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Jogo
Duro,
de
Ernesto Rodrigues (Record; 420 páginas; 56 reais)
Eleito presidente da Federação Internacional de Futebol
(Fifa) em 1974, o brasileiro João Havelange permaneceu no
cargo por 24 anos. Revolucionou a entidade, ampliando seu patrimônio
para a casa dos bilhões de dólares e incluindo países
da África e da Ásia nas Copas do Mundo. Sua trajetória,
porém, foi marcada pela controvérsia. Os modos autocráticos
de Havelange desagradaram a muita gente, e ele se envolveu em polêmicas
com figurões da bola, como Pelé e Maradona. O jornalista
Ernesto Rodrigues autor de Ayrton, o Herói Revelado,
biografia do piloto Ayrton Senna reconstitui a trajetória
de Havelange. É um livro essencial não só para
os fãs do futebol, mas também para quem deseja entender
melhor a política que envolve o esporte. O presidente da
Fifa, afinal, sempre esteve próximo dos poderosos. Rodrigues
conta, por exemplo, que Havelange intercedeu junto ao presidente
João Figueiredo sem sucesso para liberar verbas
para a construção da Linha Vermelha, no Rio de Janeiro.
Figueiredo não queria ajudar o governador Leonel Brizola,
seu inimigo político. Em tempo: Havelange, hoje com 91 anos,
teve acesso ao texto antes da publicação. Não
gostou de tudo o que leu. Mas esta é uma biografia que não
corre o risco de ser proibida judicialmente.
Leia
trecho
CAPÍTULO
1
Primeiras
travessias
Lições
de Faustin e Juliette
- Seu
pai não passa de amanhã. Ao ouvir o prognóstico
seco do médico sobre o estado de saúde do pai, na
porta do quarto que Faustin Joseph dividia com a mulher Juliette
na casa que tinham no bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro, na
tarde de 7 de novembro de 1934, Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange
teve um impulso violento. Com 18 anos, mais de 80 quilos, alto,
forte e acostumado às disputas viris do water polo, ele quis
bater no médico.
Conteve-se
porque não tinha mais dúvidas de que o estado do pai
era gravíssimo e, principalmente, porque sabia que o derrame
cerebral que Faustin sofrera aos 54 anos fora apenas conseqüência
do profundo abatimento físico e emocional que ele tivera
ao tentar fazer negócios com o Ministério da Guerra
do então presidente Getúlio Vargas. Setenta e um anos
depois daquela tarde no Cosme Velho, Havelange ainda tinha indignação
na voz e no olhar, ao lembrar a lição que marcou sua
vida:
"Aprendi
a nunca querer emprego ou negócio com o governo. Você
vira um infeliz quando se mete com o governo."
Dois
anos antes do derrame, em 1932, Faustin Joseph Godefroid Havelange,
representante no Brasil da Fábrica Nacional de Armas de Guerra
da Bélgica e da Sociedade Francesa de Munição,
fabricante de cartuchos, entrara em uma concorrência pública
aberta pelo governo Vargas para reequipar o Exército com
mosquetões. O principal concorrente de Faustin era a Skoda,
indústria controlada pelos alemães.
Aberta
a concorrência, o pai de Havelange venceu, mas, pouco tempo
depois, o processo foi anulado. Mais alguns meses e, já em
1933, ele venceu a segunda, que também acabou anulada. Aos
filhos, Faustin dizia, segundo Havelange, que as anulações
eram "políticas". Da terceira vitória anulada,
já em 1934, Faustin jamais se recuperaria.
A vida
do pai de João Havelange, até aqueles momentos finais,
tinha sido uma sucessão incomum de lugares e acasos decisivos.
Nas conversas de família que ficaram na memória de
Havelange, Faustin gostava de comemorar a sorte que teve em 1912,
quando decidiu encerrar dez anos de trabalho em Lima, como comerciante
e professor de engenharia da Universidade de São Marcos.
Na última ida ao Peru, antes de voltar à Bélgica
para se casar com a noiva, Juliette Ludivine Calmeau, filha de um
industrial de zinco e cobre de Liège, e tentar vida nova
no Brasil, Faustin comprou uma passagem para a viagem inaugural
do transatlântico Titanic. O plano era ir até Nova
York e lá pegar outro navio para Lima, mas ele perdeu o trem
em Liège e não teve como atravessar o Canal da Mancha
a tempo para o embarque, no porto de Southampton, na Inglaterra.
