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O
Irmão Bom, de Chris Offutt (tradução
de Paulo Reis; Rocco; 335 páginas; 34 reais)
Trata-se
do primeiro romance de Chris Offutt, que vem sendo louvado como
uma das grandes promessas da nova ficção americana.
Ambientado nos Estados caipiras de Kentucky e Montana, o livro fala
sobre os códigos de honra arcaicos que ainda sobrevivem "no
coração da América". A história começa
quando o irmão de Virgil é assassinado. Todos na cidadezinha
esperam que a morte seja vingada conforme a tradição.
Virgil quer escapar desse círculo vicioso mas não
consegue livrar-se do passado e acaba envolvido com uma milícia
clandestina de fazendeiros. Offutt conduz com mão firme uma
narrativa repleta de tensão e belas descrições.
Leia
trechos do livro:
Virgil
desceu o morro seguindo o valão de chuva e levou o carro
até o correio de Blizzard. A correspondência ainda
não havia chegado e ele foi em frente, dando um aceno geral
para a turma que fofocava sob a claridade do sol de abril. Foi levando
o carro pelo morro íngreme até a divida do município.
Ficava a apenas três quilômetros da casa onde fora criado,
mas ele jamais a cruzara.
Estacionou
na borda do penhasco. A coloração do ar era mais vívida
no cume. O riacho corria pela ravina, como o algodãozinho
do campo florescendo nas margens. Quando Virgil era criança,
costumava caminhar com o irmão pela margem escorregadia,
catando garrafas de refrigerante vazias em número suficiente
para trocar por balas quando chegava à única loja
de Blizzard. Virgil queria fazer aquilo com Boyd de novo, mas as
pessoas pararam de jogar fora as garrafas de refrigerante quando
o vale-depósito subiu para cinco centavos. A loja fechou
quando o dono morreu. E boyd também já morreu.
Virgil
tentou imaginar o terreno na época em que os topos dos morros
eram planos, antes que um milhão de anos de chuva roessem
a terra criando os riachos e vales. As nuvens se amontoavam feito
pilhas de serragem. Percebeu que seu olhar alcançava além
do município e ficou imaginando se os falcões seriam
capazes de enxergar mais longe, ou apenas com mais nitidez. O mundo
parecia menor visto dali de cima. As dobras e depressão dos
morros cobertos de mato lembravam uma colcha amarrotada que precisava
ser alisada.
Havia
carros deixando o correio, o que significava que o caminhão
de correspondência já chegara. Um chapim pendia de
cabeça para baixo numa árvore, dardejando a cabeça
para bicar um inseto numa folha. A seiva de um pinheiro escorria
feito sangue de um corte na árvore. Virgil foi levando o
carro pela estrada e estacionou à sombra dos salgueiros junto
ao riacho. Uma bandeira esfarrapada drapejava acima do correio,
amarrada permanentemente a um poste de nogueira. Toda manhã
o encarregado, um velho de cabelos brancos chamado Zephaniah, vinha
do correio arrastando o mastro da bandeira e enfiava a ponta num
buraco na terra junto a um mourão de cerca. Depois afivelava
um cinto de couro ao redor do mastro e do mourão. Ao final
afivelava um cinto de couro lá dentro.
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