Recordações
da Casa dos Mortos, de Fiodor Dostoievski (tradução de Nicolau
S. Peticov; Nova Alexandria; 328 páginas; 49 reais) Quando jovem,
o russo Fiodor Dostoievski (1821-1881) freqüentava os círculos políticos
radicais de São Petersburgo. Acabou preso pela polícia czarista.
Passou quatro anos aprisionado na Sibéria, experiência que inspirou
o romance Recordações da Casa dos Mortos que aparece
pela primeira vez aqui em tradução direta do russo. Mestre no exame
psicológico da humilhação, Dostoievski fez desse livro um
testemunho de sua própria vida no cárcere. A presente edição
inclui uma carta que o escritor mandou a um irmão logo depois de sair da
prisão, relatando as experiências degradantes que mais tarde usaria
no romance.
Leia
trecho 1
A CASA DOS MORTOS
O nosso presídio estava situado numa escarpa, encravado em meio a uma fortaleza.
Mesmo forçando o olhar por entre as brechas da paliçada, pouco se
oferecia à nossa visão: um trecho mínimo de céu, um
barranco íngreme cheio de mato, dia e noite uma sentinela indo e vindo,
sem parar. E eu pensava, desalentado, que anos e anos se passariam e, tal como
agora, ficaria espiando pela fresta, não vendo nada mais que a mesma muralha,
o mesmo barranco, a mesma sentinela e apenas um trechinho de céu; não
o céu que cobre o presídio, mas sim aquele ao fundo, distante, livre.
Imagine um vasto espaço de duzentos passos de comprimento e cento e cinqüenta
de largura, quase com a forma de um hexágono. Contorne-o com uma paliçada
de troncos altos enterrados profundamente na terra, fortemente interligados, encimados
com lanças pontiagudas, e terá então uma idéia da
área do presídio. Num dos lados da paliçada, guardado por
uma sentinela, há um portão permanentemente trancado, que se abre
apenas para dar passagem aos detentos que seguem ao trabalho. Por detrás
dessa saída, o claro mundo da liberdade.
Do lado de cá o nosso mundo, em nada parecido com aquele, que por isso
nos parecia uma ilustração de contos de fadas. O nosso era um mundo
bem outro, regido por estatutos, disciplinas, horários específicos;
uma casa para mortos vivos; uma vida à margem e homens de vivência
muito diferente. É esse canto tão distinto da vida que me proponho
descrever aqui. Ao
penetrar nesse recinto, deparamo-nos com algumas construções. Ao
longo do grande pátio se estendem duas alas compridas, de madeira, formando
um andar único. São os alojamentos. Ali
vivem os condenados, distribuídos de acordo com suas categorias. No
fundo do corredor, há outro prédio com as mesmas características:
trata-se da cozinha, dividida entre dois blocos; atrás, em outro prédio,
a despensa, o paiol e o depósito. O meio do pátio de chão
batido está vazio, sem nada. É aí onde os detentos, a cada
manhã, colocam-se em forma para a chamada e a contagem, ato que se repete
ao meio-dia e ao anoitecer, ou quando as sentinelas desconfiam de qualquer anormalidade
e resolvem conferir a contagem. Entre tais alas e as paliçadas corre um
espaço livre. Ali, atrás dos prédios, os detentos mais melancólicos
e menos sociáveis fazem caminhadas nas horas de folga e, assim, meio escondidos,
entregam- se a seus pensamentos. Ao cruzar com eles, tentava ler seus pensamentos,
através de seus semblantes tristes e remoídos de preocupações.
Um deles tinha a favorita ocupação de contar as estacas da paliçada.
Eram quinhentas, e ele as conhecia em cada uma de suas posições
e características. Cada estaca, para ele, representava um dia; mas em vez
de contar as estacas, ele as subtraía e, assim, as que restavam da operação
eram os dias em que ainda permaneceria no presídio. Ele se sentia verdadeiramente
feliz ao terminar cada um dos lados do hexágono! Faltavam-lhe ainda muitos
anos para cumprir a pena, mas na prisão deve-se exercitar a paciência.
Certa vez, vi um presidiário, solto após cumprir vinte anos de reclusão,
não sair sem se despedir dos que ficavam. Mais de um detento lembrou como
ele entrara, jovem e despreocupado, indiferente ao crime e ao castigo. E agora
saía, já grisalho, o rosto macerado, velho, circunspecto. Entrou
silenciosamente em cada um dos nossos alojamentos; parou em todos os seis, rezando
uma prece diante do ícone; em seguida voltou-se para cada um dos prisioneiros
e fez uma grande reverência, pedindo que nos lembrássemos dele com
apreço. Também me recordo de outro presidiário, um antigo
aldeão siberiano, antes abastado. Há cerca de seis meses vivia angustiado,
pois tinha recebido a notícia de que a mulher havia se casado novamente.
Ela foi até a prisão; conversaram por um ou dois minutos, rapidamente;
ambos choraram; deram-se adeus. Eu vi seu rosto quando ele retornou! Sim,
deve-se aprender a ter paciência neste lugar. Ao
escurecer éramos trancafiados em nossos alojamentos. Tratava-se
de um momento penoso, esse, de sair do ar livre e entrar numa sala ampla e baixa,
parcamente iluminada com candeias de sebo que tornavam o ar denso, irrespirável.
Hoje me parece incrível ter conseguido passar dez anos naquele lugar. Minha
cama era uma espécie de catre, restrito a três tábuas. Apenas
nessa sala, cerca de trinta detentos estavam acomodados naqueles catres. No
inverno éramos trancados mais cedo. Às vezes demorávamos
até quatro horas para pegar no sono. Enquanto isso, vozes, risadas, blasfêmias,
arrastar de grilhões, fumaça e fedor, cabeças raspadas, rostos
marcados, roupas esfarrapadas; tudo o que é vergonha e infâmia. A
raça humana é forte. O homem é a criatura que pode se acostumar
a tudo, e creio que essa é talvez a melhor definição para
ele. Havia
em nosso presídio aproximadamente duzentos e cinqüenta homens; esse
número era quase constante. E que variedade de gente havia ali! Acredito
que cada região, cada província, cada distrito da Rússia
tinha o seu representante naquele lugar. Entre os condenados, contavam-se tanto
russos quanto montanheses do Cáucaso. Eram divididos de acordo com seus
crimes e, conseqüentemente, conforme as penas a que haviam sido condenados.
Pode-se supor que se encontrava ali cada tipo de crime possível. A população
do presídio compunha-se, principalmente, de condenados civis ao exílio.
Eram privados de todos os direitos civis e posição social, carregando
em suas faces a marca de sua condição. Estavam condenados ao trabalho
forçado por um período geralmente variável entre oito e doze
anos e, depois de cumprida a pena, eram distribuídos como colonos para
distritos administrativos da Sibéria. Havia
também criminosos militares, e esses não eram privados de seus direitos
civis, como é usual nos estabelecimentos penais russos. Suas
penas eram curtas; uma vez cumprida a condenação, retornavam como
soldados para os regimentos siberianos da linha. Muitos
voltavam, pouco tempo depois, condenados por crimes mais graves e, dessa vez,
não mais por pouco tempo, mas por pelo menos vinte anos. Essa categoria
era chamada de "os perpétuos". Contudo,
mesmo esses não estavam completamente privados de seus direitos. Havia,
finalmente, uma categoria especial, formada por criminosos terríveis, em
sua maioria militares. Eram chamados de "Classe Especial" e vinham de
todo canto da Rússia. Eles próprios não sabiam o total de
suas penas e se consideravam condenados a penas perpétuas. Ficavam ali
como que pendentes até serem deslocados para trabalhos realmente pesados
em outros pontos da Sibéria. "Vocês estão aqui para serem
esticados um pouco" - diziam eles para os outros presos. "Mas nós
já estamos esticados". Ouvi
dizer que essa categoria foi suprimida. Em nossa fortaleza, a categoria civil
foi abolida, sendo construído um alojamento específico para os militares.
Diga-se que ocorreram mudanças na direção. Isso quer dizer
que aquilo que foi aqui descrito pertence ao passado, a um estado de coisas que
já não existe. Tudo
foi há muito tempo; hoje é como se fosse um sonho. Lembro-me
de minha entrada no presídio. Era um anoitecer de dezembro, estava escurecendo,
e os presidiários voltavam do trabalho; preparativos para a hora da chamada:
um oficial de baixa patente, bigodudo, abriu-me a porta de tão estranho
lugar, para os dez anos vindouros, onde eu haveria de suportar sensações
de tal tipo que, se não as estivesse experimentado, diria que seria impossível
enfrentar. Eu jamais poderia, por exemplo, imaginar tormento maior do que não
poder ficar sozinho um momento, ao menos, nos dez anos da minha sentença.
No trabalho, vigiado; no presídio, com a companhia dos outros duzentos
condenados; e nunca, nem uma só vez, a solidão! Contudo, tive de
me acostumar. Na
prisão, encontramos assassinos por impulso e assassinos por profissão;
membros e chefes de quadrilhas; ladrões; vigaristas e outros acerca dos
quais era difícil discernir por que tinham ido parar ali. Mas cada um tinha
a sua história, uma história tão desconcertante e enevoada
como tentarmos enxergar através da embriaguez. Em
geral, comentavam pouco sobre o próprio passado. Se não gostavam
de falar, apreciavam muito menos pensar sobre o que passou. Conheci
até mesmo assassinos tão cheios de vida, tão permanentemente
despreocupados, que ninguém poderia dizer que eles encontrariam em suas
consciências algo que os reprovasse. Mas havia outros que carregavam um
sombrio e permanente silêncio. Falando
em termos gerais, era incomum que alguém contasse sua história,
e curiosidade não fazia parte dos hábitos dali. Portanto, se por
acaso alguém quisesse falar por uma razão ou outra, seu interlocutor
ia ouvi-lo com desanimada indiferença. Nada podia espantar ninguém.
"Nós somos sujeitos educados" - diziam freqüentemente, com
certa presunção. Acabo de me lembrar de um bandido, que estava bêbado
(é possível conseguir bebida na prisão) e se pôs a
contar de que forma matara uma criança de cinco anos, como a enganou com
um brinquedo, levou-a para um barracão e ali a matou. O
alojamento todo, que até então ria de suas piadas, soltou um grito,
obrigando-o a parar de falar; não gritavam por indignação,
mas simplesmente porque não se fala sobre isso, ali não é
o lugar. Diga-se
de passagem que não se tratava de gente totalmente ignorante; mais da metade
sabia ler e escrever. Em que outro lugar, na Rússia inteira, é comum
encontrar duzentas e cinqüenta pessoas juntas, a metade constituída
de alfabetizados? Já ouvi alguém deduzir que a instrução
é nociva às pessoas comuns. Trata-se de uma avaliação
errada, as causas são bem outras, embora seja impossível não
concordar que a instrução desenvolve a auto-suficiência. Mas
isso certamente não é errado. As
seções se diferençavam pelos uniformes; numa delas, a metade
direita do blusão era marrom e a metade esquerda cinza, as calças
tinham uma perna cinza e outra marrom. Certa vez, no trabalho, uma camponesa que
tinha vindo vender roscas, observounos passar, olhou-me e disse: -
Que mau gosto! Não tinha pano marrom o suficiente e o preto também
não?... Em
outras seções, os blusões eram todos de tecido cinza, mas
as mangas eram marrom-escuras. Também nos diferenciávamos pelo corte
dos cabelos; em algumas seções os cabelos eram raspados pela metade;
em outras, inteiramente. Mas à primeira vista percebia-se uma semelhança
vívida entre os membros daquele estranho clã; mesmo as personalidades
mais agitadas e originais, aquelas pessoas que costumam dominar as outras, acabavam
tendo de se nivelar ao tom predominante na prisão, exceção
feita apenas a certos sujeitos de temperamento insaciavelmente alegre, a quem,
por essa razão, era destinado um total desprezo; todos os detentos eram
desconfiados, invejosos, imensamente vaidosos, valentões, cínicos
e tediosamente irritadiços. Era enorme a capacidade deles de não
se espantar com o que quer que fosse. Eles tratavam firmemente de levar a vida
de maneira uniforme. Isso não impedia, porém, que por vezes o sujeito
mais insolente se transformasse num covardão. E o curioso é que
havia ali gente fortíssima; mas eram simplórios e taciturnos. Contudo,
por estranho que pareça, alguns deles eram extremamente soberbos, quase
mórbidos, convencidos. |