A viagem
perdida garantiu que o noivado de cinco meses de Faustin com Juliette
não terminasse em tragédia. Eles se casaram no dia
14 de janeiro de 1913, a Europa à beira da Primeira Guerra
Mundial. Faustin, antes de ir para o Peru, tinha conseguido várias
representações comerciais no Brasil. Além da
Fábrica Nacional de Armas de Guerra da Bélgica e da
Sociedade Francesa de Munição, ele venderia aço
da United Steel e da Bethlem Steel, além dos tradicionais
fios de lã produzidos em Vervier, na Bélgica, em Manchester,
na Inglaterra, e em Sidney, na Austrália. A idéia
era passar alguns anos e voltar para a Bélgica quando a situação
na Europa melhorasse.
Semanas
depois do casamento, Faustin e Juliette se hospedaram em uma pensão
de luxo situada na rua Pedro Américo, no Catete, para logo
depois se mudarem para a casa de número 51 da rua dos Ourives,
no centro do Rio de Janeiro, onde se concentravam os prin cipais
joalheiros do Rio do início do século XX. O endereço
ficava a poucos metros do local onde o segundo filho de Faustin
mandaria erguer, cinqüenta anos depois, o edifício-sede
da CBD, a Confederação Brasileira de Desportos.
Fluente
em francês, espanhol, inglês e alemão, Faustin
não demorou a dominar o português e a construir uma
sólida rede de amizades com a elite brasileira da época.
Um dos primeiros amigos e clientes foi Carlos Martins da Rocha,
o Carlito Rocha, industrial da área têxtil que se notabilizaria,
nas décadas seguintes, como dirigente do Botafogo. Contra
João Havelange. Outro cliente que se tornou amigo de Faustin,
neste caso também do filho João, dando-lhe o primeiro
emprego da vida, foi Jules Verelst, presidente da Companhia Siderúrgica
Belgo Mineira. Os mosquetões e a munição também
facilitariam o relacionamento de Faustin com os oficiais militares
brasileiros da época. Mas não o suficiente para garantir
o resultado daquelas licitações do governo Vargas.
Faustin
morreu no dia seguinte à visita do médico à
casa do Cosme Velho, confirmando o prognóstico. Pouco antes,
num dos três momentos em que recuperou a consciência,
fez ao filho João um pedido que seria cumprido com orgulho
e determinação menos de um ano depois, nas piscinas
de Berlim:
- Gostaria
que você fosse um atleta olímpico.
Beijos
e castigos
Acontecia
toda noite. João, ainda menino, 4 ou 5 anos de idade, já
estava deitado na cama quando a mãe se aproximava com uma
preocupação em forma de pergunta. A preocupação
de Juliette explica, segundo Havelange, a proverbial capacidade
que ele desenvolveu ao longo da vida de cumprimentar as pessoas
de forma sincera e fraterna, fosse um desconhecido na rua, o rei
da Espanha ou o primeiroministro de um país tribal esquecido
da África. A mãe ajeitava o lençol, fazia uma
carícia na fronte do filho e perguntava, em francês,
já sabendo que a resposta era afirmativa:
- Já
destes um beijo na empregada?
Aquele
quarto e a casa da rua Cosme Velho, construída num terreno
de 100 metros de frente que dava nas encostas do bairro de Santa
Teresa, na parte mais alta da cidade do Rio, foram o cenário
da infância de João Havelange. Ele nasceu no segundo
andar da primeira casa dos Havelange, na rua dos Ourives, no dia
8 de maio de 1916, onde, um ano antes, também nascera o irmão
mais velho Jules, ou Júlio, como seria chamado o resto da
vida.
A mudança
de endereço aconteceria depois de uma viagem do casal Havelange
à Bélgica, em 1918, para uma decisão final
sobre o plano de voltar para a Europa. A Primeira Guerra Mundial
estava terminando, mas Faustin preferiu continuar no Brasil. E em
20 de junho daquele ano, para comemorar o nascimento da filha Paule,
comprou para Juliette a casa do Cosme Velho. Mandou plantar um pomar
com todos os tipos de frutas na parte inclinada do terreno e construiu
um campo de futebol gramado e uma piscina na parte plana.
