Um
Episódio na Vida do Pintor-Viajante (tradução de
Paulo Andrade Lemos; Nova Fronteira; 128 páginas; 21,90 reais) e As
Noites de Flores (tradução de Paulo Andrade Lemos; Nova
Fronteira; 192 páginas; 24,90 reais), de César Aira Aira
é hoje um dos mais importantes escritores argentinos. E um dos mais prolíficos,
com mais de trinta livros, entre contos, romances e ensaios. Os dois romances
lançados agora no Brasil mostram a amplitude de seus temas. Um Episódio...
centra-se na figura do pintor alemão Johann Moritz Rugendas
e em um acidente que marcou sua vida quando ele viajava pela Argentina, no século
XIX. As Noites de Flores volta-se para as crises econômicas da Argentina
atual, representada por um casal de meia-idade que ganha a vida entregando pizzas
a pé.
Leia
trechos Um
Episódio na Vida do Pintor-Viajante Porque
o que aconteceu a seguir foi absorvido diretamente pelo sistema nervoso. O que
equivale dizer que durou muito pouco e foi tudo ação encadeada e
selvagem. A tormenta se manifestou de súbito com um grandioso relâmpago
que preencheu todo o céu, traçando uma ferradura ziguezagueante.
Caiu tão baixo que o rosto levantado de Rugendas, congelado num gesto de
estupor idiota, iluminou-se todo de branco. Pareceu-lhe sentir seu calor sinistro
na pele e as pupilas se contraíram até quase desaparecer. A precipitação
impossível do trovão o envolveu em milhões de ondas. O cavalo
começou a girar debaixo de suas pernas. Ainda não tinha terminado
de fazê-lo quando lhe caiu um raio na cabeça. Como uma estátua
de níquel, homem e animal ficaram acesos de eletricidade. Rugendas se viu
brilhar, espectador de si mesmo por um instante de horror, e que lamentavelmente
haveria de repetir-se. A crina do cavalo estava toda eriçada, como uma
barbatana de peixe-espada. A partir desse momento, apareceu uma visão estranha
para ele, como sucede nas catástrofes personalizadas, quando alguém
se pergunta: Por que é que isso teve de acontecer comigo? O que sentiu
quando o sangue se eletrizou foi horrível, porém muito fugaz. De
todo modo, a eletricidade se descarregava tão rápido quanto carregava.
Mesmo assim, aquilo não podia ser bom para a saúde. O
cavalo tinha caído de joelhos. O cavaleiro o esporeava como um louco, levantando
as pernas até pô-las quase na vertical e fechando-as com o movimento
e o ruído de uma tesoura. O animal também descarregava o fluido.
À sua volta havia se acendido uma espécie de bandeja de ouro fosfórico
com bordas ondulantes. Mal terminou o processo, que durou alguns segundos, ele
já havia se erguido e se pôs a andar. A bateria completa de trovões
estrondava por cima deles. Dentro de um negror de meia-noite, relâmpagos
grossos e delgados se entreteciam. Por entre as montanhas, rodavam faíscas
brancas do tamanho de casas e os raios eram como os tacos de um bilhar meteórico.
O cavalo girava. Perturbado ao extremo, Rugendas puxava as rédeas ao acaso,
até que lhe escaparam das mãos. A planura tinha se tornado imensa
e sem saída porque tudo era saída, e tudo estava tão carregado
de atividade elétrica que ficava difícil se orientar. O solo tremia
com o estrondo dos raios. O cavalo começou a andar com uma prudência
sobrenatural, levantando muito os cascos e corcoveando lentamente. O
segundo raio o fulminou menos de quinze segundos depois do primeiro. Foi muito
mais forte e teve efeitos muito mais devastadores. Eles voaram uns vinte metros,
acesos e crepitando como uma fogueira fria. Seguramente por efeito da decomposição
atômica que os corpos e elementos estavam sofrendo naquela ocasião,
a queda não foi fatal. Ela foi como que acolchoada e aconteceu aos rebotes.
Não apenas isto, mas também a magnetização do pêlo
do cavalo havia funcionado como um ímã e Rugendas permaneceu montado
durante todo o volteio. Porém, uma vez no solo, a tração
se afrouxou e o homem se viu deitado na terra seca, olhando para o céu.
O emaranhado de relâmpagos nas nuvens fazia e desfazia figuras de pesadelo.
Nelas, por uma fração de segundos, acreditou ter visto uma cara
horrenda. O Monigote! O som ambiente ensurdecia:
ruído sobre ruído, trovão sobre trovão. A circunstância
era anormal ao extremo. O cavalo se movia pelo chão feito um caranguejo
e milhares de células de fogo estalavam ao seu redor, formando uma espécie
de auréola generalizada que se deslocava com ele e que já não
parecia afetá-lo. Gritavam, o homem e o cavalo? Provavelmente estavam
num espasmo de mudez. Todavia, mesmo que tivessem uivado, não se teria
ouvido nada. O cavaleiro derrubado buscava o chão com as mãos, à
procura de um ponto de apoio para sentar-se. Mas havia estática demais
para que se pudesse tocar em alguma coisa. O cavalo estava se levantando e um
alívio instintivo indicou a Rugendas que isso era conveniente. Devia renunciar
momentaneamente ao consolo da companhia dele para salvar-se de um terceiro raio. Com
efeito, o cavalo se levantava, todo eriçado e monumental, ocultando metade
da malha de relâmpagos, e suas patas de girafa se quebravam em passos indóceis,
a cabeça atenta ao chamado da loucura... e se foi... Mas
Rugendas ia com ele! Não podia nem queria entender, era por demais monstruoso.
Sentia que era arrastado e quase levitava (efeito da carga elétrica), como
o satélite de um astro perigoso. A marcha se fazia mais rápida e
ele, agarrado atrás, revoluteando, sem compreender nada... O
que ele não sabia é que um pé tinha ficado enganchado no
estribo, acidente que, mesmo repetido (um clássico da equitação
de todos os tempos), deixa de acontecer de vez em quando. A geração
de eletricidade cessou tão subitamente como havia começado, o que
foi péssimo, porque um raio certeiro teria detido o animal, e poupado muitos
inconvenientes ao pintor. Mas a corrente elétrica foi reabsorvida pelas
nuvens, começou a soprar o vento, choveu... O
cavalo galopou por uma distância indefinida. Nunca se soube o quanto e,
na realidade, isso não tinha importância. Muito ou pouco, o desastre
estava feito. Foi ao amanhecer do dia seguinte que Krause e o velho o encontraram.
O cavalo havia encontrado os trevos e pastava sonâmbulo, levando um penduricalho
ensangüentado enganchado no estribo. Tinham passado a noite procurando-o
e o pobre Krause, no cúmulo da angústia, já o dava por morto.
Encontrá-lo foi um meio-alívio: ele estava ali, enfim, mas arrastado
de boca para baixo, inerte. Apressaram o passo e, no percurso, viram-no mover-se,
mas sem abandonar a posição em que estava, de boca para a terra.
A pouca esperança que isso lhes infundia foi neutralizada quando perceberam
que ele só se movia porque era puxado pelos distraídos passos do
cavalo que comia. Apearam-no, desengancharam-no do estribo, viraram o corpo...
O horror os deixou mudos. A cara de Rugendas era uma massa inchada e ensangüentada,
na testa havia um osso exposto, e lhe caíam tiras de pele por sobre os
olhos. O nariz tinha perdido sua forma reconhecível, o nariz aquilino de
Augsburg, e os lábios, dilacerados e retraídos, deixavam ver todos
os dentes, milagrosamente intactos. A primeira coisa era ver se ele respirava.
Sim, respirava. Este detalhe dava um tom de urgência ao que se seguiu. Puseram-no
sobre o cavalo e o levaram. O guia, que havia recuperado sua capacidade de guiar,
indicou um rumo onde se lembrava que havia alguns ranchos. Encontraram-nos no
meio da manhã. O presente que traziam para estes pobres capiaus perdidos
era o mais adequado para provocar a sua perplexidade. Pelo menos puderam aplicar
os primeiros socorros e se encarregaram de resolver a situação.
Lavaram-lhe o rosto, trataram de reconstituí-lo manipulando os pedaços
com a ponta dos dedos, puseram-lhe emplastros de hamamélis para cicatrizar
e comprovaram que não havia ossos fraturados. A roupa tinha se esfarrapado,
mas, com exceção de alguns raspões no peito, nos cotovelos
e nos joelhos, e de alguns cortes superficiais, o corpo estava intacto. Todo o
dano havia se concentrado na cabeça, como se ele tivesse vindo rodando
sobre ela. A vingança do Monigote? Quem sabe? O corpo é uma coisa
estranha, e, quando é afetado por um acidente onde atuaram forças
não-humanas, nunca se sabe qual será o resultado. Recuperou
a consciência na mesma tarde, rápido demais para que isso representasse
alguma vantagem. Despertou sentindo dores que nunca havia sentido antes e contra
as quais não tinha defesa. Passou vinte e quatro horas num só grito.
Todos os remédios experimentados foram inúteis. É certo que
havia pouca coisa para experimentar, além de compressas e boa vontade.
Krause retorcia as mãos. Ele também não dormiu e nem se alimentou.
Tinham mandado buscar um médico em San Luis que chegou na noite seguinte,
num galope desabrido debaixo do aguaceiro. O dia seguinte foi utilizado no transporte
do ferido à capital da província, numa diligência que havia
sido enviada pelo senhor governador. O diagnóstico do médico era
reservado. De acordo com seu parecer, a dor aguda era provocada por algum terminal
nervoso exposto que mais cedo ou mais tarde se reacomodaria. Aí então,
o paciente recuperaria a fala e poderia comunicar-se, o que tornaria a situação
menos angustiante. As feridas seriam suturadas no hospital e o desenvolvimento
das cicatrizes dependeria da predisposição dos tecidos. Além
disso, só Deus sabia. Havia trazido morfina e administrou uma quantidade
piedosa, o que o fez adormecer na diligência, poupando-o das incertezas
da travessia noturna pelos lamaceiros. Acordou no hospital justamente quando o
estavam costurando. Tiveram de administrar-lhe uma dose dupla para que se aquietasse. As
Noites de Flores Eles
eram membros muito característicos de nossa maltratada classe média:
com uma aposentadoria medíocre, casa própria e sem grandes apertos,
mas também sem muita folga. Com saúde e energia, ainda relativamente
jovens e sem nada para fazer, teria sido de espantar que não procurassem
alguma atividade com que completar a sua modesta renda. Não se propuseram
a ser originais. O trabalho apareceu um pouco por acaso porque conheciam o jovem
gerente da pizzaria e também talvez porque aquilo se parecia com um não-trabalho.
A crise, que vinha ocasionando tantas adaptações estranhas nos hábitos,
acabou fazendo com que a oportunidade se encaixasse. As pizzarias deixaram de
ter a sua própria frota de motos depois que perceberam que podiam operar
com entregadores que tinham seu próprio veículo. Houve uma redução
drástica na oferta de trabalho, e o que restou fez-se mais imprevisível
ainda, pois os adolescentes que eram donos das motocicletas trabalhavam somente
quando precisavam de dinheiro e mudavam de patrão como quem muda de roupa.
O casal Peyró era pontualíssimo, responsável, e o passo-a-passo
deles funcionava. Davam-lhes as entregas em locais próximos, num raio de
ação reduzido, e não se podia dizer que demorassem mais do
que os motoqueiros e nem que as pizzas chegassem frias. Ganhavam o pequeno
salário estabelecido, mais as gorjetas. E além do mais, isso os
obrigava a caminhar, o que era um exercício recomendado para a idade deles,
ótimo para a saúde, e nem foi preciso que um médico lhes
dissesse isso. O
trabalho os pôs em contato com uma parte da sociedade que de outro modo
desconheceriam. E também com uma parte deles mesmos que não teria
vindo à luz. Como tantos casais da idade deles, iam ficando cada vez mais
parados, passando as noites na frente da televisão, indo se deitar cada
vez mais cedo. Ao abrir-se a noite para eles, foi como uma renovação
de uma espécie de juventude. E os rapazes extremamente jovens que eram
seus colegas de trabalho na pizzaria os tratavam com a maior naturalidade. Eram
quase meninos, ou eram meninos mesmo, vistos do alto da idade de Aldo e Rosita,
o que não os impedia de aprender com eles. As gerações, ao
se renovarem, trazem coisas novas que não têm nada a ver com a experiência,
ou colocam a experiência em outro plano. Aqueles garotos eram, além
do mais, especiais. As motos, a rua, os horários noturnos, tudo isso dava
a eles um caráter muito sedutor de liberdade, de audácia, de independência,
ou talvez fosse esse próprio caráter, com o qual já haviam
nascido, que os levava a exercer aquele ofício. O gerente da pizzaria contou
uma vez ao casal Peyró que eles eram "uma boa influência"
para aquela tropa juvenil. Naquela noite, nas longas conversas nas caminhadas
para entrega das pizzas, eles elaboraram essa informação
e concluíram que as influências eram sempre mútuas e, por
mais fantástico que possa parecer, eles também se enriqueciam com
o que recebiam. Os
trajetos seguiam um itinerário muito particular, e por um motivo curioso.
Pedestres cautelosos, da velha escola, atravessavam as ruas somente nas esquinas,
respeitando os sinais de trânsito quando os havia, se bem que o perigo que
representavam os automóveis diminuísse bastante depois das dez ou
onze da noite. Diminuía e aumentava ao mesmo tempo porque os veículos,
por serem em menor quantidade, trafegavam em maior velocidade. Ao caminhar, Rosita
se colocava sempre à esquerda de Aldo porque o ouvido esquerdo dele funcionava
melhor que o direito e, como sempre iam conversando sobre alguma coisa, ele preferia
que ela ficasse do lado em que ouvia melhor. Devido a um costume muito antigo
(sempre caminharam muito) ele lhe cedia o lado de dentro, perto da parede, como
havia aprendido na infância que era o que um verdadeiro cavalheiro deveria
fazer, sentindo-se desconfortável quando ficavam posicionados de outro
modo. Para cumprir os dois requisitos ao mesmo tempo, tinham que mudar de calçada
a cada vez que dobravam uma esquina. Em certos casos, isso os obrigava a estender
irracionalmente o percurso, mas para minimizar isso havia sempre um traçado
ótimo do itinerário. Esse cálculo pode parecer complicado,
mas eles o faziam automaticamente. Esses
mapas virtuais fizeram-se visíveis, apenas visíveis e durante apenas
um momento, quando se produziu uma "guerra de motos", o que era freqüente,
mas que naquela oportunidade teve um caráter furioso e espetacular. Os
motoboys de cada estabelecimento desenvolviam fortes sentimentos de pertencimento
a um grupo e, conseqüentemente, de rivalidade com outros grupos do bairro.
Montados em veículos que naturalmente sugeriam uma disputa de velocidade,
as corridas e os pegas eram habituais. Em periódicas erupções
esportivas, haviam-se enfrentado em eventos ocorridos de madrugada quando terminava
o trabalho. Os circuitos escolhidos eram as ruas mais vazias, no lado norte das
avenidas, porém também já o tinham feito no movimentado setor
sul adjacente à avenida Rivadavia, e uma vez até na própria
avenida. Não seria exagero observar que tudo era infração
nesses torneios; tudo era perigo e tormento para os vizinhos devido ao barulho
infernal. Mais de uma pessoa deve ter pensado, e com bons motivos, que aquelas
eram mais competições de barulho do que de velocidade. As corridas
tinham que ser curtas como ataques-surpresa, porque a polícia demorava
apenas alguns minutos para aparecer, o que, somado aos problemas de organização
inerentes à juventude dos participantes, à sua irresponsabilidade,
à disputa entre os grupos rivais, fazia desses pegas um caos, por sorte,
fugaz. Os donos das pizzarias, que no fim das contas seriam os responsabilizados,
tinham proibido terminantemente as corridas de moto sob ameaça de demissões
sumárias em massa. Eles não ignoravam que, se acontecesse uma tragédia,
e era um milagre que ainda não tivesse ocorrido nenhuma, teriam que pagar
um preço muito alto, o que inclusive poderia afastá-los do negócio
e levá-los à ruína. Este foi um dos motivos pelo qual eles
deixaram de ter uma frota de motos e agora, quando contratavam um entregador com
veículo próprio, faziam com que os pais assinassem um documento
isentando o estabelecimento de qualquer responsabilidade pelo que seus funcionários
motorizados pudessem fazer, sozinhos ou em grupo, mesmo antes ou depois do horário
de trabalho. Na
realidade, os enfrentamentos mais renhidos tinham ocorrido entre as pizzarias
ou então entre estas e outros setores da entrega em domicílio: comida
chinesa, pastelarias e sorveterias. Os piores embates ocorriam entre a pizzaria
e a sorveteria. Justamente o pega que o casal Peyró testemunhou foi o desenlace
de uma série de desafios e rancores acumulados entre os entregadores da
pizzaria para quem trabalhavam, o Pizza Show, e os da sorveteria Freddo. Toda
essa garotada provinha mais ou menos do mesmo estrato social, no entanto, uma
espécie de identificação mimética ligava os garotos
ao estabelecimento para quem faziam as entregas, ou até mesmo ao produto
com o qual trabalhavam. Os entregadores das democráticas pizzas sentiam-se
obrigados a representar uma classe popular sujeita aos altos e baixos na economia
do país. Enquanto isso, os pilotos das quinze motos azuis da Freddo, transportando
os luxuosos sorvetes de sabores rebuscados, viam-se sintonizados com o carpe
diem de uma classe média esbanjadora, imprevidente, anti-social. Quem
é que tinha que correr mais? O que tinha que conservar o calor ou o que
tinha que conservar o frio? O que era mais importante? O alimento ou a guloseima? Tanto
uns quanto outros já tinham sido advertidos que aquelas loucuras não
seriam mais toleradas. Os últimos pegas tinham produzido todo tipo de problemas
com a polícia. Longe de amedrontá-los, essas ameaças fizeram
com que eles decidissem subir a aposta e organizar um evento memorável. Na
quinta-feira do desafio, quando os sinos da basílica começaram a
bater meia-noite (iam tocar cem badaladas fúnebres, porque naquela tarde
havia sido encontrado o cadáver de Jonathan, o rapaz seqüestrado,
um caso que tinha mantido o país em suspense durante uma semana), trinta
motocicletas rugindo iniciaram uma corrida louca... pela calçada, não
pela rua. Nunca se viu nada de mais demente e perigoso. As calçadas tinham
menos de quatro metros de largura. Trinta motos lançadas a toda velocidade
sobre essa passarela exígua formavam uma onda heterogênea e multicolorida
de metal, plástico, carne juvenil e ruído. Todos empurravam para
o lado da parede, pois quem caía na rua pelo meio-fio tinha que esperar
pelo fim do cortejo
para se reincorporar
ao grupo. Formava-se uma espécie de ziguezague compacto que, mesmo sem
se estabilizar e mesmo sem deixar de ser um caos, permitia uma aprendizagem de
habilidades a uma velocidade cada vez mais acelerada. Em trinta segundos deram
a volta no quarteirão e pularam para a quadra seguinte, e assim foram descendo
quadra por quadra fazendo desenhos em forma de oito até a avenida Rivadavia
(tinham começado na Directorio), onde chegaram quando soava a badalada
número noventa e nove. Com a centésima badalada, se dispersaram,
fugindo dos carros da polícia que confluíam para o local, fazendo
soar as sirenes das viaturas de todas as delegacias do bairro. |