|
A
Primeira História do Brasil, de Pero de Magalhães
de Gândavo (Jorge Zahar; 208 páginas; 34 reais)
Em 1576, Pero de Magalhães de Gândavo lançou
a primeira obra em português de que se tem notícia
sobre a história e a geografia do país. Intitulado
originalmente História da Província de Santa Cruz
a que Vulgarmente Chamamos Brasil, o livro reúne as impressões
do estudioso e viajante sobre a então colônia. O autor
descreve a fauna, a flora, os habitantes e os costumes da terra.
Há passagens que chamam atenção pelo pitoresco
como aquela em que Gândavo fala sobre a suposta aparição
de um monstro marinho na capitania de São Vicente. Nessa
edição organizada pelos pesquisadores Sheila Moura
Hue e Ronaldo Menegaz, seu texto passou por uma atualização
lingüística e vem acompanhado de notas explicativas.
Leia trecho do livro
Ao
muito ilustre senhor dom Leonis Pereira
sobre o livro que lhe oferece Pero de Magalhães
Tercetos de Luís de Camões
Depois
que Magalhães teve tecida
A breve história sua que ilustrasse
A terra Santa Cruz pouco sabida,
Imaginando a quem a dedicasse
Ou com cujo favor defenderia
Seu livro, de algum Zoilo1 que ladrasse;
Tendo nisto ocupada a fantasia,
Lhe sobreveio um sono repousado,
Antes que o sol abrisse o claro dia,
Em sonhos lhe aparece todo armado
Marte, brandindo a lança furiosa,
Com que fez quem o viu todo en. ado,
Dizendo em voz pesada e temerosa,
Não é justo que a outrem se ofereça
Nenhuma obra que possa ser famosa,
Se não a quem por armas resplandeça,
No mundo todo, com tal nome e fama,
Que louvor imortal sempre mereça.
Isto assim dito, Apolo que da . ama
Ao muito ilustre senhor dom Leonis Pereira
sobre o livro que lhe oferece Pero de Magalhães
Celeste guia os carros, da outra parte
Se lhe apresenta, e por seu nome o chama,
Dizendo, Magalhães, posto que Marte
Com seu terror te espante, todavia
Comigo deves só de aconselhar-te.
Um barão sapiente, em quem Talia2
Pôs seus tesouros, e eu minha ciência,
Defender tuas obras poderia.
É justo que a escritura na prudência
Ache sua defesa, porque a dureza
Das armas é contrária da eloqüência.
Assim disse, e tocando com destreza
A cítara dourada, começou
De mitigar de Marte a fortaleza.
Mas Mercúrio, que sempre costumou
A despartir por. as duvidosas,
Coo caduceu na mão que sempre usou,
Determina compor as perigosas
Opiniões dos Deuses inimigos,
Com razões boas, justas e amorosas,
E disse, bem sabemos dos antigos
Heróis, e dos modernos, que provaram
De Belona os gravíssimos perigos,
Que também muitas vezes ajuntaram
Às armas eloqüência, porque as Musas
Mil capitães na guerra acompanharam;
Nunca Alexandre ou César nas confusas
Guerras deixaram o estudo um breve espaço,
Nem armas das ciências são escusas.
Nua
mão livros, noutra ferro e aço,
A uma rege e ensina, a outra fere,
Mais coo saber se vence que coo braço.
Pois logo barão grande se requere,
Que com teus dões Apolo ilustre seja,
E de ti Marte palma e glória espere.
Este vos darei eu, em que se veja
Saber e esforço no sereno peito,
Que é dom Leonis que faz ao mundo inveja.
Deste as Irmãs3 em vendo o bom sujeito,
Todas nove nos braços o tomaram,
Criando-o com seu leite no seu leito.
As artes e ciência lhe ensinaram,
Inclinação divina lhe in. uíram,
As virtudes morais que o logo ornaram.
Daqui os exercícios o seguiram,
Das armas no Oriente, onde primeiro
Um soldado gentil instituíram.
Ali tais provas fez de cavalheiro,
Que de cristão magnânimo e seguro,
A si mesmo venceu por derradeiro.
Depois já capitão forte e maduro
Governando toda Áurea Quersoneso,4
Lhe defendeu coo braço o débil muro.
Porque vindo a cercá-la todo o peso
Do poder dos Achéns, que se sustenta
Do sangue alheio, em fúria todo aceso.
Este só que a ti Marte representa
O castigou
de sorte que o vencido
De ter quem . que vivo se contenta.
Pois tanto que o grão Reino defendido
Deixou, segunda vez com maior glória,
Para o ir governar foi elegido.
E não perdendo ainda da memória
Os amigos o seu governo brando
Os inimigos o dano da vitória.
Uns com amor intrínseco esperando
Estão por ele, e os outros congelados
O vão com temor frio receando.
Pois vede se serão desbaratados
De todo, por seu braço se tornasse,
E dos mares da Índia degradados.
Porque é justo que nunca lhe negasse
O conselho do Olimpo alto e subido
Favor e ajuda com que pelejasse.
Pois aqui certo está bem dirigido,
De Magalhães o livro, este só deve
De ser de vós, ó Deuses, escolhido.
Isto Mercúrio disse; e logo em breve
Se conformaram nisto Apolo e Marte,
E voou juntamente o sono leve.
Acorda Magalhães, e já se parte
A vos oferecer Senhor famoso
Tudo o que nele pôs, ciência e arte.
Tem claro estilo, engenho curioso,
Para poder de vós ser recebido,
Com mão benigna de ânimo amoroso.
Porque só de não ser favorecido
Um claro espírito . ca baixo e escuro,
E seja ele convosco defendido
Como o foi de Malaca o fraco muro.
Soneto
do mesmo autor ao senhor dom Leonis,
acerca da vitória que houve contra
o rei do Achém em Malaca
Vós,
ninfas da gangética espessura,
Cantai suavemente em voz sonora
Um grande capitão, que a roxa aurora
Dos . lhos defendeu da noite escura.
Ajuntou-se a caterva negra e dura,
Que na Áurea Quersoneso afoita mora,
Para lançar do caro ninho fora
Aqueles que mais podem que a ventura.
Mas um forte leão com pouca gente,
A multidão tão fera como néscia,
Destruindo castiga, e torna fraca.
Pois ó ninfas cantai que claramente
Mais do que fez Leônidas em Grécia
O nobre Leonis fez em Malaca.
|