A partir
daquele momento, por causa dos negócios e do fervoroso catolicismo
de Faustin e Juliette, Havelange, ainda menino, conheceria, nos
cômodos daquela casa, as pessoas que mandavam no Brasil da
época. E até um futuro presidente da República.
Faustin era amigo do padre Jean Moureau, conhecido como Padre Chico,
que trabalhara na diocese de Montes Claros, norte de Minas Gerais.
Entre os fiéis amigos de Padre Chico na cidade e em Diamantina
estavam os pais e tios de Juscelino Kubitscheck e José Maria
Alckmin.
O padre
ajudava os dois nos estudos e, ao ser transferido para o Rio, providenciou
para que Juscelino e José Maria tivessem onde ficar quando
fossem à cidade, de férias. Havelange tinha 6 e JK
tinha 18 anos quando passaram férias, juntos, no Cosme Velho.
E ao contrário do que aconteceria em várias ocasiões,
trinta, quarenta anos depois, não tiveram muito assunto.
Paule,
irmã de Havelange, foi amiga íntima das irmãs
Luísa e Leda Collor. Nos finais de tarde, Luísa e
Leda costumavam sair do Colégio Sion, do outro lado da rua,
direto para um chá na casa dos Havelange. Quase trinta anos
depois, Fernando, um dos três filhos que Leda teria com o
político alagoano Arnon de Mello, se tornaria um sobrinho
afetivo de Paule. De João Havelange, o filho de Leda Collor
de Mello receberia, muitas décadas depois daqueles chás
no Cosme Velho, um conselho inútil e tardio, no gabinete
da presidência, no Palácio do Planalto.
Havelange
cumpriu todos os rituais de filho de um típico católico
praticante: fez catecismo, foi batizado, crismado, fez primeira
comunhão e, durante muitos anos, foi à missa aos domingos.
Mas cresceria cada vez mais distante dos bancos de igreja, freqüentando
protocolarmente, sem a menor dificuldade, mesquitas, sinagogas,
templos budistas e palácios dedicados ao culto de ditadores
comunistas:
"O
sujeito não precisa estar na missa todo dia para fazer o
bem. O radicalismo, tanto de um lado como de outro, chega quando
você se apaixona."
Muito
mais decisiva que a religião foi, na lembrança de
Havelange, a rigorosa disciplina que imperava, sempre no idioma
francês, na casa do Cosme Velho. Ele jamais esqueceria um
passeio a cavalo na fazenda da família durante o qual Faustin,
insatisfeito com o boletim do filho no Liceu Francês, não
apenas proibiu João de andar a cavalo como fez valer a punição
imediatamente, determinando que ele cumprisse a pé o longo
trajeto até a estação onde todos entrariam
num trem de volta para o Rio.
No
dia seguinte, depois de uma noite mal-dormida, incomodado com o
sofrimento que impusera ao filho, Faustin comentou com Juliette
a idéia de reduzir a punição, caso Havelange
mostrasse uma melhora nas notas do Liceu. Carinhos de mãe
à parte, a resposta de Juliette mostrou que o rigor era em
dose dupla:
-Se
foi castigado, tem que cumprir o castigo.
Paixão
secreta
A desobediência
mais secreta de João Havelange, pelo menos no início
da década de 1930, praticada quase diariamente, começava
quando ele pegava o bonde Águas Férreas, que ligava
as casas e chácaras do Cosme Velho ao centro da cidade. Havelange
saltava na portaria principal da sede do Fluminense e ia direto
para uma quadra de tênis que ficava próxima ao ginásio
do clube. Ali encontrava os amigos para uma atividade que o pai
não queria que ele praticasse nem de brincadeira.
Era
tão severa a proibição que um porteiro do clube,
amigo da turma, ficava de sobreaviso. Se Faustin chegasse, ele imediatamente
avisava um outro cúmplice, o roupeiro, encarregado de dar
o alerta na quadra. Havelange tinha então tempo suficiente
para correr até a arquibancada da piscina, onde fingia estar
esperando pelo pai.
