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O Último Leitor, de David Toscana (tradução de Ana Lúcia Pelegrino e Magali Pedro; Casa da Palavra, 160 páginas; 29 reais) – Lucio, o bibliotecário da pequena Icamole, no México, é o único habitante do lugarejo a apreciar os livros que conserva, pois ninguém mais na cidade se interessa por literatura. Ele até se dá ao luxo de criar uma classificação muito pessoal para o acervo, dividindo-o em duas categorias: livros bons e ruins. Seu filho, Remigio, encontra uma menina morta no poço de seu quintal. Temeroso de ser acusado pela morte, ele pede ajuda ao pai para ocultar o cadáver. Com essa história insólita, o mexicano David Toscana – um dos nomes mais aclamados da nova geração de escritores latino-americanos – reflete sobre as relações entre a literatura e a morte.

Leia trecho

E então as formigas vermelhas e as baratas começaram a proliferar-se com especial ferocidade. […] Lucio respeita as formigas pela sua vontade de criar seus próprios palácios; em compensação, detesta o oportunismo das baratas, que tomam de assalto qualquer tubulação, caverna, buraco, canal ou amontoado de livros. Mas esse mesmo desprezo o motiva a criá-las e alimentá-las no quarto ao lado, onde joga os livros censurados, pois considera que esse deve ser seu indigno fim. O fogo não lhe parece uma punição adequada; isso dá a um livro oco a utilidade de produzir calor, a notoriedade de se transformar em luz. O inferno deve ser alguma coisa que consuma lentamente, entre urina e goelas que pulverizem com tenacidade capas, orelhas, fotografias de autores e autoras, com a pose de intelectual de uns e o desejo de beleza de outras. Os bichos terão de regurgitar prêmios, conquistas e, sobretudo, elogios falsos, uma das maiores obras, mostra da enorme qualidade literária, um lugar privilegiado nas letras, pode ingressar no templo dos grandes escritores, sua obra ocupa um lugar de destaque e tantas outras tentativas de empurrar livros sem motor próprio. Imagina com prazer uma barata pondo seus ovinhos cor de café sobre aquela obscura frase de Soledad Artigas em que ela declara que Margarita se sentiu como um cometa que, para além do firmamento, procura pousar no planeta que a acolha como uma amorosa mulher estéril; ou deixando cair seu minúsculo esterco sobre personagens como Raúl Sarabia, que, em vez de morrer com dignidade, como Josep Trovich ou Basualdo Fornes, falece dando lições de história e filosofia e falso amor pelo México, e desejava que esse romance se fechasse abruptamente, desembuchando a incauta barata, fazendo com que ela evacuasse sua linfa amarelenta sobre qualquer um dos diálogos tão perfeitamente elaborados como, se o senhor me permite, doutor Sarabia, devo dizer-lhe, entretanto, que, a despeito do seu peculiar interesse pela senhorita Carrington, o senhor tem, como dever primeiro, a pátria, assim sendo, o senhor deve compreender, e sem dúvida há de convir que... e, assim, a morte do inseto esmagado pareceria uma obra de arte entre tanto vocábulo insosso […].

Lucio tem hoje outro livro para o inferno, outra mostra de formidável glosa espanhola, A verdade sobre os amantes, de Ricardo Andrade-Berenguer, literato, crítico, jornalista, musicólogo e cineasta que considera mais importante o modo como o seu protagonista aproxima o cigarro do cinzeiro, as espirais de fumaça e o jazz ao fundo, que revelar de fato alguma verdade sobre os amantes. Aproxima-se da porta e abre a cortininha. Ouve as bocas dos insetos mordendo o papel.


 
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