Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros
A Coleção Particular, de Georges Perec (tradução de Ivo Barroso; Cosac & Naify; 96 páginas; 29,80 reais) – O francês Georges Perec (1936-1982) foi um expoente da literatura experimental, mestre em criar narrativas intricadas, marcadas pelos jogos de palavras. O estranho mote da novela que dá título ao volume mostra como funcionava sua imaginação: A Coleção Particular fala de um colecionador que possui uma pintura que retrata a si mesmo admirando sua coleção de quadros – e essa é composta de obras que retratam outros quadros. A edição se completa com o breve conto A Viagem de Inverno, sobre um literato que se julga diante de uma descoberta que pode mudar a história das letras francesas.

Leia trecho

O segundo quadro europeu era uma obra de Hogarth intitulada The Upsidedown Manor (A mansão ao revés), nº 83 do catálogo. O pintor retomava um tema que utilizara várias vezes em sua série de gravuras ditas "didáticas", com as quais pretendia demonstrar como uma perspectiva ligeiramente falseada pode chegar a produzir ilusões aberrantes: um palafreneiro dando de comer a um cavalo situado muito longe dele, por exemplo, ou um personagem no balcão de um primeiro andar apertando a mão de outro personagem que se encontra no andar térreo etc. No caso, era no salão de um castelo de aparência gótica que tais fenômenos se produziam: um lacaio acendia um candelabro situado quase no canto oposto da peça, um outro servia bebida a um ?dalgo sentado muito acima dele, uma mulher no alto de uma escada dava a mão a beijar a um homem que permanecia parado ao pé dos degraus.

O prestígio da assinatura e a curiosidade do assunto valiam sem dúvida mais do que a própria pintura, bastante inábil no desenho, incerta nos efeitos, embaçada nas cores e em precário estado de conservação. Na verdade, fazia pensar numa divertida tabuleta de hospedaria, mais do que na obra de um grande pintor. Mas isso não a impediu de galgar alegremente o topo dos us$ 10.000.

O terceiro quadro (nº 93), de europeu, só tinha o nome do autor. Era uma Paisagem do Tennessee executada pelo francês Auguste Hervieu por ocasião da passagem do pintor pelos Estados Unidos, entre 1827 e 1831. Nascido em Paris em 1794, mas educado na Inglaterra, onde trabalhara sob a direção de sir Thomas Lawrence, Auguste Hervieu acompanhou a sra. Frances Trollope, mãe do célebre romancista, quando esta tentou fazer fortuna em terras da América. Hervieu foi por algum tempo professor de desenho numa colônia utopista, fundada em Nashoba, perto de Memphis, por uma amiga da sra. Trollope, a sra. Wright, e é dessa época que datava a tela da coleção Raffke. Pouco mais tarde, Hervieu se instalou em Cincinnati, antes de regressar à França, onde tudo leva a crer que abandonou a pintura. Na época do primeiro leilão das obras de Raffke, o conjunto da produção conhecida de Auguste Hervieu se limitava a trinta litogra?as (que haviam servido de ilustrações ao pan?eto de Frances Trollope, Domestic Manners of the Americans), onze aquarelas, três cadernos de croquis e quatro telas. Uma meia-dúzia de colecionadores fanáticos disputavam-nas ferozmente, e essa paisagem delicada, mas um tanto piegas, que, segundo os peritos, não merecia mais de us$ 500 ou 600, atingiu o preço recorde de us$ 7.500 ao ?m de uma luta encarniçada entre Stephen Siriel, agente da atriz de cinema Anastasia Swanson, então no auge da glória, e o industrial C. B. MacFarlane, diretor-presidente da Companhia Ferroviária do Altiplano.

É difícil saber quais eram precisamente as intenções dos herdeiros de Raffke ao ?nal dessa primeira venda. Um cartão que mandaram distribuir na última noite do leilão anunciava uma segunda venda, consagrada na maior parte a obras antigas de origem européia, tão logo se resolvessem os múltiplos e complexos problemas decorrentes da elaboração do catálogo, cuja redação inicial fora con?ada aos srs. William Fleish, professor de história da arte no Carson College de Nova York, e Gregory Feuerabends, comissário-perito da Parke and Bennett e conselheiro de licitações do Museu de Belas-Artes da Filadél?a.

Na verdade, vários anos se passaram: a Primeira Guerra Mundial estourou, e talvez os herdeiros de Raffke tenham julgado oportuno evitar que se falasse deles no momento em que a opinião norte-americana tendia mais a manifestar sentimentos antigermânicos, em especial nas cidades em que as minorias de origem alemã eram fortes e organizadas. Após a explosão do depósito de munição de Black Tom Island, em 1916, atribuída a espiões alemães, houve manifestações de rua em Cleveland, Milwaukee, Chicago e Pittsburgh, e, nesta última, algumas vidraças das Cervejarias Raffke foram quebradas; quando os Estados Unidos entraram na guerra, mil e oitocentos súditos alemães suspeitos de exercer atividades pangermanistas foram aprisionados em Ellis Island; entre eles estava o redator-chefe adjunto do Vaterland de Pittsburgh. Tudo o que pudesse, bem ou mal, lembrar as grandes festividades germanó?las de 1913 só faria suscitar a hostilidade das multidões e até mesmo dos poderes públicos.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio