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Memórias, do visconde de Taunay (Iluminuras; 592 páginas; 62 reais) – Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843-1899), o visconde de Taunay, é autor de um clássico do romantismo brasileiro, o romance Inocência, e de um contundente relato sobre um episódio da Guerra do Paraguai, A Retirada de Laguna. Escrito pouco antes da morte do autor, que não teve oportunidade de revisar o texto, Memórias guarda um certo sabor informal, de diário íntimo. Taunay rememora sua infância e juventude, fala de sua intimidade com a família imperial brasileira e conta novamente – de forma mais pessoal que em A Retirada de Laguna – a sua dramática experiência na Guerra do Paraguai. É um retrato singular do século XIX brasileiro.

Leia trecho

PRIMEIRA PARTE
(1843—1858)

I

NASCI NA cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, à Rua do Resende, no 87, às 3 horas do dia 22 de fevereiro de 1843.

Foram meus pais Félix Emílio Taunay, naquela época diretor da Academia das Belas-Artes, filho do célebre pintor da Escola Francesa, e membro do Instituto de França, Nicolau Antônio Taunay, e de D. Gabriela d'Escragnolle Taunay, filha do Conde e da Condessa d'Escragnolle Taunay, esta da família de Beaurepaire, Adelaide de Beaurepaire.

Impossível fora gozar e merecer mais dedicação e amor filial do que experimentei em toda a minha existência, cabendo-me a excepcional felicidade de conservar a minha estremecida e santa mãe até hoje em que começo a escrever estes apontamentos auto-biográficos (6 de novembro de 1890) e meu pai até 10 de abril de 1881, tendo eu, portanto, naquela ocasião, 38 anos feitos.

A 25 de abril do ano acima mencionado de 1843 fui batizado na igreja católica de Sant’Ana , tendo como padrinho meu tio Gastão Henrique de Escragnolle, irmão de minha mãe, o qual faleceu Barão de Escragnolle a 20 de junho de 1888, na idade de 66 anos, e madrinha D. Maria Antônia Werna Magalhães da Fonseca, ainda viva.

A esse tio chamávamos, eu e minha irmã Adelaide, em criança, tonton Bodó, contração infantil de bigode, e desta denominação familiar usei sempre, pois ele se aborrecia quando, mais tarde, queríamos empregar outra mais respeitosa e adequada. (Tonton é o tratamento em francês de tio na intimidade do lar, e assim chamávamos todos os tios — tonton Charles e tonton Teodoro, irmãos de meu pai; tontons Pepé (Beaurepaire, o vice-almirante Teodoro, tio avô), Lulu e Bodó; irmãos de minha mãe, ou na fraseologia mais rica latina, paterculi e avunculi.

Aquele tio Teodoro de Beaurepaire, irmão de minha avó, Condessa de Escragnolle, constitui uma das mais afastadas e prestigiosas recordações da primeira meninice.

Que festa para nós quando íamos à sua fazendinha do Engenho Novo, no Cabuçu, cuja casa com proporções vastas, escadaria de mármore italiano, cercada de jardins e repuxos, nos dava exagerada idéia de opulência! Outro grande atrativo era o límpido e volumoso córrego em que pescávamos peixinhos e tomávamos banho, fazendo represas com soqueiras e folhas de bananeiras.

Dessa vasta chácara do Engenho Novo, fronteira à propriedade, ainda mais extensa, da Condessa de Belmonte, mãe de minha madrinha, tenho reminiscências muito longínquas e apagadas, mas sempre rodeadas do maior encanto.

Freqüentes vezes lá íamos, e, por ocasião das festas de São João, 24 de junho, creio que aniversário natalício do velho marujo, nosso tio, a estada tomava proporções grandiosas, por causa, sobretudo, dos fogos de artifício que nos eram distribuídos e das enormes fogueiras então erguidas no pátio, iluminando esplendidamente todo o casario em derredor e a coma dos altos e velhos tamarineiros.

Em épocas mais próximas, 1852 e 1867, lá estivemos também e então muito me impressionava a elevada temperatura do meio do dia e o frescor das noites e das manhãs, estas, sobretudo, deliciosas pelo perfume que exalavam os capins e as ervas rasteiras da grande várzea em que era construída a casa de sobrado.

Como sempre fui amigo dos livros, ainda me recordo da atração, mesclada de respeito, que me inspirava comprida estante bem apercebida de obras de agricultura e principalmente de romances encadernados com certo luxo. Antes de os ler quase todos, o que depois aconteceu, passava muito tempo a lhes estudar os títulos.

Lembro-me bem da impressão que me causou, ainda muito criança, a leitura de duas novelas, La recherche de l’inconnue e Angélica Kauffman: são, com efeito, bastante interessantes.

Vagamente me lembro das feições de meu tio Teodoro. Entretanto, nas brumas da distância, ainda o vejo sair da Rua do Saco do Alferes, n.0 85 (hoje América, para onde se haviam mudado meus pais depois da Rua do Resende) todo coberto de condecorações para ir ao Paço da Cidade aos beija-mão, nos dias de grande gala.

Dessas veneras, que me faziam esbugalhar os olhos como suprema prova de grandeza e poderio, havia duas ou três do Reino das Duas Sicílias, pois ele comandara a esquadrilha que fora a Nápoles em 1843 buscar a princesa, depois Imperatriz D. Teresa Cristina Maria.

Para aquelas cerimônias costumava vir fardar-se em casa de meus pais, trazido do Engenho Novo em grande e pesada sege, boleada pelo cocheiro Bruno, irmão da Narcisa e filhos, ambos, do Diogo e da Joaquina, todos escravos. Ah! essas recordações da escravidão! Como hoje me parecem singulares todos os episódios (e quantos!) da meninice em que a cada momento aparecem os infelizes cativos, infelizes e degradados por mais bem tratados que fossem! Uma vez, aquela enorme sege, em viagem, nós todos, para a cidade, atolou-se num tremedal e me lembro do desgosto que me produziram umas bofetadas distribuídas ao pobre do Bruno para lhe excitar o zelo em sair daquele difícil passo.

O velho Diogo, incumbido de ir vender laranjas no Rio, para o que tinha um carroção, não primava pela atividade, e meu tio atribuía essa contínua morosidade à paixão que dedicava à mulher Joaquina. "Conviria", dizia engraçadamente, "grudar o retrato da mulher na testeira da carroça". Contava este Diogo que, uma feita, no Rio de Janeiro, saíra num domingo todo taful, de branco, calças bem engomadas, rodaque ou niza, chapéu de palha novo trançado por negros minas, descalço bem-entendido.

Ia muito ufano, quando viu, na mesma calçada, D. Pedro I, que vinha em sentido contrário, acompanhado de grande e vistosa comitiva. A calçada era muito elevada e a rua fundo lamaçal. O preto equilibrou-se na aresta do fio das pedras para dar o maior espaço possível, mas o Imperador, parando, fê-lo pular para fora, gratificando-o talvez com umas chicotadinhas de rebenque. "Já para o meio da rua e de joelhos!", ordenou.

Imagine-se como todos riam, enquanto o pobre do Diogo se enterrava meio corpo no lodo, para dar exato cumprimento às ordens imperiais.

Não era, porém, sem algum desvanecimento que o velho contava aquela história, um tanto parecida com a de Henrique IV e um campônio de Fontainebleau.

As reminiscências mais bem-gravadas e fixas na minha memória referem-se à morte desse tio Teodoro de Beaurepaire, ocorrida a 2 de novembro de 1849, eu portanto já com 6 anos e dez meses. Mandara tirar um bicho-do-pé numa das plantas do pé e, apostemando, houve necessidade de operação que produziu ou gangrena ou tétano. Transportado em rede para a casa da rua do Saco do Alferes, ali faleceu, sendo o enterro em extremo concorrido e motivo de grande movimento naquele sossegado recanto da cidade, ainda hoje bem pouco freqüentado. Nascera a 24 de junho de 1787 e tinha portanto 62 anos. Tomou parte importante nas guerras do Rio da Prata. Reformara-se em vice-almirante a 13 de maio de 1846.

A vivenda em que moramos de 1844 a 1868, durante, portanto, vinte e quatro anos, muito nos agradava, a mim e a minha irmã Adelaide (pois a outra irmã Zizi, Isabel, falecera muito criancinha), devido a enorme área de terreno que tinha jardim, todo plantado de árvores frutíferas, imenso cajueiro, um tamarineiro e uma palmeira de cocos de catarro, que representa grande papel nas minhas recordações da meninice.

