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A
Cada um o Seu,
de Leonardo Sciascia (tradução de Nilson Moulin; Objetiva/Alfaguara;
136 páginas; 26,90 reais) Um dos maiores escritores
italianos do século XX, Leonardo Sciascia (1921-1989) retratou,
sem piedade, a corrupção política de sua terra
natal, a Sicília. Foi um mestre sobretudo em romances policiais
que desvelam a violência cotidiana da ilha onde nasceu a Máfia.
A Cada um o Seu é uma de suas melhores realizações
no gênero. No início do livro, o farmacêutico
de um vilarejo pacato recebe uma carta anônima com uma ameaça
sucinta: "Você vai morrer pelo que fez". Ele não dá
muita atenção ao caso mas, no dia seguinte,
é assassinado junto com um amigo com quem saiu para caçar.
Leia
trecho
A carta
chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão,
como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda;
depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir,
a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo
branco com o endereço impresso.
- Não
gosto desta carta - disse o carteiro.
O farmacêutico
ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou:
- O
que foi? - incomodado e curioso.
- Estou
dizendo que não gosto desta carta. - No mármore do
balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico.
Sem
tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la;
levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de
novo.
- Por
que não gosta?
- Foi
postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o
endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia.
- É
- constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido
e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma
decisão.
- É
uma carta anônima - disse o carteiro.
- Uma
carta anônima - repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha
tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica,
caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não
bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava
o cabrito que ia pôr no forno para o jantar.
- Aqui,
a mania das cartas anônimas não acaba - disse o carteiro.
Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão:
aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele
a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções,
é claro), confi ando na cordialidade e ingenuidade do destinatário:
"Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer
nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí
ele me mostra." De qualquer jeito, não ia embora sem
saber. Tinha tempo.
- Uma
carta anônima para mim? - indagou o far macêutico, depois
de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado
na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor
no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava,
o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele
bom homem, de coração aberto; alguém que, na
farmácia, vendia fiado a todos e, no campo, nas terras que
recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade.
Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência
que envolvesse a senhora.
De
estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a,
desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta
escrita com palavras recortadas de um jornal.
O farmacêutico
bebeu de um só gole o cálice amargo. Duas linhas,
só.
- Escute,
escute - disse, aliviado, quase contente. O carteiro pensou: "Nada
de chifres." Perguntou:
- E
aí, é uma ameaça?
- Uma
ameaça - confirmou o farmacêutico. Passou-lhe a carta.
O carteiro
pegou-a rapidamente e leu em voz alta:
- "Esta
carta é sua sentença de morte, você vai morrer
pelo que fez." - Tornou a fechá-la e colocou-a no balcão.
- É uma brincadeira - disse, e acreditava mesmo nisso.
- Acha
que é brincadeira, então? - perguntou o farmacêutico,
com uma ponta de ansiedade.
- E
o que mais pode ser? Uma brincadeira. Há gente que procura
sarna para se coçar e começa a fazer coisas como esta.
Não é a primeira vez. Até por telefon e fazem
isso.
- É
- disse o farmacêutico -, já me aconteceu. Toca o telefone,
de noite, vou atender e é uma mulher perguntando se perdi
um cachorro, pois ela havia encontrado um azul-celeste e rosa, e
alguém lhe disse que era meu. Trotes. Mas agora é
uma ameaça de morte.
- É
a mesma coisa - afi rmou o carteiro, convicto. Pegou a bolsa e foi
saindo. - Não fi que pensando nisso - disse, se despedindo.
- Não
estou pensando - disse o farmacêutico, e o carteiro foi embora.
Mas pensava. Como brincadeira, era bem pesada. Se é que era
mesmo brincadeira... E o que mais podia ser? Nunca tinha tido problemas,
não fazia política, sequer discutia política;
e seu voto era de fato secreto, socialista nas majoritárias,
por tradição familiar e lembrança da juventude;
democrata-cristão nas eleições municipais,
por amor à cidade, que, quando era governada pelos democrata-cristãos,
ele conseguia arrancar alguma coisa do governo e escapar daquele
imposto sobre rendas familiares com que ameaçavam os partidos
de esquerda. Jamais se metia em discussões; assim, os de
direita o consideravam como um homem de direita, e os de esquerda,
um homem de esquerda. Além do mais, meter-se em política
era perder tempo; e quem não percebia isso, era porque levava
alguma vantagem ou era cego de nascença. Enfi m, vivia tranqüilo.
E talvez fosse esse o motivo da carta anônima; para quem vivia
no ócio e na malandragem, dava vontade de perturbar, de assustar
um homem tão tranqüilo. Ou, quem sabe, fosse preciso
buscar um outro motivo em sua única paixão, a caça.
Os caçadores, é notório, são inve josos;
basta que você tenha um bom batedor, um bom cachor ro, e todos
os caçadores do lugar te odeiam, incluindo os amigos, os
que vão caçar com você, aqueles que, toda noite,
participam das conversas na farmácia. Casos de cães
de caça envenenados, na cidade, viam-se mui tos; os melhores,
se à noite os donos se aventurassem a deixá-los meio
soltos na pracinha, corriam o risco de encontrá-los retorcidos,
vítimas da estricnina. E vai lá saber se alguém
não ligava a estricnina à farmácia. Injustamente,
é claro, injustamente, porque, para o farmacêutico
Manno, um cachorro era sagrado como um deus, em especial aqueles
que se destacavam na caçada, fossem seus ou dos amigos. Por
outro lado, os seus estavam livres do veneno. Tinha onze, na maioria
de raça cirenaica, bem-nutridos, tratados como cristãos,
com o jardim da casa para as necessidades e para as brincadeiras.
Era um prazer vê-los e ouvi-los. Os latidos, que às
vezes eram motivo de reclamações dos vizinhos, soavam
como música para os ouvidos do farmacêutico, e ele
distinguia a voz e o estado de espírito de cada um: de alegria,
de mau humor ou de doença.
Claro,
não podia existir outro motivo. Uma brincadeira, portanto,
mas até certo ponto: alguém queria amedrontá-lo,
por isso na quarta-feira, que era seu dia de folga, não iria
caçar.
Modéstia
à parte, entre as virtudes de seus cães e a infalibilidade
de sua pontaria, toda quarta-feira era um massacre de coelhos e
lebres, e disso era testemunha o doutor Roscio, seu companheiro
habitual; também ele bom atirador, também ele com
um par de bons cães, em suma... A carta anônima acabava
espicaçando sua vaidade, tornava-se um atestado de sua fama
de caçador. De fato, a temporada de caça ia começar;
e queriam que ele faltasse à grande festa do dia da abertura,
que, caindo ou não numa quarta-feira, o farmacêutico
vivia como o dia mais esplendoroso do ano.
Decerto
fantasiando sobre isso, a fi nalidade da carta e a identidade do
autor, o farmacêutico levou para fora a cadeira de vime e
sentou-se na faixa de sombra que agora caía das casas. Tinha
na sua frente a estátua de bronze de Mercuzio Spanò,
mestre do direito, várias vezes subsecretário dos
correios, cuja sombra, na luz crua do poente, alongava-se cheia
de meditações sobre as cartas anônimas, em sua
dupla roupagem de mestre do direito e subsecretário dos correios.
Assim, de leve, o farmacêutico olhou para ele, mas um pensamento
bem superfi cial logo se abateu sobre a amargura de quem, injustamente
atingido, descobre, no confronto com a maldade alheia, a própria
humanidade e se condena e lamenta por ser despreparado para a maldade.
Quando
a sombra de Mercuzio Spanò já tocava a parede do castelo
dos Chiaramonte, do outro lado da pracinha, o farmacêutico
estava tão absorto em seus pensamentos que dom Luigi Corvaia
pensou que estivesse dormindo. Gritou-lhe:
- Acorda
- e o farmacêutico tomou um susto, sorriu, e levantou-se para
pegar uma cadeira para dom Luigi.
- Que
dia - suspirou dom Luigi, desabando na cadeira.
- O
termômetro chegou a 44 - disse o farmacêutico.
- Mas
agora está refrescando, e vai ver que de noite vamos precisar
de cobertor.
- Nem
o tempo dá para entender mais - disse o farmacêutico,
amargo. E decidiu dar logo a notícia a dom Luigi, como pensava
em fazer com todo amigo que chegasse. - Recebi uma carta anônima
- disse.
- Uma
carta anônima?
- Ameaçadora.
- E se levantou para ir buscá-la. A reação
de dom Luigi, ao ler aquelas duas horríveis linhas, foi primeiro
um "Meu Deus" e logo "É uma brincadeira".
O farmacêutico concordou que era brincadei ra; uma brincadeira,
sim, mas talvez com um objetivo preciso.
- Que
objetivo?
- Manter-me
longe da caça.
- Sim,
pode ser; vocês, caçadores, são capazes de tudo
- disse dom Luigi, que reprovava as despesas e canseiras irracionais
da caça, embora apreciasse as perdizes cozidas e o coelho
com molho agridoce.
- Nem
todos - sublinhou o farmacêutico.
- Claro,
claro, toda regra tem sua exceção. Mas você
sabe do que alguns são capazes, uma bola de carne com estricnina
para o cachorro, um tiro no cachorro do amigo, em vez do coelho
que o cão vinha perseguindo... Aqueles safados, que mal um
cachorro faz a eles? Bom ou mau, o cachorro faz sua parte. Se tiverem
coragem, que desafiem o dono do bicho.
- Não
é a mesma coisa - disse o farmacêutico, que já
exibira uns rompantes de inveja em relação aos cães
alheios em algumas ocasiões, porém, que fi que claro,
nunca a ponto de querer a morte deles.
- Para
mim é a mesma coisa: alguém que é capaz de
matar um cachorro a sangue-frio será capaz de matar um cristão
como se rezasse um pai-nosso. - Mas acrescentou:- Talvez por eu
não ser um caçador.
Eles
discutiram a psicologia dos caçadores quase a noite inteira,
porque, quando chegava alguém, recomeçavam a conversa
sobre a carta anônima que descambava para o ciú me
obscuro, a inveja e coisas piores, daqueles que praticavam o nobre
desporto da caça. Excluindo os presentes, naturalmente, se
bem que dom Luigi Corvaia alimentasse suspeitas também dos
presentes, pelo envenenamento de cachorros e também pela
carta anônima. De fato, analisava os rostos, com seus olhinhos
estreitos entre as pálpebras rugosas. O doutor Roscio, o
tabelião Pecorilla, o advogado Rosello, o professor Laurana,
o próprio farmacêutico (que podia ser não apenas
o envenenador, mas também o autor da carta, para se promover
a caçador temível); em suma, dom Luigi atribuía
a cada um tanta maldade quanto sua mente educada para a desconfi
ança, a suspeita e a malícia era capaz de destilar
secretamente.
De
qualquer forma, todos concordaram que a carta devia ser vista como
brincadeira; maldosa de todo modo, e por isso se tendia a afastar
o farmacêutico do solene dia da abertura. E quando, como toda
noite, passou o subofi cial dos carabinieri, o farmacêutico
estava plenamente disposto a entrar na brincadeira; assim, fi ngindose
dominado pelo abatimento e pelo medo, dirigiu-lhe a queixa de que,
na cidade por ele policiada, uma pessoa honesta, um bom cidadão,
um bom pai de família, via-se ameaçado de morte como
se nada fosse.
- Mas
o que aconteceu? - perguntou o suboficial, esperando, risonho, alguma
revelação brincalhona. Mas ficou sério quando
lhe mostraram a carta. Podia ser uma brincadeira, era quase certo
que assim fosse, mas o crime existia, uma denúncia precisava
ser feita.
- Que
denúncia que nada! - exclamou o farmacêutico, eufórico.
- Como
não, a denúncia tem de ser apresentada, é a
lei. Talvez eu possa evitar-lhe o incômodo de ir à
delegacia, podemos escrevê-la aqui mesmo. Mas tem de ser feita.
Aliás, é coisa de um minuto.
Entraram
na farmácia, o farmacêutico acendeu a luz e começou
a escrever conforme ia ditando o suboficial.
E ele
ditava segurando a carta aberta sobre a qual caía, oblíqua,
a luz da lâmpada. O professor Laurana, que estava curioso
quanto ao ritual e à linguagem da denúncia, viu aparecer
claramente do verso da folha UNICUIQUE e, depois, em letras menores,
confusamente, ordine naturale, menti obversantur, tempo, sede. Aproximou-se
para decifrar melhor e leu em voz alta "humano", e o suboficial,
zangado e defendendo o que já constituía um segredo
de trabalho, disse:
- Por
favor, não vê que estou ditando?
- Estava
lendo o que está escrito no verso - desculpou-se o professor.
O policial baixou a mão, dobrou a carta.
- Talvez
seja melhor o senhor ler também - disse o professor, meio
incomodado.
- Faremos
o que tem de ser feito, não tenha dúvida - disse o
subofi cial em tom tranqüilizador. E retomou o ditado.
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