Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

O Perdido, de Hans-Ulrich Treichel (tradução de José Marcos Macedo; Companhia das Letras; 113 páginas; 18 reais)
Esta novela trata de uma família alemã que tem um filho extraviado durante a II Guerra Mundial. Anos depois, já instalados em uma nova cidade e prósperos, os pais são atormentados pelo sentimento de culpa e tentam reencontrar o filho. Ao contrário do que sugere a sinopse, o livro não é um drama sentimental. O narrador é uma criança inteligente, mas neurastênica
o irmão mais novo do menino perdido. Lançando mão de frases curtas e repetitivas, Treichel reproduz a lógica infantil em seu texto, mesclando-a, no entanto, com um humor sarcástico. O resultado é uma pequena obra-prima da tragicomédia, que também pode ser lida como parábola sobre os traumas e dilemas da Alemanha na segunda metade do século XX.

Trechos do primeiro capítulo


Meu irmão se agachava sobre um cobertor branco de lã e ria para a câmera. Isso foi durante a guerra, disse minha mãe, no último ano da guerra, em casa. Em casa era o leste, e meu irmão nascera no leste. Ao pronunciar as palavras "em casa", minha mãe começou a chorar, como tantas vezes começava a chorar quando o assunto era meu irmão. Ele se chamava Arnold, assim como o pai. Arnold era uma criança feliz, disse minha mãe enquanto observava a foto. Então não disse mais nada, e eu também não disse mais nada e observei Arnold, que se agachava sobre um cobertor branco de lã e estava alegre. Não sei com o que Arnold estava alegre, afinal era guerra, além disso, ele se encontrava no leste, e mesmo assim estava alegre. Eu invejava meu irmão pela sua alegria, invejava meu irmão pelo seu cobertor branco de lã, e o invejava também pelo seu lugar no álbum de fotos. Arnold estava bem na frente no álbum de fotos, antes mesmo das fotografias do casamento dos meus pais e dos retratos dos meus avós, enquanto eu estava lá para trás no álbum. Além disso, Arnold aparecia numa foto bem grande, enquanto as fotos em que eu aparecia eram na maioria pequenas, senão minúsculas. Fotos que meus pais tinham tirado com uma chamada kodak xereta, e essa xereta pelo visto só podia tirar fotos pequenas ou minúsculas. As fotos em que eu aparecia, era preciso observá-las com muita atenção para poder reconhecer o mínimo que fosse. Uma dessas fotos minúsculas, por exemplo, mostrava um tanque com várias crianças, e uma dessas crianças era eu. Mas de mim só se via a cabeça, pois eu, que na época ainda não sabia nadar, estava sentado na água, que por sua vez me chegava quase até o queixo. Além disso, minha cabeça foi parcialmente encoberta por uma criança de pé na água em frente a mim, de modo que a foto minúscula na qual eu aparecia só mostrava uma parte da minha cabeça, logo acima da superfície da água. E mais, na parte visível do meu corpo havia uma sombra, provavelmente lançada pela criança de pé em frente a mim, de modo que de mim só se via, na verdade, o olho direito.