Era a maior aspiração apanharmos os cocos que caíam durante a noite. E neste particular Tomás, escravo, nosso pajem, havia-se com rara felicidade tendo sempre os bolsos cheios daqueles frutos. Também de manhã procurava levantar-me antes de todos, correndo de pés no chão para ir fazer a apetecida colheita. Quantas vezes comigo não ralhou minha mãe por causa dessa travessura que poderia ter conseqüências sérias.

Naquela época, entretanto, o Rio de Janeiro era em extremo saudável e gozava de reputação bem-merecida, apesar do nenhum cuidado na higiene pública. Todos os despejos se faziam nas praias, e as ruas e praças não primavam pelo asseio.

O Campo de Sant'Ana, depois da Praça da Aclimação, tornara-se, então, local de todas as imundícies imagináveis. Entretanto, as trovoadas certas, infalíveis, da tarde, purificando a atmosfera, não consentiam no viciamento radical do ar e contrariavam a explosão de epidemias.

Como se mudaram todas aquelas condições com o desbastamento dos morros e montanhas e a destruição completa das grandes e saudáveis florestas que as cobriam, fertilizavam e embeleciam!

No sentido do respeito devido àquele benéfico revestimento e da conservação das matas dos arredores do Rio de Janeiro muito e muito escreveu, trabalhou e protestou meu pai, mas em vão, todos os seus esforços, tidos em pouca ou nenhuma conta, esbarraram de encontro à rotina e à ignorância...

No nosso jardim da Rua do Saco havia uma ondulaçãozinha de terreno que chamávamos a Montanha. Ali se faziam plantações de milho e de feijão, que nos davam excelentes espigas para assar e abundantes vagenzinhas bem tenras.

 

II

QUASE nada me recordo da vasta e mortífera epidemia da febre amarela, em 1850, na primeira vez em que visitou o Rio de Janeiro, onde se achou por tal modo a gosto, que nunca mais o deixou, senão com pequenos intervalos.

Mais um pouco me lembro da nossa estada no ano seguinte de 1851, no Engenho Novo, quando meu pai ali foi convalescer de gravíssima enfermidade depois da jubilação como professor e diretor da Academia das Belas-Artes.

Dera-se em conseqüência da luta encabeçada, nos jornais, pelo Porto Alegre, que clamava contra o fato de ser ele estrangeiro não-naturalizado. Apesar das verdadeiras instâncias do Imperador não quis ele dar o braço a torcer, declarando que só deixaria de ser francês quando o Brasil decretasse a lei da grande naturalização.

"Pois eu lá vou pedir folha corrida ao inspetor do meu quarteirão para instruir o meu humilde requerimento?" E continuava com indignação: "Demais, para quê? Para não poder alcançar o que qualquer estúpido, nascido por acaso aqui, pode ser? Não! Ao estrangeiro os brasileiros têm verdadeira aversão. E por muito tempo assim há de ser!..."

Daquela estada no Engenho Novo conservo algumas lembranças mais fixas e certas. Admirava muito um grande relógio, metido em comprida caixa envernizada, o qual repetia as horas, com som claro e alegre, além de dar as meias horas. Pertence hoje à minha mãe. Muito me prendia também outro de mesa debaixo de redoma de vidro e representando a Fama montada em Pégaso, cavalo dourado e com asas prateadas, que se me afigurava riquíssima peça.

Bem presentes ainda me estão uns Estudos de Bertini, que minha irmã tocava, enquanto eu, na janela central do sobrado, que tinha grade não feia, via vir o tílburi de meu pai pela estrada do Cabuçu.

E enchia-se-me o peito do prazer da vida, ao contemplar aquela risonha e amena paisagem, toda de capinzais bem verdes, cortados por bonitas curvas de caminho areento. Durante os dias, em extremo cálidos, o meu entretenimento favorito consistia em pegar coleiras e canários da terra, com visgo, ou apanhar cigarras perto do poço, no caminho do portão, pousadas numas goiabeiras de frutos brancos, pequenos e muito gostosos. Junto à casa havia pés de pitomba e corosol numa espécie de rond point.

Daquela feita ficamos talvez cinco meses no Engenho Novo. No fim — se não me engano — tive grave moléstia, que em extremo me abateu. Anos antes — eu bem menino — nesse mesmo Engenho Novo sofri de uma invasão de grandes furúnculos, que me fez muito penar, sendo tudo motivo de contínuos choros e incessantes lágrimas, apesar do cuidado que minha mãe punha em transportar-me num carrinho de mão, todo cheio de almofadas e travesseiros.

Em meados de 1852, fomos passar boa temporada na Jurujuba, para lá da baía de Rio de Janeiro, por detrás do maciço rochoso da fortaleza de Santa Cruz, um dos mais pitorescos locais da baía, que os tem tantos e tão variados. Habitávamos vasta casa abarracada e em parte ladrilhada, pertencente ao Governo e que meu pai ou alugou ou ocupou, gratuitamente, por algum tempo — não sei bem.

Esta estada representa, sem dúvida alguma, uma das mais risonhas quadras da minha meninice, período da vida sem nenhuma sombra sequer de desgosto. Creio que hoje assim se afigura à lembrança de toda a minha gente.

A preocupação única era às tardes dos dias em que meu pai vinha ao Rio de Janeiro. Receávamos sempre temporal na travessia da baía, que se cortava exatamente em frente à barra.

Ficávamos à janela sobressaltados e ansiosos até vermos o bote, em que costumava voltar, dobrar a ponta do morro fronteira à casa e que entrava muito pelo mar adentro. Dali em diante não havia mais perigo possível, quando para lá o risco, muitas vezes corrido, era real e não pequeno.

Que prazer ao recebê-lo, logo ao desembarque!

Dobrava a alegria quando conjuntamente vinha o Zenzen, nosso primo Luís de Beaurepaire Rohan, embora homem de índole um tanto enfarruscada, gênio singular cheio de pontas e ângulos, infeliz na carreira militar. Naquele tempo era simples tenente de infantaria.

Pobre Zenzen, quantas gargalhadas boas nos provocava com os modos, ditos, observações e opiniões! De quantos gracejos não foi vítima? Lembro-me que, em certa ocasião, preguei-lhe num chapéu, alto e novo, de pêlo, o rótulo de uma peça de morim!

Tenho bem vivas as amenas perspectivas que se desfrutavam de diversos pontos da casa da Jurujuba, edificada no alto de suave outeiro, já sobre o grosso da povoaçãozinha à esquerda, já sobre a praia da frente, no nosso porto de desembarque, já sobre a Praia da Igreja, por onde se ia à Praia de Fora, isto é, à orla do mar alto, fora da barra.

Ali costumávamos ir pescar com o Tomás e os filhos da Benedita, mulher do pescador Fortunato, que, aos sábados, habitualmente levava meu pai de manhã cedo à Praia das Flexas, em S. Domingos, tomando ele daí, a pé, rumo das barcas.

Ia a S. Cristóvão ter com o Imperador e juntos faziam leituras, quer de jornais da Europa, quer dos grandes clássicos.

Estas conferências, em outras épocas que não de férias, davam-se às terças-feiras e aos sábados, e o Monarca com elas imensamente lucrou na esfera literária, e na científica e artística, pois meu pai tudo levava preparado, os jornais anotados para dispensar pesquisas inúteis, páginas inteiras de leitura condensada e imediatamente proveitosa.

Isto durante anos e anos, na prática do maior desinteresse por parte de quem gastava, e não pouco, do bolsinho só em conduções para ser útil ao imperial amigo.

Em compensação, força é confessar, o Senhor D. Pedro II lhe deu provas de inexcedível estima e consideração, sempre e sempre, e não pouca paciência exercitou para com ele, quando, em avançada idade, meu pai se achou sob a obsessão de idéias fixas e teimosas.

Nessa reciprocidade, feito o balanço eqüitativo, um nada ficou a dever ao outro, tendo havido por ocasião dos apuros de meu tio Teodoro Taunay na liquidação das contas do Consulado francês, não pequena dádiva feita pelo Imperador, com a maior discrição e gentileza.

 

III

VOLTEMOS, porém, à Jurujuba.

Aquelas pescarias, à Praia de Fora, constituíam importantes fatos nas minhas ocupações do dia, tanto mais quanto minha mãe, receosa sempre da agitação daquele mar, facilmente não nos dava licença de lá irmos.

Quando tal acontecia, subíamos o morro fronteiro à casa pertencente à chácara de um Sr. Borges, onde abundavam excelentes araçás de coroa e goiabas, descíamos do outro lado e nos achávamos naquela praia, mais enseada do que outra coisa, de branquíssimas areias.

Como o lado em que pescávamos, trepados em grossas rochas, era de sombra, as horas corriam rápidas e divertidas. Uma vez, onda não pequena, que de repente se levantou e veio sobre nós, ia-me levando, e o pobre do Tomás raspou grande susto. Não molhei senão os pés e as pernas e tivemos cuidado de só voltarmos à casa, eu bem enxutinho para não incorrermos em definitiva proibição de freqüentarmos tal local.

Outro divertimento era apanharmos conchas e por isto intituláramos Praia das Conchas, uma abrazinha dominada por cabana de esfarrapados pescadores e andrajosas mulheres, onde as havia comumente bem bonitas e não muito estragadas.

Para lá irmos, atravessávamos, à direita da casa de vivenda, um matozinho sujo e de espinheiros, no meio do qual havia também muitos pés de araçá, cujos frutos comíamos verdoengos senão de todo verdes. Certa vez, pessoas da minha família estenderam as pesquisas até Itaipu, para lá da Praia de Fora, e dali trouxeram bonitos búzios e conchas univalvas bem interessantes, com o que fiquei em extremo pesaroso de não ter participado de semelhante passeio.

Nesse tempo da Jurujuba, já estava eu às voltas com os estudos, começando o do latim na História Sagrada de Lhomond. O tal Epítome, apesar de toda a simplicidade mais que elementar, dava-me trabalho enorme, provocando da parte de meu pai contínuas recriminações, no meio de exclamações de cólera e indignação — "Tu n'es qu'un imbécile!", era afirmação que voltava a cada instante.

Às vezes a lição interrompia-se com as minhas lágrimas, e minha mãe vinha, com toda a solicitude, procurar ajudar-me. Numa ocasião, esbarrei no trecho em que irmãos de José, no Egito, queriam declarar-se seus escravos. E eu traduzia: "Nós seremos para ti que nos salvaste vossos escravos".

Meu pai batia o pé impacientado e rolava olhos furiosos, sem querer, contudo, emendar o erro.

Foi ao Rio de Janeiro e, quando voltou, achou-me ainda empacado ante a pavorosa dificuldade, que me pusera o dia inteiro inquieto e triste a olhar, trepado a cavalo numa janela da sala de visitas, melancolicamente para as rosas francesas do nosso singelo jardim. Pois bem, voltou meu pai da Corte e encontrou-me a gaguejar ainda o tal vossos, que propus com timidez mudar para seus.

Num grito de impaciência e desespero, bradou-me ele: teus, teus, imbecil! E de repente achada a solução, agora mesmo, ao escrever estas linhas, sinto a impressão de alívio, que então experimentei. Pois era só isto?

Aliás, meu pai nunca me bateu, ainda nos momentos de maior zanga, e minha mãe só me dava alguns beliscões, isto mesmo ao piano, quando me mostrava demasiado rebelde ao estudo daquele instrumento.

Quanta gratidão, entretanto, lhe devo pela amorosa insistência, de que resultaram horas de indizível consolação e prazer pelo conhecimento não muito superficial da música!

Ah! essa estada na Jurujuba, como foi grata e saudosa! Na minha absoluta despreocupação, como passavam os dias depressa! Como tudo me sorria e quanta alegria me cercava! De manhã cedo, o banho de mar, descendo todos nós a interminável sucessão de escadinhas de tijolos, ou então o bonito caminho lateral, que meu pai abrira para dispensar aquele incômodo meio de se chegar à praia.

Depois, o almoço, em que comíamos a valer, eu, sobretudo, mais comilão do que todos e grande bebedor d’água, não havendo, por vezes, modos de me saciar a sede, isto desde bem pequeno, acentuado mais tarde na longa viagem de Mato Grosso e afinal constituindo verdadeira polidipsia, desde que me reconheci diabético em fins de 1877, conforme mais tarde contarei.

Após a primeira refeição algum estudo, sendo o mais aborrecido o do piano que fazíamos, eu e minhas irmãs, num instrumento de mesa, do autor John Broadwood, que, anos depois, acabou na nossa casa da Cascatinha da Tijuca. Nos muitos intervalos de recreio, as pescarias.

Na praia de casa apanhávamos mamareis e baiacus, cujo ventre, com apêndicezinhos à maneira de espinhos, incha, mal sai o peixe fora d’água, imprestáveis para se comer e até venenosos.

 

 

IV

O FINAL do ano de 1852 foi assinalado pelo falecimento de minha irmãzinha Isabel, creio que a 10 de dezembro. Contava seis anos de idade e era bastante gentil. Morreu de meningite. Estava eu muito aniquilado, metido numa espécie de vão de quarto, quando ouvi meu pai dizer com pungente desespero: — "Ah! ela está perdida!", e nunca mais me esqueci do som daquela voz, que me apavorou, trazendo-me ao espírito a idéia de irremediável desastre e da morte!

Em meados de 1853 tivemos também em casa o falecimento de meu tio Luís Afonso d' Escragnolle, e o desespero de minha mãe foi imenso, insuperável, chegando-se a recear qualquer desgraça, pois estava esperando meu irmão Gofredo, nascido a 15 de outubro daquele ano.

Não me lembro de fato algum saliente, enquanto me preparava para fazer exame do 4o ano do Imperial Colégio de D. Pedro II, devendo matricular-me no 5o , o que era demasiado forte e violento para a minha idade, nas condições um tanto doentias em que vivia.

Para robustecer-me, levava-me, diariamente, meu pai, a tomar banhos de mar na Praia da Chichorra e, enquanto eu estava n’água, lia ele Homero num livrinho de edição estereotipada, em que assentou a data da primeira vez que comecei a nadar, acompanhado do indefectível Tomás, meu companheiro de meninice, depois excelente auxiliar da casa até o último dia de vida, a 6 de dezembro de 1886.

Meu tio Carlos encarregava-se, às vezes, de me levar ao banho de mar, quando vinha passar alguns dias na casa da Rua do Saco do Alferes. Quanto era engraçado e jovial este homem! E que contraste com o irmão Teodoro Maria, o cônsul, sempre grave, triste e sorumbático, acabrunhado ao peso de mil negócios desagradáveis, embrulhados e penosos, já próprios, já de outrem.

Fora Carlos militar do tempo de Napoleão I e, ferido no nariz por um cossaco na batalha de Leipzig, merecera ser condecorado com a Legião de Honra pela mão do grande guerreiro, por quem aliás não professava senão medíocre admiração.

Não gostava muito de nos contar incidentes das suas guerras, quando, entretanto, nelas se assinalara pela coragem e resolução.

Foi o segundo que penetrou nos muros de Sagunto por ocasião do assalto a esta cidade espanhola. Teve sempre vida agitada, escapou de ser fuzilado na Bahia por ordem do general Labatut, quando militar ao serviço do Brasil.

Vivia, entretanto, com muita ordem e economia da sua pensão de major reformado e de achegas que conseguira ajuntar, já de obrazinhas literárias e tentativas jornalísticas, já de operações comerciais, em escala mui limitada.

Em todo o caso, preparara para si existência regrada, cômoda e divertida, passando temporadas em casa de amigos, que todos o acolhiam com imensa alegria, e fazendo freqüentes viagens à Europa.

Que diferença com a vida do pobre Teodoro, no báratro insondável de mil negócios, a misturar os rasgos mais extraordinários, e até sublimes, de filantropia, levada ao extremo, com a desordem mais completa e prejudicialíssima a si e a quantos lhe confiavam os haveres!

O consulado francês, durante a sua longuíssima gerência, tornou-se um caos, aproveitando-se especuladores, e tratantes, da falta radical de qualquer escrituração ou simples apontamentos.

Em contraposição, porém, quanta abnegação naquele singular apóstolo do bem, cuja existência mereceria ser estudada com cuidado!... Daria lugar a muita análise curiosa e a anedotas verídicas e bem engraçadas.

Muito abusava a colônia francesa da indefectível bondade e fraqueza do seu cônsul; mas também este por seu lado não vacilava em assegurar com o punho, e debaixo das formas de completa legalidade, tudo quanto lhe vinha à cabeça em assunto de informações e atestados, tudo com a maior despreocupação e para obviar a carência de livros organizados com regularidade.

Passava os dias a fazer esmolas de roupas e dinheiro e não havia sicofanta no Rio de Janeiro que não lhe explorasse o espírito de caridade e o receio de ser importunado.

Apresentava-se, não raro, quase andrajoso, com casacas impossíveis, quase sempre trazendo aos pés sapatos de borracha.

