Mao
A História Desconhecida,
de Jon Halliday e Jung Chang (tradução de Pedro Maia Soares; Companhia
das Letras; 960 páginas; 70 reais) A chinesa Jung Chang autora
do best-seller Cisnes Selvagens e seu marido, o historiador Jon
Halliday, pesquisaram por dez anos e entrevistaram centenas de colaboradores do
ditador chinês Mao Tsé-tung para compor uma biografia devastadora
desse que é o maior assassino de massas do século XX. O livro desfaz
os mitos que ainda subsistiam sobre Mao na Grande Marcha, por exemplo,
ele teve uma atuação nada heróica, sacrificando inutilmente
seus próprios soldados e também apresenta a intimidade do
tirano, um homem caprichoso e egoísta, que não se importava nem
com o bem-estar de esposas e filhos.
Leia
trecho 1.
Entre o antigo e o moderno (1893-1911;
1-17 anos) Mao
Tse-tung, que durante décadas deteve poder absoluto sobre a vida de um
quarto da população mundial, foi responsável por bem mais
de 70 milhões de mortes em tempos de paz, mais do que qualquer outro líder
do século XX. Ele nasceu numa família de camponeses, em um vale
chamado Shaoshan, na província de Hunan, no coração da China,
em 26 de dezembro de 1893. Seus ancestrais haviam vivido no vale por quinhentos
anos. Era
um mundo de beleza antiga, uma região temperada, úmida, cujas colinas
ondulantes e enevoadas eram habitadas desde o Neolítico. Templos budistas
que datavam da dinastia Tang (618-906), quando o budismo ali chegou, ainda estavam
em uso. Florestas onde quase trezentas espécies de árvores cresciam,
entre elas bordo, cânfora, metassequóia e o raro ginkgo, cobriam
a área e abrigavam tigres, leopardos e javalis, que ainda vagavam pelas
montanhas (o último tigre foi morto em 1957). Esses morros, sem estradas
nem rios navegáveis, separavam a aldeia do resto do mundo. Ainda no começo
do século XX, a notícia de um acontecimento tão momentoso
como a morte do imperador, em 1908, não chegou lá e Mao só
ficou sabendo disso dois anos depois, quando deixou Shaoshan. O
vale de Shaoshan mede em torno de cinco por três quilômetros e meio.
As cerca de seiscentas famílias que viviam ali plantavam arroz, chá
e bambu e usavam búfalos para lavrar os arrozais. A vida cotidiana girava
em torno dessas atividades antiqüíssimas. Yi-chang, o pai de Mao,
nasceu em 1870. Aos dez anos de idade, ficou noivo de uma menina de treze, de
uma aldeia distante cerca de dez quilômetros, do outro lado de uma passagem
chamada Passo do Tigre em Repouso, onde os tigres costumavam tomar banho de sol.
Naquele tempo, essa curta distância era o suficiente para que as duas aldeias
falassem dialetos quase ininteligíveis mutuamente. Sendo uma mera menina,
a mãe de Mao não recebeu um nome; e, como era a sétima filha
do clã Wen, era conhecida apenas como a Sétima Irmã Wen.
De acordo com séculos de costume, seus pés haviam sido comprimidos
e amarrados para produzir os assim chamados "lírios dourados de três
polegadas", que eram o modelo de beleza da época. O
noivado com o pai de Mao seguiu costumes ancestrais. Foi arranjado pelos pais
e se baseava numa consideração prática: o túmulo de
um dos avôs dela estava em Shaoshan e precisava ser cuidado periodicamente
com rituais elaborados; assim, ter um parente lá seria útil. A Sétima
Irmã Wen mudou-se para a casa da família de Mao depois do noivado
e casou-se aos dezoito anos, em 1885, quando Yi-chang estava com quinze. Pouco
depois do casamento, Yi-chang partiu para se tornar soldado, a fim de ganhar dinheiro
para pagar as dívidas da família, o que conseguiu depois de vários
anos. Os camponeses chineses não eram servos, mas agricultores livres,
e entrar para o Exército por razões puramente financeiras era uma
prática estabelecida. Felizmente, não se envolveu em nenhuma guerra;
em vez disso, conheceu um pouco do mundo e captou algumas idéias para negócios.
Ao contrário da maioria dos aldeões, Yi-chang sabia ler e escrever,
o suficiente para lidar com contabilidade. Ao retornar, criou porcos e processou
grãos para obter um arroz de alta qualidade, a fim de vender no mercado
de uma cidade próxima. Comprou de volta as terras que o pai havia penhorado,
depois comprou mais terras e se tornou um dos homens mais ricos da aldeia. Embora
relativamente próspero, Yi-chang continuou a ser um homem extremamente
trabalhador e econômico por toda a vida. A casa da família consistia
em meia dúzia de dependências que ocupavam uma ala de uma grande
propriedade coberta de sapê. Mais tarde, Yi-chang substituiu o sapê
por telhas, uma grande melhoria, mas conservou o chão batido e as paredes
de barro. As janelas não tinham vidros - um luxo ainda raro - e eram apenas
aberturas quadradas com barras de madeira, fechadas à noite com pranchas
de madeira (a temperatura dificilmente caía abaixo de zero). A mobília
era simples: camas de madeira, mesas e bancos de madeira nua. Foi num desses quartos
espartanos, sob uma colcha de algodão azul tecida em casa, dentro de um
mosquiteiro azul, que Mao nasceu. Mao
foi o terceiro filho, mas o primeiro a sobreviver à infância. Sua
mãe, budista, tornou-se ainda mais devota para que Buda o protegesse. Mao
ganhou o nome duplo Tse-tung. Tse, que significa "brilhar sobre",
foi o nome dado a toda a sua geração, tal como predeterminado quando
a crônica do clã foi escrita pela primeira vez, no século
XVIII; tung significa "o Leste". Assim, seu nome completo significava
"brilhar sobre o Leste". Quando dois outros meninos nasceram, em 1896
e 1905, ganharam os nomes de Tse-min (min significa "o povo")
e Tse-tan (tan se referia possivelmente à região local, Xiangtan). Esses
nomes refletiam a inveterada aspiração dos camponeses chineses de
que seus filhos fossem bem-sucedidos - e a expectativa de que poderiam ser. Altos
cargos estavam abertos a todos por meio da educação, que durante
séculos significou estudar os clássicos confucianos. A excelência
possibilitaria que homens jovens de qualquer extração passassem
nos exames imperiais e se tornassem mandarins - a caminho de se tornarem primeiros-ministros.
Um cargo na burocracia era sinônimo de sucesso e os nomes dados a Mao e
seus irmãos expressavam as esperanças neles depositadas. Mas
um grande nome também tinha um peso e desafiava potencialmente o destino;
então, a maioria dos filhos ganhava um nome de estimação
que era mais despretensioso ou forte, ou ambos. O de Mao era "Menino de Pedra"
- Shi san ya-zi. Para esse segundo "batismo", sua mãe
o levou até uma rocha de cerca de dois metros e meio de altura, que tinha
fama de ser encantada, pois havia uma fonte sob ela. Depois que Mao fez mesuras
e reverências, foi considerado adotado pela pedra. Ele gostava muito desse
nome e continuou a usá-lo na idade adulta. Em 1959, quando voltou a Shaoshan
e se encontrou com os aldeões pela primeira - e única - vez na qualidade
de líder supremo da China, começou o jantar para eles com um gracejo:
"Então, estão todos aqui, exceto minha Mãe Pedra. Devemos
esperar por ela?". Mao
adorava sua mãe real, com uma intensidade que não demonstrava com
mais ninguém. Ela era uma pessoa gentil e tolerante, que, como ele lembrava,
jamais ergueu a voz para o filho. Dela herdou o rosto redondo, os lábios
sensuais e um autocontrole calmo nos olhos. Mao falaria com emoção
sobre a mãe pelo resto da vida. Foi seguindo seu exemplo que se tornou
budista quando criança. Anos mais tarde, disse ao seu staff: "Eu idolatrava
minha mãe [...] Onde quer que ela fosse, eu a seguia [...] indo a feiras
de templos, queimando incenso e dinheiro de papel, fazendo reverências a
Buda [...] Porque minha mãe acreditava em Buda, eu também acreditava".
