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Judas Iscariotes e Outras Histórias, de Leonid Andreiév (tradução de Henrique Losinsky Alves; Claridade; 144 páginas; 29 reais) – Dominada pelos gigantes Tolstoi e Dostoievski, a literatura russa tem ainda outros tesouros a oferecer. Leonid Andreiév (1871-1919), autor que havia muito tempo estava ausente das livrarias brasileiras, aparece agora com seis contos, em uma edição traduzida do russo. Andreiév foi um opositor de primeira hora da revolução comunista – estava exilado na Finlândia quando cometeu suicídio. Sua obra revela aquele pessimismo de que só os russos são capazes. Na narrativa que dá título à coletânea, Judas aparece como um homem cuja única opção era trair Jesus. Era o seu destino.

Leia trecho

"Nenhum dos discípulos podia precisar o dia em que aquele torvo judeu, de pêlos ruivos, abordou pela primeira vez Jesus. De há muito, Judas seguia-lhes o mesmo caminho, mesclando-se em suas práticas, prestando-lhes serviços, sorrindo sem cessar, mostrando um servilismo abjeto. Eles sentiam-se familiarizados com a sua presença. E sofriam de certo mal-estar diante daquela figura feia, abominável e monstruosamente perversa, que lhes torturava os olhos e os ouvidos. Então, expulsavam-no de seu lado, e ele desaparecia numa curva do caminho. Logo mais reaparecia momentaneamente; trazia suas eternas hipocrisias, suas astúcias e artimanhas. Algo mal-intencionado devia existir naquele afã de chegar até Jesus - pensavam alguns dos discípulos. Talvez um desígnio hostil, um cálculo pérfido e cuidadosamente disfarçado.

Repetidas vezes disseram isso a Jesus; porém, suas vozes proféticas ressoaram inutilmente. Com esse espírito de serena contradição, que o levava irresistivelmente até os réprobos e os malditos, não titubeou Jesus em acolher Judas e pô-lo entre os eleitos."

"Judas tinha-se deitado no leito de um estreito cubículo, do qual podia ver os demais que iam e vinham. À luz da lua, as silhuetas apareciam tênues e vagas, deslizando, seguidas por sombras opacas. Às vezes, desvaneciam-se na obscuridade e ouvia-se uma voz, a do Mestre, mas, ao regressarem à claridade, reinava novamente o silêncio e tudo ficava mudo: as silhuetas brancas, as sombras negras nas paredes e a noite a um tempo escura e transparente.

Quase todos eles dormiam, quando Judas ouviu a voz baixa do Mestre; e tudo se calou na casa e nos arredores.

Um galo cantou; um asno relinchou estrepitosamente, como se a aurora fosse despontar.

Judas continuava velando, vigilante, o ouvido aguçado. A lua iluminava-lhe metade do rosto, refletindo-se de modo singular em seu olho imóvel, como num lago coberto de gelo.

Recordando-se do papel que lhe tocava representar, procurou tossir e, com a manápula, tocou no peito largo e peludo; podia acontecer que alguém estivesse ali, atrás dele, à espreita de seus secretos pensamentos."

"Judas mentia em todas as ocasiões, mas não faziam caso, porque seus embustes não ocultavam atos reprováveis; davam, ao contrário, certo relevo a suas histórias e à sua conversação, e isto tirava, em grande parte, a monotonia da vida que levavam.

A julgar pelos seus ditos, Judas conhecia todo mundo e cada um de quem falava havia cometido uma ação má ou mesmo um crime. Segundo ele, não havia pessoas bondosas, mas homens que sabiam ocultar manhosamente seus atos e intenções; adulavam, lisonjeavam, usavam de astúcia, de mentiras, de vilanias e a abominação emanava deles como o pus de uma chaga. As vezes, concedia de bom grado ser um mentiroso, mas jurava e perjurava que os outros mentiam mais e que se havia no mundo alguém a quem houvesse enganado era a ele próprio, Judas."

"Durante as peregrinações de Jesus e de seus discípulos, através da Judéia, quando se aproximavam de algum povoado, Judas antecipava-se a preveni-los contra os seus moradores, falando que eram maus e predizendo que iam ser recebidos com hostilidade. Entretanto, ocorria, quase sempre, que os habitantes acolhiam com prazer Jesus e os apóstolos, devotando-lhes afeição e amor e adotando com entusiasmo os seus ensinamentos. O cofre, onde Judas guardava o dinheiro, tornava-se muito pesado e, com dificuldade, conseguia transportá-lo. Todos lhe ridicularizavam os receios e ele respondia gesticulando com ar submisso:

- Sim, sim! Judas acreditava que fossem maus e são bons. Converteram-se e deram-nos dinheiro. Enganaram, pois, o crédulo Judas, o pobre Judas Iscariotes!"