Certa vez, por ocasião do Te Deum de 15 de agosto, na Ajuda, foi, como encarregado de negócios da França, àquela cerimônia com uma casaca imunda, por ter dado na véspera a nova, que mandara fazer de propósito, a um francês que lhe declarara não poder casar-se por falta daquele fato!... Inúmeras as histórias do teor desta, todas verídicas e que depois ele contava com um sorrisozinho entre sardônico e satisfeito. Tinha o nariz comprido e grosso na ponta, os olhos grandes, de azul puríssimo, olhos cheios de meiguice e bondade, olhos esplêndidos!

Voltando ao meu tio Carlos, lembro-me de episódio daquele ano de 1853, que me valeu enorme cansaço mas redundou em presente de valiosa obra que ainda hoje preciosamente conservo.

Foi um passeio à Cascatinha da Tijuca. Partimos meu pai, ele e eu da Rua do Saco do Alferes e tomamos a gôndola do Andaraí Pequeno, que passou pela esquina da Rua de S. Pedro às 6h30min da manhã.

Chegados à base da serra, subimos a pé até à Cascatinha, onde passamos o dia, dando conta do abundante farnel que havíamos levado, ao almoço e ao jantar.

Quando o sol começou a declinar, o tio Carlos avisou meu pai: "Vamos, Félix", disse duas ou três vezes, "precisamos andar depressa. Se acaso perdermos a última gôndola, a das seis horas, como nos arranjaremos?" Ao que meu pai respondia, a correr de um lado para outro: — "E eu que ainda tanto tenho que fazer!"

Afinal, partimos, mas, em caminho, com a exagerada amabilidade, ainda se demorou a falar com um tal Sr. Amaral e um Sr. José da venda.

Certo é que, ao chegarmos à estação das gôndolas, havia o último veículo partido uns dez minutos já!... Imagine-se o nosso desapontamento com a perspectiva de duas longas léguas a vencer, a pé, até o Saco do Alferes!...

O furor do Carlos era impagável. "A culpa é tua, Félix! Bem te avisei! E ainda paraste para falar com aquele Sr. Amaral, homem que tem filhas tão magras! E aquele canalha do senhor José! Ah! quanto a este vou subir de novo à Tijuca só para o fazer rolar do alto dos morros por meio de grandes pontapés. Que miserável! Fazer-nos perder a gôndola! Era plano seu, diabólico, sem dúvida alguma. Sempre te conheci assim, Félix! Não há mais gôndola. E este pobre menino. Estamos numa situação irremediável numa espécie de torre de Ugolino. Este pequeno vai morrer desta esfrega!"

Aí declarei que estava pronto para caminhar até de madrugada e, com efeito, não havia outro expediente a tomar-se. Pusemo-nos, pois, a caminho, devagar mas resolutamente e, a cada momento, meu tio exclamava. "Mas este Alfredo é um herói!"

Só descansamos um pouco em Mataporcos, hoje Estácio de Sá, e chegamos à casa perto das quatro horas da madrugada, achando todos em alarma por causa de tão extraordinária demora. Apesar da insólita ocasião, meu tio exaltou entusiasticamente o meu procedimento, calma e resignação.

No dia seguinte, dava-me uma edição de Molière em seis volumes — obras completas MDCCCXXII com a seguinte dedicatória: "Ce livre m’a été donné par mon ami Denoix et m’est très précieux. Je le donne à mon neveu Alfred en souvenir de sa bonne humeur et de son énergie de fer. Novembre 1853 — C. A. Taunay."

Conservo esta obra que me proporcionou, logo que a recebi, bem bons momentos, porquanto já então gostava bastante da leitura. Muito belas gargalhadas dei com o Bourgeois gentilhomme, Mr. de Pourceaugnac e Les fourberies de Scapin, que li e reli.

 

V

FALAVA eu, porém, da minha magreza e debilidade constitucional. Além dos banhos de mar, tomados com toda a constância, comecei a ter lições de ginástica no Arsenal de Guerra dadas pelo respectivo professor dos menores daquele estabelecimento militar, um tal Bidegorry, que ensinava também ao menino Tosta, posteriormente desembargador e barão de Muritiba.

Havia igualmente lá, a seguir o curso particular de ginástica, uma mocinha, cujo nome não me ficou, mas cujo traje de blusa e calças não pouco me impressionava.

Igualmente nos ensinava a dança, e grandes passos de bailado, um Mr. Paul, primeiro dançarino do Teatro Lírico. Fazia-me assiduamente ensaiar uns célebres cumprimentos de minueto, à moda antiga de Versailles, destinados à minha apresentação no Colégio de Pedro II, por ocasião dos meus exames de admissão. Contarei depois o que sucedeu, valendo-me estrondoso triunfo hilariante.

Naquele tempo meus país se ocupavam, com o máximo empenho, com a nossa educação, minha e de Adelaide.

Impossível maior dedicação, maior esforço, maiores sacrifícios de tempo, absorção e dinheiro. Tudo era pouco.

A atenção quase exclusiva de meu pai estava concentrada em mim, interrompida só com as idas bi-hebdomadárias a S. Cristóvão e alguns trabalhos de escrita de uma companhia de navegação, não me lembro qual. Do seu lado, minha mãe nos guiava no ensino do piano, atenta a todas as indicações do nosso mestre Isidoro Bevilacqua, que substituíra para minha irmã o Luís Vaccani, começando eu as lições com aquele professor, na verdade excelente.

É também dessa data o exagero de afeição que minha mãe começou a consagrar-me, de que depois tiveram justificado zelo meus dois irmãos.

— Tudo pelo Alfredo — é o sentimento que nunca se deu ao trabalho de disfarçar, preferência a cada momento acentuada, que minha irmã aceitou resignada, mas que o Gofredo custou sempre a suportar, tornando-se para comigo muito esquivo, já por si, já pela diferença de idade e índole.

Para me preparar, em regra, aos exames de admissão, tomaram-se professores de alemão, o Bertoldo Goldschmidt, e de latim, o Nuno Nunes, este todo magrinho, estrambótico nos modos, entusiasta do poeta Gonçalves de Magalhães e a lhe citar de contínuo trechos da Ode de Waterloo. Eu não descansava nos estudos, entretanto, sobremaneira inclinado à vadiação e a correr, quando tinha qualquer folgazinha.

O médico de casa e amigo de todo o tempo, Dr. Luís Vicente De Simoni continuamente prevenia que puxavam demais por mim e que a minha constituição física não consentia o gravame de tantos estudos.

Bom De Simoni! Quanto me lembro dele, não que fosse particularmente agradável, sobretudo com as crianças, mas o vi sempre, sempre em casa, a discutir clássicos com meu pai e a lhe mostrar poesias, quer da própria lavra, quer traduzidas em português e em italiano!...

Tinha verdadeira veia poética ou antes extensa facilidade de versejar, e era o tradutor de quanto libreto lírico há por aí.

Médico muito conceituado, homem excelente, tinha aspecto algo ridículo pelo tamanho, opulenta barriga, cara bexigosa e enorme nariz adunco.

— Coisas – confessava -- que me prejudicaram em todo o correr da vida: a minha figura, exageradamente pequena, a falta de eloqüência (e, com efeito, sem ser gago era impossível gaguejar mais e falar no meio de tantos huns, etc. etc., e certo relinchozinho característico).

Não sejam, porém, as minhas palavras prova de qualquer desprestígio ou intenção de ridículo à memória do Dr. Luís Vicente De Simoni. Este homem, que sobremaneira estimávamos pelo muito afeto que nos dedicava, merece ainda hoje toda a nossa veneração. Muito e muito trabalhou em casa, acudindo sempre, pronto e alegre, ao mínimo chamado, zelando a saúde de todos nós, com o maior empenho e recebendo, julgo eu, como médico de partido, bem parca retribuição durante dezenas e dezenas de anos.

Preparado como melhor se pôde, apresentei-me a exame do 4o ano do curso do Colégio de Pedro II, levado àquele estabelecimento, no fim da rua larga de S. Joaquim, pelo meu professor de latim Nuno Nunes.

Aí é que teve lugar o célebre cumprimento, adubado de passos de dança, tão ensaiado com o mestre Paul.

Apenas ouvi chamar o meu nome: Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, levantei-me e, sopitando o vexame, e mais que isto, o terror que sentia, frechei para o meio da sala em vez de me dirigir logo para o estrado dos examinandos.

