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Reportagem
publicada em 14 de fevereiro de 1996
O
ridículo sururu pré-carnavalesco
Factóides
sobem o morro e transformam o
clipe
de Michael Jackson num samba do crioulo doido
Só
por acaso, a conversa é imaginária, pois tem
razoável probabilidade de ter acontecido na semana
passada, na imensidão de um luxuoso escritório
envidraçado de Nova York. Cenário ocupado por homens
negros do show biz, tipos de brinco, jaqueta de couro
e bainha da calça enfiada no cano longo do tênis,
chicletes, muitos chicletes, foco de luz sobre cada
personagem em torno da ampla mesa de reunião,
silêncio, ação:
-
Esse senhor Coelho, ele é socialista, Spike?
-
Não, Michael, ele é banqueiro!
Corta!
O cantor Michael Jackson e o cineasta Spike
Lee já conheciam vagamente o senhor Ronaldo Cezar
Coelho quando desembarcaram no Brasil na sexta-feira
passada, para as filmagens de um videoclipe. Um primor
de normalidade, Michael Jackson desembarcou de máscara
cirúrgica preta e, como é do seu feitio, apalpando
um
menininho.
O senhor
Coelho ou, como agora se diz em Nova York,
Mister Rabbit secretário da Indústria, Comércio
e
Turismo dessa fábrica de celeumas tão divertidas
quanto tolas chamada Rio de Janeiro , ganhou
notoriedade além das fronteiras fluminenses ao
denunciar, há duas semanas, um maquiavélico plano
da
sociedade Jackson & Spike para denegrir mundo afora a
imagem banguela da Cidade Maravilhosa. As armas da
dupla americana seriam as imagens que o cantor e o
cineasta pretendiam gravar, no domingo 11, na favela
do Morro Dona Marta, Zona Sul do Rio, fragmentos do
videoclipe promocional da música They Dont Care About
Us (Eles Não Se Importam com a Gente).
Pois
é: a molecada miserável do Dona Marta se embala
agora no colo das boas intenções de um cantor híbrido
e de um banqueiro Coelho é dono do Banco Multiplic
bonzinho. Michael Jackson, repentinamente assolado por
uma preocupante febre de justiça social, veio aqui
para chamar a atenção do mundo para a penúria
dos
meninos dos morros cariocas. Ronaldo Rabbit, como um
coelhinho ferido a golpes de estilingue, partiu para a
briga acusando o cantor de exploração da miséria
dos
favelados. Os dois, até Adriane Galisteu pode
perceber, não estão sendo sinceros. Tio Ronaldo,
conhecido no Rio apenas pela sua mediocridade e
justamente desconhecido fora da Cidade Maravilhosa ,
quer aparecer na televisão e na imprensa, pois
pretende candidatar-se a prefeito pelo PSDB. E Michael
Jackson, provavelmente, quer dar a volta por cima nos
comentários jocosos sobre o seu divórcio de Lisa
Presley, apresentando-se como paladino da justiça
social. A ecologia, sua antiga bandeira, anda meio
fora de moda.
MELANCIA NO PESCOÇO A pendenga foi parar na
Justiça, e o que era divertido nessa discussão de
verão transformou-se numa chatice de corredor de
fórum. Um barraco insuportável. Resumindo o processo
da idiotia, uma ação popular (?) de um advogado
exibicionista (Jorge Beja) e uma liminar de um juiz
apressado (Luiz Felipe da Silva Haddad), ambas contra
as filmagens na favela, foram soterradas pela atitude
de um desembargador sensato (Humberto Perri). A
sentença final saiu na quarta-feira, antevéspera do
desembarque de Michael Jackson em Salvador, primeira
escala da produção do videoclipe para registro das
cores do Pelourinho e dos tambores do Olodum. Na
Bahia, o baticumbum preparativo da recepção ao cantor
já havia começado quando a Sony, gravadora contratante
de Michael Jackson, confirmou sua ida ao Rio, antes
cancelada. A comunidade favelada do Dona Marta
explodiu de alegria, mas a derrota de Cezar Coelho
nesse nhenhenhém é relativa.
Apesar
da fama de bobalhão que ganhou no episódio,
Mister Rabbit conseguiu que seu nome ficasse
conhecido. Está seguindo os passos do prefeito César
Maia, outro político carioca adepto da tese de que
pendurar uma melancia no pescoço é uma elaborada
estratégia política. O prefeito inventou até
uma
palavra para definir sua estratégia: chama de
factóides as notícias lunáticas
que inventa a troco
de espaço nos jornais. Às vezes, dá a impressão
de
sair todo estropiado dessas suas experiências, mas,
depois, vê-se que não: como nasce um otário
a cada
minuto, muita gente parece gostar da brincadeira.
Enfim, há gosto para tudo. O jogo, ao qual Ronaldo
Rabbit Coelho aderiu, embute um truque que dispensa
perdedores.
Ainda
que sem querer, o secretário catapultou Michael
Jackson para o corner politicamente correto de uma
questão, fato inédito na carreira do cantor. Sua
imagem de tarado, molestador de crianças, preto que se
tingiu de branco acaba de ganhar as nuances da figura
simpática de artista censurado, daí o emergente apoio
que sempre lhe foi negado pela intelectualidade
nacional. Numa edição do Jornal da Globo, o cineasta
e
cronista Arnaldo Jabor exultava: Viva Michael
Jackson! Thank you, Mister Rabbit. De nada. Enquanto
isso, Ronaldo Cezar, 48 anos, conseguia adesão em
outros campos. Sem papas na língua, o ministro dos
Esportes, Pelé, extraordinário na função
e em quase
tudo o que diz, defendeu proibição sumária
das
filmagens do videoclipe. Por que eles só querem
mostrar a nossa pobreza? Por que eles não mostram o
Pão de Açúcar?
ESTAPAFÚRDIO
A adesão de Pelé foi comemorada como
um gol de placa no Palácio Guanabara. É óbvio
que o
Ronaldo fez isso para aparecer e, dentro da estratégia
de sua candidatura, ele foi brilhante, analisa um
assessor do governador Marcello Alencar. O chefe do
Executivo, comenta-se em seu gabinete, achou tudo
muito engraçado e meio estapafúrdio. Deve ter
sido
como fumar maconha, tarefa a que Marcello Alencar se
prontificou para tomar posição sobre a descriminação
da droga, debate carioca que precedeu a seqüência de
delírios sobre a visita de Michael Jackson. No affair
com o cantor de Bad, o governador apoiou Ronaldo Cezar
de olhos fechados, por uma questão de lealdade e
conveniência política. Desde que os homens públicos
perderam a vergonha de agir como marqueteiros em nome
da conveniência política, no final das contas
inconveniente torna-se a imprensa. Estou chocado com
o colonialismo dos jornalistas cariocas, que
confundiram tudo o que fiz com uma tentativa de
censura, posou de incompreendido Ronaldo Cezar
Coelho, quase aos berros no ouvido do editor de Veja
Manoel Francisco Brito. Só tentei obter informações
sobre o conteúdo do clipe.
Para
isso, não precisava ter convocado a imprensa no
ato de lançamento de seu factóide contra
Michael
Jackson. Bastaria ligar para a produtora de Spike Lee,
como aliás ele fez. Falou com Butch Robinson, assessor
do cineasta, que resumiu a idéia do clipe numa colagem
de imagens da miséria ao redor do mundo. Ronaldo
queria mais, queria ler o roteiro e gelou com a
intervenção de Robinson do outro lado da linha:
Existe alguma lei que apóie sua ingerência no
clipe?
Como a resposta era não, a conversa terminou. Aí,
me
dei mal, reconhece Cezar Coelho. A diplomacia
brasileira também quase se dá mal com esse papo de
doido. Ninguém ligou para o Itamaraty para pedir que
o visto fosse negado, diz o secretário-geral do
Ministério das Relações Exteriores, embaixador
Sebastião do Rêgo Bastos.
Mas
havia, sim, uma pendência na liberação do
passaporte do artista, por conta da obtenção no
Ministério do Trabalho de um papel autorizando a
atividade profissional de Michael no país. O problema
com o visto de Jackson era eminentemente burocrático,
comenta um diplomata da embaixada de Washington.
Depois que o Ronaldo abriu a boca, o caso tomou uma
dimensão e uma lógica enlouquecidas. Deu a louca
em
Washington, onde o embaixador titular, Paulo Tarso
Flecha de Lima, chegou a ligar para seus superiores em
Brasília: Cuidado para não transformarem isso
num
incidente diplomático. A mensagem foi entendida. O
Itamaraty instruiu o consulado de Los Angeles para
aceitar a argumentação dos advogados de Jackson e
o
visto saiu rapidinho porta afora da embaixada, como se
fosse uma batata quente.
GNOMO
TRANSRACIAL Que país é esse? O Brasil
tinha
de ser o Brasil se curva diante do videoclipe,
instituição audiovisual semifalida da era das imagens
nervosas e sem sentido, inaugurada na pobreza cultural
dos anos 70. No mundo inteiro, não se tem notícia
de
nenhum filmete perigoso do gênero com alguma mensagem
política ou social, contra ou a favor, muito pelo
contrário. A revolução que ora se dá
nos trópicos só
encontrará termo de comparação no dia em que
a MTV
bater a Rede Globo nos números do Ibope. O assunto
está mais na boca do povo do que a seqüência de
acordos e desacordos sobre a reforma da Previdência,
factóide federal de sucesso restrito a Brasília. O
deputado Marcio Fortes, tucano carioca, por exemplo,
escapou do Congresso para escrever um artigo pela
descriminação do videoclipe. Esse é suspeito.
Faz
qualquer negócio para bombardear Ronaldo Cezar Coelho
e passar a mão na vaga de candidato tucano à
prefeitura do Rio.
Mas
houve gente que não quer ser prefeito que baixou
o sarrafo nos americanos, como o especialista em
cultura popular Ricardo Cravo Albin. Chama Michael
Jackson de gnomo transracial e bizarro corifeu de
dupla tez, dirigido por Spike Lee, cuja essência de
criação é por demais conhecida. Ele faz filmes
racistas. Sobrou para o negro baixinho de cavanhaque
e ar abusado, 39 anos, realizador, entre outros, de
Faça a Coisa Certa e Malcolm X, filmes protagonizados
pela tensão racial americana. Não foge desse universo
barra-pesada em Clockers, com estréia prevista no Rio
e em São Paulo depois do Carnaval, sobre jovens negros
e pobres cooptados pelo tráfico de drogas nos Estados
Unidos. A fita é brutal. O que Spike Lee, com esse
currículo de militante negro, faz na companhia do
descolorido Michael Jackson e seus amiguinhos um
casal de crianças acompanha o astro no Brasil , só
o
Morro Dona Marta pode explicar. Pelo menos lá, o
cineasta está em casa, cercado de personagens que
sempre o atraíram artisticamente.
O Morro Dona Marta não é flor que se cheire, ainda
mais por alguém que já se exilou numa bolha de
oxigênio e tenta proteger-se das impurezas do ar com
uma ridícula máscara do Zorro. O anteparo
é insuficiente para filtrar o odor exalado pela água
suja, preta, que escorre como um esgoto a céu aberto
pelo labirinto de escadarias e vielas, onde barracos
desafiam todas as leis da arquitetura. E, no entanto,
quem mora lá no morro, pertinho do céu,
como prosa o
cancioneiro, vê o Pão de Açúcar, o Cristo
Redentor,
toda a Lagoa Rodrigo de Freitas com as praias de
Ipanema e Leblon ao fundo, a Baía de Guanabara, além
de uma nesga das areias de Copacabana. É lindo. A
favela existe há 41 anos, tem cerca de 12 000
moradores e já serviu de cenário para outros filmes,
como o pavoroso Lili Carabina, produção financiada
por
Ronaldo Cezar Coelho, num passado recente em que os
governantes não perdiam tempo escarafunchando o
trabalho de cineastas no alto do morro. Os tempos
mudaram a miséria não e nunca se viu
tanto
jornalista no Dona Marta como na semana passada.
Ciceroneados pelo sociólogo Rubem César Fernandes,
coordenador do movimento Viva Rio, jornalistas
brasileiros e estrangeiros viram de perto aquilo e
muito mais que Jackson conheceu logo depois. A
canadense Marina Mirabella, da CNN, não resistiu, fez
cara de nojo nada de pessoal, o cheiro é que era
insuportável , enquanto Rubem César discursava:
É uma besteira achar que um clipe pode denegrir a
imagem do Rio. Na verdade, a censura prejudica muito
mais, disse o mister cidadania. Não adianta
esconder, todo mundo sabe que o Brasil é um país
pobre, comentou a correspondente da rede de TV
americana NBC, a colombiana Monica Machicao. O país
ficou um pouco ridículo com essa polêmica, apitou
a
cubana Isabel Malowany, da agência de notícias alemã
Reuters. Qual é o único país do mundo
que não quer a
visita de Michael Jackson?
ARENA
MISERÁVEL Basta dar voz ao morro para
perceber que o Brasil favelado sempre esteve de portas
abertas para essa aberração em carne e osso do mundo
pop. Quando ele chegar aqui vai ser o dono do morro,
previa, na semana passada, ao repórter de VEJA Marcelo
Camacho, a dona de casa Zenilda Souza, 30 anos, mãe de
uma menina de 14 anos, avó de um bebê de 8 meses.
Dono do morro, para quem não sabe, é um
título
exclusivo dos chefes do tráfico nas encostas cariocas.
Não é pouca coisa, não. Os favelados acham
que Michael
merece porque, depois dele, vão-se lembrar da gente,
espera a dona de casa Maria Aparecida de Oliveira, 23
anos, carente de água encanada no barraco. Apesar de
tudo, o bom humor carioca impera na favela. Planeja-se
transformar o cantor em samba-enredo para o Carnaval
da Escola de Samba Mocidade Unida do Santa Marta, no
ano que vem. Cogita-se também negar votos a quem
tentou impedir o maior acontecimento da história do
morro. Se o governo não quer que o mundo veja a
pobreza e a miséria do Dona Marta, que venha aqui e
faça alguma coisa, protesta o presidente da
associação de moradores do lugar, José Luís
de
Oliveira, 30 anos. Quem explora a imagem da gente são
os políticos nos programas eleitorais de TV.
Michael
Jackson tem magotes de fãs naquela região,
mas alguns deles tiraram benefícios extras do contato
com o ídolo. A produção do videoclipe do artista
pagou
6 000 reais pelo direito à arena miserável, o que
pode
ser considerado uma pechincha se comparado ao cachê
pago ao Olodum pelas filmagens na Bahia, 40 000
dólares. Mas a favela carioca aceitou a mixaria de bom
grado. A associação dos moradores pretende ratear
o
prêmio entre a creche e o ambulatório comunitários,
além de sanear suas próprias finanças. Mais
proveito
tirou dessa história um exército de cinqüenta
homens
musculosos do morro, recrutados para atuar na
segurança do visitante ilustre. Cada um levou alguma
coisa entre 500 e 1 000 reais para o barraco. A vinda
dele aqui foi o presente do ano, comemorou o
segurança free lance Washington Luís dos Santos, 25
anos, operador de máquinas.
Não
se trata, no caso, de uma discussão sobre o sexo
dos anjos, como definiu a polêmica o ministro das
Comunicações, Sergio Motta. A necessidade de
dinheiro, de lazer, de tudo, enfim botou o morro
100% ao lado de Michael Jackson e consagrou como herói
da novela do videoclipe o dublê de ator e vereador
Antônio Pitanga, do PT, que entrou em cena no último
bloco para pedir na Justiça a cassação da liminar
que
proibia o evento. Aliás, não tem anjo nem sexo
nessa história. A começar pelos que comemoraram a
realização do videoclipe como a derrota de uma bravata
de Ronaldo Cezar Coelho. Esse negócio de factóide
é perigoso, analisa, irônico, o prefeito César
Maia,
inventor dessa praga que assola os políticos cariocas.
Precisa ter muita experiência no negócio,
vangloria-se o alcaide. É muita cara de pau.
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