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livros

Comportamento Modelo, de Jay McInerney (tradução de Roberto Grey; Rocco; 320 páginas; 35 reais) – Jay McInerney despontou na ficção americana em meados dos anos 80. Ao lado de seu amigo Bret Easton Ellis (autor do best-seller O Psicopata Americano), dedicou-se a retratar de maneira satírica a Nova York dos yuppies. Os equivalentes desses personagens no fim da década de 90 ganham vida nas páginas de Comportamento Modelo – que, de resto, também tem Manhattan como cenário. O romance tem como herói (se é que a palavra se aplica) um jornalista de 32 anos. Ele edita a revista feminina Ciaobella! e vive às voltas com celebridades. Sua vida vira de cabeça para baixo quando a namorada top model resolve abandoná-lo. O volume traz ainda sete contos argutos e divertidos – os melhores são Fumaça e O Travesti e Eu.

 

Leia trechos do livro

CASAL MODELO

Quando Philomena se olha no espelho, vê uma criatura gorda e repelente. A despeito do fato dela ser uma mulher cuja imagem fotográfica é amplamente usada para despertar o desejo relacionado a determinados bens de consumo. Ou melhor, devido a este fato. A consciência do corpo intoxicado representando o pulmão negro de sua profissão. Ao se vestir para a festa, ela berra que está inchada e não tem nada para vestir.

Estou segurando um martini pré-festa, quando ela faz essa declaração. - Você está estupenda - digo.

Ela agarra meu copo e atira-o contra o espelho, estilhaçando ambos.

Na verdade, não faz mal. Bebo demais, de qualquer maneira.

A FESTA

O nome da festa é "Festa à qual você já foi seiscentas vezes". Está todo mundo lá. - "Todos seus amigos" - afirma Philomena num tom que só pode ser descrito como azedo. A mim me parece que eles são amigos dela, que é ela o motivo da gente dar o ar de nossa graça naquela fabulosa festa de gala no Saguão da Grand Central, evitando supostamente dezenas de desabrigados durante a noite. É de supor que ali haveríamos de estar em benefício de uma doença, mas fomos convidados para badalar, do mesmo modo que todo mundo que conhecemos. -Estou farta de todo esse glamour inútil - diz minha glamourosa namorada. - Quero uma vida simples. - Isto virou um refrão.

O cansaço da vida metropolitana com todas suas complicações colonoscópicas. Imagino se este enfado está de algum modo relacionado com aquele outro refrão doméstico não dito: sexo, raridade do mesmo.

Somos abordados por Belinda, o popular travesti que, tenho quase certeza, é amigo de minha namorada, antes de ser meu. Não consigo lembrar exatamente se o conheço das colunas de mexericos ou pessoalmente, de ocasiões como esta. Belinda está acompanhado de uma mulher de fato, não se sabe de quantos anos, dona de sobrancelhas espantosamente pretas e cabelos brancos com um corte de arrepiar, uma mulher que está sempre presente na festa e que eu mais ou menos sempre reconheço. Uma dessas mulheres com três nomes: Oi Cornovai Quebomtever. Hoje todas as mulheres têm três nomes, ou apenas um. Mesmo as performáticas.

- Ali, meu Deus, me escondam - diz a mulher cujo nome sempre me esqueço - ali está Tommy Kroger, tive um péssimo encontro com ele cerca de cinco mil anos atrás.

- Dormiu com ele? - pergunta Philomena, erguendo uma de suas sobrancelhas perfeitamente delineadas, que lembra um corvo a voar bem no fundo de um quadro de Van Gogh.

- Deus do céu, e quem se lembra?

- Se não consegue, então dormiu - diz Belinda. - É a regra.

Ah, então é essa a regra.

- Oi, queridos. - Quem mais poderia ser senão Delia McFaggen, a célebre designer, vindo como um raio em direção a Belinda, jogando beijos para todo mundo. Bato em retirada, ziguezagueando entre a multidão compacta para ver se encontro bebidas, a primeira de muitas viagens.


 
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