De
Repente, nas Profundezas do Bosque,
de Amós Oz (tradução de Tova Sender; Companhia das Letras;
148 páginas; 31 reais) Mais importante romancista israelense contemporâneo,
Amós Oz registrou as turbulências políticas e sociais de seu
país em romances como Fima e Meu Michel. Nesse novo livro,
ele se distancia da realidade imediata para produzir uma fábula: numa pequena
aldeia, não existe mais nenhum animal. As crianças são ensinadas
a nem mesmo pronunciar o nome dos bichos que no passado ali viviam, até
que um menino e uma menina resolvem desafiar a proibição de entrar
no bosque. Com essa história singela, Oz desenvolve temas que lhe são
caros, como o valor da resistência à opressão e do pensamento
independente.
Leia
trecho Capítulo
1 A
professora Emanuela explicou à classe como é um urso, como os peixes
respiram e que sons a hiena produz à noite. Ela também pendurou
na sala gravuras de animais e aves. Quase todos os alunos debocharam dela, porque
nunca na vida tinham visto um animal sequer. E muitos deles não acreditaram
que existissem no mundo tais criaturas. Pelo menos nas redondezas. Sem contar,
disseram, sem contar que a professora não tinha conseguido encontrar na
aldeia alguém que topasse ser seu marido, e por isso, disseram, a cabeça
dela estava cheia de raposas, pardais, todo o tipo de invencionice que as pessoas
sozinhas criam devido à solidão. Só
o pequeno Nimi, de tanto ouvir o falatório da professora Emanuela, começou
a ter sonhos com animais à noite. A turma ria dele quando chegava contando,
logo pela manhã, como seus sapatos marrons, que durante a noite ficam ao
lado da cama dele se transformavam em dois ouriços que se arrastavam e
examinavam o quarto a noite inteira, mas de manhã, quando ele abria os
olhos, os ouriços voltavam de repente a ser um simples par de sapatos ao
lado da cama. Numa outra vez, morcegos negros vieram à meia-noite, levaram-no
sobre as asas e voaram com ele através das paredes da casa pelo céu
da aldeia e por sobre os montes e os bosques, até que o conduziram a um
palácio encantado. Nimi
era um menino um pouco descuidado, e andava quase sempre com o nariz escorrendo.
Além disso, entre os salientes dentes da frente havia um belo intervalo.
As crianças chamavam esse espaço de poço de lixo. Todas
as manhãs Nimi chegava à sala e começava a contar a todos
um novo sonho, e todas as manhãs diziam-lhe chega, já ficou chato,
fecha o teu poço de lixo. E quando ele não parava, atormentavam-no.
Mas Nimi, em vez de ficar ofendido, também participava do deboche. Fungava
e engolia o catarro, e começava de repente a chamar a si mesmo, numa alegria
transbordante, exatamente pelos apelidos pejorativos que as crianças lhe
deram: Poço de Lixo, Sonhador, Sapato-Ouriço. Maia,
a filha de Lília, a padeira, que sentava atrás dele na sala, cochichava
algumas vezes: Nimi. Escuta. Você pode sonhar com o que quiser, com animais,
com meninas, mas fique quieto. Não conte. Não vale a pena. Mati
dizia a Maia, você não entende, Nimi sonha só para contar
os sonhos. E geralmente os sonhos dele não se interrompem nem quando ele
acorda pela manhã. Tudo
divertia Nimi e tudo despertava nele alegria: a xícara rachada da cozinha
e a lua cheia no céu, o colar da professora Emanuela e seus próprios
dentes salientes, os botões que esqueceu de abotoar e o rugido dos ventos
no bosque, tudo o que existe e acontece parecia engraçado a Nimi. Em todas
as coisas via um motivo suficiente para se arrebentar de rir. Até
que uma vez ele fugiu da sala de aula e da aldeia, e entrou sozinho no bosque.
Durante dois ou três dias, procuraram-no quase todos os aldeões.
Por mais uma semana ou dez dias, procuraram-no os guardas. Depois, apenas seus
pais e a irmã continuaram a procurar por ele. Passadas
três semanas ele voltou, magro e imundo, todo arranhado e machucado, mas
relinchando de tanto entusiasmo e alegria. E desde então o pequeno Nimi
não parou mais de relinchar e tampouco tornou a falar: não pronunciou
nenhuma palavra desde que voltou do bosque, e só ficava circulando descalço
e esfarrapado pelas ruelas da aldeia, o nariz escorrendo, mostrando os dentes
e o intervalo entre eles, se metendo entre os pátios de trás, subindo
nas árvores e postes, relinchando o tempo todo, com o olho direito lacrimejando
sem parar por causa da sua alergia. Era
totalmente impossível voltar a freqüentar a escola por causa da "doença
do relincho". As crianças, quando saíam da aula, provocavam-no
intencionalmente, para que ele relinchasse. Eles o chamavam de Nimi, o potro.
O médico esperava que isso fosse passar com o tempo: talvez ali, no bosque,
ele tivesse se deparado com alguma coisa que o assustou ou abalou, e por enquanto
está com a doença do relincho. Maia
dizia a Mati: será que eu e você deveríamos fazer alguma coisa?
Como podemos ajudá-lo? E Mati respondia: deixa pra lá, Maia. Daqui
a pouco eles vão se cansar disso. Daqui a pouco eles vão esquecê-lo. Quando
as crianças lhe davam um chega-pra-lá com zombarias, e atiravam
pinhas e cascas sobre ele, o pequeno Nimi corria, relinchando. Subia bem alto
nos galhos da árvore mais próxima e de lá, em meio às
ramagens, se voltava para eles relinchando, com um olho lacrimejando e os dentes
da frente salientes. E às vezes, até no meio da noite alta, parecia
que se ouvia ao longe o eco de seu relincho no escuro. |