Enquanto meu irmão Arnold, já quando era bebê, parecia não só um sujeito feliz, mas também importante, na maioria das fotos da minha infância sou, quase sempre, apenas parcialmente visível e às vezes praticamente nem sequer sou visto. Praticamente nem sequer sou visto, por exemplo, numa foto que havia sido tirada por ocasião do meu batismo. Minha mãe segurava uma almofada branca no braço, coberta, por sua vez, com uma colcha branca. Embaixo dessa colcha estava eu, o que se podia reconhecer pelo fato de a colcha ter sido puxada na parte inferior da almofada e a ponta de um pé de bebê espiar por debaixo. De certa maneira, todas as outras fotos tiradas de mim na minha infância seguiram a tradição dessa primeira foto, só que em fotos posteriores, em vez do pé se via o braço direito, metade de um. perfil ou, como na foto da piscina, um olho. Ora, eu teria me conformado com a presença parcial da minha pessoa no álbum de família, se minha mãe não tivesse tomado o hábito de apanhar o álbum para me mostrar as fotos que estão nele. O que toda vez acabava acontecendo era que as fotos pequenas, minúsculas e tiradas com a xereta, nas quais se viam eu ou partes isoladas do meu corpo, eram folheadas com bastante rapidez, enquanto a foto em que se via meu irmão Arnold, que me parecia, por assim dizer, de tamanho natural, era motivo de ininterrupta contemplação. Daí se seguia que em geral eu me sentasse ao lado de minha mãe no sofá com cara amarrada e de mau humor e contemplasse o alegre e bem-humorado Arnold, enquanto minha mãe se mostrava cada vez mais emocionada. Nos primeiros anos da minha infância, eu me contentava com as lágrimas da minha mãe e não quebrava a cabeça para saber por que, ao contemplar o alegre Arnold, minha mãe sempre começava a chorar. E mesmo o fato de Arnold ser meu irmão, embora nunca o tivesse visto em carne e osso, não me inquietou muito naqueles primeiros anos, sobretudo não me desagradava não ter de dividir meu quarto com ele. Mas, em algum momento, minha mãe me explicou o destino de Arnold, revelando-me apenas que Arnold morrera de fome ao fugirem dos russos. -Morreu de fome", disse minha mãe, "morreu de fome nos meus braços." Pois ela mesma estivera a ponto de definhar de fome durante a longa jornada do leste para o oeste, e não tivera leite ou qualquer outra coisa para alimentar o bebê. À minha pergunta se então ninguém mais tinha leite para o bebê, minha mãe não disse nada, e todas as minhas outras perguntas sobre maiores detalhes da fuga e da morte por inanição do meu irmão Arnold, ela também não respondeu. Assim, Arnold estava morto, o que certamente era muito triste, mas me facilitava lidar com a sua foto. O alegre e garboso Arnold já se tornara até simpático para mim, e eu me orgulhava de ter um irmão morto, que além disso parecia ainda tão alegre e garboso. Lamentava-me por Arnold, e me orgulhava dele, dividia com ele meu quarto e lhe desejava todo o leite desse mundo. Eu tinha um irmão morto, sentia-me assinalado pelo destino. Dos meus colegas, nenhum tinha um irmão morto, e muito menos um irmão morto de fome ao fugir dos russos.

Arnold se tornara meu amigo, e teria permanecido meu amigo se minha mãe não tivesse querido certo dia dar o que ela chamava "uma palavrinha". Dar uma palavrinha era algo que minha mãe jamais quisera, e meu pai também jamais quisera me dar uma palavrinha. Durante toda a minha infância e os meus primeiros anos de juventude, jamais quiseram me dar uma palavrinha, ou algo que sequer se aproximasse de uma palavrinha. A meu pai bastavam ordens e instruções sobre tarefas para se entender comigo, e embora minha mãe falasse comigo de vez em quando, a conversa versava quase sempre sobre meu irmão Arnold e, com isso, acabava em lágrimas, ou em silêncio. A palavrinha foi iniciada por minha mãe com a declaração de que eu agora estava grande o suficiente para saber a verdade. "Que verdade?", perguntei à minha mãe, pois temia que talvez pudesse ser sobre mim. "É sobre seu irmão Arnold", disse minha mãe. De certa maneira, fiquei aliviado que fosse mais uma vez sobre Arnold, mas, poria f outro lado, aquilo também me aborrecia. "Que tem o Arnold?", eu disse, e minha mãe pareceu de novo à beira das lágrimas, ao que eu fiz a espontânea pergunta, mas não muito ponderada, se acontecera algo com Arnold, o que minha mãe rebateu com um olhar irritado. "Arnold", dis-se minha mãe sem mais rodeios, "Arnold não está morto. E tampouco morreu de fome." Agora eu estava igualmente irritado e também um pouco decepcionado. Porém, em vez de ficar quieto, perguntei à minha mãe, outra vez sem refletir muito, do que afinal morrera Arnold. "Ele não morreu", tornou a dizer minha mãe sem nenhuma emoção, ele se extraviou." Em seguida, contou-me a história de como Arnold se extraviara, que em parte eu entendi e em parte não. A história, de um lado, coincidia com a do Arnold morto de fome, do outro, era uma história inteiramente nova. Arnold de fato padecera fome na jornada do leste para o oeste, e minha mãe de fato não tivera leite nem outro alimento para a criança. Porém Arnold não morrera de fome, mas se perdera, e custava à minha mãe tornar minimamente clara a razão do sumiço de Arnold.



Voltar
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio