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Coronado,
de Dennis Lehane (tradução de Luciano Vieira
Machado; Companhia das Letras; 192 páginas; 33 reais)
Um dos melhores autores da ficção policial contemporânea,
o americano Lehane mostra nessa primeira coletânea de contos
a mesma narrativa tensa e o retrato cru do submundo que fizeram
sua fama em romances como Sobre Meninos e Lobos. As histórias
versam sobre veteranos do Vietnã que derivam para uma vida
de crimes, sobre ladrões de diamantes, sobre um homem inocente
que, sem explicação, passa a ser perseguido por agentes
da lei. O conto principal da coletânea é Até
Gwen, história de um ex-presidiário que perdeu
a memória depois de baleado na cabeça e já
não sabe se foi ou não traído pelo próprio
pai. Lehane adaptou o conto para o teatro e a peça
Coronado também está incluída no livro.
Leia
trecho
FICANDO
SEM CACHORROS
Esse
lance com Blue, os cachorros e Elgin Bern aconteceu faz um tempo,
alguns anos depois que nossos rapazes - como Elgin Bern e Cal Sears
- voltaram do Vietnã, ao passo que outros - como Eddie Vorey,
Carl Joe Carol e os primos Stewart - não voltaram. Não
sabemos se o mesmo aconteceu em outras cidades, mas essa guerra
incutiu algo de misterioso nos rapazes que voltaram. Alguma coisa
silenciosa e inacessível. Dava pra perceber que eles sabiam
de coisas que nunca revelariam, faziam às escondidas coisas
que nunca iríamos descobrir. Grandes jogadores, esses rapazes,
capazes de blefar como ninguém, de não trair o menor
sinal de alegria, por melhor que fossem suas cartas.
Não
é fácil guardar segredo numa cidade pequena, e menos
ainda numa cidade sulista tão quente e com tantas janelas
abertas. Mas os rapazes que vieram do outro lado do oceano pareciam
ter descoberto uma maneira de preservar a privacidade. E como sempre
acontece nesta cidade, se você pega um bom punhado de homens
jovens e duros que cresceram juntos, de certa forma são eles
que dão o tom.
Então,
pouco depois da guerra, nos tornamos uma cidade mais silenciosa,
menos crédula (ou pelo menos era o que alguns pareciam achar),
e isso aconteceu justo quando o dinheiro do tabaco e o dinheiro
da indústria têxtil atingiram uma espécie de
massa crítica que resultou em capital para construção,
e logo começaram a falar que nossa cidadezinha talvez devesse
crescer um pouco, talvez construir algo que atraísse mais
dólares de turistas que os que nos rendiam os fogos de artifício
e as nozes-pecã.
Foi
quando algumas pessoas tiveram a idéia do Eden Falls - um
grande parque de diversões com montanhas-russas, toboáguas
e coisas assim. Por que todos esses ianques vão gastar seu
dinheiro na Flórida? A Carolina do Sul também tem
sol, campos de golfe, grapefruit, e uma quantidade infinita de campings
da KOA.
Por
isso, uma cidadezinha chamada Eden agora ia ter o seu parque Eden
Falls. Vamos entrar no mapa, era o que diziam. Vamos aparecer em
todos os folhetos turísticos. Agora somos pequenos, as pessoas
comentavam, mas esperem. Vocês não perdem por esperar.
Esse
é o pé em que estávamos naquela época,
o ano em que o casamento de Perkin e Jewel Lut sofreu alguns abalos,
Elgin Bern começou a se envolver com Shelley Briggs, e ninguém
parecia ser capaz de controlar os próprios cães.
O
problema com os cães de Eden, Carolina do Sul, era que seus
donos os tinham em grande quantidade. Ou então os deixavam
soltos por aí, e eles terminavam cruzando com cães
do sexo oposto, e o resultado era o mesmo. A coisa não seria
tão grave caso Eden não ficasse tão perto da
rodovia interestadual 95 e caso os cães não tivessem
o hábito de se enfiar no trânsito e de foder com os
pára-choques dos potenciais turistas.
O
prefeito, Big Bobby Vargas, foi para a reunião de prefeitos
em Beaufort, onde o governador fez uma visita surpresa para dizer
a todos o quanto ele estava irritado com aquela história
dos cães. Despejava-se um monte de dinheiro em Eden, dizia
ele, tomavam-se várias providências para mudar a imagem
da cidade, e ele não iria admitir que um bando de cachorros
malcriados estragasse tudo.
"Rapazes",
disse ele, fitando diretamente Big Bobby Vargas, "estão
começando a chamar este estado de Canil do Diabo, por causa
dos cachorros mortos ao longo da rodovia interestadual. Não
sei o que vocês pensam, mas, de minha parte, não acho
que seja um nome muito bonito."
Big
Bobby disse a Elgin e a Blue que nunca ouvira ninguém chamar
o estado de Canil do Diabo. Tinha ouvido coisa muito pior, mas isso
nunca. Big Bobby disse que o governador estava puto. Mas, como era
governador e tudo mais, estava no seu direito.
O
problema dos cães de Eden remontava à década
de 1920 e a um certo J. Mallon Ellenburg, morador que, entre outras
coisas, criava cães. Se os seus braços não
estavam enterrados até os cotovelos nas entranhas dos tratores
e colheitadeiras que consertava para ganhar a vida, ele os usava
para atacar alguma coisa - os membros de sua família, quando
estes não conseguiam se esquivar; seus cães, quando
o pessoal da família conseguia escapar. Os cães de
J. Mallon Ellenburg eram de raças mestiças e vira-latas,
e eles andavam em bandos, assim como seus descendentes; muitas gerações
depois, aqueles bandos ainda continuavam a vagar feito lobos pelas
noites de Eden, corpos reduzidos a músculos e cartilagens,
tensos e raivosos, uivando na escuridão para o fantasma de
J. Mallon Ellenburg.
Big
Bobby se deu ao trabalho de medir o trecho da rodovia 95 que cruzava
Eden, e constatou que eram quatro quilômetros e meio. O que
não era muito, na verdade, mas ainda assim dava uma média
de 0,74 cão por dia ou de 4,9 cães por semana. Big
Bobby queria ganhar o complemento de verba que o governador deixara
para o final do ano, e se para tanto precisaria livrar-se de mais
ou menos cinco cães por semana, era isso que ele faria.
