Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

Erros Clericais, de Alan Isler (tradução de Fausto Wolff; Record; 368 páginas; 43,90 reais) – O inglês Isler buscou as tradições do melhor humor judaico para compor essa sátira religiosa – cujo principal alvo é a Igreja Católica. Seu herói é Edmond Music, um judeu converso ao catolicismo que, apesar de se tornar padre, não acredita em Deus. Atleta sexual na juventude, Music ainda conserva uma amante, a sua governanta, e leva uma vida cínica e despreocupada como diretor de uma preciosa biblioteca de raridades. Sua rotina dissoluta será perturbada pelo padre Fred Twombly, um velho inimigo que investiga o desaparecimento de um suposto manuscrito de Shakespeare que estava sob os cuidados de Music. Isler talvez irrite os mais ortodoxos, mas seu humor é impagável.

Leia trecho

Primeira Parte

"Uma história precisa de umas pitadas de sal. O sal melhora o sabor... E uma pimentinha também não faz mal."
O Ba'al Shem de Ludlow
Conversa à mesa - 1768

Bebericando um calvados na rua de Malengin e lendo o jornal inglês deixado pelo sujeito que sentou na cadeira antes de mim, descobri, para minha surpresa, que eu havia acabado de morrer. Pelo que constava, bati com meu carro, um modesto Morris Mini de respeitável idade, contra o famoso carvalho Stuart da região de Beale. O carvalho recebeu este nome porque fora plantado para lembrar a morte do infeliz James II. A árvore não sofreu quase nada, mas o Morris Mini era agora uma confusão medonha de metal retorcido, de onde se extraíra uma massa informe que se supunha ser meu corpo. Timothy "Tubby" Whiting, o policial da nossa vizinhança, identificara o carro e o seu proprietário. Tubby tem um apreciável gosto pela cerveja local e também por aguardente, mais refinado do que de qualquer um na área. Além disso, é católico como eu, embora mais convicto. De qualquer forma, não é nenhum Sherlock Holmes ou, no que concerne a este caso, um padre Brown.

Telefonei imediatamente para Maude no Hall. Alma simplória, ela supôs ou fingiu supor que eu ligava do Além.

- Deus seja louvado! Deo Gratias! Meu bom Jesus! Oh! Oh! Oh!

- Maude, meu amor, eu estou muito bem!

- Está bem, não é? Claro que você só pode estar bem aí ao lado da Virgem Santa e dos anjos abençoados. É um coro celes-tial esse som que eu estou ouvindo?

Da vitrola automática do bar vinha a voz de Edith Piaf cantando "Milord".

- O que eu quero dizer é que não estou morto.

- Não está morto? Claro que você não está morto! Afinal,- Ele nos prometeu a vida eterna e por isso Ele morreu na cruz. Oh, preciso contar imediatamente ao padre Bastien. Oh, Edmond, sinto tanto a sua falta. Tenha paciência, meu amor, estarei com você assim que puder. - E desligou.

Que velhinha mais tola! É impressionante como qualquer novidade faz ressurgir dentro dela o velho sotaque irlandês de sua juventude. Certamente estava brincando. Seu alívio deve ter encontrado saída na histeria. Sem dúvida o que já arruinara sua mãe tinha parte na coisa. Há tempos aprecia o gim e o toma em grandes quantidades. Na falta dele, bebe o que houver à mão. Gosta de dar a entender que sou eu quem tem "problemas com a bebida"; ela mesma bebe apenas socialmente, ou porque está sem companhia, ou porque está contente ou porque está ente-diada, ou porque está ou não preocupada. Não conversamos sobre isso.

Ah, mas lembrar como ela era quando a conheci - Maude Moriarty, governanta da minha casa e da minha carne. Ah, o requebrar de seus quadris, o farfalhar das saias, a forma esbelta do seu corpo arqueado sobre o meu! E pensar no que ela se tornou à medida em que a carruagem alada do tempo sacolejou atrás de nós, aproximando-se cada vez mais. Foram-se - ou já não vêm mais à tona - o espírito refinado e a inteligência aguda. Bancou por tanto tempo a lavadeira irlandesa que acabou se tornando uma. Televisão demais, imagino.

Oh, ela não era assim

Quando tinha todo o verão

Selvagem em seu olhar.

Em seguida liguei para Tubby, dizendo-lhe não só que estava muito bem como a caminho de casa. O choque ao ouvir minha voz só se atenuou quando ficou convencido das boas novas. Eu estava vivo.

- Mas então quem estava no carro, padre? - perguntou num tom quase acusatório. - Quem tivemos de raspar das ferragens? Ele devia estar a mais de cem por hora. A estrada faz uma curva perigosa perto do carvalho Stuart.