Mas ele abandonou o budismo na adolescência. Mao
teve uma infância despreocupada. Até os oito anos, morou com a família
da mãe, os Wen, na aldeia deles, pois ela preferia morar com sua própria
família. Lá, sua avó materna o adorava. Os dois tios e esposas
o tratavam como filho e um deles se tornou seu pai adotivo, o equivalente chinês
de padrinho. Mao fazia um pouco de trabalho agrícola leve, juntando forragem
para os porcos e levando os búfalos para passear nos bosques de camélias,
junto a um lago sombreado por folhas de bananeiras. Na velhice, ele lembraria
com ternura dessa época idílica. Começou a aprender a ler,
enquanto as tias teciam e costuravam à luz de uma lamparina a óleo. Mao
só voltou a morar em Shaoshan na primavera de 1902, aos oito anos de idade,
para receber instrução, que assumiu a forma de estudo na casa de
um tutor. Os clássicos confucianos, que compunham a maior parte do currículo,
estavam acima da compreensão das crianças e tinham de ser aprendidos
de cor. Mao foi abençoado com uma memória excepcional e se saiu
bem. Seus companheiros de estudo lembravam de um menino diligente que conseguia
não somente recitar mas também escrever mecanicamente aqueles textos
difíceis. Ele também adquiriu conhecimentos básicos de língua
e história chinesas e começou a aprender a escrever boa prosa, caligrafia
e poesia - escrever poemas era uma parte essencial da educação confuciana.
A leitura tornou-se uma paixão. Em geral, os camponeses se deitavam ao
pôr-do-sol, para economizar óleo, mas Mao ficava lendo noite adentro,
com uma lamparina acesa sobre um banco, ao lado de seu mosquiteiro. Anos depois,
quando era governante supremo da China, metade de sua enorme cama vivia empilhada
de clássicos chineses e ele enchia seus discursos e escritos com referências
históricas. Mas seus poemas perderam qualidade. Mao
entrava freqüentemente em choque com seus tutores. Fugiu de sua primeira
escola aos dez anos, dizendo que o professor era um tirano. Foi expulso de pelo
menos três escolas - ou "pediram que as deixasse" - por ser teimoso
e desobediente. A mãe o protegia, mas o pai não estava contente
e o salto de Mao de tutor em tutor era apenas uma das fontes de tensão
entre eles. Yi-chang pagava pela educação do filho e esperava que
ele pudesse ao menos ajudar nas contas da família, mas Mao não gostava
da tarefa. Durante toda a vida, foi confuso com números e uma nulidade
em economia. Nem gostava muito do trabalho braçal pesado. Passou a evitá-lo
assim que acabaram seus dias de camponês. Yi-chang
não suportava ver Mao ocioso. Tendo gasto cada minuto de seus dias trabalhando,
esperava que o filho fizesse a mesma coisa e batia nele quando não obedecia.
Mao odiava o pai. Em 1968, quando estava se vingando dos adversários políticos
em vasta escala, disse aos torturadores deles que gostaria que seu pai tivesse
sido tratado com a mesma brutalidade: "Meu pai era mau. Se estivesse vivo
hoje, deveriam ‘pô-lo no jato’". Tratava-se de uma posição
de tortura em que os braços da pessoa eram presos às costas e a
cabeça forçada para baixo. Mao
não era uma mera vítima do pai. Ele reagia e muitas vezes saía
vitorioso. Dizia-lhe que, por ser mais velho, deveria fazer mais trabalho manual
do que ele, o mais jovem - o que era um argumento incrivelmente insolente pelos
padrões chineses. Um dia, de acordo com Mao, pai e filho tiveram uma briga
diante de convidados. "Meu pai me repreendeu diante deles. Isso me enfureceu.
Disse-lhe uns palavrões e saí da casa [...] Meu pai [...] me perseguiu,
me maldizendo e ordenando que eu voltasse. Cheguei na beira de um lago e ameacei
saltar se ele se aproximasse mais [...] Meu pai recuou." Certa vez, ao recontar
essa história, Mao riu e acrescentou uma observação: "Velhos
como ele não queriam perder os filhos. Era essa a fraqueza deles. Eu ataquei
o ponto fraco deles, e venci!". Dinheiro
era a única arma que o pai de Mao possuía. Depois que o filho foi
expulso pelo quarto tutor, em 1907, ele deixou de pagar os estudos e o menino
de treze anos teve de se tornar camponês em tempo integral. Mas logo encontrou
uma maneira de evitar o trabalho na lavoura e voltar ao mundo dos livros. Yi-chang
estava ansioso para que o filho se casasse e assim, amarrado, passasse a se comportar
com responsabilidade. Sua sobrinha estava com a idade certa para se tornar esposa,
sendo quatro anos mais velha do que Mao, o qual concordou com o plano do pai e
retornou à escola depois do casamento. O
matrimônio realizou-se em 1908, quando Mao tinha catorze anos, e a noiva,
dezoito. O nome da família da garota era Luo, mas ela mesma não
tinha nome próprio e era chamada apenas de Mulher Luo. A única vez
que Mao a mencionou foi numa conversa com o jornalista americano Edgar Snow, em
1936, quando manifestou um notável desprezo e exagerou a diferença
de idade entre eles: "Quando eu tinha catorze anos, meus pais me casaram
com uma garota de vinte. Mas eu nunca vivi com ela [...] Não a considero
minha esposa [...] e pensei muito pouco nela". Não deu nenhuma pista
de que não estava mais viva; na verdade, Mulher Luo morreu em 1910, pouco
mais de um ano após o casamento. O
casamento precoce de Mao fez dele um feroz oponente dos casamentos arranjados.
Nove anos depois, escreveu um artigo violento contra a prática: "Nas
famílias ocidentais, os pais reconhecem a livre vontade dos filhos. Mas,
na China, as ordens dos pais não são de modo algum compatíveis
com a vontade dos filhos [...] Trata-se de um tipo de ‘estupro indireto’. Os pais
chineses estão todo o tempo estuprando indiretamente seus filhos". Assim
que sua mulher morreu, o viúvo de dezesseis anos exigiu partir de Shaoshan.
O pai queria que ele fosse aprendiz num armazém de arroz na cidade próxima,
mas Mao estava de olho numa escola moderna, distante cerca de 25 quilômetros.
Ele soubera que o exame imperial fora abolido. Agora havia escolas modernas que
ensinavam matérias como ciência, história e geografia mundiais
e línguas estrangeiras. Foram essas escolas que abriram as portas de saída
da vida camponesa para muitos chineses como ele. No
final do século XIX, a China havia embarcado numa transformação
social dramática. A dinastia manchu, no poder desde 1644, vivia uma transição
do antigo para o moderno. A mudança foi precipitada por uma série
de derrotas acachapantes nas mãos das potências européias
e do Japão, a começar pela Guerra do Ópio, de 1839-42, quando
as potências ocidentais vieram bater nas portas fechadas da China. Da corte
manchu aos intelectuais, quase todos concordavam que o país precisava mudar
se quisesse sobreviver. Fizeram-se muitas reformas fundamentais, entre as quais
a instalação de um sistema educacional completamente novo. Iniciou-se
a construção de ferrovias. Indústrias e comércio modernos
ganharam alta prioridade. Permitiu-se a existência de organizações
políticas. Publicaram-se jornais pela primeira vez. Mandaram-se jovens
ao exterior para estudar ciências e mandarins para aprender sobre democracia
e sistemas parlamentares. Em 1908, a corte anunciou um programa para se transformar
numa monarquia constitucional dentro de um período de nove anos. Hunan,
a província de Mao, que tinha algo em torno de 30 milhões de habitantes,
tornou-se um dos lugares mais liberais e excitantes da China. Embora longe do
litoral, era ligada por rios navegáveis à costa e, em 1904, sua
capital, Changsha, se tornou um porto de comércio "aberto". Um
grande número de comerciantes e missionários estrangeiros chegou,
trazendo modos e instituições ocidentais. Quando Mao ficou sabendo
das escolas modernas, havia mais de cem delas, mais do que em qualquer outro lugar
da China, inclusive muitas para mulheres. Uma
delas se localizava perto da aldeia de Mao e se chamava Monte Oriental, no condado
dos Wen, a família de sua mãe. As taxas e despesas de acomodação
eram bem caras, mas Mao conseguiu que os Wen e outros parentes convencessem seu
pai, que arcou com o custo durante cinco meses. A esposa de um de seus primos
Wen substituiu o velho mosquiteiro feito à mão por um de musselina
feito à máquina, apropriado à modernidade da escola. Essa
escola abriu os olhos de Mao. Havia aulas de educação física,
música e inglês e entre o material de leitura havia biografias resumidas
de Napoleão, Wellington, Pedro, o Grande, Rousseau e Lincoln. Mao ouviu
falar da América e da Europa pela primeira vez e ficou de olho em um homem
que estivera no exterior - um professor que estudara no Japão e que os
alunos apelidaram de "falso diabo estrangeiro". Décadas mais
tarde, Mao ainda lembrava de uma canção japonesa que esse professor
ensinara e que celebrava a formidável vitória militar do Japão
sobre a Rússia em 1905. Mao
esteve na escola Monte Oriental apenas por alguns meses, mas foi o suficiente
para que encontrasse uma nova abertura. Em Changsha havia uma escola criada especialmente
para jovens do condado dos Wen e Mao persuadiu um professor a matriculá-lo,
ainda que, em termos estritos, ele não pertencesse àquele condado.
Na primavera de 1911, chegou a Changsha sentindo-se, em suas próprias palavras,
"extremamente excitado". Aos dezessete anos, dizia adeus para sempre
à vida de camponês. Mao
afirmou mais tarde que quando era menino, em Shaoshan, se preocupara com os camponeses
pobres. Não há provas disso. Ele disse que fora influenciado, ainda
em Shaoshan, por um certo P’ang, o Fazedor de Mós, que tinha sido preso
e decapitado após liderar uma revolta local de camponeses, mas uma busca
exaustiva dos historiadores do Partido Comunista por esse herói não
encontrou nenhum traço dele. Não
há sinais de que Mao tenha derivado de suas raízes camponesas alguma
preocupação social, muito menos que fosse motivado por um sentimento
de injustiça. Em 5 de abril de 1915, o professor Yang Chang-chi escreveu
em seu diário: "Meu aluno Mao Tse-tung disse que [...] seu clã
[...] é composto principalmente de camponeses, e é fácil
para eles enriquecer" (grifo nosso). Mao não demonstrava nenhuma
simpatia em particular pelos camponeses. Até
o final de 1925, quando estava com trinta e poucos anos, e cinco anos depois de
se tornar comunista, Mao fez poucas referências a camponeses em todos os
seus escritos e conversas conhecidos. Eles aparecem, de fato, numa carta de agosto
de 1917, mas, longe de expressar simpatia, Mao diz que estava "surpreso"
com o modo como um comandante chamado Tseng Kuo-fan havia "liquidado"
com a maior revolta camponesa da história chinesa, a Rebelião Taiping,
de 1850-64. Dois anos depois, em julho de 1919, Mao escreveu um ensaio sobre pessoas
de diferentes ocupações na vida - os camponeses foram inevitavelmente
mencionados -, mas sua lista de questões era muito geral, e seu tom, neutro.
Havia uma notável ausência de emoção quando mencionava
os camponeses, em comparação com a paixão que transpirava
ao falar dos estudantes, cuja vida descrevia como "um mar de amargura".
Em uma lista abrangente de pesquisas que traçou em setembro daquele ano,
que continha não menos que 71 itens, somente um título (o décimo)
era sobre trabalho; o único de seus subtítulos que mencionava camponeses
só o fazia como "a questão dos lavradores que intervêm
na política". A partir do final de 1920, quando entrou para a órbita
comunista, Mao começou a usar expressões como "operários
e camponeses" e "proletariado". Mas eram meras frases, parte de
um vocabulário obrigatório. Décadas
depois, Mao falou sobre como, na época em que era um jovem de Shaoshan,
ele se preocupava com o povo faminto. Os documentos não mostram tal preocupação.
Em 1921, Mao esteve em Changsha durante uma epidemia de fome. Um amigo dele escreveu
no diário: "Há muitos mendigos - devem ser mais de cem por
dia [...] A maioria [...] se parece com esqueletos embrulhados em pele amarela,
como se pudessem ser levados por uma rajada de vento". "Ouvi que tanta
gente que veio para cá [...] a fim de fugir da fome em suas regiões,
havia morrido - que aqueles que vinham dando tábuas de madeira [para fazer
caixões] [...] não têm mais condições de fazer
isso." Não há menção desse evento nos escritos
de Mao da época, e nenhum sinal de que tenha dado alguma atenção
a esse assunto. O
passado camponês de Mao não o imbuiu de idealismo que pudesse melhorar
o fardo dos camponeses chineses. |