"Se, por um lado, Judas entregava Jesus, por outro tentava fazer malograr os seus próprios planos. Não intentou, como as mulheres, persuadir o Mestre a empreender a sua última e perigosa peregrinação a Jerusalém, porque os parentes de Jesus e os discípulos julgavam indispensável a conquista da capital para o completo triunfo da causa. Mas insistia tenazmente sobre os perigos que se deparavam o Mestre, pintava de cores vivas o ódio dos fariseus pelo Senhor, ódio que lhes sugeria, provavelmente, a idéia de matá-lo em público ou secretamente .

Todos os dias a todas as horas falava d'Ele aos discípulos e, ameaçando com o dedo, em tom áspero, dizia:

- Temos de velar por Jesus! Temos de velar por Jesus! Quando chegar a hora, teremos de defendê-lo!"

"Os soldados cercaram-nos e a luz fumegante dos archotes parecia rechaçar não se sabe para onde a doce claridade lunar. À frente dos soldados, encontrava-se Judas Iscariotes. Caminhava com passo rápido e procurava Jesus com o olhar fulgurante e agudo. Descobriu-O e, após contemplar uns segundos a figura fina e esbelta do Mestre, cochichou aos servidores do templo:

- Aquele a quem eu beijar é Ele. Apoderem-se de sua pessoa e levem-na; mas com cuidado. Com cuidado, ouviram?

Logo, acercou-se de Jesus que o esperava em silêncio, embebeu o olhar afiado e frio como um punhal nos olhos tranqüilos e brandos do Nazareno.

- Eu Te saúdo, Mestre - disse alto, dando um sentido estranho e ameaçador a essa fórmula habitual de saudação.

Jesus silenciou. Os discípulos olhavam horrorizados o traidor; não compreendiam como podia haver tanta maldade numa alma humana.

Iscariotes lançou rápido olhar ao grupo desordenado dos discípulos; sentiu que a turvação deles se transformava em medo; observou-lhes a palidez dos rostos, os sorrisos inexpressivos, os movimentos frouxos dos braços; observou tudo isso e uma angústia mortal, idêntica à que Jesus acabava de passar, gelou o coração do traidor. Alargando-se como um feixe de cordas vibráteis e soluçantes, precipitou-se Iscariotes para Jesus e beijou ternamente sua face imóvel. E aquele beijo foi tão suave, tão terno, tão cheio de angústia e de amor doloroso, que se Jesus fosse uma flor sutil em equilíbrio sobre seu galho frágil, tal contato não a teria transtornado e as gotas de orvalho permaneceriam na urna de gaze de suas pétalas.

- Judas! - exclamou o Mestre e seu olhar luminoso como um relâmpago alumiou a terrível montanha de trevas que era a alma de Iscariotes, mas sem sondar o fundo. - Judas! Então, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?"

"A cruz surgiu da obscuridade da terra e nela Jesus está martirizado. Judas aproxima-se inconscientemente, levanta-se e olha com frieza ao seu redor. Olha como um vencedor bárbaro, cujo coração decidiu arrasar tudo à sua frente, e que abraça, num supremo olhar, a cidade estranha e rica, ainda viva, rumorosa, mas sobre a qual se estende a mão gelada da morte."

"Durante toda a noite, o corpo balançou no alto de Jerusalém, como um fruto monstruoso; e o vento virava-lhe a cara, ora para a cidade, ora para o deserto, como se quisesse mostrar a Judas, alternadamente, o lugar santo e o lugar desolado. Sem dúvida, qualquer que fosse o lado para onde o rosto virasse, deformado pela morte, os olhos injetados de sangue, idênticos agora, olhavam invariavelmente para o céu.

Na manhã seguinte, um caminhante viu nas alturas o cadáver de Judas, suspenso sobre a cidade, e lançou gritos de horror. As pessoas acorreram, desataram o enforcado e, ao saberem o seu nome, lançaram-no ao abismo, onde apodreciam gatos, cavalos e cachorros."


 
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