"Tudo
na surdina", disse ele a Elgin e Blue. "O que nós
vamos fazer - na surdina, rapazes - é subir numas árvores
e atirar em cada cachorro que se aproximar da rodovia."
Elgin
não gostou muito daquela história de "nós".
Primeiro porque Big Bobby disse "nós" naquela vez
no Double O’s, quatro anos atrás. Isso foi antes de ele virar
prefeito, quando não passava de um coletor de impostos que
jogava sinuca de vez em quando no Double O’s, da mesma forma que
Elgin e Blue. Mas certa noite, depois que Harlan e Chub Uke encresparam
com ele por causa de uns trocados, e sabendo que nem Elgin nem Blue
tampouco gostavam muito da família Uke, Big Bobby dissera:
"Nós vamos dar um jeito nesses bostas esta noite",
e disparou a falar bobagens assim que os irmãos entraram
no bar.
Quando
a poeira baixou, Blue estava com uma mão quebrada, Harlan
e Chub jaziam encolhidos no chão, e Elgin tinha um lábio
estourado. Enquanto isso, Big Bobby se escondia embaixo da mesa
de sinuca, e Carl Sears perguntava quem ia pagar o taco que Elgin
quebrara na cabeça de Chub.
Então,
quando Elgin ouviu o prefeito Big Bobby dizer "nós",
lembrou-se dos dez dólares que lhe custaram o taco e disse:
"Não senhor, me inclua fora dessa".
Big
Bobby pareceu desapontado. Elgin era veterano de uma guerra no exterior,
ex-fuzileiro naval, bom atirador. "Merda", disse Big Bobby.
"Pra que vocês servem, se não usam as habilidades
que o governo lhes ensinou à custa de um bom dinheiro?"
Elgin
deu de ombros. "Dane-se, Big Bobby. Acho que não servimos
para grande coisa."
Mas
Blue topou, como Big Bobby e Elgin imaginaram que faria. Tudo o
que precisavam para aquele serviço era de um cara que não
se importasse de ficar trepado numa árvore atirando em coisas.
Diabo, Blue estava em casa.
E
de todo modo Elgin não tinha tempo para ficar trepado numa
árvore. Nos últimos meses vinha trabalhando feito
louco, depois de iniciada a construção de Eden Falls
- misturando cimento, cavando buracos para plantar mourões,
drenando a água dos alicerces -, e o trabalho propriamente
dito nem tinha começado. Ainda havia muitos meses para perfurar
e bombear água, espalhar cimento feito glacê num bolo
e construir andaimes para construir paredes para construir fachadas.
Ele enfrentava o trabalho pesado de rodar em caminhões basculantes
e caminhões com perfuratrizes, empilhadeiras, gruas e escavadeiras,
até os constantes solavancos lhe penetrarem a espinha e os
rins feito um saca-rolhas.
Tempo
pra ficar trepado numa árvore atirando em cães? Aqui,
ó. Às vezes ele não tinha tempo nem de dar
uma mijada.
E
então, além de toda aquela trabalheira, nos últimos
tempos ele começara a se encontrar com Shelley, a ex-mulher
de Drew Briggs. Shelley era a recepcionista da loja de automóveis
de Perkin Lut. Certo dia Elgin levou seu Impala para fazer o rodízio
dos pneus, e eles começaram a conversar. Ela se divorciara
de Drew havia mais de um ano. Eles esperaram alguns meses, por uma
questão de respeito, depois começaram a aparecer juntos
no Double O’s e na Casa das Panquecas.
Um
dia eles foram para Myrtle Beach juntos e passaram o fim de semana
lá. As pessoas lhes perguntaram como era a praia, e eles
responderam: "É como nos cartões-postais".
Como os postais nunca mencionavam o preço de um quarto no
Hilton, Elgin e Shelley omitiam que deram apenas uma volta pela
praia, antes de se instalarem num motel a oeste de Conway. Mas um
motel legal; tinha tevê em cores, e um dos interruptores transformava
o banheiro numa sauna, se você deixasse a torneira aberta.
Eles começaram a fazer amor na sauna, terminaram na cama,
enquanto o vapor saía do banheiro e vinha roçar-lhes
os calcanhares. Depois, ele afastou o cabelo dela da testa, fitou-a
nos olhos e disse que ia acabar ficando mal-acostumado com aquilo.
Ela
disse: "Mas não custaria um dinheirão instalar
uma sauna no seu trailer?", e esperou nada menos que trinta
segundos antes de sorrir.
Elgin
gostava daquele jeito dela, da forma como o fazia sentir que afinal
era apenas um homem, um homem que levava as coisas a sério
demais, pois aquilo fazia parte de sua natureza. Shelley o fazia
sentir que estaria sempre por perto para abrir-lhe o olho toda vez
que isso acontecesse. Para evitar que ele enfiasse uma bala na culatra
de uma 30-06 Springfield, ajustasse o ferrolho e atirasse no flanco
de algum cão bravo.
Às
vezes, quando eles encerravam a jornada de trabalho mais cedo -
fosse por causa de uma chuva pesada que amolecera a terra junto
às fundações, fosse por algum atraso na entrega
de suprimentos -, ele ia até a loja de Lut para vê-la.