Aquela manobra atraiu a atenção geral. Uma vez diante do tribunal dos lentes, dei largo passo à esquerda, uni os pés, segundo e terceiro passos, e então fiz profunda reverência com as pernas bem juntas e o corpo todo atirado para a frente, em respeitosa curva. As pausas, o aparato e consciência coreográficos foram tantos, que não houve na sala quem pudesse conter o riso.

E, debaixo da influência desse benévolo movimento, comecei o exame, causando a todos verdadeira simpatia a minha fisionomia de louro franzino com cabelos já naquela época um tanto crespos.

Ao professor de francês, que depois conheci mais de perto, e bastante fraco na matéria que lecionava, perguntei: "Voulez-vous que je passe mon examen en français ou en portugais?" "Em português, português", replicou-me à pressa o argüente e creio que, de assustado, bem poucas perguntas me dirigiu, declarando-se logo plenamente satisfeito.

Ignoro ainda hoje, e nada a tal respeito posso afirmar, se todas as minhas provas foram brilhantes ou se meu pai preparara o espírito dos meus examinadores, mas o certo é que daí a pouco era aprovado com distinção em todas as matérias — e, decerto, não eram poucas, figurando nelas latim, inglês, alemão, grego, princípios de história natural, geografia e não sei mais o quê.

Direi agora que meu pai, embora sem posição oficial, além da de professor e diretor jubilado da Academia das Belas-Artes, gozava, nos vários círculos da sociedade brasileira, de tal ou qual influência e algum prestígio.

De um lado por causa da seriedade que sempre o distinguira em todos os negócios e da pontualidade e ordem dos pagamentos, de outro pela extrema polidez e amabilidade até exagerada, de outro ainda e principalmente pela circunstância de ter entradas constantes e privadas em São Cristóvão e ser tido em conta de amigo particular do Imperador. E o era com efeito, ainda que dessas relações jamais tivesse provindo o mais leve abuso, pelo escrúpulo com que meu pai nelas se aveio e pelo incessante cuidado do Monarca brasileiro em não ter validos, nem consenti-los junto de sua pessoa como canais extra-legais para pretensões e favores.

Bem me recordo do quanto custava a meu pai conseguir um ou outro Hábito da Rosa para literatos que recorriam à sua intervenção e que de fato se tornavam dignos de qualquer manifestação de apreço por parte do governo imperial.

Talvez para diante faça dessas relações de amizade entre o Imperador e meu pai motivo de capítulo especial; mas, por enquanto, prossigamos, pois agora as minhas reminiscências cobram mais segurança e se afirmam com muito mais lucidez.

 

VI

EM MEADOS de janeiro de 1855, pelos dias 16 ou 18, fora o meu exame de admissão. A 3 de fevereiro, conforme de costume declararam-se abertas as aulas, eu matriculado no 5o ano do curso, isto é, na segunda série dos estudos do Colégio de Pedro II. Não tinha ainda 12 anos.

O primeiro dia foi de enorme atarantamento — coisa estupenda! Primeiro que tudo julguei de necessidade e até obrigação levar comigo todos os livros já de freqüência das aulas, já de consultas.

Assim meti o grande Magnum lexicon e o grosso Alexander no cesto de pão, que o Gregório, o boleeiro de casa, vinha gravemente carregando, atrás de mim.

— Não é possível -- observava com toda a sensatez minha mãe -- que seja preciso levar toda essa história. — É, mamãe, é -- afirmava eu todo choroso.

A minha entrada na portaria do Colégio não deixou, pois, de ser notada; houve até um aluno que gritou: "Ó padeiro!", e por uns dias assim me chamaram, mas como jamais pegaram as diversas alcunhas que na carreira colegial quiseram dar-me, cedo se esqueceram os rapazes dessa que, aliás, não tinha nenhuma razão de ser.

Na aula de zoologia, o professor foi causa de desastre, que tenho certo vexame de contar, mas não deixa de ser engraçado. Como ele falava mal português e tinha o cacoete de meter a ponta da língua no canto da boca indistintamente se ouvia o que dizia, embrulhando tudo quanto queria explicar e pondo, como vulgarmente se diz, os pés pelas mãos.

Anunciou-nos que o compêndio adotado na aula era certa obra de Salacroux.

Ouvi mal o nome deste autor e timidamente recorri ao companheiro que se assentara ao meu lado.

— Como se chama o tal homem? -- perguntei. O outro: — Creio que o Luz ou o Suckow --, talvez o Miguel Tavares, enfim um dos endiabrados colegas de que adiante me ocuparei mais de espaço, respondeu-me ligeiramente, o que logo escrevi a lápis com toda a ingenuidade.

Ao sair pouco depois do colégio, aturdido com os gritos e as vaias dos mais velhos e com os berros dos inspetores, sobretudo um tal Carvalho, dirigi-me a um vendedor de livros velhos, caga-sebo (ou caca-ceno) como se os chamam entre os rapazes, da Rua da Imperatriz, o tipo, o primeiro daquela classe que, depois, tanto se generalizou.

Pedi-lhe para ver o tal autor de nome tão arrevesado que pronunciei bem alto e claro.

— Que é, menino? --, bradou o anãozinho chegando-se a mim, aceso em ira. Repeti o nome, e a resposta foi tremenda descompostura e um empurrão que me levou ao meio da rua.

Quando contei, todo alarmado, o caso a meu pai, mostrando-lhe a nota que tomara, não pôde ele deixar de exclamar:

— Com efeito é um nome bem esquisito!

E, como tinha que sair, trouxe-me à noite os dois volumes do Salacroux, que ainda hoje conservo.

O segundo desastre daquele dia aziago foi a impressão que me causou o professor de latim, declarando que não admitiria na aula aluno que não trouxesse, diariamente, consigo e escritos em caderno especial, todos os significados da lição.

Significados?, perguntava eu aterrado a mim mesmo, que será isto? E a ignorância do que exprimia a terrífica palavra me levou a casa, debulhado em pranto, que terminou em horrível dor de cabeça, mal a que era muito sujeito, sentindo só algum alivio até adormecer, quando minha mãe pacientemente me passava, pelo crânio e cabelos, um compasso aberto.

A propósito dos enigmáticos significados, cheguei a pensar que devia copiar todo o Magnum lexicon, mas como de uma noite para o dia?

— É impossível -- consolava minha mãe -- que te expulsem do colégio por causa disso! — Não -- berrava eu --, o professor ameaçou — é coisa certa!

Afinal, meu pai resolveu ir, ato contínuo, à casa do lente e de lá trouxe a noção exata do que exigia.

Achou-me já placidamente dormindo, mas, no dia seguinte, quando acordei, estavam todos os significados da lição tirados em ordem e alinhados, e o meu trabalho único foi fielmente copiá-los.

Que excelentes pais! Quanto me ajudaram, quanto esforço fizeram sempre para tudo me facilitarem na vida! E quão longe, por quantos anos, se exerceu sobre mim este influxo de inexcedível afeição!

O quinto ano do Colégio de Pedro II, embora com muito acúmulo de matérias, não me foi demasiado difícil, porquanto a parte mais pesada das lições era satisfeita por meu pai, traduções do grego, do latim, do alemão, sobretudo as versões do português para aquelas línguas.

O professor ficava admirado do que eu lhe levava. Verdade é que aquele mestre só era forte em nugas e minúcias gramaticais, muito lido em sutilezas filológicas, mas sensivelmente fraco na posse geral do idioma que ensinava.

Que singular pedagogo!

Entremeava as preleções com palavras e anedotas inconvenientes.

E não ficava só nisso, mas... di-lo-ei? Não imprimirá a minha falta de reserva feição pornográfica ou, melhor, pouco asseada, a estas páginas?

Vacilo, embora o valor de memórias, escritas na absoluta sinceridade de recordações, esteja exatamente na lealdade com que são redigidas e na confissão minuciosa de todos os fatos que compõem uma existência, de todas as observações e pensamentos que os sucessos provocaram.

Não é Jean-Jacques Rousseau, que queria apresentar a Deus as suas Memórias para lhe ser dispensado qualquer interrogatório, tão verdadeiro e individuado havia sido em contar tudo quanto lhe sucedera em vida?

À medida que os alunos subiam de classe, crescia-lhe a intemperança de boca, de maneira que no 7o ano era extravagante e de pasmar o churrilho de palavras descabeladas, de sentenças de Marcial, Apuleio e Petrônio, capazes de fazer corar um tambor de artilharia, e só próprias de quartéis e repúblicas de estudantes.

Tão esdrúxulo e original sistema de ensino era conhecido mais ou menos exatamente das autoridades e sabíamos que por vezes se falava, nas altas esferas, de coibi-lo com energia.

