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Coma,
de Alex Garland (tradução de Léa Viveiros de
Castro; Rocco; 160 páginas; 24 reais) O escritor inglês
Alex Garland ganhou fama com o romance A Praia, que originou
um filme com Leonardo DiCaprio. Coma narra uma história
muito diferente da aventura tropicaliente de A Praia. O protagonista
é Carl, um escritor que, na tentativa de defender uma mulher
de um assalto no metrô, acaba sendo espancado por uma gangue
juvenil. Ele pensa ter voltado para casa depois de uma temporada
no hospital, mas descobre que toda a sua realidade é um sonho
o livro narra o esforço de Carl para despertar de
seu coma. Essa história onírica é ilustrada
com os sombrios desenhos do cartunista político Nicholas
Garland, pai do escritor.
Leia
trechos
"Até
o telefone tocar, o único som em meu escritório era
o arranhar de minha pena enquanto eu fazia anotações,
correções e consertos.
Eu
apertei o botão do interfone.
_
Carl falando.
_
Carl.
_
Catherine! Era para eu ter mandado você para casa há
horas...
Ela
me interrompeu. _Eu estou em casa. Cheguei em casa, saí para
ver um filme, comi uma pizza e assisti ao final do Jornal da Noite.
O
relógio da minha escrivaninha marcava 11:42. Girei minha
cadeira. A janela do meu escritório ia do chão até
o teto. Através dela, eu podia ver o brilho da cidade e o
céu noturno. Nenhuma estrela - uma camada baixa de nuvens
deixava o céu com um clarão quase vermelho.
Catherine
continuou. _ Estou ligando porque o último trem parte dentro
de vinte e cinco minutos.
Na
estação de metrô, continuei a ler meus papéis.
Fiz anotações nas margens, e a caneta escorregou enquanto
os papéis entortavam sob a pressão da ponta da caneta.
Vindo de algum lugar, um som de gargalhadas ecoou pelas paredes
e corredores de ladrilhos. Ergui os olhos enquanto o som desaparecia,
mas eu era a única pessoa na plataforma. Mesmo assim, o barulho
me enervou um pouco. Era sem alegria e predatório.
Guardei
meus papéis - as folhas soltas em minhas mãos me faziam
sentir vulnerável. Enquanto fechava a pasta, o fecho gasto
de metal, senti o ar sendo sugado pelo trem que se aproximava.
O
único passageiro além de mim no vagão era uma
moça de vinte e poucos anos, sentada na extremidade oposta,
lendo um livro.
Pouco
antes das portas se fecharem, eu tornei a ouvir a risada. O som
foi mais próximo e mais nítido do que da primeira
vez, mas a plataforma ainda estava vazia - o que pude avistar dela,
olhando para os dois lados por cima do ombro, virando a cabeça
para trás na direção do vidro para aumentar
o meu ângulo de visão. Então as portas se fecharam
e o trem deu uma sacudidela. Eu olhei para a moça. Ela ainda
estava mergulhada no livro.
Fixei
os olhos no meu reflexo na janela em frente e fiquei vendo minha
cabeça balançar com o movimento do vagão.
Quando
o trem atingiu a velocidade máxima, algo apareceu em minha
visão periférica: uma sombra numa área iluminada.
Olhei em sua direção, e vi que quatro rostos de quatro
rapazes haviam aparecido nos vidros grossos e empoeirados das portas
que ficavam entre os vagões. As quatro cabeças estavam
juntas na moldura da janela.
Momentos
depois as portas se abriram. Quando os homens passaram do vagão
deles para o meu, tudo ficou alto e assustador. O barulho das rodas
nos trilhos, o som arfante das paredes da estação
passando por nós.
Os
rapazes se amontoaram em volta da moça da mesma forma que
haviam se amontoado diante da janela. Eles se debruçaram
sobre ela, bloqueando-a da minha visão.
Um
deles agarrou a bolsa que estava entre suas pernas. Houve uma espécie
de luta, que a moça pareceu vencer temporariamente. Ela agarrou
a bolsa e se levantou, empurrando os homens. Vi quase tudo isso
com o canto do olho.
A
moça atravessou o vagão e se sentou defronte a mim,
bloqueando o meu reflexo na janela. Ela me pareceu corajosa. Acho
que foi porque ela ainda estava segurando o livro, marcando com
um dedo a página que estava lendo.
_
Com licença _ disse ela. _ O senhor se importa que eu me
sente aqui?
Sacudi
a cabeça e sustentei o seu olhar, tentando passar-lhe uma
certa confiança. Eu não precisei virar a cabeça
para saber que os rapazes viriam atrás dela. Imaginei o que
aconteceria em seguida.
Os
rapazes apareceram; um deles tornou a puxar a bolsa da moça;
seu pulso foi agarrado; seu braço torcido para obrigá-la
a largar a alça da bolsa; ela gritou.
Eu
não sabia ao certo o que estava acontecendo. Eu não
sabia o que fazer.
Fiquei
em pé. Eu disse "Ei."
Certa
vez, quando era pequeno, eu caí de um balanço alto
e bati com força com a parte de trás da cabeça
no chão. Enquanto este acidente estava acontecendo, eu o
observei remotamente, da perspectiva dos galhos da árvore
na qual o balanço estava pendurado.
Agora,
pelas janelas laterais do trem, como se estivesse pairando entre
o vidro externo e as paredes da estação, eu me via
andando para trás no vagão, com os braços levantados,
protegendo o meu torso e o meu rosto. Os rapazes estavam me atacando.
Muitos dos seus golpes pareciam apenas roçar minha cabeça
e meus ombros, e alguns não me atingiram. Alguns, no entanto,
me atingiram em cheio.
Meus
movimentos eram lentos e confusos. Minhas mãos se projetaram
algumas vezes para a frente para afastar os homens, mas o gesto
era de quem estava espantando uma mosca. Logo as minhas pernas dobraram
e eu caí para trás sobre os assentos, e depois rolei
para o chão. Do meu ponto de observação do
lado de fora do vagão, fiquei vendo os rapazes me chutando
até eu perder os sentidos.
1
Ainda
como um observador distante, permaneci perto do meu corpo inconsciente.
Não numa observação contínua - eu via
a mim mesmo numa série de flashes que deviam ter intervalos
de horas ou até de dias entre um e outro.
Na
primeira imagem, a mais breve, eu me vi na traseira de uma ambulância.
Minha camisa estava aberta e coberta de sangue, e meu rosto coberto
por uma máscara de oxigênio.
Na
imagem seguinte, eu estava deitado numa cama de hospital, no que
imaginei ser uma unidade de terapia intensiva. Continuava usando
uma máscara de oxigênio; minha cabeça e meu
peito estavam enfaixados; eu estava ligado a máquinas. Catherine,
minha secretária, estava sentada ao lado da cama, chorando.
Havia um médico de pé, atrás dela. Estendia
a mão em sua direção, como que num gesto de
consolo, mas ele nunca parecia cobrir os poucos centímetros
que faltavam para completar o gesto, e seus dedos permaneciam flutuando
sobre o ombro dela como os de um curandeiro.
Em
outra imagem, eu tinha sido levado da enfermaria para um quarto
particular, e a moça do vagão do metrô estava
no quarto comigo. Segurava um buquê de crisântemos e
um cartão, e parecia pouco à vontade. Ela passou mais
tempo olhando para as flores do que para o meu rosto, que agora
estava sem ataduras, com as equimoses à mostra, mas dormindo
tranqüilamente. A moça ficou comigo por algum tempo.
Seus lábios se moviam de vez em quando, mas eu não
percebi o que ela dizia. Finalmente, ela depositou as flores num
vaso e o cartão na minha mesinha-de-cabeceira, e foi embora.
Na
última imagem, um homem - um enfermeiro, eu acho - sentou-se
na minha cama e conversou comigo, e, enquanto falava, ele fitava
o meu rosto com grande concentração. Mais uma vez,
não consegui ouvir as palavras, mas, pela sua postura e expressão,
percebi que ele estava falando de uma maneira bem direta. Acho que
estava tentando me acordar.
O
enfermeiro ainda estava comigo quando finalmente acordei. De volta
ao meu corpo, abri os olhos com um certo esforço, arqueando
as sobrancelhas para abrir as pálpebras e quebrar a crosta
de sono. Um pano ou esponja molhada foi passada pelo meu rosto.
Pedi água, e o enfermeiro levou um copo até minha
boca. Quando engoli, tive a sensação de poder acompanhar
com precisão o caminho da água pela garganta. Senti
o líquido formando uma poça em meu estômago,
e a superfície da poça encrespando quando eu mudei
de posição.
_
Então, estou vivo _ eu disse finalmente.
_
Sim _ respondeu o enfermeiro.
_
Estou muito ferido?
_
Você está se recuperando.
_ Que
bom _ eu disse. _ É bom ouvir isso.
2
Algum
tempo depois, eu estava sentado numa cadeira de rodas, conversando
com dois policiais. O mais velho deles era quem mais falava. Queria
saber se antes do ataque eu tinha encostado a mão nos rapazes
ou os agredido de alguma forma.
_
De jeito nenhum _ respondi. _ Quer dizer, eu estava tentando impedir
que eles assaltassem a moça. Mas só o que fiz foi
me levantar. E quando vi eles estavam me dando socos. Eu não
teria tido tempo de agredi-los, mesmo que quisesse.
O
policial mais velho balançou a cabeça, concordando.
_
Foi isso mesmo que a testemunha disse.
_
Ela se machucou? A moça?
_
Não.
_
Eu fiquei com medo que ela tivesse sido estuprada.
_
Ela não se machucou. Eles levaram a bolsa dela, mas nós
a recuperamos quando os prendemos.
_
Vocês os pegaram?
Devo
ter mostrado surpresa, porque o policial mais jovem pareceu ficar
ofendido.
_
Às vezes nós prendemos pessoas _ ele disse, com a
voz um tanto inflamada.
O
policial mais velho prosseguiu.
_
Quando eles saltaram na estação seguinte, tinham sido
filmados em cinco ocasiões diferentes pela CCTV, antes mesmo
de chegarem ao nível da rua. De fato, dois deles nós
conseguimos acompanhar com a câmera até a porta de
suas casas. Eles não vão se safar disto; pode ter
certeza.
_
E quanto à minha pasta? _ perguntei. _ Eu tinha uma pasta.
Vocês a recuperaram também?
O
policial mais velho franziu a testa.
_
Uma pasta?
_
Sim. Com um fecho de metal. Havia papéis lá dentro.
O
policial mais jovem começou a checar seu bloco de anotações.
_
Eu não tenho nenhum registro de uma pasta com um fecho de
metal. Ela não estava no vagão com o senhor.
_
E eu não me lembro de ver nenhum deles carregando uma segunda
pasta no CCTV—acrescentou o policial mais velho. _ Mas vou verificar.
_
É muito importante que eu encontre a pasta _ afirmei. _ Preciso
dela para o meu trabalho.
_
O senhor não deveria estar se preocupando com trabalho por
enquanto _ disse o policial mais velho.
_
Mas o senhor vai tentar encontrá-la? A minha carteira também
estava lá dentro, e estava cheia de papéis e...
_
Se me permite _ interrompeu o policial mais velho _, acho que o
senhor deveria esquecer tudo sobre trabalho e papéis por
enquanto. Sua tarefa mais importante neste momento é melhorar.
_ Ele sorriu para mim. _ Sair deste hospital e voltar para casa.
3
Recebi
alta na tarde seguinte. O hospital providenciou um táxi para
mim, e alguma coisa para eu vestir. Minhas roupas tinham sido rasgadas
e estavam sujas de sangue, então, quando subi os degraus
até a porta da minha casa, eu estava usando um pijama verde
e chinelos.
Compreendi
imediatamente que devia ter ficado inconsciente no hospital por
muito tempo pela enorme pilha de cartas que bloqueava a porta de
entrada. Levei as cartas para a sala e apertei o botão de
play da minha secretária eletrônica. Eu tinha trinta
e quatro mensagens, mas não me sentia disposto para escutá-las,
nem para abrir minha correspondência. Não me sentia
disposto nem para acender as luzes. Então, liguei a televisão.
Assisti
ao noticiário das dez horas. Eu havia perdido as manchetes
e as notícias principais. Ouvi a história de um incêndio
numa boate e assisti a uma discussão entre duas celebridades.
A discussão tinha acontecido do lado de fora de um cinema,
por ocasião da première de um filme, e fora registrada
por um membro do público, com uma câmera de vídeo.
O locutor levantou a possibilidade de que, embora as celebridades
tivessem quase chegado às vias de fato, a discussão
tivesse sido encenada com fins promocionais. Eu achei, observando
o locutor, que ele parecia inteiramente desinteressado pela verdade
dos fatos, porque por diversas vezes pareceu ignorar o sentido das
palavras que estava lendo - sem conseguir antecipar o final de uma
frase ou o início de outra. Eu também desconfiei de
que ele soubesse tanto quanto eu quem eram aquelas celebridades.
Assim
como o locutor, eu perdi a concentração. Quando tornei
a recuperá-la, estava passando um filme em preto e branco.
Desliguei a televisão e subi para me deitar.
A
poeira no meu quarto fez com que eu relembrasse o tempo que havia
passado inconsciente no hospital. A cama estava desfeita - exatamente
como eu a havia deixado ao ir para o trabalho no dia do ataque.
Quando puxei a colcha, a poeira atacou os meus olhos como pólen
e me fez piscar convulsivamente. Pude sentir a irritação
no nariz e na garganta.
Mas
a noite estava quente, então eu empurrei a colcha para o
chão e abri a janela para deixar o ar circular no quarto.
Depois, tirei o pijama do hospital, vesti uma cueca samba-canção
e me deitei.
Eu
não tinha fechado as cortinas, portanto o quarto estava claro
devido à luz da rua. Eu não estava tentando realmente
dormir. No táxi, na volta para casa do hospital, eu tinha
ficado apreensivo com as conseqüências psicológicas
que a agressão pudesse causar. Achei que essas conseqüências
iriam manifestar-se em casa, quando eu tentasse voltar à
normalidade, após um incidente tão anormal e chocante.
A familiaridade da casa iria forçar uma justaposição
que a estranhesa do hospital não forçara. Especificamente,
eu acho que estava preocupado com pesadelos - reviver o ataque num
mundo de sonhos, onde o sonho talvez se repetisse interminavelmente;
onde o ataque pudesse ser ainda mais brutal e desagradável
do que no mundo real.
Eu
tinha decidido durante a corrida de táxi que o modo mais
sensato de lidar com a questão psicológica seria,
de certa forma, manter meu nível de expectativa baixo. Eu
não faria planos nem estabeleceria metas, como, por exemplo,
voltar ao trabalho numa data determinada. Quanto a dormir, eu não
faria força para isso nem resistiria ao sono quando ele chegasse.
O
motorista do táxi, com quem eu havia conversado um pouco
durante a viagem de volta do hospital, tinha concordado.
_
Eu sofri um acidente de carro uma vez _ ele explicou. _ O que dizem
é que depois de um acidente de carro você tem que voltar
a dirigir, senão perde a coragem. É a mesma coisa
se você cair de um cavalo. Ou de uma bicicleta. Ou de uma
escada.
Eu
balancei a cabeça concordando para seus olhos refletidos
no espelho retrovisor.
_
Mas eu não fiz isso _ ele continuou. _ Depois do meu acidente,
quando entrei no táxi pela primeira vez, não consegui
nem ligar o motor.
Nós
tínhamos parado num sinal vermelho nessa altura, então
ele se virou para trás para ser mais enfático.
_
Eu nem mesmo toquei no volante! _ Ele sacudiu a cabeça enquanto
o sinal abria e nós prosseguíamos. _ Minha mulher
achou que eu estava louco. Ela ficou me observando da calçada.
Mas eu não estava louco. _ Ele tornou a sacudir a cabeça.
_ E eu também não liguei o motor da segunda vez, mas
soltei o freio de mão. Nós moramos numa ladeira, então
o táxi andou um pouco para a frente. Só não
andou mais porque tinha um carro estacionado na frente. "Você
está louco!" Minha mulher disse. Mas olhe para mim agora.
Eu estou dirigindo de novo.
Ele
ficou calado por alguns instantes.
_ É
bom ir devagar com as coisas.
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