Ela sorria como se ele lhe tivesse trazido flores e dizia: "Pegaram
você bebendo em serviço outra vez?", ou alguma
outra bobagem desse tipo, mas aquilo o fazia sentir-se bem, como
se de repente alguma coisa em seu íntimo lhe dissesse que
estava livre para respirar.
Antes
de Shelley, Elgin passou um bom tempo sem nenhuma mulher que pudesse
reconhecer publicamente como sua. Dos quinze aos dezenove anos,
namorara Mae Shiller, mas ela se sentiu sozinha quando ele cruzou
o oceano, e na volta havia ido embora de Eden, casara-se com um
rapaz no complexo turístico South of the Border, e os dois
agora ganhavam um bom dinheiro numa franquia de cachorro-quente,
ouvira dizer. Elgin namorou outras, mas levou um bom tempo para
superar Mae, superar a perda de algo que ele esperava ter para sempre,
o som de seu riso e uma imagem dela saindo nua do lago Cooper, a
pele clara coberta de gotas d’água - coisas que lhe deram
forças para continuar enfrentando a selva, o calor, a ameaça
da morte tiquetaqueando em seus ouvidos todas as noites em que esteve
lá.
Cerca
de um ano depois que ele voltou para casa, Jewel Lut veio visitar
a mãe dela, que ainda vivia no camping de trailers onde Jew
crescera com Elgin e Blue, e onde Elgin ainda morava. Quando estava
para ir embora, deu um pulinho na casa de Elgin; os dois sentaram-se
em cadeiras dobráveis na frente do trailer, tomaram alguns
drinques e se puseram a falar dos velhos tempos. Ele contou um pouco
sobre o Vietnã, ela falou sobre seu casamento. Disse que
não era o que esperava, que Perkin Lut podia saber de muita
coisa, mas não sabia nem um pouco se divertir.
Havia
alguma coisa em Jewel Lut que penetrava a carne dos homens da mesma
forma que o calor. Não era só pelo fato de ser bonita,
de ter um belo corpo e de mover-se de um jeito lânguido, que
fazia você imaginá-la nua em qualquer roupa que estivesse
usando. Não, era mais do que isso. Jewel, que não
era a garota mais brilhante da cidade, e nem ao menos a mais charmosa,
tinha alguma coisa nos olhos que nenhuma mulher que Elgin conhecera
tinha; era uma capacidade de viver, de aproveitar cada momento -
por mais insignificante e inconseqüente que fosse - e de espremê-lo
até a última gota. Jewel devorava a vida, mergulhava
nela como numa piscina de água fria, à sombra de uma
montanha, no dia mais quente do ano.
Aquele
seu olhar - um olhar que nunca se apagava - dizia: "Vamos nos
divertir, porra. Vamos nos saciar. Agora".
Eles
não foram tolos de fazer alguma coisa naquela noite, nem
mesmo depois que Elgin notou aquele olhar, depois que viu que se
dirigia a ele, que ela queria se saciar.
Elgin
sabia o quanto Eden era pequena e o quanto as pessoas gostavam de
insinuar, espionar e fofocar. Então ele e Jewel combinaram
de encontrar-se uma vez por semana em Carlyle, numa pequena cabana
que pertencia à família de Elgin desde antes da Guerra
Civil. Lá, Elgin e Jewel sentiam-se livres para desfrutar
um do outro, para fazer amor no lago, na varanda, na cozinha minúscula.
Eles
mal se falavam e, quando o faziam, era sobre as coisas mais triviais
- a queda na qualidade do açougue de Billy, boatos de que
iam instalar parquímetros na frente da prefeitura, se McGarrett
e os outros tiras iam conseguir meter algemas em Wo Fat.
Havia
um acordo tácito de que ele estava livre para namorar quem
quisesse e que ela nunca iria deixar Perkin Lut. E isso era ótimo.
Aquilo não era amor, apenas apetite.
Às
vezes Elgin a encontrava na cidade ou ouvia Blue falar dela do mesmo
modo apaixonado como falava desde os tempos do colegial, e ficava
surpreso com o fato de que estava dormindo com aquela mulher. Mas
isso ninguém sabia. E poderia durar anos, se ambos tivessem
cuidado, se evitassem um olhar ou uma entonação de
voz que os traísse, quando conversassem em público.
Ele
não saberia dizer ao certo que tipo de necessidade ela lhe
satisfazia. Sabia apenas que uma vez por semana precisava dela nua
na cabana de frente para o lago, que aquilo tinha alguma coisa a
ver com sair da selva vivo, com o tiquetaquear de sua própria
morte durante um ano inteiro. Jewel era uma espécie de recompensa,
uma espécie de benefício adicional. Ficar nu, exausto,
e com ela em cima dele, aquele olhar nos olhos dizendo que estava
pronta para mais uma, pronta para sorvê-lo como se sorve oxigênio.
Ele mereceu aquilo atirando em vultos na escuridão da noite,
apertado entre as paredes úmidas de trincheiras que nunca
resistiam por muito tempo, para depois voltar a uma mulher que não
quis esperá-lo e o descartou com a mesma facilidade com que
descartaria, na idade adulta, uma boneca muito amada na infância,
mas agora vista com uma melancólica mistura de nostalgia
e desdém.
Ele
sempre dissera a si mesmo que, tão logo encontrasse a mulher
certa, sua paixão por Jewel, sua necessidade por aquelas
noites no lago desapareceriam. E a verdade é que, desde que
passara a se encontrar com Shelley Briggs, a relação
com Jewel havia esfriado. Shelley não era Perkin, ele disse
a Jewel; ela logo iria perceber se ele saísse da cidade uma
vez por semana e voltasse com marcas de mordida na barriga.
Jewel
disse: "Tudo bem. A gente volta quando você estiver a
fim".
Ela
sabia que haveria uma próxima vez, ainda que Elgin não
quisesse admitir isso nem para si mesmo.
Então
Elgin, que ficara tão solitário no ano que se seguiu
à sua baixa do exército, agora tinha duas mulheres.
Às vezes ele não sabia o que pensar daquilo. Quando
estava sozinho, a felicidade dos outros o queimava por dentro. A
beleza parecia horrível. O riso parecia uma coisa ruim. O
distraído roçar de mãos dos amantes era o bastante
para fazê-lo querer decepá-las. Eu nunca serei amado,
dizia ele. Nunca vou conhecer a alegria.
Ele
às vezes se perguntava como Blue conseguia resistir àquilo.
Blue, que nunca estivera com uma garota que não fosse paga
por meia hora. Que era feio, baixinho e esquisito demais para inspirar
nas mulheres alguma coisa que não medo ou piedade. Blue,
que amava Jewel Lut desde muito antes de seu casamento com Perkin,
e continuava lhe dedicando um amor febril e silencioso com que muito
raramente Elgin conseguia se identificar. Blue, ele bem sabia, via
Jewel como uma rainha, como a única mulher que existia para
ele em Eden, Carolina do Sul. Tudo porque Jewel se mostrara gentil
com ele, fora amiga dele e de Elgin uns mil anos atrás, antes
do sexo, antes dos seios, antes que Elgin ou Blue tivessem a mínima
idéia de para que servia aquele troço que tinham entre
as pernas, antes que Perkin Lut viesse com o dinheiro do papai,
com seu belo sorriso e seu papo-furado sobre quantos homens teria
matado na guerra se a junta de recrutamento o tivesse considerado
apto.
Blue
imaginava que, se se mostrasse bastante gentil e amável,
se esperasse o bastante - um dia Jewel enxergaria a sua decência
e iria querer se aproximar dela.
Elgin
nunca se deu ao trabalho de explicar a Blue que algumas mulheres
não buscam decência. Algumas mulheres não estão
a fim de um cara legal. Algumas mulheres, e também alguns
homens, querem ir para a cama, apagar a luz e regalar-se um com
o outro feito animais até sentirem dor ao menor movimento.
Blue
nunca iria imaginar que Jewel era essa espécie de mulher,
porque ela sempre fora muito amável com ele, na verdade tratava-o
como uma criança, e a cada "olá" amistoso
que lhe dava, a cada tapinha no ombro, a cada "O que você
tem feito, meu velho?", Blue a erguia cada vez mais alto no
pedestal que construíra em sua mente.
"Eu
o vi uma vez na loja", disse Shelley a Elgin. "Ele simplesmente
foi lá, vai saber por quê, ficou sentado lendo revistas
até Jewel aparecer para tratar alguma coisa com Perkin. Blue
simplesmente olhou para ela. Ficou olhando Jewel falar com Perkin
no showroom. Quando finalmente ela olhou para ele, ele se levantou
e foi embora."
Elgin
detestava ouvir sobre Jewel, falar sobre ela ou pensar nela quando
estava com Shelley. Ele se sentia sujo.
"Um
amor louco", disse ele para encerrar o assunto.
"Alguma
coisa louca, meu bem."
Havia
noites em que Elgin e Shelley se sentavam na frente de seu trailer
e ficavam ouvindo o cantar das cigarras por entre os finos pinheiros,
sentindo o cheiro da noite e do sal-gema misturado ao cascalho;
o xampu de abacaxi de Shelley o fazia pensar no Havaí, embora
ele nunca tivesse estado lá, e ele se punha a pensar que
o amor deles não era um amor louco, não ardia de forma
desenfreada, com o risco de queimar-se a si mesmo, caso não
tivessem cuidado. E para ele estava bem assim. Se pelo menos pudesse
tirar a cabeça daquela história de Jewel, se parasse
de vê-la nua, esperando e olhando-o por cima do ombro na cabana
- ele poderia ajeitar-se com Shelley. Valeria a pena. Ela podia
não trepar como Jewel, e verdade seja dita, ele não
ria tanto com ela como ria com Jewel, mas era Shelley que ele queria.
Uma boa mulher, que daria uma boa mãe, que ficaria ao seu
lado quando a barra pesasse. Às vezes ele tomava a mão
dela e ficava segurando só por segurar. Uma noite ela surpreendeu
um certo olhar dele, talvez a forma como ele inclinou a cabeça
para observar sua mãozinha branca aninhada na mão
grande e morena dele.
Ela
disse: "Puxa, Elgin, às vezes você descomplica
as coisas". Então, num impulso, levantou-se da cadeira,
montou nele de pernas abertas, beijou-o como se quisesse arrancar
um pedaço para si e disse: "Baby, nós não
estamos ficando mais jovens, sabia?".
E
ele entendeu, sem saber bem como, por que alguns homens constituem
famílias e outros atiram em cães. Ele não sabia
ao certo em qual dos dois modelos se enquadrava.
Ele
disse: "Não estamos mesmo, não é?".
Blue
sempre fora o melhor amigo de Elgin desde que se entendiam por gente.
Não obstante, ultimamente Elgin andava se perguntando sobre
aquilo. Blue sempre fora um pouco diferente - e Elgin gostava disso
-, mas agora havia mais alguma coisa. Blue era o tipo do cara que
você nunca sabia se estava calado por não ter nada
a dizer ou porque o que tinha a dizer era tão horrível
que ele não ousava revelar.
Quando
eles eram crianças crescendo no camping, Blue costumava ficar
fora de casa durante horas, fosse porque sua mãe estava com
algum homem, fosse porque ela saíra e se esquecera de deixar
a chave com ele. Naquela época, Blue era encanado com baratas.
Ele as prendia num pote, depois jogava tijolos nele para testar
a resistência delas. Certa vez ele disse a Elgin: "É
isto o que elas são: resistentes. A cada geração,
temos de descobrir novas maneiras de matá-las, porque elas
ficam imunes aos venenos que usávamos antes". A certa
altura, Blue começou a encharcá-las de gasolina e
tocar fogo, para ver o quanto resistiam.
A
família de Elgin aconselhou-o a afastar-se daquele menino
esquisito e sujo, com aquela mãe branca pobretona, mas Elgin
tinha dó de Blue. Ele era da metade do tamanho de Elgin,
embora tivessem a mesma idade; era possível dar a volta nos
bíceps dele com o indicador e o polegar. Elgin ficava incomodado
com o fato de Blue dar a impressão de ter apenas duas roupas,
ambas quase sempre sujas; incomodava-o também passar junto
com Blue perto do trailer dele e ouvir os sons animalescos que vinham
de dentro, grunhidos e gemidos, ruídos de palmadas. Na maioria
das vezes, não se podia dizer se a velha de Blue estava trepando
ou brigando. E misturado a todo o barulho animalesco, havia também
o som de música country, que a mãe de Blue e o homem
com quem estava ouviam no rádio transístor que ela
dera a Blue no Natal.
"Na
porra do meu rádio", disse Blue um dia, e balançou
a pequena cabeça - e foi a única vez que Elgin o viu
reagir ao que se passava no trailer.
Blue
gostava de ler - sabia mais sobre ciência e ecologia, sobre
a anatomia das baleias-azuis e tábuas de conversão
que qualquer outro conhecido de Elgin. A maioria das pessoas pensava
que o menino fosse mudo - diabo, ele fora reprovado duas vezes no
quarto ano -, mas, com Elgin, vez por outra ele disparava a falar
enquanto fumavam juntos, ao lado do cano do esgoto atrás
do camping. Ele falava sobre baleias, contava que elas tinham apenas
um filhote por vez, que o protegiam ferozmente, mas que, se um filhote
ficasse órfão, outra mãe baleia o adotava e
o protegia com a mesma ferocidade com que protegia o seu. Ele contou
a Elgin que os tubarões nunca dormem, explicou-lhe como funcionam
as correntes elétricas e o que é uma carga de profundidade.
Elgin, que não era de falar muito, apenas se deixava ficar
ali sentado ouvindo, apreciando e esperando mais.
Quanto
mais velhos os dois iam ficando, mais Elgin assumia o papel de protetor
de Blue, e no ano em que o rosto de Blue se encheu de espinhas,
Elgin chegava a se
envolver
em duas brigas por dia, até não haver mais com quem
brigar. Todos sabiam: eles eram irmãos. E se Elgin não
te pegasse pela frente, Blue te pegava por trás, como quando
uma lata de ácido caiu no braço de Roy Hubrist, ou
quando alguém atacou Carnell Lewis pelas costas com um tijolo,
depois cortou seu tendão-de-Aquiles com uma navalha enquanto
ele jazia no chão desmaiado. Todo mundo sabia que aquilo
era obra de Blue, embora na verdade ninguém o tivesse surpreendido
no ato.
Para
Elgin, era uma questão de tempo até que Roy e Carnell
entrassem bem. Desde que Elgin voltou do Vietnã, porém,
passou a guardar algumas coisas para si, perguntando-se o que iria
fazer no dia em que percebesse ser necessário tomar alguma
providência.
Houve
o caso da coruja em que alguém pôs fogo e depois pendurou
de cabeça para baixo num fio de telefone, dos gatos que sumiram
nos quarteirões próximos à cabana de Blue,
à margem da rodovia 11. Houve também a pequena calcinha
cor-de-rosa que Elgin viu sob a cama de Blue, numa manhã
em que fora à sua casa para levá-lo até algum
trabalho de faxina. Durante dias, ele acompanhou os noticiários
sobre pessoas desaparecidas, mas não descobriu nada, por
isso simplesmente concluiu que Blue pegara a calcinha para satisfazer
a uma fantasia qualquer. Mas ele não esqueceu, não
conseguia varrer da mente a imagem da calcinha retorcida, apontando
para cima em meio à poeira marrom sob a cama de Blue, e parecendo
implorar alguma coisa.
Ele
nunca se deu ao trabalho de perguntar a Blue sobre nada disso. Isso
nunca funcionava. Nessas ocasiões, Blue simplesmente se fechava
e fitava o vazio, como se alguma coisa inaudível para você
abafasse suas palavras, como se alguma coisa que você não
enxergava tivesse obstruído o campo de visão dele.
Blue flutuava para longe, até você não encher
mais a cabeça dele com aquela falação.
Elgin
foi à cidade com Shelley para ela cortar o cabelo no Salão
da Marta, na avenida principal. Lá, enquanto Dottie Leeds
passava xampu e condicionador nos cabelos dela, Elgin experimentou
a sensação de ter ido parar num reduto de mulheres.
Ali estava Sonny, a filha adolescente de Jim Hayder, tendo seu cabelo
repicado, um penteado que começava a fazer sucesso naquela
época; várias mulheres mais velhas, que ainda usavam
cabelos armados, estavam ali para ajeitá-los, rebocá-los,
ou seja lá o que fazem para mantê-los erguidos daquele
jeito. Ali estavam Joylene Covens e Lila Sims fazendo as unhas -
enquanto os maridos jogavam golfe e as babás negras cuidavam
de seus filhos -, e Martha, Dottie, Esther, Gertrude e Hayley dançando
e saltitando, rindo e conversando entre as cadeiras, chamando todo
mundo de "meu bem", e todas elas - as jovens, as velhas,
as ricas e Shelley - relaxando como se fizessem aquilo todos os
dias, como se conhecessem umas às outras mais intimamente
do que conheciam os próprios maridos, filhos ou namorados.
