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A Igreja Católica, de Hans Küng (tradução de Adalgisa Campos da Silva; Objetiva; 264 páginas; 29,90 reais) – Essa história resumida dos 2.000 anos da Igreja Católica tem a grife de um dos maiores especialistas no assunto, o teólogo alemão Hans Küng. Longe de ser uma mera narrativa cronológica dos fatos, trata-se de ensaio. Prosador envolvente, Küng está preocupado em separar o que é verdade histórica daquilo que foi se estabelecendo como dogma ou mistificação ao longo dos séculos, seja em relação à trajetória dos apóstolos após a morte de Cristo ou à nada abonadora biografia de alguns papas da Idade Média, por exemplo.Intelectual de oposição a João Paulo II – por quem já foi censurado –, o teólogo também não poupa o atual pontífice de críticas nos capítulos finais do livro.

Leia trechos do livro

Fundada por Jesus?

Segundo os evangelhos, o homem de Nazaré praticamente nunca usou a palavra igreja. Não há falas de Jesus em público que programaticamente chamem a atenção para a necessidade de uma comunidade de eleitos e da fundação de uma igreja. Críticos bíblicos concordam nesse ponto. Jesus não proclamou uma igreja, nem a si mesmo, mas sim o reino de Deus. Governado pela consciência de estar vivendo no fim de uma era, Jesus quis anunciar o reino iminente de Deus, a lei de Deus, visando à salvação humana. Ele não pediu simplesmente a observância externa dos mandamentos de Deus, mas sim seu cumprimento em compromisso com o próximo. Em resumo, Jesus pediu um amor benevolente que inclui até os adversários, aliás, até os inimigos. O amor a Deus e o amor ao próximo são exigidos no mesmo grau do amor a si mesmo (Ama... como a ti mesmo"), como já está na Bíblia hebraica.

Assim, Jesus, um poderoso pregador do Verbo e ao mesmo tempo um curador carismático do corpo e de alma, convocou um grande movimento escatológico coletivo, e, para ele, os Doze com Pedro eram um sinal da restauração do número completo das tribos de Israel. Para irritação dos beatos e dos ortodoxos, ele também convidou a entrar em seu reino pessoas de outras crenças religiosas (samaritanos), pessoas politicamente comprometidas (coletores de impostos), pessoas que falharam moralmente (adúlteros) e pessoas exploradas sexualmente (prostitutas). Para ele, preceitos específicos: da lei, sobretudo relativos à comida, higiene e ao sabá, vinham depois do amor ao próximo; o sabá e os mandamentos existem para homens e mulheres.

Jesus foi um profeta provocativo, que demonstrou ser crítico do templo e de fato engajado numa demonstração militante contra o comércio ali tão importante. Embora não fosse um político revolucionário, suas palavras e seus atos logo o fizeram entrar num conflito fatal com o sistema político e religioso. De fato, para muitos, este jovem de 30 anos, sem profissão ou título específico, transcendia a pretensão de um mero rabino ou profeta, de modo que eles o viam como o Messias.

No entanto, em sua atividade incrivelmente curta no máximo três anos, ou talvez apenas alguns meses -, ele não procurou fundar uma comunidade à parte, independente de Israel, com seu próprio credo e culto, nem criar uma organização com sua própria constituição e seus próprios misteres, muito menos um grande edifício religioso. Não, segundo todas as evidências, Jesus não fundou uma igreja durante sua vida.

Mas agora precisamos acrescentar logo que uma igreja no sentido de uma comunidade religiosa independente de Israel nasceu imediatamente após a morte de Jesus. Isso aconteceu sob o impacto da experiência da ressurreição e do Espírito. Foi relatado que, com base em experiências carismáticas particulares (aparições, visões, audições) e em um padrão particular na interpretação da Bíblia hebraica (profeta perseguido, servo de Deus sofredor), os seguidores judeus de Jesus, homens e mulheres, convenceram-se de que este homem que eles traíram, este homem que era ridicularizado e escarnecido por seus adversários, este homem que foi abandonado por Deus e pelos seres humanos, seus semelhantes, e morreu na cruz com um grito lancinante, não permaneceu morto. Os seguidores achavam que Jesus foi elevado por Deus à vida eterna e foi exaltado na glória de Deus; conforme a imagem do Salmo 110, "está sentado à direita de Deus", foi constituído por Deus "Senhor e Cristo" (ver Atos 2,22-36), "foi estabelecido Filho de Deus no poder pela ressurreição dos mortos" (Romanos 1,4).

Então esta é a resposta à pergunta. Embora a igreja não tenha sido fundada por Jesus, para suas origens ela fez um apelo a ele, aquele que foi crucificado e ainda assim continuou vivo, em quem, para os crentes, o reino de Deus já havia chegado. A igreja continuou sendo o movimento de Jesus com uma orientação escatológica; sua base, inicialmente, não foi seu próprio culto, sua própria constituição, sua própria organização com misteres específicos. Sua fundação foi simplesmente a confissão em fé deste Jesus como o Messias, o Cristo, como foi selado com o batismo em seu nome e através de uma refeição cerimonial em sua memória. Foi assim que a igreja inicialmente tomou forma.


 
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