|
Fuga,
de William Boyd (tradução de Antonio E. de Moura Filho;
Rocco; 320 páginas; 45 reais) O escritor britânico
ficou famoso por montar uma fraude: Nat Tate, biografia de
um pintor abstrato, espécie de Jackson Pollock inglês
que na verdade não existia. A imprensa embarcou no
trote, publicando vários artigos sobre o falso artista. Escolado
nesses jogos farsescos, Boyd, em seu novo romance, investiu no mundo
mentiroso da espionagem. Ruth, a personagem narradora, nada sabia
da vida pregressa de sua mãe, até que esta lhe entrega
as suas memórias, nas quais conta suas atividades como espiã
na II Guerra. Fuga não tem a densidade moral que autores
como Graham Greene e John Le Carré alcançaram no gênero,
mas é um grande livro de entretenimento.
Leia
trecho
A
história de Eva Delectorskaya
Paris,
1939
A
primeira vez que Eva Delectorkaya o viu foi no funeral de seu irmão.
No cemitério, ele ficou afastado dos demais presentes. Usava
chapéu, um chapéu de feltro marrom visivelmente surrado.
Não lhe caía bem. Ela então se apegou àquele
detalhe que a intrigava: quem usaria um chapéu de feltro
marrom num enterro? Que falta de respeito! Ela, na verdade, usou
aquilo para manter a dor de perder o irmão sob controle.Assim,
ela se absteve de tal sofrimento.
De
volta à casa, entretanto, antes que as visitas chegassem,
vendo o pai chorar, Eva percebeu que não conteria as lágrimas.
Ele segurava com força um porta-retratos com uma fotografia
de Kolia. Parecia que segurava um volante retangular. Eva então
colocou uma das mãos sobre o ombro do pai e, com a outra,
enxugou rapidamente as lágrimas. Não tinha palavras
para confortá-lo. Então, Irène, a madrasta,
entrou carregando uma bandeja com uma garrafa metálica de
conhaque e alguns copinhos do tamanho de um dedal. O barulho do
metal sobre a bandeja encheu o ambiente. Ela a colocou sobre a mesa
e voltou para a cozinha para buscar um prato de amêndoas doces.
Eva curvou-se em direção ao pai, oferecendo-lhe um
copo.
–
Papai – disse em tom de lamento, incapaz de controlar a emoção.
– Tome um golinho. Olhe, estou tomando também. – Tomou uma
golada do conhaque e sentiu os lábios pinicarem.
Ouviu
então as lágrimas do pai caírem sobre o vidro
do porta-retratos. Ele a fitou. Depois a abraçou e deu-lhe
um beijo na testa.
Disse
sussurrando:
–
Ele só tinha 24 anos... vinte e quatro! – Era como se a idade
de Kolia fosse inacreditável, como se alguém tivesse
dito "Seu filho desapareceu no ar" ou "Seu filho
criou asas e voou".
Irène
se aproximou e, de maneira cuidadosa, tirou o porta-retratos das
mãos dele.
–
Mange, Sergei – ela disse a ele. – Bois... il faut boire
Ela
colocou o porta-retratos sobre uma mesa próxima e começou
a encher os copinhos que estavam sobre a bandeja.Eva estendeu o
prato com as amêndoas doces em direção ao pai.
Ele pegou algumas e, descuidado, deixou parte delas cair no chão.
Tomaram o conhaque e beliscaram as amêndoas, claramente sem
nenhum apetite.Também conversaram banalidades: como estavam
satisfeitos pelo fato de o dia estar nublado e sem vento, como um
dia ensolarado teria sido inconveniente, que foi muita gentileza
de Monsieur Dieudonné ter vindo lá de Neuilly e das
flores murchas e sem graça que os Lussipov enviaram. Flores
murchas, francamente! Eva continuava a olhar a foto de Kolia no
porta-retratos, sorridente, vestindo um terno cinza, como se estivesse
ouvindo a conversa, feliz, com um olhar provocador, até que
seu pensamento foi tomado pela incompreensão de sua perda,
a afronta de sua ausência, todos esses sentimentos atingindo
a vida da família como uma onda gigantesca. Ela então
desviou o olhar. Felizmente a campainha tocou. Irène levantou-se
e foi receber os primeiros convidados. Eva sentou-se com o pai,
ouvindo o som abafado da conversa discreta, enquanto todos tiravam
chapéus e casacos. Ouviu até a gargalhada contida,
denotando aquela curiosa mistura de condolências e imenso
alívio que repentinamente acomete as pessoas após
um funeral.
Ao
ouvir a gargalhada, o pai de Eva a olhou. Em seguida, fungou e encolheu
os ombros em sinal de desesperança e impotência, como
se tivesse esquecido a resposta à mais simples de todas as
perguntas. De repente, Eva percebeu o quanto seu pai tinha envelhecido.
–
Só eu e você, Eva – ele disse e ela sabia que o pai
estava pensando na primeira esposa, Maria, sua Masha, mãe
de Eva, e em quando ela morreu tanto tempo atrás, do outro
lado do mundo. Eva tinha catorze anos, Kolia, dez, e os três
ficaram de mãos dadas no cemitério de estrangeiros
em Tientsin. Eva ainda se lembrava do ar cheio de flores trazidas
pelo vento, pétalas caídas da gigantesca glicínia
que havia brotado na parede do cemitério. Pareciam flocos
de neve, confetes grandes e macios. "Agora, somos só
nós três", dissera o pai na beira do túmulo
da mãe, apertando as mãos dos filhos.
–
Quem era aquele homem de chapéu de feltro marrom? – perguntou
Eva, lembrando-se do sujeito e também tentando mudar de assunto.
–
Que homem de chapéu de feltro marrom?
Os
Lussipov entraram cuidadosamente, sorrindo de maneira discreta.
Com eles vieram também a rechonchuda prima Tania e seu novo
marido.Assim, o tal homem de chapéu de feltro marrom foi
momentaneamente esquecido.
Entretanto,
Eva o veria de novo, três dias depois, na segunda-feira –
o primeiro dia de trabalho após a morte de Kolia – na hora
em que ela saía do escritório para almoçar.
Ele estava em pé na barraca do épicerie, do
outro lado da rua, vestia um sobretudo de tweed verde-escuro
e usava o famigerado chapéu de feltro marrom. Olhou nos olhos
de Eva, assentiu com a cabeça e atravessou a rua para cumprimentá-la,
retirando o chapéu à medida que se aproximava.
Ele
falou num francês impecável, sem qualquer sotaque.
–
Mademoiselle Delectorskaya, meus pêsames. Lamento muito a
morte de seu irmão. Minhas desculpas por não ter falado
com a senhorita no funeral, mas não me pareceu apropriado,
principalmente por Kolia nunca ter nos apresentado.
–
Não sabia que o senhor e Kolia se conheciam. – Aquele fato
já tinha lhe ocorrido: sua cabeça estava zonza, aquilo
tudo, de certa forma, amedrontava-a. Não fazia sentido.
–
Ah, sim. Não amigos exatamente, éramos na verdade
conhecidos, digamos assim. – Ele baixou discretamente a cabeça
e continuou, agora num inglês correto e com um sotaque característico.
– Perdão, meu nome é Lucas Romer.
O
sotaque denotava sofisticação e refinamento, porém
Eva de imediato achou que o tal Lucas Romer não tinha nada
de inglês. Seu cabelo era ondulado, ralo na frente, penteado
para trás e, pelo menos aparentemente, escuro. As sobrancelhas
espessas, retas, pareciam dois traços horizontais localizados
entre a testa e os olhos, que, por sua vez, eram de um cinza-escuro
e azulado (ela sempre reparava na cor dos olhos das pessoas). O
queixo firme, embora recém-barbeado, estava coberto de pêlos
prestes a crescer.
Ele
percebeu que ela o estava observando e automaticamente passou a
mão por sobre o cabelo ralo.
–
Kolia nunca falou com a senhorita sobre mim?
–
Não – respondeu Eva em inglês. – Não. Ele nunca
mencionou nenhum "Lucas Romer" comigo.
Ao
ouvir aquela informação, por algum motivo ele sorriu,
mostrando os dentes brancos e perfeitos.
–
Muito bom – comentou pensativo e demonstrando satisfação
ao menear a cabeça. – É meu verdadeiro nome, a propósito
– acrescentou em seguida.
–
Nunca me passou pela cabeça que não fosse – disse
Eva, estendendo-lhe a mão para cumprimentá-lo. – Muito
prazer em conhecê-lo, sr. Romer. Se o senhor não se
importa, tenho só meia hora de almoço.
–
Não.Tem duas. Eu disse a Monsieur Frellon que a levaria
a um restaurante.
Monsieur
Frellon era o chefe de Eva. Era obsessivo em relação
à pontualidade dos funcionários.
–
Por que Monsieur Frellon me concederia duas horas de almoço?
–
Porque ele pensa que vou alugar quatro navios da empresa dele e,
como não falo uma palavra de francês, preciso acertar
os detalhes com a tradutora da firma. – Ele se virou e, com o chapéu,
apontou para uma determinada direção. – Há
um lugarzinho que conheço na rue du Cherche Midi especializado
em frutos do mar. Excelente.A senhorita gosta de ostra?
–
Detesto ostra.
Ele,
tolerante, sorriu para ela, como se Eva fosse uma criança
malcriada. Dessa vez, mesmo sorrindo, não mostrou os dentes
brancos.
–
Então vou ensinar-lhe como se transforma ostra em algo comestível.
|