Quando
Dottie Leeds levantou os olhos da cabeça de Shelley e disse:
"Elgin, meu bem, quer que lhe traga o caderno de esportes ou
coisa do tipo?", todas as mulheres caíram na gargalhada,
inclusive Shelley. Elgin sorriu, embora não estivesse com
vontade, fez um aceno encabulado a todas elas que só fez
redobrar as gargalhadas, disse a Shelley que voltaria logo e saiu.
Seguiu
pela rua principal até a praça, perguntando-se o que
aquelas mulheres pareciam conhecer tão de perto e que lhe
escapava completamente, e viu Perkin Lut andando em círculos
na frente da Loja de Pechinchas de Dexter Isley. Era um daqueles
dias em que o calor úmido e branco incomodava tanto que,
a menos que se estivesse no cabeleireiro, o único lugar com
ar-condicionado da cidade, o melhor a fazer era se trancar em casa
com as cortinas fechadas, procurando ficar o mais quieto possível.
E
lá estava Perkin Lut agitado, girando em círculos
como um menino que quer ficar tonto.
Perkin
e Elgin se conheciam desde o jardim-de-infância, mas Elgin
não se lembrava de ter gostado dele. O pai de Perkin, Mance
Lut, que praticamente construíra Eden, gastou um bom dinheiro
para manter Perkin longe da guerra. Escondeu o filho em Chapel Hill,
Carolina do Norte, por tantos semestres que nem mesmo Perkin se
lembrava em que se formara. Muitos homens que foram para a guerra
e voltaram odiavam Perkin por isso, assim como as famílias
dos que não voltaram. Mas esse não era o problema
de Elgin com Perkin. Diabo, se Elgin tivesse dinheiro, teria ficado
bem longe daquela bosta de guerra. O que Elgin não suportava
em Perkin era o fato de haver nele alguma coisa que não apenas
o protegia das conseqüências de seus atos, como também
o fazia desprezar as pessoas que pagavam por seus pecados, que não
tinham rede de proteção que as impedisse de cair no
chão.
Em
mais de uma ocasião, quando estava penetrando a mulher de
Perkin, Elgin se pegou pensando "Tome isto, Perkin. Tome".
Mas
naquela tarde Perkin não exibia seu sorriso de vendedor nem
o olhar distante. Quando Elgin parou ao seu lado e disse: "Oi,
Perkin, como vai?", Perkin lançou-lhe um olhar tão
desvairado que seus olhos pareciam prestes a pular das órbitas.
"Não
estou bem, Elgin. Não estou nada bem."
"Qual
é o problema?"
Perkin
balançou a cabeça várias vezes e olhou por
cima do ombro de Elgin. "Estou pensando em dar um jeito naquilo."
"Dar
um jeito em quê?"
"Naquilo",
disse Perkin apontando com o queixo por cima do ombro de Elgin.
Elgin
se voltou, olhou a vitrine da lavanderia automática de Miller,
do outro lado da rua, viu Jewel Lut tirando suas roupas da secadora,
viu Blue ao lado dela, pegando uma calça jeans da pilha e
começando a dobrar. Se os dois levantassem a cabeça
e olhassem para a frente, teriam visto muito bem Elgin e Perkin
Lut, mas Elgin sabia que não o fariam. Havia um clima entre
os dois, na lavanderia iluminada, que parecia isolá-los do
mundo, com a mesma facilidade que se estivessem num quarto escuro.
Os lábios de Blue se mexeram, Jewel riu e jogou uma camiseta
na cabeça dele.
"Estou
pensando em dar um jeito nisso agora mesmo", disse Perkin.
Elgin
olhou para ele, notou que era mentira, que o outro repetia aquilo
para si na esperança de que viesse a acontecer. Perkin teve
sucesso nos negócios, e não apenas por causa do dinheiro
do pai, mas não era o tipo de homem que faz as coisas; era
o tipo de homem que já recebe as coisas feitas.
Elgin
olhou para o outro lado da rua novamente. Blue ainda estava com
a camiseta em cima da cabeça. Ele disse mais alguma coisa,
e Jewel riu, cobrindo a boca com a mão.
"Você
não tem máquina de lavar e de secar em sua casa, Perkin?"
Perkin
girou sobre os calcanhares. "A máquina de lavar quebrou.
Jewel resolveu vir aqui." Ele olhou para Elgin. "As coisas
entre nós não vão nada bem ultimamente. Ela
fica o tempo todo lendo revistas, Elgin. Sabe essas revistas sobre
liberação feminina, jogar fora o sutiã, esse
tipo de merda?" Ele apontou para o outro lado da rua. "Seu
amigo é um problema."
Seu
amigo.
Elgin
olhou para Perkin, sentiu uma raiva súbita sem saber bem
por quê, e teve vontade de dizer: "Ele é meu amigo
e está conversando com a mulher com quem eu trepo, está
entendendo, Perkin?".
Em
vez disso, ele apenas balançou a cabeça, deixou Perkin
ali e atravessou a rua em direção à lavanderia.
Blue
tirou a camiseta da cabeça ao ver Elgin entrar. Seu sorriso,
congelado no rosto bexiguento, murchou enquanto ele piscava à
luz intensa do sol, olhando através da vidraça.
Jewel
disse: "Ei, agora temos outro ajudante!". Ela jogou uma
cueca por cima da cabeça de Blue e acertou no peito de Elgin.
"Oi,
Jewel."
"Oi,
Elgin. Quanto tempo." Os olhos dela desviaram-se dos dele e
se fixaram numa toalha.
Naquele
momento, a impressão de Elgin era bem outra. Parecia que
tinham se encontrado no lago na noite anterior. Sentia o gosto dela
em sua boca, o cheiro de sua pele ligeiramente suada.