- Não acha que pode ter sido o pobre Trevor? Lembro-me que pedi a ele que ficasse com o carro durante o fim de semana. Os freios estavam com muita folga e o freio de mão quebrado.

Trevor Stuffins era o faz-tudo do bairro, um sujeito da minha idade e tamanho, aí incluindo a barriga.

- Hmmm... - soltou Tubby, sem querer se comprometer.-

- Devemos rezar pela sua alma.

- Ele era protestante, padre.

- Mais um motivo.

- Se foi mesmo Trevor. - Tubby estava aprendendo com seus próprios erros.

- Faça-me um favor, Tubby. Converse com Maude e explique a ela que continuo vivo no sentido real do termo. E vá com calma.

Antes de deixar a rua de Malengin pedi outro calvados, que bebi aos pouquinhos. Minha viagem a Paris fora um fracasso, mas, de certa forma, senti-me como alguém reconvocado para a vida.

Será que Castignac estaria certo? Ele me ligara um mês antes de um telefone seguro, prevenindo-me de que os assassinos do Vaticano estavam atrás de mim.

- Tome cuidado e preste atenção, Edmond. Eles o querem morto. - Em seguida deu um risinho histérico. - Nada irá detê-los! Nada!

E então a linha subitamente emudeceu.

Mas o pobre Castignac é um lunático. Por que deveria dar-lhe atenção?

Bem, talvez por causa do que a história nos ensina. Parva, como dizemos, componere magnis, comparar coisas pequenas com grandes, os próprios papas nunca estiveram a salvo dos seus correligionários, da mesma forma que seus correligionários nunca estiveram a salvo dos papas. No século X, de cada três pontífices, pelo menos um morreu em "circunstâncias suspeitas". O papa Estêvão VI foi deposto e estrangulado na prisão. Quanto à corrupção assassina, intriga venenosa e ganância selvagem pelo poder, todo mundo sabe que os papas do Renas-cimento - gente como os Bórgia -, como bem documentado, criaram uma linha de montagem homicida. Para ficar apenas no nosso tempo, o que dizer do papa João Paulo I, que morreu em 1978 depois de permanecer apenas 34 dias no trono? Só menciono o fato e nada mais. Deus me livre, mas se uma fera poderosa como um leão pode ser cruelmente morta em sua própria toca, que esperanças de compaixão pode alimentar uma simples pulga?

Mas não percamos o senso de proporção. É quase impossível acreditar que a chamada alta hierarquia esteja atrás do meu sangue, por mais que me queiram fora do negócio. Já nos baixos escalões eclesiásticos, a história é outra. Temos, por exemplo, o padre Fred Twombly, diretor do Departamento de Inglês do Holyrood College, em Joliet, Illinois. Ele, sem dúvida, é meu inimigo desde os tempos de estudantes em Paris, sempre quis o meu emprego, e o fato de eu o ter e não ele, rói suas entranhas como um lento veneno. Ele é um que, se tudo o mais falhasse, poderia muito bem mexer nos freios do meu carro.

Mas antes de chegar a tal extremo ele teria muitos outros meios de conseguir meu posto. Ele acredita poder me controlar, e talvez até possa. Falarei sobre ele mais adiante, bem como da sua última carta para mim por ocasião da minha viagem a Paris.

Talvez eu devesse rezar.

Talvez não.

Em que momento perdi minha fé? É uma pergunta que não tem resposta, um dilema semântico. Algo como: "Você parou de bater na sua mulher?" Perder alguma coisa - a virgindade ou, digamos, um relógio de ouro - requer a prévia posse desta coisa. Mas eu vesti minha fé porque ela me foi oferecida, coube em mim, foi um hábito em ambos os sentidos do termo. Era não só uma veste eclesiástica, um sinal externo da verdadeira crença, como também um meio de vida ao qual acabei confortavelmente - talvez a palavra necessite ser levemente modificada, mas por enquanto deixemo-la assim - me acostumando.

O que traz à mente a piada do jovem Castignac. Ele foi elevado ao cobiçado cargo de núncio papal, viajando pelo mundo - Guatemala, Líbano, Havaí - sempre que a Santa Sé necessitasse dele - um espião a seu modo, é verdade; um dos espiões de Deus que investigam o mistério das coisas. Mas ele também aprendeu em primeira mão os segredos dos círculos mais internos do Vaticano, o que o protestante Milton chamava de conclaves secretos. E onde é que ele está agora? Como já disse, com os olhos arregalados de um celerado, lunático, ou assim diagnosticado, à mercê das piedosas Irmãs das Cinco Chagas, num hospício em Cambridge, Massachusetts. Bem, de qualquer forma Castignac sempre gostou da América.

