chocando-se umas com as outras foram ficando longas e pontudas. O cheiro de cominho e cardamomo fritos espalhou-se pela casa. As cabras baliram um gemido alto e agudo. Rupban soltou um berro de agonia.

Hamid saiu apressado da latrina embora ainda não tivesse terminado o que estava fazendo. Ele atravessou correndo a horta, passou pelos arrozais, mais altos do que a construção mais alta, correu pela estrada de terra que margeava a aldeia, chegou em casa e agarrou um pedaço de pau para matar o homem que estava matando a sua mulher. Ele sabia que era ela. Quem mais conseguiria estilhaçar o vidro com um único grito? Rupban estava no quarto. A cama desfeita embora ela ainda estivesse em pé. Com uma das mãos, ela se apoiava no ombro de Mumtaz, com a outra, segurava uma galinha semidepenada. Mumtaz fez um sinal para Hamid.

- Vai. Vai buscar Banesa. Você está esperando um jinriquixá? Anda logo, não tem pernas?

Banesa segurou Nazneen por um dos tornozelos e soprou com desprezo pelas gengivas sobre o corpinho azulado.

- Ela não quer respirar. Tem gente que não chama uma parteira para economizar umas poucas takas. - Ela sacudiu a cabeça calva e enrugada. Banesa afirmava Ter cento e vinte anos, e vinha afirmando isso há mais de uma década. Como ninguém na aldeia se lembrava do seu nascimento, e como Bansesa era mais murcha que um coco velho, ninguém tinha interessem em colocar isso em dúvida. Ela afirmava, também, Ter colocado no mundo mil bebês, dos quais apenas três eram aleijados, dois eram mutantes (um hermafrodita e um corcunda), um natimorto e outro um híbrido-de-macaco-e-lagarto-pecado-contra-Deus-que-foi-enterrado-vivo-na-floresta-distante-e-a-mãe-mandada-embora-para-algum-lugar. Nazneen, embora morta, não podia ser contabilizada como um desses fracassos, uma vez que já havia nascido quando Banesa entrou no casebre.

- Veja a sua filha - Banesa disse para Rupban. - Toda perfeita. O que faltou a ela foi alguém para facilitar a sua entrada neste mundo. - Ela olhou para Piu-piu caído ao lado da infeliz mãe e chupou as bochechas. Um olhar faminto arregalou ligeiramente os seus olhos, embora eles tivessem praticamente enterrados nas rugas. Já fazia muitos meses que não comia carne, agora que duas garotas (ela devia tê-las estrangulado ao nascer) haviam entrado no negócio.

- Deixe-me levá-la e vesti-la para o enterro - disse Banesa. - É claro que eu faço isso de graça. Talvez aquela galinha ali para me compensar pelo trabalho. Estou vendo que ela está velha e dura.

- Deixe-me segurá-la - disse a tia de Nazneen, Mumtaz, que estava chorando.

- Eu achei que era indigestão - disse Rupban, começando também a chorar.

Mumtaz pegou Nazneen, que ainda estava pendurada pelo tornozelo, e sentiu o corpinho magro e pegajoso escorregar pelos seus dedos e cair com um berro sobre o colchão sujo de sangue. Um berro! Um choro! Rupban ergueu-a e deu-lhe um nome antes que ela pudesse tornar a morrer sem nome.

Banesa muxoxou e usou uma ponta do seu sari amarelado para enxugar um pouco de cuspe do queixo. - Isto se chama estertor da morte - ela explicou. As três mulheres aproximaram o rosto da criança. Naznenn agitou os braços e berrou, como se pudesse ver aquela cena tenebrosa. Ela começou a perder o tom azulado e aos poucos foi ficando marrom e roxa. - Deus chamou-a de volta à terra - disse Banesa com um ar de desprezo.

Mumtaz, que estava começando a duvidar do diagnóstico inicial de Banesa, disse: - Bem, Ele não a enviou para nós poucos minutos atrás? Você acha que Ele muda de idéia a cada segundo?

Banesa resmungou baixinho e pôs a mão sobre o peito de Nazneen, seus dedos tortos como raízes de uma velha árvore despontando do chão. - O bebê está vivo mas é muito fraco. Tem dois caminho s que você pode seguir - ela disse, dirigindo-se unicamente a Rupban. - Leve-a para a cidade, para um hospital. Eles vão colocar tubos nela e dar-lhe remédios. Isto é muito caro. Você vai Ter que vender todas as suas jóias. Ou então você pode esperar para ver o que o Destino irá fazer. - Ela se virou um pouco para Mumtaz, para incluí-la também, e depois tornou a olhar para Rupban. - É claro que no fim é o Destino que decide tudo, não importa o caminho que você escolher.

- Nós vamos levá-la para a cidade - disse Mumtaz, com um tom de desafio que fez suas bochechas ficarem vermelhas.

Mas Rupban, que não conseguia parar de chorar, apertou a filha de encontro ao peito e sacudiu a cabeça. - Não - ela disse. - Nós não vamos desafiar o Destino. Aconteça o que acontecer, eu vou aceitar. E minha filha não deve gastar nenhuma energia lutando contra o Destino. Assim ela será mais forte.

- Bom, então está decidido. - disse Banesa. Ela ficou por ali mais alguns instantes porque estava com tanta fome que seria até capaz de comer o bebê, mas depois de um olhar de Mumtaz ela voltou para a sua choupana arrastando os pés.


 
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