E
estando ali de pé, junto com Blue, era como se os três
estivessem de volta ao camping, e Jewel não envelhecera nem
um pouco. Ela ainda usava os cabelos ruivos longos e desalinhados,
ainda vestia roupas que pareciam ter sido pegas de qualquer jeito,
amarrotadas como estavam, no chão do closet; uma vez em seu
corpo, porém, elas eram mais sensuais que as roupas que as
mulheres ricas iam comprar em Nova York uma vez por ano.
Naquela
tarde, ela estava com um vestido estampado amarrotado, que algum
dia devia ter sido cor-de-rosa, mas que agora, depois de anos de
lavagem, adquirira uma cor desbotada de jornal. Não tinha
nada de especial, não era curto demais nem tinha decote ousado
- mas alguma coisa em seu corpo dava a impressão de que ela
ia livrar-se dele a qualquer momento.
Elgin
entregou a cueca a Blue, quando se reuniu a eles junto à
mesa. Por um instante, ninguém disse nada. Eles pegavam as
roupas da grande pilha e as dobravam, e o único som que ouviam
era o do assobio de Jewel.
Então
Jewel começou a rir.
"O
que é?", perguntou Blue.
"Ah,
nada", disse ela balançando a cabeça. "Dá
a impressão de que somos uma família feliz, não
é?"
Blue
ficou perturbado. Olhou para Elgin, olhou para Jewel, olhou para
o pequeno par de meias azuis que tinha nas mãos, o monograma
jl bordado no tecido de algodão. Olhou para Jewel novamente.
"Sim",
ele finalmente disse, e Elgin sentiu um tremor em sua voz que nunca
ouvira antes. "Sim, é mesmo."
Elgin
olhou para as portas das secadoras vazias, à altura de sua
vista. O centro da porta era um círculo de vidro, e Elgin
viu a rua principal refletida nele, os pilares brancos que sustentavam
a cobertura de madeira na frente da Loja de Pechinchas, Perkin Lut
andando em círculos de cabeça baixa, as ondas de calor
que tremeluziam nas duas direções da rua.
O
cão era verde.
Blue
gastara uma parte do pagamento que recebera de Big Bobby nas últimas
semanas para fazer um upgrade em mira telescópica.
A nova mira era enorme, duas vezes mais larga que o cano do rifle,
e como os dias estavam ficando cada vez mais curtos, ele a equipou
com amplificador de luz. Elgin usara miras semelhantes na selva,
e nunca gostara delas, ainda que tivessem salvado a sua vida e a
de seus companheiros de pelotão, pois mostravam os vietcongues
avançando, como fantasmas cinzentos, através da mata
fechada. Miras telescópicas - ou LAD, como se dizia lá
- eram simplesmente antinaturais, e Elgin sempre tinha a impressão
de estar olhando através de um telescópio do fundo
de um lago. Elgin não fazia idéia de onde Blue conseguira
aquela, mas, de uns anos para cá, os caçadores de
Eden volta e meia apareciam com excedentes do Exército ou
da Marinha; Elgin ouvira falar até de gente que usava granadas
para pegar peixes - a explosão os lançava para dentro
dos barcos já meio cozidos, e só tinham o trabalho
de tirar as escamas.
O
cão era verde, a rodovia era bege, a linha do topo das árvores
era amarela, e os troncos eram da cor dos uniformes de faxina do
exército.
Blue
disse: "O que você acha?".
Eles
estavam na casa na árvore construída por Blue. Bela
madeira, duas cadeiras dobráveis, uma lona pendurada num
galho na parte de cima, um refrigerador cheio de cerveja Coors.
Blue construíra um parapeito na frente, perfeito para apoiar
os cotovelos ao fazer a mira. Paralelo ao tronco, ele montara um
enorme refletor ligado a um gerador portátil, porque, embora
fosse proibido "ofuscar" cervos, nunca ninguém
dissera ser proibido ofuscar cães. Sem dúvida Blue
estava em casa.
Elgin
deu de ombros. Como na selva, não era muito propenso a ver
o mundo daquela maneira - reduzido a sombras e à aparência
de fotografias antigas. O cão também parecia sentir
que tinha saído do tempo, para dentro de um círculo
de algas marinhas que penetrara na paisagem. Ele cheirava o ar de
focinho torcido, mas o resto de seu corpo estava tenso, um único
músculo rijo, inclinado para a frente como se farejasse uma
presa.
Blue
disse: "Quer fazer o serviço?".
A
coronha pareceu pesar no ombro de Elgin. O gatilho curvo em seu
indicador era frio e volumoso, e alguma coisa nele fazia coçar
o dedo e a parte de trás da cabeça simultaneamente.
Uma voz ali atrás, junto com a coceira, lhe dizia: "Atire".
Uma
coisa sobre a qual nunca se poderia conversar no bar com quem não
esteve lá, com as pessoas que tinham curiosidade, era o que
se sentia atirando em seres humanos, naqueles fantasmas cinzentos
na escuridão da selva. Elgin participara de catorze batalhas
no curso daqueles doze meses, mas não saberia dizer ao certo
se matara alguém. Ele atirara em algumas daquelas sombras,
as vira cair, mas nunca vira o sangue, nunca vira seus olhos no
momento em que eram atingidas. Era só um porrilhão
de barulhos e cores, uma explosão de luzes brancas e projéteis
luminosos, mata verde, fogo vermelho, gritos na noite. E depois,
se as coisas tivessem se acalmado, você andava selva adentro
e via os cadáveres, e se perguntava se tinha acertado este
corpo, aquele mais adiante ou nenhum.
E
a única coisa certa era que você se sentia excitado
pra caralho e, não obstante - o que era o mais horrível,
mas ao mesmo tempo divertido -, totalmente apavorado.
Elgin
abaixou o rifle de Blue, olhou para além da rodovia, agora
da cor de uma concha marinha, para a linha escura de árvores.