Mas tal nunca se deu, e o lente levou, até à data da aposentadoria, a maneira mais que livre e incongruente de lecionar. Apesar dos defeitos e culpas (e, decerto não eram poucos, nem pequenos) nós lhe dedicávamos muita simpatia, achando-lhe graça e espírito em tudo quanto dizia mais de crespo.

 

VII

NESSE quinto ano travei conhecimento com um professor que devia constituir-se causa de meu constante terror durante três anos de freqüência escolar. Muito vermelho sempre, com o rosto inflamado puxando para o roxo, cheio de espinhas e até furúnculos, olhos pequenos, suínos e piscos debaixo de sobrancelhas muito bastas e em matagal, tinha cabelos ralos e compridas falripas, com que buscava disfarçar a calva, delas fazendo como que rodilha no alto da cabeça.

Rangia freqüentemente os dentes, provindo desse hábito sensível tortura de boca, que lhe incutia ares de ferocidade. Tal era o meu pesadelo, o motivo de imensos arrepios e medos.

A cada instante dizia, dirigindo-se aos alunos: — Meu caro senhor!, que pronunciava miô caro siô e tão longe levava esse hábito que, nos exames finais, chegava a aplicá-lo ao próprio Monarca, apelidando-o Meu caro Senhor Imperador!

Ah! quanto me fez sofrer! Aí é que conheci como é longo um minuto, quando se tem os olhos pregados no ponteiro dos segundos.

E a hora então?! Quando batia a sineta do portão, anunciando a terminação da aula, ficava outro, respirava livremente, renascia à vida, pois não tinha caído em graça daquele ente caprichoso, mau e pequenino, tirano para os pequenos e quantos lhe fossem subordinados e tímido e baixo para com os potentados e filhos dos que tinham posição saliente.

Não havia, por exemplo, torpeza que não fizesse para agradar ao nosso colega Maneco Matoso, filho do célebre Eusébio de Queirós Coutinho Matoso Câmara, então Inspetor Geral da Instrução Pública, além de conselheiro de Estado e Senador do Império.

E aqui intercalo uma reminiscência de passagem, referindo-me àquele notável político e estadista, cujos serviços ao Brasil tão valiosos foram.

Que impressão agradável me causou a presença daquele homem, numa visita que fez ao Colégio de Pedro II! Que aspecto simpático! Que belos olhos azuis, francos, serenos! Que maneiras tão afáveis! Entrou durante a inspeção das aulas, na de matemáticas, e vimos o lente desfazer-se todo em muitos miô caro siô e nas práticas da mais torpe bajulação.

Quase à força arrancou das mãos de Eusébio o chapéu alto e foi religiosamente colocá-lo na mesa, pondo, porém, por baixo o lenço desdobrado! Basta isto para pintar o que valia o caráter desse furibundo republicano, ufanando-se das idéias que praticava, aliás, bem tímida e platonicamente.

Assegurava que se havia batido em Paris, onde se formara na Escola des Ponts et Chaussées e ficara 30 ou 40 anos, nas barricadas de 1830 ou de 1848, pouco importa saber quando. Falava, contudo, pessimamente francês.

Quero acabar de vez com a ordem de recordações ligadas a esse displicentíssimo tipo, que no meu passado significa inúmeros momentos de desgosto e até pesada angústia. Ao passo que os outros professores todos simpatizavam com o meu aspecto de débil criança, sobrecarregada de estudos, não ocultava a má vontade, quase antipatia, avigorada pelas poucas disposições que eu, do meu lado, mostrava pela sua cadeira.

Talvez proviesse esta ojeriza do papel que meu pai representava junto do Imperador, a quem o feroz republicano consagrava verdadeiro ódio, exprimindo-o numa frase que bem patenteava a tacanhice e baixeza do rancor. Parece incrível, mas é autêntica: "Se eu visse", disse-nos uma feita, "o Imperador morto no meio da rua, iria dar-lhe uma facada mais!"

Razão de completo desamor e desapego tinha ao que ensinava aquele pretenso discípulo de Augusto Comte (também uma das suas ufanias). "Ouvi, meu caro senhor, as lições do grande mestre e por ele fui distinguido", o que ainda hoje, passados já trinta e seis longos anos, ponho em dúvida.

Uma vez, voltara eu bem cabisbaixo ao lugar em que me assentava, espichado em regra como acabava de sê-lo. Ao meu lado, em outro compartimento do comprido banco a todos comum, ficava o B..., muito gago, espinhento, vermelho.

— Você assim -- disse-me gaguejando, soprando e parando em cada palavra -- fica atrás de nós todos. A sua reprovação é certa. Por que não vai para o comércio? É a carreira que lhe convém.

Por que razão o pobre B ..., habitualmente tão manso, meigo e retraído, me magoou tanto? Como me senti pequeno, infeliz, aniquilado, condenado para todo o sempre, perdido sem remissão!

Infeliz B ..., ele sim é que foi esmagado pela sorte! Reprovado em 1856, saiu do colégio, andou de um lado para outro, caiu em negra melancolia, anos depois perdeu aos poucos a razão e ainda hoje (1892) vive no Hospício dos Alienados completamente brutificado, sem conhecer mais ninguém, não consentindo roupa alguma sobre si, verão e inverno, e reduzido à simples existência vegetativa! O irmão sempre dele cuidou e cuida, com tocante solicitude fraternal.

Apesar de tudo, deixou-me o feroz professor passar nesse ano, dando-me nota de simpliciter; mas no seguinte, em 1856, desapiedadamente me reprovou, quando só faltava uma prova, com a de física, em que obtivera boas notas, para que fosse habilitado à classificação no 7o ano.

Que dia este, mas também que ano endiabrado aquele 6o de 1856! Daqui a pouco, narrarei alguns episódios, buscando indicar-lhes a feição geral.

Depois da tal reprovação, que tornarei a contar com certos pormenores, viram meus pais que se tornava imprescindível abrandar, por qualquer meio, o furibundo magister. Conseguiram, então, que se constituísse meu explicador, de modo que, três vezes por semana, lhe ia à casa, Rua do Conde próxima ao campo de Sant’Ana, ouvir as explicações, que sempre achei confusas, incompreensíveis quase, mistura de francês, português e rangidos de dentes, como alguns dos possessos de Dante.

Aliás, nessas lições particulares, ignoro se pagas generosamente ou gratuitas, fazia, como que garbo, diante de uma criança, de brincar, quase lascivamente, com uma amásia que tinha portas adentro, francesa já de certa idade, mas não de todo feia e que vinha à sala, trazendo ao ombro enorme e, sem dúvida, pesada arara.

E era de ver-se as pieguices e caídos dos dois velhos com aquela implicantíssima ave, cujos estrídulos gritos me fuzilavam os ouvidos, ao passo que o meu susto do adunco bico parecia divertir em extremo Monsieur e sua maîtresse.

Fui assim até ao fim de 1857, protegido aí às claras pela fera domada. Fiz exame muito pior que o de 1856, o que foi confirmado pelo Imperador a meu pai, mas em suma achei-me aprovado e passei para o 7o ano.

Felizmente o tal personagem jubilou-se em 1858, logo nos começos e partiu para a Europa, sendo substituído na aula de trigonometria retilínea pelo excelente Ventura Bôscoli, bom e velho português, com quem me dei otimamente, alcançando logo um dos primeiros lugares no banco de honra, por ocasião das provas trimestrais.

Ainda uma vez, naquela luta, afirmaram-se o empenho e a solicitude de meus ótimos pais, conseguindo que se atenuassem os furores e a malquerença do cerebrino professor. Em certa ocasião, enviaram-lhe bela bandeja de escolhidas frutas, recambiada com este delicado bilhetinho: "A única fruta que aprecio é a romã".

E sem tardança recebia o brutamonte, no dia seguinte, uma cesta cheia de esplêndidas romãs, o que se encontrara no mercado de mais seleto na especialidade.

Noutro ensejo, lhe ofereceram lindíssimo tapete e aí o presenteado se mostrou mais manso, menos selvagem: "C’est de la fabriqué (sic) des Gobélins (sic)", atestava no detestável francês, inçado de ee mouillés em vez dos ee mudos.

Que sistema tinha de perguntar ou melhor de auxiliar ou atrapalhar, conforme queria proteger, ou não, o examinando! E ria-se como um perdido e com grandes e feíssimas caretas, quando o desgraçado rapaz caía na esparrela.

Mas que trote, que formidável vaia levou no dia em que, pela primeira vez, se apresentou na aula trazendo o occiput ornamentado de peruca!... Foi o riso irresistível, enquanto explicava que assim se livrava de defluxos e constipações.

