Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

101 Dias em Bagdá, de Asne Seierstad (tradução de Luís Felipe Sarmento; Record; 386 páginas; 40,90 reais) – Autora de O Livreiro de Cabul, reveladora crônica da vida de uma família afegã, a jornalista norueguesa Asne Seierstad (que estará no Brasil nesta semana, participando do Fórum das Letras de Ouro Preto) trabalhou como correspondente para jornais europeus em Bagdá, durante a Guerra do Iraque, em 2003. Nesse livro, ela reconstitui a experiência. Antes do conflito, a jornalista encontrou uma população que evitava dar entrevistas por temor da repressão do governo de Saddam Hussein. Depois, com os bombardeios sobre a cidade, vieram dias de privação e medo. A partir do depoimento de vários iraquianos, Asne dá uma perspectiva mais íntima e humana da guerra.

Leia trecho

A primeira coisa que vi foi a luz. Penetrou-me pelas pálpebras, abriu caminho pelo sono com carícias e deslizou até o sonho. Não era como a luz da manhã que eu costumava ver, não era branca e fresca, mas sim dourada. Com os olhos entreabertos em frente a uma janela com grandes cortinas de tule, entrevejo as poltronas estampadas, uma mesa bamba, um espelho e um armário. Há um esboço mal pintado na parede de um bazar no qual sombras de mulheres com grandes xales pretos deslizam pelas ruelas lúgubres.

- Estou em Bagdá!

A luz da manhã aqui é assim: furtiva.

Do outro lado das cortinas uma próxima revelação me espera: o Tigre. Tenho a impressão de já ter estado aqui antes. O tortuoso rio, os juncos ao longo das margens, as ilhotas de um verde ondulante no meio, as palmeiras que sobressaem orgulhosas e se refletem na superfície da água: tudo isso parece tirado de uma Bíblia que tive quando criança.

Lá embaixo ouve-se uma escala inteira de buzinas, desde ruídos surdos até os sons mais estridentes. A rua margeia o rio e o engarrafamento avança a passo de tartaruga por baixo da varanda.

Cheguei aqui acolhida pela noite. Demoramos 12 horas para atravessar o deserto, da capital da Jordânia até a do Iraque, e já havia escurecido há um bom tempo quando chegamos a Bagdá. Havia somente a luz bruxuleante de alguns postes dispersos, e quando percebemos já tínhamos atravessado o rio. Nos arredores da cidade tivemos que mudar de carro, porque o jipe jordaniano não tinha autorização para entrar no centro.

O Eufrates e o Tigre são o ponto de partida de tudo. Até o dilúvio universal procede da Mesopotâmia, a terra entre os dois rios. O Tigre, naquele tempo, era um rio imprevisível. Na sua planície, enterradas sob camadas de lama, arqueólogos escavaram cidades, e foram essas catástrofes contínuas que inspiraram o relato do castigo de Deus sob a forma de um dilúvio que inundou o mundo inteiro. Os Jardins Suspensos em volta floresciam graças à água do rio e foi por aqui que se situou o Jardim do Éden. Perto dali, a Torre de Babel foi construída e desta região Abrão e Sarai foram exilados.

Hoje em dia, os matagais ao longo do Tigre já não são tão paradisíacos. A vegetação é de um verde pálido, porque a ribeira é estéril e seca, e o único verde são as folhas de palmeira que se mexem preguiçosas no alto dos troncos marrons. A própria cidade tende para o marrom, e o contorno das casas é dissolvido pela bruma que cai pesadamente do céu. Ao longe, a fronteira entre Bagdá e o deserto desaparece no horizonte.

Da mesma maneira que tantas outras cidades no mundo, a história desta começa no rio e, assim, segundo a lenda, o imperador Al-Mansur teria pronunciado as seguintes palavras em meados do século VIII: "Este é o lugar onde edificarei a minha cidade. Tudo pode chegar até aqui pelo Eufrates, pelo Tigre e pela rede de canais. Somente um lugar como este pode alimentar o meu exército e uma grande população."

Era verão e Al-Mansur viajava pelo seu império. Montou um acampamento próximo do povoado de Qasr al-Salam, rezou à noite e adormeceu. Ao acordar, tinha desfrutado do sono mais doce e agradável possível, continua a lenda, e gostara de tudo o que vira à sua volta, decidindo ficar. O imperador desenhou o projeto urbanístico, financiou-o, assentou a primeira pedra e disse: "Construam e que Deus vos acompanhe!"

Bagdá se ergueu sobre uma importante rota comercial entre o Irã, a leste, as zonas ricas em cereais, a norte, e a Síria e o Egito, a oeste. De acordo com a tradição, a cidade devia expressar a elevação e o esplendor do imperador e foi construída com a intenção de afastar governantes de governados. Assim, os palácios foram erguidos na margem ocidental do Tigre, enquanto os mercados e os bairros residenciais ficaram na zona leste.

Assim como Al-Mansur, desfrutei do sono mais doce e agradável possível na minha primeira noite nas margens do Tigre. Fico de pé apreciando a mistura de sons dos veículos caindo aos pedaços sob a minha varanda, enquanto uma estranha sensação de calma se espalha dentro de mim. Começarei agora minhas investigações neste país de onde a catástrofe se aproxima.

