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O
Amor Mascarado (tradução
de Carlos Ancêde Nougué; Bom Texto; 142 páginas;
30 reais) e A Obra-Prima Ignorada (tradução
de Teixeira Coelho; Comunique; 141 páginas; 22 reais)
O francês Balzac esteve entre os fundadores da ficção
realista. Compôs A Comédia Humana, ciclo com
cerca de noventa romances e novelas interligados, que compõe
um painel completo da vida francesa no século XIX. Esses
lançamentos são peças menores em sua obra,
mas não insignificantes. O Amor Mascarado serviu de
presente a uma duquesa, em cuja biblioteca acabou perdido. Na França,
só foi redescoberto em 1911. No Brasil, nunca havia sido
traduzido.A Obra-Prima Ignorada tem por tema a criação
artística e por isso mesmo fascinou grandes pintores,
como Cézanne e Picasso. Faz parte da Comédia Humana,
mas jamais havia saído aqui numa edição independente.
Leia trechos de A
Obra-Prima Ignorada
I. Gillette
Numa fria manhã de dezembro de 1612, um jovem cujas roupas
eram de rala aparência andava de um lado para outro diante
da porta de uma casa na Rue des Grands Augustins, em Paris. Após
ter longamente perambulado pela rua com a indecisão de quem
não se atreve a bater à porta de sua primeira amante,
por mais fácil que ela seja, o jovem acabou por atravessar
a soleira daquela porta e perguntou se Mestre François Porbus
estava em casa. Com a resposta afirmativa da velha que varria a
entrada, o jovem subiu vagarosamente a escada, parando em cada degrau
como um novo cortesão incerto da acolhida que lhe dará
o rei. Chegando ao alto, deteve-se por um instante, hesitando em
usar a aldrava grotesca que ornamentava a porta do ateliê
onde sem dúvida trabalhava o pintor de Henrique IV, agora
abandonado por Maria de Médicis em favor de Rubens. 0 jovem
experimentava essa sensação profunda que deve ter
feito vibrar o coração dos grandes artistas quando,
no auge da juventude e do amor pela arte, aproximaram-se pela primeira
vez de um gênio ou de uma obra-prima. Em todos os sentimentos
humanos existe uma flor primitiva, engendrada por um nobre entusiasmo,
que vai definhando até que a felicidade se transforma apenas
numa lembrança e a glória, em mentira. Dentre nossas
frágeis emoções, nada se assemelha tanto ao
amor como jovem paixão de um artista que se inicia no delicioso
suplício de seu destino de glória e desgraça,
paixão plena de audácia e timidez, vagas crenças
e frustrações inevitáveis. Àquele que,
curto de dinheiro porém dotado com adolescente genialidade,
não tremer ao apresentar-se diante de um mestre, faltará
sempre uma corda no coração e, em sua obra, alguma
pincelada, um determinado sentimento, uma certa expressão
poética. Apenas os pobres de espírito têm em
alta estima os fanfarrões cheios de si que cedo demais acreditam
em seu futuro. Sob esse aspecto, aquele jovem desconhecido parecia
ter um verdadeiro mérito, se é que o talento deve
ser medido por essa timidez primeira, por esse pudor indefinido
que as pessoas destinadas à fama sabem perder no exercício
da arte assim como as belas mulheres o perdem também no manejo
da coqueteria. 0 hábito do triunfo apequena a dúvida,
e o pudor talvez seja um modo da dúvida.
Acossado pela miséria e atônito com sua própria
presunção, sem o auxílio extraordinário
do acaso o pobre neófito não teria entrado no ateliê
do pintor ao qual devemos o admirável retrato de Henrique
IV. Um velho subiu a escada. Pela estranheza da indumentária,
magnificência da golilha de renda e imponente segurança
do andar, o jovem percebeu nesse personagem um protetor ou amigo
do pintor. Recuou para deixá-lo passar e examinou-o" com
curiosidade, esperando nele encontrar a boa natureza de um artista
ou o caráter prestativo dos que amam as artes. Mas havia
algo de diabólico naquele rosto, sobretudo um je ne sais
quoi que atrai os artistas. Imagine uma testa alta, volumosa,
proeminente, terminando num nariz pequeno, achatado e rebitado como
o de Rabelais ou Sócrates; lábios sorridentes e enrugados,
um queixo breve, orgulhosamente empinado, envolto numa barba grisalha
e pontiaguda; olhos de um verde marinho, aparentemente esmaecidos
pela idade mas que, em contraste com o branco perolado no qual flutuava
a pupila, quando no auge da cólera ou do entusiasmo deviam
por vezes lançar faíscas magnéticas. O rosto,
aliás, mostrava-se singularmente carcomido pelas fadigas
da idade e mais ainda por esses pensamentos que sulcam tanto a alma
quanto o corpo. Os olhos não mais tinham cílios e
mal se viam traços de supercílios acima das arcadas
salientes. Ponha essa cabeça num corpo delgado e débil,
envolva-o num rendado de brancura reluzente e trabalhada em arabescos,
jogue sobre o gibão negro usado pelo homem uma pesada corrente
de ouro e terá uma imagem imperfeita desse personagem ao
qual a luz fraca vinda da escada emprestava uma cor fantástica,
como se uma tela de Rembrandt caminhasse silenciosamente e sem moldura
na sombria atmosfera criada por esse grande pintor. Ele dirigiu
ao jovem um olhar sagaz, bateu três vezes na porta e disse
ao homem de aparência doentia, uns quarenta anos de idade,
que veio abrir: "Bom dia, mestre".
Porbus inclinou-se respeitosamente, deixou entrar o jovem que pensou
estar com o velho e ocupou-se ainda menos dele na medida em que
o neófito mostrava-se sob o encanto que devem experimentar
os pintores natos ao verem o primeiro ateliê no qual se revelam
algumas das operações materiais da arte. Uma clarabóia
no teto iluminava o ateliê de mestre Porbus. Concentrada numa
tela presa a um cavalete, e que ainda não mostrava mais do
que três ou quatro pinceladas brancas, a luz do dia não
alcançava as sombrias profundezas dos cantos daquele vasto
aposento; mas alguns reflexos perdidos acendiam por entre aquela
sombra ruça uma paleta prateada no ventre de uma couraça
suspensa na parede, riscavam num brusco sulco de luz a cornija esculpida
e encerada de uma antiga cristaleira cheia de vasilhames curiosos
ou respingavam com pontos brilhantes a trama granulosa de algumas
velhas cortinas com brocado dourado, com grandes pregas quebradas,
atiradas por ali como modelos. Bonecos em gesso para estudo do corpo
humano com músculos e carnes à mostra, membros e torsos
de deusas antigas, amorosamente polidos pelas carícias dos
séculos, acumulavam-se nas mesinhas e consoles. Inúmeros
esboços, estudos a três lápis, em sanguina ou
bico de pena, cobriam as paredes até o teto. Caixas de pigmentos
de tinta, garrafas de óleo e terebintina, escabelos caídos
pelo chão deixavam apenas um estreito caminho até
a auréola projetada pela clarabóia, cujos raios caíam
em cheio sobre o rosto pálido de Porbus e o crânio
de marfim do singular homem. A atenção do jovem logo
foi exclusivamente atraída por um quadro que, nesses tempos
de comoção e revolução, já se
tornara célebre e era visitado por alguns desses teimosos
aos quais se deve a conservação do fogo sagrado durante
a tempestade. Essa bela página representava uma Maria do
Egito dispondo-se a pagar a passagem do barco. Esta obra-prima,
destinada a Maria de Médicis, foi por ela vendida quando
se viu na miséria.
"Sua santa me agrada", disse o velho a Porbus, "e
por ela eu lhe pagaria dez escudos de ouro além da soma que
a rainha oferece. Mas que o diabo me carregue se eu for competir
com ela..."
"Gosta?"