Mas por que o menciono? Ah, sim, a piada. Éramos seminaristas e os reclames da carne ainda se faziam sentir dentro de nós. Dentro de Castignac em particular. Que pândego ele era. Tinha cabelos encaracolados de um negro quase azul, olhos também negros e a pele cor de azeitona dos verdadeiros corsos; um jovem Napoleão muito bem dotado, aliás extraordinariamente dotado. No dormitório costumava estapear seu dote, "abaixe-se, depravada entidade, abaixe-se", desta forma revelando-se em toda a sua glória intumescida, para nossa secreta inveja. Certa manhã disse-nos "Olhem" e apontou para a janela que dava para os jardins. De uma velha perua saltou uma jovem mulher, que abriu a porta de trás do carro e tirou uma grande cesta. "Ela se chama Véronique" - explicou-nos - "e é lavadeira. Toda quinzena está às voltas com os hábitos sujos dos monges." Em seguida olhou para nós cinicamente e explodiu numa gargalhada. Assim soubemos que contara uma piada.-

Mas voltemos à questão da fé. Naqueles dias eu glorificava as palavras de Tertuliano: Certum est quia absurdum est. Estas palavras tinham um apelo hipnótico que agradava em cheio ao adolescente que eu era. Acreditar em algo por ser absurdo! Oh, sim! Sim, em verdade! De qualquer modo, eu possuía motivos suficientes para lhes ser grato, à Igreja, digo. (Notem o "lhes". Que espantosa irrupção depois de todos esses anos!) Fui acolhido, recebi abrigo e ocasionalmente até mesmo bondade. Eram tempos terríveis, absolutamente terríveis. Os virtuosos padres salvaram a minha vida e - assim acreditaram - a minha alma imortal.

Não que não tivesse eu uma precoce atração por tudo aquilo, o incenso, os cânticos, a respiração enfumaçada durante as missas nas manhãs de inverno subindo como névoa até a abóbada da catedral. Eu apreciava não a piedade, mas o espetáculo da piedade e, num arroubo de imaginação, eu mesmo, o mais pio de todos. Podia me ver de joelhos, me arrastando sobre pedras inclementes para atirar meu corpo alquebrado e sangrando prostrado diante da cruz. Claro que, apesar de toda a profusão de sentimentos que a cena me despertava, jamais fiz nada de parecido. Autoflagelação, afora os arroubos de imaginação, não fazia o meu gênero. Talvez eu tenha sentido um pouco do que levou Edward Gibbon (que mostraria com ironia devastadora em Declínio e queda do Império Romano o total- absurdo e a crueldade do cristianismo) a abraçar o catolicismo quando jovem e naturalmente impressionável:

As histórias maravilhosas, tão destemidamente abraçadas pelos Basílios e Crisóstomos, os Agostinhos e os Jerônimos, me compeliam a abraçar os méritos superiores do celibato, as instituições da vida monástica, o uso do sinal-da-cruz, dos óleos sagrados, das imagens, a invocação dos santos, a adoração das relíquias, os rudimentos da expiação em orações para os mortos e o tremendo mistério do sacrifício e do corpo e do sangue de Cristo, que sutilmente se materializava no prodígio da Transubstanciação.

Assim escreveu Gibbon em sua Autobiografia falando sobre suas tolices juvenis. Bem, eu não era (e não sou) um Gibbon, mas hoje em dia me é bastante claro que possuía em minha juventude a visão imaginativa de um pintor, senão sua habilidade. Enxergava o catolicismo em sua forma idealizada, como talvez exista no reino platônico das Idéias, e esta visão me tocava, uma vitória da sensualidade fria do inatingível sobre a sexualidade pulsante da realidade.

Mas voltemos a Tertuliano: saber intelectualmente que toda aquela patacoada era absurdum e por isso acreditar, bem... francamente... Suponhamos que eu levasse a coisa às últimas conseqüências: "Em verdade vos digo que o mundo e todos os seus habitantes - vós todos, queridos irmãos e irmãs e até mesmo minha humilde pessoa - residimos na mente de uma carpa monstruosa que nada languidamente nas águas tépidas da Eternidade. Certum est quia absurdum est." Vêem o que eu quero dizer? Não foi à toa que o termo "hocus-pocus" veio da consagração na Missa, "Hoc est enim corpus meum" e por sua vez originou a palavra inglesa "hoax", ou seja, logro, embuste, mistificação.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio