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O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux (tradução de Marisa Motta e Fernanda Abreu; Objetiva; 453 páginas; 59,90 reais) – Publicado em 1975 e só agora lançado no Brasil, este livro relata a saga ferroviária do escritor americano Paul Theroux da Inglaterra até o Japão, por meio do Expresso do Oriente, e de volta para a Europa com o Expresso Transiberiano. Theroux registra suas impressões sobre os vários países que visita – entre outros, Índia, Tailândia, Malásia e Vietnã, ainda sob o trauma da guerra encerrada havia pouco tempo. O leitor é brindado com uma viva galeria de personagens com que o autor cruzou ao longo do trajeto. Theroux revela, sobretudo, sua paixão pelos caminhos de ferro, sejam eles os assépticos trens-bala japoneses ou os desconjuntados vagões russos.

Leia trecho

1
O trem de 15h30 - Londres a Paris

DESDE criança, quando vivia perto da via férrea de Boston e Maine, raras vezes ouvi o silvo de um trem sem sentir o desejo de estar nele. Os apitos dos trens eram como uma música encantada: as ferrovias são irresistíveis bazares, serpenteando perfeitamente nivelados qualquer que seja a paisagem, melhorando seu estado de ânimo com sua velocidade sem jamais derramar seu drinque. O trem pode inspirar segurança em lugares muito desagradáveis - muito diferente dos suores de pânico provocados pelos aviões, do odor nauseabundo dos ônibus de longa distância, ou da paralisia que aflige os passageiros de automóveis. Se um trem é grande e confortável, pouco importa seu destino; um -assento num canto basta, e você pode ser um daqueles viajantes que per-manecem em movimento, em cima dos trilhos, e nunca chegam nem sentem que precisam chegar - como aquele homem de sorte que passa a vida nos trens da fer-rovia italiana porque é aposentado e tem um passe livre. Me-lhor viajar na primeira classe do que chegar, ou, como disse certa vez o romancista inglês Michael Frayan parafraseando McLuhan: "A viagem é a meta em si." Mas eu havia escolhido a Ásia e, quando me lembrava de que meio mundo nos separava, isso só me trazia felicidade.
Então a Ásia estava do lado de fora da janela, e eu era carregado através dela a bordo daqueles expressos que vão para o Oriente, admirando tanto a balbúrdia dentro dos trens quanto aquelas pelas quais passávamos. Qualquer coisa é possível num trem: uma refeição deliciosa, uma noitada, um jogo de cartas, uma intriga, uma boa noite de sono e monólogos de estranhos construídos como contos russos. Minha intenção era embarcar em cada trem que me aparecesse pela frente da Victoria Station em Londres até a estação central de Tóquio; tomaria a linha secundária até Simla, atravessaria o passo de Khaybar, e tomaria a linha direta que conecta as ferrovias indianas com as do Ceilão; viajaria no expresso de Mandalay, no Flecha de Ouro da Malásia, nos trens locais do Vietnã, e nos trens com nomes mágicos como o Expresso do Oriente, o Estrela do Norte e o Transiberiano.
Eu procurava trens; encontrei passageiros.


 
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