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Neurótica,
organização de Melvin Jules Bukiet (tradução
de Laura Rumchinsky; Imago; 376 páginas; 44 reais)
Para
ter um conto incluído nesse livro, o autor tinha de ser americano,
judeu e falar de sexo. Mas, no caso, esse critério está
longe de ser limitador. Pelo contrário. Alguns dos melhores
escritores contemporâneos são americanos, judeus e
têm no sexo um de seus temas prediletos. É o caso de
Philip Roth, Saul Bellow e Harold Brodkey, os três com excelentes
contos incluídos na coletânea. E também do polêmico
Jerzy Kosinski, do prêmio Nobel Isaac Bashevis Singer e do
cineasta Woddy Allen, cujo hilariante A Prostituta com Cabeça
abre o livro. No conjunto (são ao todo 27 histórias),
o humor é o tom dominante. A culpa, que teria lugar central
num livro de temática cristã, inexiste. Em quase todos
os contos, o sexo não briga com a religião.
"A Prostituta com Cabeça"
Woddy
Allen
Uma das coisas de ser um investigador particular é que você
tem que aprender a seguir seus palpites. É por isso que,
quando um trêmulo pedaço de manteiga chamado Word Babeock
entrou em meu escritório e colocou suas cartas na mesa, eu
devia ter confiado no arrepio que subiu por minha espinha.
"Kaiser?", ele perguntou. "Kaiser Lupowitz?"
"É o que diz minha licença", admiti.
"Você precisa me ajudar. Eu estou sendo chantageado.
Por favor!"
Ele tremia como um cantor de orquestra de rumba. Empurrei um copo
até ele e uma garrafa de uísque de centeio que sempre
tenho à mão para fins não medicinais. "Trate
de relaxar e me conte tudo."
"Você... você não vai contar para minha
mulher?"
"Vamos ser francos, Word. Não posso fazer qualquer promessa."
Ele tentou tomar um gole, mas o bater de seus dentes podia ser ouvido
do outro lado da rua e a maior parte da bebida acabou em seus sapatos.
"Eu sou um cara trabalhador", disse. "Manutenção
mecânica. Eu monto e conserto vibradores de brincadeira. Você
sabe -aqueles aparelhinhos que dão um choque quando as pessoas
apertam as mãos?"
"E daí?"
"Muitos de seus executivos gostam deles. Especialmente em Wall
Street."
"Vamos ao que interessa."
" Eu viajo um bocado. Você sabe como é sozinho.
Não é o que você está pensando. Veja,
Kaiser, eu sou basicamente um intelectual. Claro, um camarada pode
ter todas as vagabundas que quiser. Mas uma mulher com miolos -
esta não é tão fácil de encontrar de
repente."
"Continue."
"Bem, eu ouvi falar de uma garota. Dezoito aninhos. Aluna de
Vassar.
Por dinheiro, ela vem e discute qualquer assunto - Proust, Yeats,
antropologia. Troca de idéias. Percebe aonde quero chegar?"
"Não exatamente."
"Quero dizer, minha mulher é legal, não me entenda
mal. Mas ela não vai discutir Proust comigo. Ou Eliot. Eu
não sabia disso quando casei com ela. Sabe, eu preciso de
uma mulher que seja mentalmente estimulante, Kaiser. E estou disposto
a pagar por isso. Não desejo qualquer envolvimento - quero
uma rápida experiência intelectual e depois que a garota
vá embora. Cristo, Kaiser, eu sou um homem bem casado.
"Quanto tempo já dura a coisa?"
"Seis meses. Toda vez que tenho esse desejo, ligo para Flossie.
Ela é uma madame, com mestrado em literatura comparada. Ela
me manda uma intelectual, entende?"
Então, ele era um daqueles sujeitos cuja fraqueza era mesmo
por mulheres inteligentes. Senti pena do pobre mané. Imaginei
que devia haver um bocado de tolos na mesma situação,
famintos por um pouco de comunicação intelectual com
o sexo oposto e que pagariam os olhos da cara por isto.
'Agora ela está ameaçando contar para minha mulher",
ele disse. "Quem está ameaçando?"
"Flossie. Eles grampearam o quarto do motel. Conseguiram fitas
onde eu discutia The Waste Land e Styles of Radical Will, e, bem,
até entrava em certos assuntos. Eles querem dez mil dólares,
se não contam para Carla. Kaiser, você tem que me ajudar!
Carla morreria se soubesse que não conseguiu me estimular
nesse sentido." O velho golpe da garota de programa. Eu já
tinha ouvido boatos de que os camaradas da chefatura estavam lidando
com alguma coisa envolvendo um grupo de mulheres cultas, mas até
o momento estavam impedidos de agir.
"Ligue para Flossie; eu falo com ela."
"O quê?"
"Vou aceitar seu caso, Word. São cinqüenta dólares
por dia, mais despesas. Você vai ter que consertar um monte
daquelas suas engenhocas. "
"Não vai chegar a dez mil, tenho certeza", ele
respondeu sorrindo e discou um número no telefone. Eu o tomei
de sua mão e pisquei. Estava começando a gostar dele.
Alguns segundos depois, uma suave voz feminina respondeu e eu lhe
disse o que pretendia. "Sei que você pode me ajudar e
arrumar uma hora de um bom papo", eu disse.
"Claro, benzinho. Em que você está pensando?"
"Gostaria de discutir Melville."
"Moby Dick ou os romances mais curtos?"
"Qual é a diferença?"
"0 preço. Só isso. Simbolismo é mais caro.
"Quanto vai me sair?"
"Cinqüenta, talvez cem para Moby Dick. Você quer
uma discussão comparativa - Melville e Hawthorne? Dá
para ajeitar por uns cenzinhos."
"O preço está bom", eu lhe disse e dei o
número de um quarto no Plaza.
"Você quer uma loura ou uma morena?"
"Prefiro a surpresa", respondi e desliguei.
Fiz a barba e tomei um café enquanto repassava a série
de Resumos do Monarch College. Nem uma hora havia se passado quando
ouvi a batida na porta. Abri e me deparei com uma jovem ruiva metida
numas calças que pareciam duas grandes conchas de sorvete
de baunilha.
"Oi, eu sou Sherry."
Eles realmente sabiam como apelar para nossas fantasias. Cabelos
longos e lisos, bolsa de couro, brincos de prata, nenhuma pintura
no
rosto.
"Estou surpreso de você não ter sido barrada,
entrando no hotel com essa roupa", eu disse. "O detetive
da casa costuma reconhecer um intelectual.
"Por cinco dólares ele fecha os olhos.
"Vamos começar?", sugeri, levando-a para o sofá.
Ela acendeu um cigarro e entrou direto no assunto. 'Acho que poderíamos
começar abordando Billy Budd como a justificativa de Melálle
para os métodos de Deus para com o homem, n'est-ce pas?"
Interessante, contudo, não em um sentido miltoniano."
Eu estava
blefando, queria ver se ela iria cair.
"Não. Faltava a subestrutura do pessimismo em Paraíso
perdido." Ela havia caído.
"Certo, certo. Por Deus, você está certa",
murmurei.
"Creio que Melville reafirmou as -virtudes da inocência
em um sentido ingênuo, porém sofisticado - você
não concorda?"
Eu a deixei continuar. Ela mal tinha dezenove anos, mas já
havia desenvolvido a superficialidade calejada do pseudo-intelectual.
Foi desafiando suas idéias desembaraçadamente, mas
era tudo mecânico. Sempre que eu apresentava uma opinião,
ela fingia dar uma resposta:
"Mas, claro, Kaiser. Sim, meu bem, isto é profundo.
Uma compreensão platônica do cristianismo - como não
percebi antes?" Conversamos durante cerca de uma hora, após
o que ela disse que precisava ir. Levantou-se e eu lhe dei uma nota
de cem.
"Obrigada, amorzinho."
"De onde esta saiu, há muitas mais."
"O que você está querendo dizer?"
Eu havia despertado sua curiosidade. Ela se sentou de novo.
"Suponha que eu queira, digamos, uma festa."
"Como? Que tipo de festa?"
"Vamos dizer que eu queira Noam Chomsky explicado por duas
garotas."
"Nossa!
'Acho melhor esquecer_"
"Você teria que falar com Flossie", ela disse. "Vai
custar mais."
Era hora de fechar o cerco. Exibi minha carteira de detetive
particular e avisei que ela fora apanhada.
"O quê?"
"Eu sou um tira, docinho, e discutir Melálle por dinheiro
é um artigo 802. Você pode pegar uma cana."
"Seu safado!"
"É melhor ficar fria, querida. A menos que você
queira contar sua história no gabinete do delegado Alfred
Kazin, e eu não creio que ele
iria gostar de ouvi-la."
Ela começou a chorar. "Não me entregue, Kaiser",
pediu. "Eu precisava do dinheiro para concluir meu mestrado.
Pedi uma bolsa, mas não consegui. Duas vezes. Oh, meu Deus..."
Então ela desabafou e contou toda a história. Criada
no Central Park West, acampamentos de verão de tendência
socialista, Universidade de Brandeis. Era o tipo de garota que se
podia encontrar na fila do Elgin ou do Thalia, ou rabiscando a lápis
"Sim, é verdade" na margem de algum livro sobre
Kant. Só que em algum ponto do caminho, fez a
escolha errada.
"Eu precisava de grana. Uma amiga me disse que conhecia um
sujeito casado com uma mulher meio bronca. Ele se interessava por
Blake; ela não conseguia suportar. Eu disse, tudo bem, por
uma grana eu converso com ele sobre Blake. No começo, ficava
nervosa. Na maior parte do tempo eu tapeava. Ele não se importava.
Minha amiga disse que havia outros. Ora, eu já fui apanhada
antes; me pegaram lendo Commentary em um carro estacionado e uma
vez fui parada e revistada em Tanglewood. Com esta, é a terceira
vez que me dou mal."
"Leve-me até Flossie, então."
Ela mordeu os lábios e disse, "A livraria do Hunter
College é a fachada.
"Como?"
"Como aqueles pontos de apostas que têm uma barbearia
na frente para disfarçar. Você vai ver."
Dei um telefonema rápido para a chefatura e avisei a ela:
"Tudo bem, docinho, você está livre. Mas não
saia da cidade." Ela levantou o rosto para mim, agradecida.
"Posso conseguir para você umas fotos de DmAght Macdonald
lendo", ofereceu.
"Talvez outro dia."
Entrei na livraria do Hunter College. 0 vendedor, um jovem com olhos
sensíveis, se aproximou. "Em que posso servi-lo?",
perguntou.
"Estou procurando por uma edição especial de
Advertisements for Myse. Soube que o autor mandou imprimir alguns
milhares de exemplares com douração para os amigos."
"Tenho que verificar", ele disse. "Temos uma linha
direta para a casa
de Mailer."
Encarei-o fixamente e disse: "Sherry me mandou vir aqui."
"Bem, nesse caso, vá até os fundos." Ele
apertou um botão; uma parede de livros se abriu e eu entrei
como um cordeiro naquele animado palácio de prazer conhecido
como a toca de Flossie. 0 papel de parede flocado vermelho e a decoração
vitoriana davam o tom. Garotas pálidas e nervosas, com óculos
de aros pretos e cabelos em corte reto se recostavam em sofás,
folheando clássicos da Penguin provocantemente. Uma loura
com um grande sorriso piscou para mim, fez um sinal na direção
de um quarto no andar de cima e disse: "Vamos de Wallace Stevens?"
Mas não se tratava apenas de experiências intelectuais
- elas ofereciam experiências emocionais também. Por
cinqüenta paus, fiquei sabendo, era possível "relacionar-se
sem chegar à intimidade. Por cem, uma das meninas poderia
emprestar seus discos de Bartók, jantar com você e
depois deixá-lo observando enquanto ela tinha um ataque de
ansiedade. Por cento e cinqüenta, era possível ouvir
uma rádio FM com gêmeas. Três notas davam direito
a um pacote: uma judia morena e magra fingiria apanhá-lo
no Museu de Arte Moderna, deixaria você ler sua monografia
de mestrado, levaria você a se envolver em uma discussão
acalorada no Elaine's sobre a concepção de Freud acerca
das mulheres e, por fim, simularia um suicídio de sua escolha
- uma noite perfeita, para alguns camaradas. Quanta agitação.
Grande cidade, Nova Iorque.
"Está gostando?", ouvi uma voz atrás de
mim. Virei-me e de repente
vi-me diante do cano de um 38. Sou um sujeito de estômago
forte, mas desta vez ele deu um pulo. Era Flossie. A voz era a mesma,
mas Flossie era um homem. Uma máscara cobria seu rosto.
"Você não vai acreditar", ele disse, "mas
eu nem terminei a faculdade. Fui excluído por causa de notas
baixas."
"Por isso é que você usa esta máscara?"
"Eu bolei um esquema complicado para assumir o comando de The
New York Review of Books, mas isto significava que teria de passar
por Lionel Trilling. Submeti-me a uma operação no
México. Existe um médico em Juarez que dá às
pessoas as feições de Trilling - cobrando por isso.
Mas algo saiu errado. Eu acabei parecido com Auden e com a voz de
MaryMcCarthy. Foi então que passei a agir do outro lado da
lei."
Rapidamente, antes que ele pudesse apertar o gatilho, entrei em
ação. Atirando-me para a frente, com o cotovelo golpeei
seu maxilar e, enquanto ele caía para trás, agarrei
a arma. Caiu ao chão como uma tonelada de tijolos. Ainda
estava se lamuriando quando a polícia
chegou.
"Bom trabalho, Kaiser", disse o sargento Holmes. "Quando
terminarmos com este sujeito, o FBI vai querer uma conversinha com
ele. Um probleminha a respeito de alguns jogadores e um exemplar
anotado do Inferno de Dante. Podem levá-lo, rapazes."
Naquela noite, procurei uma velha conhecida minha chamada Glória.
Era loura e havia se diplomado com louvor. A diferença era
que havia se formado em educação física. Parecia
legal.
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