Mal dava para ver o cão, uma forma escura e indefinida, entre
outras formas igualmente escuras e indefinidas.
Ele
disse: "Não, Blue, obrigado", e passou-lhe o rifle.
"Como
quiser, cara", disse Blue. Ele se voltou e puxou o fio para
ligar o refletor. Quando a luz branca se projetou sobre a rodovia
e o cão ficou paralisado, piscando os olhos por causa da
claridade, Elgin começou a se perguntar pra que diabos Blue
queria uma mira lad, se de todo modo ia ofuscar o animal.
Blue
mudou o rifle de posição, encostou no parapeito e
acertou uma bala no meio do corpo do animal, próximo à
caixa torácica. O cão se encolheu como se tivesse
levado uma paulada, e enquanto balançava nas pernas trôpegas,
Blue puxou o ferrolho do rifle, recolocou-o no lugar e atirou na
cabeça. O cão caiu de lado, o crânio quase todo
destroçado, a perna de trás batendo na estrada como
se estivesse tentando andar de bicicleta.
"Você
acha que Jewel Lut, sei lá... pode gostar de mim?",
disse Blue.
Elgin
limpou a garganta. "Claro. Ela sempre gostou de você."
"Mas
o que quero dizer..." Blue sacudiu os ombros e pareceu embaraçado
de repente. "Que me diz disto: você acha que uma garota
como ela poderia se acostumar na Austrália?"
"Austrália?"
Blue
sorriu para Elgin. "Austrália."
"Austrália?",
repetiu ele.
Blue
voltou-se para trás e desligou o refletor. "Austrália.
Cara, o que eles têm de cães selvagens lá, não
é brincadeira. Eu podia ganhar um bom dinheiro. Outro dia
Jewel me disse que lá tem praias muito bonitas. Mas cães
selvagens também. Big Bobby disse que as pessoas estão
começando a reclamar do que está acontecendo por aqui,
perguntando onde está o lulu e coisas do tipo; e, de todo
modo, não sobraram muitos cães bobos o bastante para
vir para estas bandas. Austrália", continuou, "eles
nunca vão ficar sem cachorros lá. Aqui, mais cedo
ou mais tarde eu vou acabar ficando sem cachorro."
Elgin
fez que sim com a cabeça. Mais cedo ou mais tarde, Blue ia
acabar ficando sem cachorros. Ele se perguntou se Big Bobby tinha
pensado nisso, se tinha pensado num plano de emergência, se
tinha acesso à Guarda Nacional.
"O
rapaz é só o que a gente chama de entusiasta",
disse Big Bobby a Elgin.
Eles
estavam na barbearia de Phil, na rua principal. Phil saíra
para almoçar, e Big Bobby fechou as cortinas para que as
pessoas pensassem que ele estava tomando uma importante decisão
de Estado.
Elgin
disse: "Não é que esteja entusiasmado, Big Bobby.
Ele está perdendo o juízo. Ele pensa que está
apaixonado por Jewel Lut".
"Ele
sempre pensou isso."
"Sim,
mas agora está achando que ela talvez goste um pouco dele
também."
Big
Bobby disse: "Por que você nunca me chama de prefeito?".
Elgin
soltou um suspiro.
"Tudo
bem, tudo bem. Escute", disse Big Bobby pegando um dos frascos
de tônico capilar do balcão de Phil e cheirando-o.
"Quer dizer que Blue está entusiasmado demais pelo trabalho."
Elgin
disse: "É muito mais que isso, e você sabe".
Desta
vez, brincando com os pentes: "Sei?".
"Bobby,
agora ele pegou gosto por atirar nas coisas."
"Espere."
Ele levantou no ar as mãos gordas e curtas. "Blue sempre
gostou de atirar nas coisas. Todo mundo sa-be disso. Merda, se ele
não fosse tão baixinho e não tivesse sete milhões
de probleminhas de saúde, seria o primeiro cara desta cidade
a ir para o Nam. Em vez disso, teve de ficar aqui enquanto vocês
se divertiam feito doidos."
Chamar
aquilo de Nam. Como se Big Bobby fosse íntimo. Chamar aquilo
de diversão. Merda.
"Dingos",
disse Elgin.
"Dingos?"
"Dingos.
Ele está dizendo que vai para a Austrália atirar em
dingos."
"Vai
lhe fazer muito bem." Big Bobby sentou-se novamente na cadeira
de barbeiro ao lado de Elgin. "Ele pode ver as paisagens, esse
tipo de coisa."
"Bobby,
ele não vai para a Austrália, e você sabe disso.
Porra, Blue nem ao menos cruzou as fronteiras do condado em toda
a sua vida."
Big
Bobby esfregou a fivela de seu cinto com o punho da manga. "Bem,
o que você quer que eu faça?"
"Não
sei. Estou só lhe dizendo. Da próxima vez que o vir,
Bobby, olhe na porra dos olhos dele."
"Certo.
E o que eu vou ver?"
Elgin
voltou a cabeça e olhou para ele. "Nada."
"Ele
é seu amigo", disse Bobby.
Elgin
pensou na calcinha, retorcida em meio à poeira marrom debaixo
da cama de Blue. "Sim, mas é seu problema."
Big
Bobby pôs as mãos atrás da cabeça e se
espreguiçou na cadeira. "De todo modo, como já
estão começando a desconfiar por causa de todos esses
cães que andam desaparecendo, vou ter de encerrar a operação
imediatamente."
Ele
não estava entendendo. "Bobby, se você encerrar
a operação, aquele ‘nada’ nos olhos de Blue vai sobrar
para alguém."
Big
Bobby deu de ombros. Um homem que fizera carreira sabendo reconhecer
o que estava fora de sua capacidade de compreensão.
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