Isto em 1856, no citado 6o ano, que, durante longo tempo, fez época e ficou célebre nos anais do Colégio de Pedro II.

Também a desmoralização tocou os últimos limites, em grande parte devida às violentas lutas que logo se originaram entre o reitor, de pouco nomeado, o Dr. Manuel Pacheco da Silva, e todo o corpo de professores. Entrando em meados de 1855, aquele reitor, imbuído da sua importância e capacidade, decerto com qualidades de bom administrador, encetou uma série de reformas e exigências, que magoaram fundamente o pessoal docente e o estimularam a verdadeira resistência.

Com isso lucraram não pouco os alunos dos dois anos superiores, gozando de grandes regalias que contribuíram para exaltar a audácia natural de rapazes já bem taludos como Suckow, Miguel Tavares, Francisco Tavares, Monteiro da Luz, a que se associavam outros, embora menos ousados, Amaral, França Júnior, Tomás Alves e muitos outros. Quanto a mim, caturrazinho e retido pela educação de família, fazia entretanto o que podia em travessuras, concorrendo com o meu contingente de gritos e gargalhadas no barulho infernal de assuadas e manifestações ruidosas.

 

VIII

TANTAS e tão várias, por tal forma atropeladas, mas sempre bem claras, são as reminiscências daquela época, assinalada por um sem-número de diabruras, algumas de grave alcance até, que não sei como comece, admirado ainda hoje do que fazíamos, aproveitando período de radical e curiosa desorganização disciplinar.

Debalde se queixavam os professores; o Pacheco não lhes dava ouvidos, ocupado em mandar representações ao Governo contra o modo por que aqueles desempenhavam os deveres, atento às menores faltas de freqüência para o ponto, adiantando o relógio, enfim praticando um sistema de guerra todo cheio de pequenas insídias e repentinos ataques, que punha tontos os adversários.

Afinal venceu e pôde realizar todas as represálias que engendrara, sobretudo em relação ao professor de alemão, Bertoldo Goldschmidt, que obrigou a concurso suscitando contra ele o Schieffler e cuja aula conseguiu afinal fosse de simples freqüência facultativa e não obrigatória, como as demais.

Muito baixo, barrigudinho, teimoso e tenaz, com alguma prática de administração, laborioso e vigilante, conseguira Pacheco a confiança quase absoluta do Imperador, que mais tarde lhe confiou a direção da educação dos dois netos, D. Pedro Augusto e D. Augusto, filhos da princesa D. Leopoldina. Morreu em começos de 1889, muito velho.

Nas aulas era contínuo o barulho, incessante o zunzum e o arrastar de pés, que tomava proporções ensurdecedoras quando punham areia fresca. Nesse 6o ano, obrigara-nos o Pacheco a assistir às aulas de inglês, embora disto não cogitasse o programa de estudos.

Quem dirigia esta cadeira era Mr. Cumberworth, chegado de fresco de Londres e que muito pouco sabia de português. Naquela hora de suplício para o pobre professor, a braços com mais de 40 alunos, que tantos éramos, os do nosso ano reunidos aos do 3o, subia o vozear a estupendo diapasão, buscando o Cumberworth fingir que nada ouvia, ocupado com o aluno que chamara para junto de si.

De repente, a um aceno do Maneco Matoso, cessava por encanto o barulho, e então o mesmo denunciava com voz grave e séria: "É o Sr. Tomás Alves Nogueira quem está fazendo todo este barulho!"

Ao que gritava logo o Cumberworth, de súbito aceso em ira: "Sr. Tomás Alves Nogueira, aproveitação má; comportamento péssimo!" E, molhando precipitadamente o lápis na boca, marcava aquelas notas, enquanto o acusado debalde gemia com tom choroso: "Ó senhor, eu não fiz nada!" E, com efeito, era um dos mais sossegados daquela aula endiabrada.

Uma vez, já ao escurecer, cansado o infeliz inglês de tanta desmoralização, pôs de joelhos dois alunos, um pardo a quem gratificou com um bom soco e o apelido de nigrô — e um rapaz esguio, de nariz adunco, olhos gázeos e cabelos caídos sobre a cara, sempre em desalinho, mau estudante, tipo que ainda encontro às vezes pela Rua do Ouvidor.

Ficara este de jiolhos, conforme recebera ordem, para lá da mesinha do Cumberworth e, aproveitando a escuridão, pusera-se de quatro pés e viera se arrastando até a porta da saída.

Eis, porém, que esta inopinadamente se abre e o meu M... se acha entre as pernas do Reitor, à entrada, atraído como fora pelo descomunal vozerio. "Então que é isto?", perguntou-lhe. "Sou eu que vou beber água", respondeu o aluno sempre de quatro patas.

Imagine-se a cena!

Também nesse final de aula, quase todos foram postos de joelhos, ficando as paredes guarnecidas de rapazes de pé, pois raros eram aqueles que haviam trazido os seus compêndios.

Depois desse Cumberworth, a cadeira que merecia menos respeito era a do Dr. Maia, de quem contarei coisas que ainda hoje se me afiguram bem engraçadas. Não sei se dessa opinião serão aqueles que me lerem um dia. Cumpre ter sempre presentes todo o encanto, toda a magia que rodeia os fatos da nossa meninice, naquele período de transição em que tudo na vida nos parece risonho e motivo de galhofa mais ou menos inocente, pretexto para alegres expansões, sem deitar a mal, nem medir alcances. E, de momento, davam-se cenas incríveis.

Uma vez, por exemplo, esperávamos o Goldschmidt na sala do 6° ano, defronte da do 7°, e o Pereira Tavares estava fazendo de onça, isto é, oculto atrás de um dos batentes da porta, precipitava-se de chofre sobre quem vinha entrando desprevenido e o atirava ao chão, gritando: — Lá vai onça!

Assim acontecera com França Júnior e Amaral. Este, para se vingar em regra, avisou: -- Olhe, aí vem o Suckow!

De pronto emboscou-se o outro e caiu com todas as forças sobre quem ia penetrando na sala... nada mais, nada menos o professor em pessoa, o Goldschmidt. O equívoco deu lugar à cena mais cômica possível, rolando ambos por terra.

Má que é isso?, bradava o mestre de alemão, a arrumar valentes tabefes ao espavorido assaltante, que foi incontinente expulso da aula, ao passo que o professor se sentava atônito na cadeira, sem saber o que fazer e aturdido de tão estranha agressão.

O silêncio era profundo. De repente ergueu o Luz a voz: "O Sr. Dr. quer que eu vá buscar um copo d’água?" "Já para fora você também, Sr. tratante! É tão bom assassino quanto o outro!", foi a resposta, e com tal entono e gesto, que o obsequioso aluno disparou pela porta.

A aula em que se guardava mais compostura era a de filosofia, regida por um beneditino, frei Francisco de Santa Maria Amaral, homem grave, credor de respeito e bom conhecedor da matéria que lecionava. Apesar disto, a indisciplina, o estouvamento e a má educação (sejamos francos) não lhe poupavam dissabores, de que dava mostras coçando com a ponta de um lápis o pescoço.

Chamava-me Sr. Taúnay, decompondo o ditongo francês, isto com voz de baixo profundo, e mostrava-me não pouca simpatia. Repreendeu-me, talvez mesmo por isto, severamente, porque, dizendo ele, durante uma preleção: "Malebranche morreu em 1715", exclamei alto e ousadamente: "A terra lhe seja leve!" — "Não seja como os outros, menino", observou-me, "não queira ser como os outros!"

Por grandes tormentos passou o meu perseguidor naquele memorável 6° ano. O seu consolo único era cobrir de elogios, por contraposição a todos os companheiros, o Pedro de Melo, narigudo, magriço e espigado, que lhe caíra em graça. Este pobre rapaz suicidou-se, depois, por causa de complicações comerciais.

No dia em que o tal homem arvorou, como já referi, a peruca, sentando-se mais rubro ou antes mais violáceo do que nunca, foi acolhido com uma gargalhada, que tomou visos de pateada.

Acalmado o barulho, eis que entra o França Júnior com um colarinho de papelão fino e pontudo a lhe subir até aos olhos. "Miô caro Siô", declarou logo o homem da peruca, "o Siô não fica na aula com estes colarinhos."

Sem demora saiu o França, mas voltou logo com outro de feitio diverso, este, então, a Carlos I, que lhe caía largo e majestoso sobre os ombros. A gargalhada foi enorme. O professor, como um possesso, passou-nos formidável descalçadeira coletiva, citando, pelo menos assim declarou, um provérbio inglês que ficou célebre entre nós, mas sem lhe percebermos o sentido: "I schip my heard".