"Hum" fez o velho. "Bem, sim e não. Sua santa não
está mal feita, mas não tem vida. Vocês acham
que já fizeram tudo quando desenham corretamente um rosto
e colocam cada coisa em seu lugar conforme as leis da anatomia!
Preenchem com cor as linhas do rosto num tom de carne preparado
na paleta, tendo o cuidado de deixar um lado mais escuro que o outro,
e pelo fato de observarem de vez em quando uma mulher nua em pé
sobre uma mesa acreditam que estão copiando a natureza, imaginam-se
pintores e estão crentes que roubaram o segredo de Deus!...
Brrr! Para tornar-se um bom poeta não basta conhecer a fundo
a sintaxe e observar as regras da linguagem! Observe sua santa,
Porbus! À primeira vista parece admirável, mas em
seguida percebe-se que está colada no fundo da tela e que
não seria possível a alguém dar a volta ao
corpo dela. É uma silhueta que tem um lado só, uma
figura recortada que não conseguiria virar-se nem mudar de
posição. Não sinto que exista ar entre este
braço e o campo da tela; aqui falta espaço e profundidade.
No entanto, tudo está em boa perspectiva e o degradé
das cores do céu está corretamente representado. Mas,
apesar desses louváveis esforços, eu nunca diria que
esse belo corpo mostra-se animado pelo sopro tépido da vida.
Parece que se eu puser a mão nesse pescoço tão
redondo e tão firme, eu o sentiria frio como mármore!
Não, meu amigo, não corre sangue sob essa pele de
marfim, a vida não preenche com seu rosado purpúreo
as veias fibrilas que se entrelaçam em teia sob o ámbar
transparente das têmporas e do peito. Esta parte palpita mas
esta outra está imóvel; a vida e a morte se enfrentam
por toda parte: aqui há uma mulher, ali uma estátua
e lá, um cadáver. Sua criação está
incompleta. Você conseguiu insuflar apenas uma porção
de alma nesta sua amada obra. A tocha de Prometeu apagou-se várias
vezes em suas mãos e diferentes regiões de sua tela
não foram tocadas pela chama celestial."
"Mas, por que, caro mestre?", respeitosamente perguntou Porbus
ao velho, enquanto o jovem mal continha o desejo de agredi-lo.
"Há! É simples"; disse o velho. "Você
pairou indeciso entre os dois sistemas, entre o desenho e a cor,
entre a fleuma minuciosa, a rigidez precisa dos mestres alemães
e o ardor resplandecente, a alegre abundância dos Pintores
italianos. Você quis imitar ao mesmo tempo Hans Holbein e
Ticiano, Albrecht Dürer e Veronese. Magnífica ambição,
sem dúvida! Mas, o que aconteceu? Você não conseguiu
nem o encanto severo da secura, nem a magia ilusória do claro-escuro.
Aqui, como bronze em fusão que estilhaça seu frágil
molde, a cor rica e quente de Ticiano explodiu o contorno delgado
de Albrecht Dürer ali onde você o aplicou. Aqui, a linha
resistiu e conteve os magníficos transbordamentos da paleta
vêneta. Este rosto não está nem perfeitamente
desenhado, nem perfeitamente pintado c mostra por toda parte os
traços dessa infeliz indecisão. Se você não
tivesse se sentido Poderoso o bastante para fundir na fornalha de
sua genialidade esses dois modos rivais, poderia ter optado decididamente
por um Ou outro a fim de obter a unidade que simula uma das condições
da vida. Só aqui, no meio da figura, sua pintura é
verdadeira: os contornos são falsos, não se deixam
envolver e não sugerem que exista algo Por trás deles.
Aqui sim, há algo de verdadeiro'; disse o velho mostrando
o peito da santa. "E aqui", continuou, indicando o ponto onde, na
tela, terminava o ombro. "Mas aqui", disse, voltando para o centro
do peito, "tudo é falso. Não analisemos mais, só
aumentaria seu desespero."
O velho sentou-se numa banqueta, a cabeça entre as mãos,
e ficou em silêncio.
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