Havelange
jogava futebol escondido.
Beque
esquerdo.
Na
adolescência, o pai não se importara. Havelange tinha
até sido campeão carioca juvenil pelo Fluminense,
em 1931. Mas o processo de profissionalização do futebol
no Brasil e o envolvimento do filho com a bola assustaram Faustin.
Mais de setenta anos depois, o filho
mostrou que era compreensivo:
"Ele
me fez ver que natação era melhor. Não queria
que eu me transformasse num profissional de esporte. Estudar era
mais importante."
Não
que Faustin não gostasse de futebol. Adorava. Além
de se envolver com o Fluminense, era sócio-fundador do Standard
de Liège, um clube de estudantes e operários belgas
que tinham em comum a admiração pelo Standard Paris,
um dos melhores times do mundo no final do século XIX, e
o eterno objetivo de vencer o FC Liège, a agremiação
mais aristocrática da Bélgica. Como qualquer pai da
época, no entanto, Faustin queria um futuro menos incerto
para o filho.
Ele
não viveria para ver como, mais de meio século depois,
o filho transformaria aquele esporte, efetivamente, num negócio
de futuro.
Além
do pai, Havelange, de certo modo, contrariou alguns biógrafos
que, muitos anos depois, o definiriam como um ser estranho ao futebol
e até ao esporte. Caso do jornalista João Máximo,
no livro João Saldanha: sobre nuvens de fantasia:
"Havelange,
homem de water polo, nunca entendeu muito de futebol. Se chegaria
um dia à presidência da Fifa era porque, cartola dos
cartolas, poderia alcançar a Lua com suas diplomacias e maquinações.
Era um homem político e não um esportista."
Victorio
Filellini, parceiro de Havelange em milhares de horas de raias de
piscina, partidas de water polo, travessias a nado do rio Tietê
e jogos de futebol amador pelo Clube Espéria, sempre achou
um absurdo alguém negar a João as características
de um esportista. Mario Amato, outro amigo daqueles tempos que se
tornaria um dos mais influentes e polêmicos líderes
da classe empresarial brasileira nos anos 1980 e 1990, foi outra
testemunha ao mesmo tempo do entusiasmo e das limitações
técnicas de Havelange, quando se tratava de futebol:
"Como
jogador de futebol, o João era apenas mediano, mas tinha
umas vantagens: era do water polo, sabia marcar e, acima de tudo,
era um atleta."
A questão
vocacional se tornou completamente irrelevante no dia 8 de novembro
de 1934. Faustin Joseph Godefroid Havelange morreu e, nas palavras
ditas pelo filho, setenta e um anos depois, "a receita desapareceu
de uma hora para outra".
Hora
de arrumar um emprego.
Justa
causa
Os
bens deixados por Faustin, na lembrança do filho João,
resumiam- se a algumas casas que ele comprara no bairro do Méier
para alugar. Mas havia outro patrimônio cujo valor ficou evidente
quando Juliette, diante das crescentes dificuldades financeiras,
aceitou a idéia de os filhos começarem a trabalhar:
as amizades que o marido cultivara na elite empresarial do Rio de
Janeiro. Uma dessas amizades, a que tornara Faustin padrinho de
casamento de Jules Verelst, presidente da poderosa Belgo Mineira,
garantiu uma vaga ao jovem Havelange nos escritórios da siderúrgica
localizados na Esplanada do Castelo, centro do Rio, em 1937.
Ainda
sem qualquer qualificação profissional, no meio do
curso de advocacia, Havelange começou ganhando 50 mil-réis
por semana. Passou pelo balcão de atendimento ao público,
arquivo de documentos, datilografia, correspondência comercial,
contato com clientes e setor de exportação e importação.
Chegou a passar seis meses nas cidades mineiras de Sabará
e Monlevade, onde se localizavam as jazidas da companhia. Queria
conhecer a chamada "corrida do aço", o processo
industrial de tratamento do minério e do aço. Conheceu.
Ambientou-se na empresa. Em 1939, quase três anos depois da
primeira batida de ponto, cansou. Pediu as contas.
Jules
Verelst não levou a sério. Deixou passarem os trinta
dias que Havelange lhe dera para encontrar um substituto. Acreditou
que o filho do amigo voltaria atrás na recusa à contraproposta
de ser promovido a secretário particular do próprio
Jules Verelst. Ao final do prazo, Havelange foi ao gabinete do chefe:
-Senhor
Jules, estou aqui para me despedir do senhor.
O presidente
da Belgo, na lembrança de Havelange, não acreditou.
E reagiu mal:
-Você
não vai sair. Vai ficar comigo.
- Não.
Nem que o senhor me dê uma pilha de dinheiro, eu fico.
-O
senhor é teimoso como o seu pai!
-O
senhor me perdoe ter que contestar, mas meu pai era um homem
inteligente e culto. Teimosia é sinal de burrice. O que meu
pai era é o que eu sou: determinado. Ele sabia o que queria
e eu também.
E foi-se.
Quase
sete décadas depois daquele diálogo, Havelange reconhe
ceu que Jules Verelst teve todas as razões para ficar irritado:
"Ele
era um senhor. A companhia era um poder e eu, um rapazote, falando
daquela maneira com o presidente da companhia."
Formado
em Direito e decidido a se mudar para São Paulo, seguindo
os passos do irmão Júlio, Havelange jamais voltaria
à condição clássica de empregado de
um único patrão, com hora para chegar e sair, cartão
de ponto, salário fixo, férias, plano de carreira
e aposentadoria. O que ele queria era algo que uma carteira de trabalho
nunca lhe daria.
Poder.
Berlim
"A
organização, a atenção ao detalhe, a
eficiência, tudo foi grandioso e perfeito. As Olimpíadas
de Berlim foram um dos maiores espetáculos que já
presenciei na vida. Viajamos em trens excepcionais, de primeira
classe e com desconto de 75% para quem era atleta. Todos pareciam
felizes. Foi inegavelmente um momento inesquecível e maravilhoso."
Este
foi, com pequenas variações de estilo, durante quase
setenta anos, o balanço feito por João Havelange sobre
o que ele viu e sentiu em Berlim como nadador da equipe brasileira.
O pesadelo totalitário do nazismo, o Holocausto, a destruição
de grande parte da Europa, a morte de milhões de pessoas
e outras conseqüências trágicas da invasão
da Polônia pelas tropas de Hitler em setembro de 1939, três
anos depois da festa do esporte olímpico na capital alemã,
nunca foram motivo para ele mudar uma linha da avaliação.
Muito
menos a cobrança posterior, feita por críticos e inimigos,
de uma indignação política que ele, grande
parte dos 4.066 atletas participantes e a maioria do povo alemão
não sentiram na época. Razões familiares até
surgiriam, durante a guerra, para uma repulsa aos nazistas, segundo
Havelange: Paul, primo de Juliette, seria executado por eles durante
a ocupação de uma fábrica da família,
na invasão da Bélgica.
Por
tudo o que disse ao longo da vida a respeito da experiência
em Berlim, Havelange não viu e nem estava à procura
do ovo da serpente nazista naquela Olimpíada. Em suas palavras,
"era esporte e ponto final". Em janeiro de 2005, em plena
vigência do comportamento politicamente correto, ao comentar
as críticas que insinuavam uma conexão entre seu cristalino
conservadorismo e uma suposta vista grossa para a ameaça
e os crimes nazistas, ele desabafou:
"Isso
é de um ridículo que não tem tamanho. Naquela
época, o jovem não fazia política. Eu me lembrarei
sempre que assisti a dois ou três concertos da Filarmônica
de Berlim dentro da Vila Olímpica. Isso toca a qualquer um
em qualquer regime. Eu era atleta, jovem, 20 anos e não tomava
conhecimento de política."
Havelange
não estava sozinho em seu deslumbramento. Uma jovem integrante
da delegação brasileira, a nadadora Maria Lenk, festejada
como símbolo da emancipação e do brilho da
mulher brasileira no esporte, registrou emoções semelhantes
sobre aqueles dias em Berlim, em seu livro Braçadas e abraços:
"A
massa concentrada no estádio permanecia numa compenetração
quase religiosa, que fazia sentir uma vibração de
misteriosa alegria."
Na
página 84 de outro livro, Sonho e conquista, editado com
a chancela do Comitê Olímpico Brasileiro, lê-se
o seguinte:
"Com
toda a pompa dos espetáculos dirigidos pelo governo de Hitler,
Berlim preparou-se com esmero. (...) Na cerimônia de abertura
dos X Jogos Olímpicos, pela primeira vez houve a tocha olímpica.
Dez mil integrantes da Juventude Nazista desfilaram para outros
110 mil alemães que se apinhavam na arquibancada do estádio,
na presença de Hitler, Rudolph Hess, Joseph Goebbels, Hermann
Goering e outros próceres do regime."
Política
à parte, havia uma bagunça em curso naquele mundo
aparentemente perfeito de Berlim.
Bagunça
brasileira.
Por
causa de uma disputa política entre a Confederação
Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro
(COB), o Brasil se dera ao luxo inútil de mandar duas delegações
à Olimpíada. Havelange era integrante da equipe enviada
pelo COB, que ao desembarcar em Hamburgo sob o comando do presidente
da entidade, Arnaldo Guinle, foi recebida oficialmente pelos organizadores
alemães. A delegação da CBD, presidida por
Luiz Aranha, irmão de Oswaldo Aranha, o ex-ministro da Justiça
e então embaixador do governo Vargas em Washington, chegou
e ficou na estação de trem da cidade, sentada nas
malas, esperando uma recepção que não houve.
Na
prática, com a continuação da briga dos dirigentes,
quando amanheceu em Berlim o dia 1º de agosto de 1936, abertura
oficial dos jogos, Havelange e todos os atletas das duas delegações
brasileiras estavam na cidade na condição de turistas.
Uma delegação precisava de documentos expedidos pela
outra para que o Comitê Olímpico Internacional (COI)
aceitasse a participação dos atletas brasileiros.
Na
última hora, ainda naquele 1º de agosto, com a intervenção
do embaixador brasileiro na Alemanha, Arnaldo Guinle e Luiz Aranha
anunciaram uma trégua que permitiu a inscrição
de uma equipe unificada. Havelange ainda era apenas um jovem nadador
de 20 anos, mas aprendeu muito em Berlim sobre o vespeiro político
em que se lançaria de corpo e alma alguns anos depois:
"Aquela
crise era, na verdade, o reflexo da divisão que havia no
futebol carioca: do lado do COB estavam o Fluminense, o Flamengo
e
o América.
Do lado da CBD, o Vasco da Gama e o Botafogo." Outra preciosa
lição de 1936 para Havelange: quando sobra disputa
política, costumam faltar estrutura e preparação
no esporte. No caso dos nadadores brasileiros, a decisão
dos dirigentes de embarcar
a delegação para a Alemanha no Presidente San Martin,
um navio sem piscina com um itinerário de escalas que o tornara
uma espécie de cata-jeca oceânico, foi fatal para qualquer
pretensão de grandes
resultados.
Maria
Lenk, uma das vítimas dos 21 dias sem piscina a bordo do
San Martin, lembra, em seu livro, que a tripulação
do navio teve até boa vontade e montou, no convés,
uma tentativa de piscina, com lona, água salgada e um grande
caixote de madeira. A idéia do técnico Carlos de Campos
Sobrinho de amarrar os nadadores para que eles exercitassem as braçadas
naquele tanque improvisado, sem sair do lugar, não foi satisfatória.
O navio balançava e a piscina entornava.
Na
piscina olímpica de Berlim, os registros oficiais do COI
mostram que Havelange, com o tempo de 5m31s5, conseguiu o quarto
lugar na segunda eliminatória da prova de 400 metros, nado
livre. Nos 1.500 metros, nado livre, ele também chegou à
segunda eliminatória e, com o tempo de 22m54s1, ficou em
quinto lugar.
Promessa
cumprida.
Daquela
Olimpíada Havelange guardou uma tristeza que foi sempre menos
lembrada que seus derramados elogios à festa dos alemães.
Foi quando soube que Adolf Hitler se recusara a cumprimentar o negro
americano Jesse Owens, ganhador de quatro medalhas de ouro nas provas
de atletismo:
"Fiquei
triste. Um atleta excepcional não ser recebido por ser um
'homem de cor' foi uma coisa que nos chocou. No Brasil, nós
não tínhamos isso."
O episódio
seria desmentido posteriormente pelos historiadores e pelo próprio
Owens. Na verdade, depois de saudar pessoalmente alguns medalhistas
alemães, Hitler foi advertido pelas autoridades olímpicas
de que teria de fazê-lo com todos os vencedores ou com nenhum.
O ditador preferiu não cumprimentar mais ninguém e
seu gesto acabou se tornando um emblema mundial do racismo.
Trinta
e oito anos depois daquele incidente, Havelange conquistaria a presidência
da Fifa com os votos decisivos dos homens de cor da África.
Surra
A idéia
era disputar os jogos olímpicos e, depois, aproveitar o desconto
de 75% que o governo de Berlim oferecera aos atletas que quisessem
passear de trem pela Alemanha, de primeira classe. Depois, mais
dez dias na Bélgica com a tia, Lambertine, irmã mais
nova de Juliette. O retorno ao Brasil seria mais rápido e
bem mais confortável do que a ida, no cargueiro Presidente
San Martin e seu caixote que virou piscina. Na volta da Bélgica,
Havelange pegaria um trem até Hamburgo e lá embarcaria
no luxuoso transatlântico alemão Cap Arcona, um dos
mais modernos da época. Em doze dias, metade do tempo do
San Martin, ele estaria no Rio.
Não
foi bem assim. Ao chegar a Hamburgo para o embarque, Havelange ficou
sabendo que o Cap Arcona partiria com uma semana de atraso. Num
primeiro momento, não pareceu má idéia ficar
na Europa mais uma semana, mas havia um problema. Ele fez as contas,
conferiu as economias que haviam sobrado e concluiu que corria sério
risco de passar fome.
Sem
amigos ou parentes por perto, Havelange hospedou-se num hotel barato.
Nos dois primeiros dias, adotou a tática de comer até
a última migalha do pão do café-da-manhã,
incluído na diária, e sair batendo perna pela cidade
até o mais tarde possível da noite, quando então
tomava um prato quente de sopa e desabava na cama, a fome vencida
pelo cansaço. Funcionou, em termos, até a fome começar
a empatar.
No
final do terceiro dia, ele passeava pelas ruas do bairro boêmio
de Saint Pauli e entrou num cabaré cuja atração,
no centro do salão, era um ringue de boxe no qual um mestre-de-cerimônias
promovia lutas a dinheiro entre os freqüentadores. Quem batesse
mais no final de três rounds levava 1.000 marcos. O perdedor,
metade. Havelange fez os cálculos e conferiu quanto precisava
para comer e dormir até o dia do embarque. Setenta anos depois
daquela noite, ele lembrou a nova conta que fez:
"Eu
não era boxeador e perderia a luta. Mas os 500 marcos do
perdedor teriam um valor imenso."
E se
apresentou para a luta. Do outro lado do ringue surgiu um marinheiro
alemão:
"Ele
era mais baixo do que eu, mas fortíssimo, vinte e poucos
anos, um braço e um antebraço imensos. Meus músculos
de nadador, perto dos dele, eram flácidos."
Ao
soar o gongo, Havelange fechou os punhos na altura do nariz, recuou
para o canto do ringue e, como previsto, apanhou, apanhou muito.
Sozinho, no córner, durante o intervalo, tomou outra decisão:
"Eu
decidi que tinha de ser nocauteado pra deixar de apanhar."
O segundo
round estava pela metade quando um cruzado do marinheiro alemão
pôs fim à pancadaria:
"Caí,
mas com o pensamento firme de que aquilo ia acabar."
Vaiadíssimo
pela platéia do cabaré, tradicionalmente não
muito seleta, Havelange se levantou, recebeu os 500 marcos e começou
a aproveitar a parte mais agradável daquele plano inusitado:
"Jantei
divinamente bem até a saída do Cap Arcona, quatro
dias depois."
Amigos
como o empresário e ex-deputado Fernando Carvalho, a quem
Havelange confidenciou esse desfecho nada olímpico da viagem
a Berlim, consideraram o episódio um exemplo de uma característica
que marcou toda a sua vida de dirigente.
Pragmatismo.
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