O
Faz-Tudo, de Bernard Malamud (tradução de Maria Alice Máximo;
Record; 400 páginas; 45,90 reais) Embora não tão conhecido
quanto Philip Roth ou Saul Bellow, o contista e romancista Bernard Malamud (1914-1986)
é uma das grandes vozes judaicas da literatura americana. Publicado em
1966 e reconhecido com os prêmios Pulitzer e National Book Award, O Faz-Tudo
narra a história de Iákov Bok, um judeu que ganha a vida fazendo
serviços gerais em Kiev, na Ucrânia, em 1911. Ele acaba sendo injustamente
acusado do assassinato de um menino de 12 anos uma acusação
que remetia a fantasiosas histórias de rituais judaicos nos quais se empregava
sangue de crianças cristãs. Inspirado em eventos reais, o romance
é um poderoso retrato do anti-semitismo europeu no início do século
XX.
Leia
trecho Parte
Um Pela
pequena janela envidraçada de seu quarto acima do es-tábulo da fábrica
de tijolos, Iákov Bok viu as pessoas, em seus longos casacos de frio, a
correr numa mesma direção naquele início de manhã.
Vey iz mir, pensou ele preocupado, alguma coisa ruim aconteceu. Sob a neve da
primavera que caía, os russos, vindos das ruas próximas ao cemitério,
apressavam-se, sozinhos ou em grupos, em direção às grutas
da ravina. Alguns corriam pelo meio da rua de paralelepípedos onde a neve
já meio derretida formava, aqui e ali, poças de lama. Iákov
escondeu apressadamente a pequena lata onde guardava seus rublos de prata e desceu
correndo para o pátio da fábrica a fim de descobrir o motivo de
toda aquela excitação. Perguntou a Prochko, que caminhava vagarosamente
perto dos tijolos recém-assados e ainda fumegantes, mas o capataz apenas
deu uma cusparada e nada respondeu. Já fora do pátio, uma camponesa
enrolada em um xale preto, com um rosto ossudo e roupas pesadas, disse-lhe que
o cadáver de uma criança havia sido encontrado perto dali. "Onde?",
quis saber Iákov. "Que idade tinha?", mas ela disse que não
sabia e afastou-se apressada. No dia seguinte o Kievlianin publicou uma
reportagem sobre o assassinato de um menino russo de doze anos, Jênia Gólov,
cujo cadáver foi encontrado em uma caverna úmida na ravina, a menos
de uma versta e meia da fábrica de tijolos. Dois meninos, Zazimir Selivanov
e Ivan Shestinski, ambos de quinze anos, o haviam encontrado. Jênia, morto
havia mais de uma semana, tinha o corpo todo perfurado a facadas e sangrara até
morrer. Depois do enterro no cemitério próximo à fabrica
de tijolos, Richter, um dos cocheiros, chegou com um punhado de panfletos que
acusavam os judeus do assassinato. Haviam sido impressos, Iákov viu ao
examinar um dos panfletos, por uma instituição que se chamava Centúrias
Negras. Seu emblema, a águia imperial de duas cabeças, estava impresso
na parte da frente e, abaixo dele: SALVEMOS A RÚSSIA DOS JUDEUS. Em seu
quarto naquela noite, Iákov leu, perplexo, que o menino havia sido sangrado
até morrer por motivos religiosos, para que os judeus pudessem coletar
seu sangue e levá-lo para a sinagoga, onde entraria na confecção
de matzos para a celebração da Páscoa judaica. Embora aquela
história fosse ridícula, ele ficou amedrontado. Levantou-se, sentou-se,
tornou a levantar-se. Foi até a janela e voltou apressadamente para continuar
a ler o jornal. Estava preocupado porque a fábrica de tijolos onde trabalhava
ficava em Lukianovski, um dos distritos nos quais os judeus eram proibidos de
morar. Ele já morava ali havia vários meses usando um nome falso
e sem certificado de residência. O pogrom de que o jornal falava o deixava
amedrontado. O pai de Iákov havia sido morto em um incidente menos de um
ano depois do seu nascimento — algo que não chegara a ser um pogrom e uma
morte absolutamente inútil: dois soldados bêbados decidiram atirar
nos três primeiros judeus que encontrassem pelo caminho, e seu pai foi o
segundo. Mas o filho havia vivido a experiência de um pogrom quando menino,
um ataque de surpresa feito pelos cossacos que durou três dias. Na manhã
do terceiro dia, quando as casas ainda fumegavam, ele foi levado, com meia dúzia
de crianças, para fora do porão onde estiveram escondidos. Foi então
que o menino Iákov viu um judeu de barbas negras com um salsichão
branco enfiado na boca, atirado sobre um monte de penas ensangüentadas. Um
porco devorava seu braço. 2 Cinco
meses antes, em uma agradável sexta-feira do início de novembro,
antes que os primeiros flocos de neve caíssem sobre o shtetl, o sogro de
Iákov, um homem tenso e extremamente magro com roupas muito puídas,
que parecia feito de gravetos e de brisa, chegara com sua carroça desconjuntada
puxada por um cavalo esquelético. Os dois se sentaram na casa fria de paredes
finas — que se degradara desde que Raisl, a esposa infiel, fugira dois meses antes
— e, juntos, tomaram a última xícara de chá que ainda restava.
Shmuel, que já passava havia muito dos sessenta, tinha uma barba branca
desgrenhada, olhos lacrimejantes e sulcos profundos na testa, tirou do fundo do
bolso de seu cafetã meio torrão de açúcar amarelado
e ofereceu-o a Iákov, que o recusou balançando a cabeça.
O mascate — único dote que a filha levara consigo no casamento, que nada
tinha a oferecer e por isso oferecia seus préstimos quando possível
— sugou seu chá através do torrão de açúcar.
O genro tomou o seu sem adoçar. O sabor era amargo e ele culpou a vida.
De tempos em tempos o velho fazia comentários sobre a vida sem acusar pessoa
alguma, ou fazia perguntas inofensivas, porém Iákov permanecia em
silêncio ou dava respostas monossilábicas. Depois
de beber lentamente metade de seu chá, Shmuel deu um suspiro e disse: —
Ninguém precisa ser profeta para saber que você está me culpando
pelo que minha filha Raisl fez. — Sua voz era triste. No alto da cabeça
ele usava um solidéu duro que havia encontrado em uma lata de lixo em uma
cidade próxima. Quando ele suava, o solidéu lhe grudava à
cabeça, mas, como era um homem religioso, usava-o mesmo assim. Usava também
um cafetã remendado de cujas mangas saíam suas mãos descarnadas.
Os sapatos — ele usava botas — eram grandes demais para os pés. — Quem
falou alguma coisa? É você mesmo que está se culpando por
ter criado uma prostituta. Shmuel,
sem dizer uma só palavra, puxou do bolso um lenço azul e pôs-se
a chorar baixinho. — Mas
por que, não me leve a mal, você parou de se deitar com ela há
vários meses? É assim que se trata uma esposa? — Foram
algumas semanas, mas por quanto tempo um homem tem que se deitar com uma mulher
que não lhe dá filhos? Eu me cansei de tentar. — Por
que você não foi falar com o rabino, como eu pedi? — Melhor
que ele não se meta na minha vida e eu não me meta na dele. Ele
não passa de um ignorante. — A
caridade é uma virtude que sempre fez falta a você — disse-lhe o
mascate. Iákov
pôs-se de pé, enraivecido. — Não me venha falar de caridade.
O que foi que me deram a vida toda? E o que é que eu tenho para dar a alguém?
Eu já nasci praticamente órfão — minha mãe morreu
dez minutos depois e você sabe o que aconteceu com meu pobre pai. Se alguém
disse o Kadish por eles fui eu mesmo, mas só alguns anos depois. Se estavam
esperando junto aos portões do paraíso, foi uma espera longa e fria
do lado de fora, se é que não continuam esperando. Toda a minha
infância miserável foi vivida em orfanatos fedorentos onde mal sobrevivi.
Nos meus sonhos eu comia e aí eu devorava meus sonhos. Da Torá pouco
me ensinaram e do Talmude, menos ainda. O hebraico eu aprendi porque tenho bom
ouvido para línguas. Os salmos, pelo menos, eu aprendi. Lá me ensinaram
uma profissão e no dia mesmo em que completei dez anos passei a ser aprendiz.
Disso eu não me queixo. De lá pra cá eu trabalho — vamos
chamar isso de trabalho — com minhas mãos e as pessoas dizem que sou um
homem "comum", mas a verdade é que poucos sabem o que é
ser realmente comum. Essa gente que parece ter classe, basta olhar bem para elas.
Viskover, o Nogid, para mim é um homem comum. Só o que ele tem são
rublos e, quando abre a boca para falar, pode-se ouvi-los tilintar. Eu estudei
vários assuntos por conta própria, e antes mesmo que me levassem
para o exército já tinha aprendido, sozinho, um pouco de história
e geografia, um pouco de ciência, aritmética e um livro ou dois de
Spinoza. Não é muito, mas é melhor que nada. — A
maior parte disso é treyf mas eu reconheço seu esforço e...
— foi interrompido. — Ainda
não terminei. Sempre tive que suar sangue para ganhar a vida. O que é
que se pode fazer sem dinheiro? O que é possível fazer eu faço,
mas não é grande coisa. Conserto qualquer coisa quebrada — menos
coração partido. Neste shtetl está tudo caindo aos pedaços
— mas quem se importa com as goteiras do teto? Se elas fizerem um buraco, vai
dar para espiar Deus. E quem pode pagar pelo conserto, supondo-se que alguém
quisesse, o que não é o caso? Além do mais, quando alguém
quer um conserto, o mais provável é que não me pague. Se
eu tiver sorte, ganho um prato de macarrão e olhe lá! As possibilidades
de se ganhar alguma coisa aqui já nascem mortas. Hoje estou mesmo de mau
humor. — Isso
de falta de oportunidades na vida eu sei o que é... — Eles
me recrutaram para a guerra contra o Japão, mas antes mesmo que eu entrasse,
ela acabou. Graças a Deus. Quando adoeci, deram-me um chute na bunda. Um
judeu asmático não tem serventia para o exército russo. Graças
a Deus. Quando voltei, comecei a suar sangue de novo para conseguir alguma coisa
na vida. Foi quando conheci sua filha, que não conseguiu engravidar em
cinco anos e meio e não me deu um filho. Como é que eu posso olhar
os outros nos olhos? E agora, ainda por cima, fugiu com um estranho qualquer que
conheceu na taberna — um gói, com toda certeza. Então basta — quem
agüenta aturar mais? Não quero ninguém com pena de mim ou perguntando
o que foi que eu fiz para ser amaldiçoado assim. Eu não fiz nada.
Ganhei tudo isso de mão beijada. Não contribuí para nada
disso. Fui órfão a vida inteira. Só o que possuo depois de
trinta anos neste cemitério que é minha vida são dezesseis
rublos que consegui vendendo tudo que tinha. Então, por favor, não
me venha falar em caridade, porque eu não tenho caridade para dar. — Caridade
se pode dar mesmo quando não se recebe. Não estou falando de dinheiro.
Estou falando de caridade com a minha filha. — Sua
filha não merece caridade alguma. — Ela
foi de um rabino a outro, aflita, em todas as cidades onde a levei, mas nenhum
deles pôde garantir que ela teria um filho. Foi, aflita, a médicos
também, quando conseguia algum rublo, mas eles lhe diziam a mesma coisa.
Com os rabinos não gastou tanto. E então ela fugiu — que Deus a
proteja. Até mesmo uma pecadora pertence a Ele. Ela pecou, mas estava desesperada. — Espero
que continue fugindo para sempre. — Ela
foi uma esposa fiel por vários anos. Compartilhou com você todos
os seus infortúnios. — Dos
infortúnios que ela causou, recebeu a parte dela também. Ela foi
uma esposa fiel até o último minuto, ou o último mês,
ou o penúltimo, mas isso não significa que ela não tenha
se tornado infiel. O que eu desejo para ela é a cólera negra! — Que
Deus não o ouça! — exclamou Shmuel pondo-se de pé. — Que
a cólera seja para você! Com
o olhar agitado, ele amaldiçoou o outro e saiu apressadamente. Iákov
havia vendido tudo exceto a roupa do corpo, que vestia à moda dos camponeses
— camisa bordada usada para fora da calça e ajustada por um cinto, e botas
em cujos canos altos enfiava as pernas da calça. O casaco remendado de
camponês feito de pele de ovelha marrom em certas ocasiões exalava
mesmo um cheiro de ovelha. Suas ferramentas também foram mantidas, bem
como uns poucos livros: Gramática russa, de Smirnovski, um livro
de biologia elementar, Seleções de Spinoza e um atlas caindo
aos pedaços, de pelo menos vinte e cinco anos de existência. Os livros
foram amarrados com um pedaço de barbante, formando um pequeno volume.
As ferramentas estavam em um saco de farinha de cuja boca amarrada saía
a ponta de um facão. Havia também um pouco de comida embrulhada
em um cone de jornal. Iákov deixava para trás seus móveis,
quase que imprestáveis — um catador de lixo havia cobrado para levá-los
— e dois conjuntos de louça rachada, que tampouco encontrariam comprador.
Shmuel podia fazer com aqueles pertences o que bem entendesse — usá-los,
acabar de quebrá-los ou fazer uma fogueira com eles —, vendê-los
seria impossível. Raisl fizera questão de dois conjuntos de louça
por causa do pai, pois ela mesma não se importava com aquelas coisas. Mas
em troca do cavalo e da carroça o mascate receberia uma vaca bem razoável.
Poderia assumir o pequeno comércio de venda de leite da filha. Não
ganharia menos com ele do que com seu negócio de mascate. Ele era a única
pessoa que Iákov conhecia que era capaz de vender o que não tinha.
Vendia em quantidades ínfimas e recebia copeques de verdade. Às
vezes recebia dos camponeses cerda de porco, lã, grãos, beterrabas,
e lhes vendia peixe seco, sabão, lenços e balas em quantidades muito
pequenas. Era esse seu talento e com ele sobrevivia miraculosamente. "Aquele
que nos deu dentes, nos dará pão." Mas seu hálito não
cheirava a pão nem a comida alguma. |