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Uma
Volta com o Cachorro, de
Walter Mosley (tradução de Myriam Campello; Record;
224 páginas; 30 reais) O escritor Mosley se destaca
na literatura policial americana por conceber romances que contêm
certa dose de crítica social. É o caso de Uma Volta
com o Cachorro, cujo protagonista é uma figura tão
barra-pesada quanto carismática: Sócrates Fortlow,
ex-presidiário negro que leva uma existência pobre
na periferia de Los Angeles. Depois de passar 27 anos no xadrez
por duplo homicídio, Fortlow tenta reconstruir sua vida
emprega-se num supermercado, arranja namorada e cuida do filho dela.
O problema é que ele é um pavio-curto que não
pode ver uma injustiça na vizinhança sem resolvê-la
no braço ou a bala. E convites à violência
não faltam no pedaço.
Leia
trechos do livro
Relâmpago azul
Inicialmente
Sócrates achou que a nota vibrante como um balido era parte
de um sonho. Uma nota doce tão alta que devia ser o anjo
mandado pelo deus azul "para poupar os negros de se desavirem
completamente com o mundo", segundo sua tia Bellandra. "Ele
tem uma voz alta como trombeta e sempre aparece no último
segundo, depois que um tolo perdeu o último emprego, o dinheiro,
a mulher, o auto-respeito e praticamente todo o resto. Quando ele
está quase morto", anunciava Bellandra, batendo palmas
com força, "é então que o anjo canta."
No
passado, quando garoto, Sócrates temia a tia alta e severa.
Mas ficava também embevecido com as histórias dela
sobre a raça negra num mundo branco e sob um deus azul que
quase não reparava nos homens.
"Quando
o homem está quase morto, o anjo pode surgir", dizia
ela. "E quando um negro escuta aquela voz de mel, toda perda
e dor terríveis desaparecem na mesma hora, e o homem olha
pra cima e vê que sempre conheceu a estrada certa, mas nunca
a procurou."
De
novo a nota alta. Desta vez um pouco trêmula, um pouco chilreante
no sono de Sócrates.
"Mas
nem todos podem escutar ela. Alguns já estão mergulhados
demais na droga, outros no ódio. Às vezes o anjo chega
um pouco atrasado e sua canção se torna um hino de
funeral."
Sócrates
ergueu-se bruscamente na cama, arregalando os olhos ao máximo.
Teve medo de que a música que escutara no sonho fosse de
fato o hino fúnebre daquele anjo vagaroso; medo de ter morrido
durante a noite e que fosse tarde demais para compensar todo o sofrimento
que causara em seus anos maus.
Sentou
no sofá-cama aberto. Tinha um leve chiado na garganta no
final de cada respiração, um chiado que se misturava
às altas notas do trompete tocado em algum lugar fora da
casa.
A música
era como choro. Um longo suspiro quebrando-se numa cascata de lágrimas
e, em seguida, em notas arquejantes, suplicantes, que pareciam implorar
pela morte.
Os
ponteiros luminosos do despertador informaram ao ex-presidiário
que eram três e trinta e quatro. Em menos de uma hora e meia
teria de levantar e aprontar-se para o trabalho.
Sócrates
ficou à espreita da canção nas notas, mas o
trompete silenciara. Permaneceu com os olhos fechados por um momento
e então os abriu para fechá-los por mais alguns segundos.
Pensava em deitar de novo na almofada do sofá, quando o trompete
retomou sua música - desta vez um lento blue; um trem entrando
na estação, ou talvez partindo.
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