 

IX

NO MEIO de toda aquela balbúrdia, quem gozava, entre nós, de certa força moral era o bacharel Gonçalves, João Antônio Gonçalves da Silva, o qual desde o meu 5° ano substituíra em 1855 na cadeira de história o ilustre, mas também muito ludibriado pelos alunos, frei Camilo de Montserrate, monge beneditino, nomeado naquele ano diretor da Biblioteca Nacional.

Esta nomeação se fizera por influência direta do Imperador, já para aproveitar a profundeza de conhecimentos daquele sábio, já para libertá-lo de formidáveis intrigas de convento, já, enfim, por ser ele filho natural do duque de Berry, filho de Carlos X.

Aquele Gonçalves, simples bacharel em belas-letras, dispondo de muita petulância e audácia e todo cheio de exageradas pretensões, tinha, contudo, reais aptidões para o professorado.

Conhecia de pronto os bons estudantes, sabia distingui-los, estimulá-los, dirigi-los, aproveitando, segundo o processo dos espartanos em relação aos ilotas, os vadios e madraços para exemplo e contraste.

Fazia-nos à vontade rir às gargalhadas ou tremer de medo, chegando a contar-nos histórias mais que familiares, embora nunca no gênero e no gosto das do colega.

De súbito, sem transição, parava, franzia o sobrolho e assumia papel de lente feroz e intransigente. Neste caráter não media epítetos e tratava os discípulos nem mais, nem menos, de desbriados e até miseráveis e canalhas.

Chegou, uma feita, a dar bem assentado pontapé no Amaral e ia usar do mesmo argumento de convicção para com o Luz, quando este fugiu como o mais ligeiro gamo. Usava nestes momentos de explosão de linguagem estudadamente enfática, que se prestaria ao ridículo, se não nos infundisse legítimo pavor.

O seu paciente habitual era o A..., barrigudo e lambão, sempre a sacudir a corrente de um relógio de prata eternamente parado.

— Senhor A. -- bradou em certo dia de particular mau humor e por causa de um erro de data --, o Sr. é um pobre infeliz, espécie de verme que rasteja na base da montanha, de cujo cimo eu o contemplo triste e compassivo! Suma-se, suma-se já da minha vista! Uma nuvem negra me separa do Sr.

E fez gesto largo e solene para que, sem detença, saísse a causa de tanto desgosto e tão profundo desprezo.

Este dia foi de juízo.

Tirando os óculos e depois deles usando com os aros de ouro para fora, seguros na mão, pôs-se a fitar insistentemente cada um de nós, aluno por aluno. "Sr. Diogo", exclamou de repente, "dê a lição". Tratava-se das depredações dos ingleses depois da batalha de Poitiers (1356).

Começou o pobre do gago a dar conta, como podia, do recado que trazia decorado, palavra por palavra: "De Pa.. parís... se...se... vi...i...iam as...as flam...mé...mé chass..."

-- Flaméchas, Sr. Diogo?

-- Sim, se...enhor! E...e de...de...to...to...dos os laa...dos só...só... (uma penca interminável de só...só...) vi... viu... vas e...e...or...phe...phelins!

-- Pare -- ordenou o Gonçalves, e voltando-se para outro aluno também chamado Gonçalves exclamou: -- Sr. Gonçalves, vá buscar um jogo de dicionários português-francês e francês-português para uso desta azêmola!

Todos em sepulcral silêncio.

De repente formidável berro: "Sr. Keller, retire-se da aula!" Só porque este timidamente puxara do bolso um cantinho do relógio, para ter idéia do quanto teria ainda que durar todo aquele suplício. Aí começou um tiroteio de datas que nos pôs tontos.

Ocupava eu o segundo lugar do banco de honra e o Freitas, com quem tinha muita rivalidade, sobretudo em história, o primeiro.

-- Em que ano -- perguntou o terrível Gonçalves ao Suckow, que nada respondeu -- invadiram os árabes a Espanha? Sr. Miguel Tavares, Sr. Carlos José Moreira, Sr. fulano, Sr. beltrano.

-- Eu sabia -- disse o Luz impudentemente --, mas já me esqueci.

-- Fora da aula -- foi a ordem --, fora, malandro, cínico, maluco!

E o interrogatório continuou aterrador. Faltavam já só os seis alunos do banco de honra. Vermelho como lacre, denunciava a fisionomia do Freitas que estava também em apuros.

Tornava-se o momento melindroso; aproximava-se o perigo. O aluno do sexto lugar abanara negativamente a cabeça, talvez o Burnier. Acotovelou-me levemente o Freitas, e baixinho me perguntou, dominando a custo o orgulho: "Você sabe?", ao que respondi hipocritamente: "Não me recordo". Já aí dera o Gonçalves prolongado sio! e interrogara:

-- Sr. Freitas, em que ano?

-- Não tenho presente -- confessou o pobre do rapaz, descorando muito.

--Adiante, Sr. Taunay.

— Em 711, respondi sem vacilar.

Aí achou o espetaculoso magister ocasião para uma das suas cenas aparatosas.

--Levante-se, Sr. Freitas; Sr. Taunay levante-se -- ordenou. Depois de obedecido, continuou com muita pausa e voz propositalmente sibilante:

-- Sr. Taunay, passe-se para o primeiro lugar do banco de honra, Sr. Freitas ocupe o segundo.

Enrubesci de triunfante alegria, ao passo que o mal-aventurado colega, pálido de raiva concentrada, a custo retinha as lágrimas.

Também, mal terminada a aula, chamou-me de parte e intimou-me: ‘‘Se você tem vergonha, nunca mais, nunca mais, ouviu? me dirija a palavra". E, com efeito, fomos ainda companheiros dois anos, sentamo-nos juntos em bancos de honra de muitas aulas, ora eu no primeiro lugar, ora ele, e jamais trocamos um aceno sequer. Éramos absolutamente alheios um ao outro, como se não existíssemos. Embora os colegas, no jantar de bacharelado oferecido pelo Pereira Tavares, procurassem reconciliar-nos, continuou a antipatia que sempre nos separou.

Foi também neste 6° ano que concorremos para a grande vaia pública dada por quase todos os rapazes do Colégio ao meu perseguidor e encabeçada pelo Lima e Silva, aluno do 7° ano.

Resolveu a congregação de lentes a expulsão do chefe de tão estrondosa manifestação, mas a ela se opôs Pacheco da Silva, fazendo o delinqüente pedir desculpas diante de todos os colegiais formados.

Quer o reitor, quer o professor ofendido pronunciaram alocuções muito gaguejadas, durante as quais o M., de uma janela lateral, nos fazia os gestos mais grotescos e indecorosos e as caretas mais extraordinárias e engraçadas. Não sei como não estourei, a conter a custo enormes gargalhadas.

Era nosso professor de grego o barão de Tautphoeus, homem da mais alta competência literária e científica, mas em tudo bonachão e demasiado condescendente. Nem sequer a este verdadeiro sábio, tão bondoso para com todos, poupavam os endiabrados rapazes desgostos e picardias.

Uma vez, a jogarem peteca na aula, foi ela cair em cima do livro Diálogos de Luciano, em que justamente eu dava lição, aberto sobre a mesa. "Orra, Deus, menino", exclamou o barão, "também isto é demais; nem um santo aturra". E levou-nos a todos à presença do reitor, que afinal, depois de ligeira repreensão, nos mandou embora.

Meticuloso em extremo, teve Pacheco da Silva o mérito de, logo em começos do reitorado, fazer melhorar, e muito, a alimentação que o Colégio dava aos alunos internos e meios pensionistas, e nesta classe estava eu compreendido, jantando lá diariamente.

Com fumaças de filólogo e bibliófilo, não havia livro que não conhecesse e até deixasse de possuir.

No meio de infindas cenas jocosas e sem maior inconveniente e significação do que travessuras dignas de alguma repreensão, outras havia de caráter brutal e muito menos toleráveis. E a balbúrdia era agravada pela desunião que lavrava no corpo docente, pronunciando-se alguns professores pelas reformas propostas pelo reitor e que visavam mais a pessoas do que aos estudos. Entretanto, todos, Pacheco e lentes, concordavam que os alunos do 6° ano precisavam de lição exemplar e que ela lhes seria dada amplamente por ocasião das provas finais, em que se exercitaria, sem peias, o mais justo, mais bem-entendido e severo rigor.

 


 
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