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Uma Vida Interrompida, de Alice Sebold (tradução de Fernanda Abreu; Ediouro; 348 páginas; 29 reais) – Em 1981, a americana Alice Sebold, então uma estudante universitária, viveu um pesadelo: foi selvagemente agredida e violentada. Alice encontrou na literatura a forma de sublimar esse trauma. Primeiro, escreveu um livro de memórias. Em seguida, o romance Uma Vida Interrompida, que lhe valeu a consagração de crítica e de público – está há 39 semanas nas listas de best-sellers americanas.O livro, que chega agora ao Brasil, é uma surpreendente tragicomédia narrada pelo fantasma de uma garota de 14 anos que foi estuprada, morta e esquartejada por um vizinho. Enquanto descobre que o Paraíso existe – e é um lugar que se parece com o recreio de uma escola dos sonhos, com brinquedos e sorvete à vontade –, a pequena Susie acompanha a caçada de seu assassino na Terra.

Leia trechos do livro

Meu sobrenome era Salmon, salmão, igual ao peixe: meu primeiro nome era Susie. Eu tinha 14 anos quando fui assassinada no dia 6 de dezembro de 1973. Nas fotos de meninas desaparecidas que saíam nos jornais nos anos 70, a maioria delas se parecia comigo: meninas brancas de cabelos castanhos cor de camundongo. Isso foi antes de crianças de todas as raças e sexos começarem a aparecer nas caixas de leite ou na correspondência diária. Ainda era na época em que as pessoas acreditavam que coisas assim não aconteciam.

No meu livro de classe do ginásio coloquei a citação de um poeta espanhol a quem minha irmã tinha me apresentado, Juan Ramón Jiménez. Dizia mais ou menos os seguinte: “Se alguém lhe der uma folha de papel pautado, escreva no sentido contrário. “Escolhi essa citação tanto porque ela expressava meu desprezo pelos ambientes estruturados do tipo sala de aula e porque, já que não era uma citação ridícula de alguma banda de rock, pensava que ela mostrasse meus dotes literários. Eu fazia parte do Clube de Xadrez e do Clube de Química e queimava tudo o que tentava fazer na aula de prendas domésticas da sra. Delminico. Meu professor preferido era o sr. Botte, que lecionava biologia e gostava de animar os sapos e lagostins que tínhamos de dissecar fazendo-os dançar em suas tigelas encerradas.

A propósito, eu não fui morta pelo sr.Botte. Não pensem que todas as pessoas que vão encontrar aqui são suspeitas. É esse o problema. Nunca se sabe. O sr. Botte compareceu à minha homenagem (assim como, devo acrescentar, quase todo o colégio em que eu estudava - nunca fui tão popular) e chorou bastante. Ele tinha uma filha doente. Todo mundo sabia disso, então quando ele ria das próprias piadas, que já eram velhas muito antes de ele virar meu professor, nós também ríamos, às vezes nos forçando só para deixá-lo feliz. A filha dele morreu um ano e meio depois de mim. Ela tinha leucemia, mas nunca a vi no meu céu.


 
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