Ao descer pelas escadas, ouço gritos na recepção. Guinchos estridentes e rangidos atravessam o ar; vêm de um ma- caco que pula de um lado para o outro dentro de uma jaula, enquanto uma pomba arrulha e canários amarelos trinam. No meio das grades há uma mamadeira com leite. "Coitadinho", chego a pensar antes que os dois braços sinuosos saiam por entre as grades e me agarrem.

Grito e me afasto num salto, e o macaco faz o mesmo.

- O Mino rouba tudo que passa pelas mãos dele e pode atacar os seus bolsos se você chegar muito perto - explica o recepcionista.

Olho feio para o animal, que devia estar pulando de uma palmeira para outra, comendo frutinhas frescas e procurando bananas. O recepcionista enfia no bolso da camisa umas notas de dinar e se aproxima do macaco, que logo agarra o dinheiro.

- Olha só como ele sabe roubar - diz o homem, rindo.

No salão de jantar encontro os meus sorridentes companheiros de viagem de ontem à noite, tomando o café-da-manhã à oriental: pão, tomate, azeitonas e ovos fritos com chá doce e forte.

- O Tigre! - exclamo, deliciada.

- Maravilhoso! - entoa Jorunn.

- Desde que você não beba a água dele - completa Bård.

Bård é engenheiro hidráulico e trabalha para uma organização assistencial eclesiástica da Noruega que está no Iraque para purificar as águas. Jorunn é coordenadora da mesma organização e está aqui para supervisionar o trabalho de Bård.

- Podemos conseguir água potável para centenas de milhares de pessoas - continua ele com uma xícara de chá quase invisível nas enormes mãos. - Só estamos esperando que a maquinaria chegue, grande parte dela está retida na fronteira - suspira.

- Uma Bíblia - interrompo, dirigindo-me a Jorunn -, você pode me emprestar uma Bíblia?

Jorunn olha para mim como se eu tivesse acabado de desvendar um crime cometido por ela; ao mesmo tempo, num misto de estranheza e pedido de desculpas, ela diz:

- Não, não posso. Não trouxe Bíblia nenhuma. Quem pensaria numa coisa dessas?

Mas sempre se pode citá-la, e fala-nos do Abrão que viveu aqui, na Mesopotâmia. "Iahweh disse a Abrão: 'Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção!'"*

Foi Bård quem me conseguiu o visto para entrar no Iraque. - O Ali cuida de tudo - respondeu, quando lhe telefonei a respeito do visto, mais ou menos um mês antes do Natal. O país estava praticamente fechado à imprensa, e outros correspondentes tinham ficado meses esperando. Nas embaixadas iraquianas do mundo inteiro, pedidos de jornalistas ansiosos por notícias se acumulavam. A maioria das solicitações acabou no lixo e poucos obtiveram o carimbo que abria as portas do reino de Saddam Hussein. No entanto, eu o consegui em tempo recorde por meio dos contatos de Bård no Crescente Vermelho, e de Ali, o secretário local da organização eclesiástica norueguesa para a qual Bård trabalhava. Assim, num dos dias mais frios de janeiro - justamente pouco depois do ano-novo - pegamos o avião para a Jordânia.

Na embaixada iraquiana em Amã prometi me registrar no Ministério da Informação de Bagdá logo que eu chegasse, mas isso aconteceu numa sexta-feira.

- Está tudo fechado - disse-me Ali. - Você pode ir amanhã.

Será o meu último dia em liberdade. Jorunn e eu queremos ver a cidade, enquanto Bård se dirige para o Clube Desportivo de Bagdá, que fica em frente ao Hotel Palestina e do qual já é sócio. Diz que o esporte alivia um pouco a frustração provocada pela turbulenta burocracia iraquiana. Jorunn e eu vamos ao mercado de livros nas sextas-feiras na companhia de Ali. Deixamos para trás a margem do Tigre para tomar parte do caos do trânsito. O carro ronca, pára e depois avança um pouco aos solavancos. Como os outros carros à nossa volta, o nosso também foi consertado de qualquer jeito. As sanções da ONU se fazem notar nos carros que constantemente param em plena rua por falta de peças de reposição, tendo de ser rebocados ou empurrados para fora da pista. Por vezes, entrevemos um capô preto brilhante dos carros da elite, de marca japonesa ou alemã; parecem monstros cobertos de petróleo entre os automóveis em estado lastimável. Eu nunca tinha visto uma coleção tão grande de carros norte-americanos em tão mau estado: Cadillacs enferrujados, Buicks amassados e Chevrolets sem brilho. Muitos deles chegaram ao Iraque como despojos da guerra do Kuwait; diz-se que não deixaram nem um só veículo nos bairros de classe alta do país quando o exército iraquiano se retirou e voltou para casa em fevereiro de 1991.

Bagdá, cenário de muitas das histórias das Mil e uma noites, faz lembrar, hoje em dia, qualquer outra metrópole do Oriente Médio com o seu bulício, a sua vida agitada e o seu ar viciado. Quando apareceram as histórias de Simbad, o marujo e Ali Babá e os quarenta ladrões, a cidade estava cercada por muros altos. O personagem histórico, várias vezes mencionado na obra como califa de todo o império islâmico, era Harun al-Rashid e no texto aparece freqüentemente disfarçado, perambulando pela cidade para se informar do que se passa. "Sentiu-se desassossegado, teve uma insônia, o seu peito estremeceu."


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio