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Reportagem
publicada em 18 de julho de 1984
Michael,
o magnético
Com
o show Victory, Michael Jackson
celebra seu triunfo
Cercado
por cinco descomunais monstros intergalácticos, o cavaleiro
de roupas prateadas enfrenta uma batalha de vida ou morte. Subitamente
ele cai ao châo, mas quando está prestes a ser devorado,
reage com uma espada de raios laser. Em minutos os monstros dominados
e o cavaleiro, do alto de uma montanha, ergue os braços e
emite seu brado de vitória: "Bem-vindos à terra
do império". Para as 45 000 pessoas que assistiram a
essa cena no imenso palco de oito andares montado no estádio
Arrowhead de Kansas City, um das principais cidades da região
mais central dos Estados Unidos, no último dia 6, nem os
monstros nem os efeitos de raios laser causaram tanta emoção
quanto um pequeno detalhe da cena: a luva branca que o cavaleiro
usava em uma das mãos. Pois quem estava ali, em carne e osso,
era Michael Jackson e, quando a pequena luva cintilou sob
as centenas de refletores, a multidão, eletrizada, abandonou-se
ao delírio.
Naquele
instante, usando um dos acessórios indispensáveis
de seu vestuário, ele iniciava de
maneira triunfal a primeira apresentação de Victory,
o
show musical mais caro, espetacular e controvertido
dos últimos anos, reunindo Michael e seus cinco irmãos
do conjunto The Jacksons. A cena se repetiria nos dois
dias seguintes no mesmo estádio Arrowhead, primeira
escala de uma turnê que nas próximas semanas levará
Victory a cerca de quinze outras cidades americanas e
que desde já se desenha como um grande triunfo - de
público, de cobertura da imprensa e possivelmente
também de dinheiro, com uma receita bruta estimada em
50 milhões de dólares. Afinal, trata-se da primeira
vez em que Michael Jackson sobe a um palco desde que,
há dois anos, se tornou o maior fenômeno da música
popular conheceu desde os Beatles. Com 45 milhões de
dólares depositados em sua conta bancária somente
em
1983, é o músico mais bem pago do mundo. E, com uma
larga influência sobre toda uma nova geração
musical
americana, tornou-se um símbolo da cultura dos anos
80. Aos 25 anos de idade, ele poderia dar sua vida e
obra por completas.
Victory
é a grande oportunidade que 2,2 milhões de
americanos até o fim da turnê terão
para ver toda
essa mágica ao vivo. Este vai ser o acontecimento dos
próximos dez anos, diz o diretor de uma rádio
de
Seatle. Você pode não ligar para quem está
se
apresentando. Mas quer ver. De fato, não basta ouvir
o mais explosivo fenômeno musical dos nossos dias
precisa ser visto. Em primeiro lugar porque, mais que
um cantor ou compositor, Michael Jackson é um
inigualável mestre de palco: nada se compara à furiosa
precisão de sua dança, inovadora e empolgante, nem
à
sua estonteante capacidade de juntar som e movimento.
Quando entro em cena, é como um passe de mágica,
perco o controle de mim mesmo, ele diz. Em segundo
lugar, porque este excepcional intérprete se tornou
também, nos últimos anos, um mistério aos olhos
do
público sua vida é secreta, envolta em mística
e
marcada por fantasias que às vezes o fazem parecer
Peter Pan, o menino que queria crescer. Ou, então, um
cruzamento de Howard Hughes, o célebre milionário
americano que jamais era visto, com E.T.
Acontecimento
histórico Nada mais natural assim, que
a turnê de Michael Jackson e seus irmãos aterrisassem
em território americano com o alarde de um disco
voador chegando à Terra. Em Kansas City, a primeira
cidade escalada para receber a passagem de Victory, a
população começou a viver o clima de jacksonmania
um
mês antes da estréia. Como os ingressos para os shows
só podiam ser comprados por meio de cupons publicados
nos jornais a partir do dia 19 de junho, multidões de
jovens amanheceram diante das bancas naquele dia para
garantir seus exemplares. Houve também um número
recorde de jornais de assinantes roubados à porta das
casas naquela madrugada. Hordas de adolescentes
desfilavam pela cidade vestidos e penteados como
Michael Jackson, ou ensaiavam passos de break, a dança
negra que brotou nas ruas americanas e nas quais
Michael se inspira para montar suas coreografias. Foi
o maior espetáculo que já vi na vida, comentava
entusiasmada Edith Marino, uma fã de 22 anos, à saída
do show.
Em
termos de mobilização popular, Victory pode ser
comparado apenas a um show que não aconteceu: o que
reuniria novamente os Beatles -sonho perseguido por
vários empresários no final dos anos 70 e finalmente
tomado impossível, na prática, com a morte de John
Lennon em 1980. Desde que a turnê dos Jackson foi
anunciada, criou-se nos Estados Unidos a expectativa
por um acontecimento histórico. Um dos primeiros a
reforçar essa expectativa foi o próprio presidente
dos
Estados Unidos, Ronald Reagan. Em maio último, quando
Michael Jackson foi convidado à Casa Branca para
receber uma homenagem por sua participação numa
campanha contra o uso de drogas, Reagan pediu-lhe
pessoalmente que incluísse Washington no roteiro da
turnê.
Ao
fazer o pedido como um fã qualquer, Reagan juntou
sua voz à de milhões de americanos que, se já
viviam a
jacksonmania com os discos e vídeos do cantor, esperam
encontrar em Victory, efetivamente, um cavaleiro de
outra galáxia. Por isso mesmo, mobilizam-se para que a
turnê que ainda não tem fixadas todas as datas e
locais por onde passará - inclua suas cidades. Em
Boston, por exemplo, um jornal local publicou uma
espécie de cupom-voto que os leitores deveriam
devolver à redação com seu pedido para que
os Jackson
fossem à cidade. O jornal recebeu de volta 30 000
cupons. Enquanto isso, uma estação de rádio
local
organizava uma passeata reivindicando a inclusão de
Boston no roteiro de Victory, e reunia 5 000 fãs com
faixas e cartazes.
Já
em Gary, a cinzenta cidade industrial do Estado de
Indiana onde nasceram os Jackson, cerca de 30 000
pessoas participaram de um abaixo-assinado para que
Mi-chael fosse à cidade - se não para cantar, pelo
menos para receber uma homenagem. O furacão detonado
pelos Jackson acabou por atrair a atenção também
de
outros políticos, além de Ronald Reagan, envolvidos
na
presente corrida eleitoral ame-ricana. Na estréia da
turnê, um dos mais entusiasmados espectadores das
primeiras filas do estádio de Kansas City era Jesse
Jackson (nenhum parentesco), o candidato negro à
Presidência da
República.
SEM
GARANTIAS - Ao lado da excitação, Victory trouxe
também uma maré montante de desapontamento, queixas
e
rancor, envolvendo a turnê, até sua véspera,
na mais
formidável controvérsia que jamais cercou um show
deste tipo. A palavra-chave, nesse tumulto, era cobiça
- e no centro de tudo estava o mirabolante processo
engendrado pelos promotores de Victory para tirar o
máximo de proveito financeiro da oportunidade. Segundo
este esquema, os ingressos eram vendidos sempre em
lotes de quatro, ao preço de 30 dólares (ou cerca
de
55 000 cruzeiros) cada um. Ninguém poderia comprar
mais ou menos do que quatro ingressos, e duas pessoas
residentes no mesmo endereço não poderiam comprar
mais
que um lote de ingressos. Pior que tudo, o
interessado, depois de adquirir seu lote e enviar à
produção, por meio de vale postal, os 120 dólares
correspondentes aos quatro ingressos, não recebia
nenhuma garantia de que as entradas lhe seriam
realmente entregues.
De
fato, como os promotores calculavam que a procura
de ingressos seria maior que o número de lugares
disponíveis nos estádios, o interessado deveria
esperar que um sorteio, feito por computador,
decidisse se ele seria um dos felizardos a obter os
ingressos. Em caso contrário, ele receberia o dinheiro
de volta, de quatro a seis semanas depois - e os
promotores, enquanto isso, teriam um lucro extra
investindo o dinheiro alheio por um mês ou mais.
Naturalmente, ninguém gostou. Os protestos foram
aumentando como bola de neve, a imagem de Michael
começou a sofrer e uma briga surda se estabeleceu
entre ele e os organizadores. Até que, um dia antes do
início da turnê, Michael Jackson fez valer sua força.
Tomou a iniciativa de reunir a imprensa, em Kansas
City, e decretou que o processo de venda de ingressos,
a partir daquele momento, seria modificado: cada
pessoa poderia comprar quantos ingressos quisesse, o
preço passava a de 20 dólares e ninguém empataria
dinheiro sem garantias de receber ingressos. Para
Michael, a gota d'água foi a carta de uma garota de 11
anos, Ladonnia Jones, publicada num jornal do Texas.
Em tom lamentoso, ela perguntava a Michael: Como você
pode ser tão egoísta?". Para afastar de si as
suspeitas de cobiça, Michael anunciou que todo o
dinheiro que receberá com turnê será doado a
instituições de caridade. Michael fez isso
porque é
um bom sujeito, disse seu gerente Frank Dileo. Na
verdade, ele não precisa de dinheiro: sua fortuna
pessoal é estimada em 75 milhões de dólares.
0 que ele
quis, com essa reviravolta, foi marcar a distância que
hoje o separa do pai, Joseph Jackson, seu
empresário-mor, idealizador da turnê e defensor da
idéia de que Michael tem de render o máximo para a
família.
ARREBATADOR - Para o público presente ao concerto de
estréia em Kansas City, porém, a controvérsia
em torno
de Victory evaporou-se juntamente com a fumaça que
envolvia o palco na cena do cavaleiro e dos monstros.
Isso porque Victory é um espetáculo arrebatador, que
oferece tudo o que o público pode esperar de um
concerto de música negra, de um show de Michael
Jackson ou de um espetáculo de dimensões gigantescas.
Durante 2 horas os irmãos Jackson, alternando-se entre
os vocais e os instrumentos, desfilaram antigos
sucessos da época em que formavam o grupo infantil The
Jackson Five, corno I Want You Back, ou os grandes
sucessos só de Michael, como Billie Jean e Thriller.
Durante o show, fachos de laser, bombas de fumaça e
fogos de artifício cruzavam o palco e o estádio.
E há,
naturalmente, o que interessa -a presença de
Michael Jackson. Ao longo do show, ele pode ser visto
em atitude constrita, interpretando a romântica balada
I'll Be There sem acompanhamento instrumental. No
minuto seguinte, explode o dançarino voador que, ao
som de Beat It, trota pelo palco com a energia de um
corpo de baile inteiro, arrancando delirantes aplausos
da platéia a cada movimento de suas pernas, braços
ou
quadris movidos a misteriosa eletricidade.
Curiosamente, só uma passa-gem da carreira dos Jackson
permanece au-sente do espetáculo: as canções
do novo
LP do grupo, Victory, lançado nos Estados Unidos- na
semana da estréia do show e que es-tará nas lojas
brasilei-ras no final da semana.
O LP é uma espécie de festa promovida por Michael
Jackson para seus irmãos, em que o anfitrião pouco
circula entre os convida-dos. Das oito canções do
LP,
apenas uma Be Not Always é escrita e interpretada por
Michael Jackson. As demais são compostas e
interpretadas por Marlon, Tito, Jackie, Jermaine e
Randy. O disco segue fielmente o estilo musical de
Michael e é uma agradável coleção de
canções, en-tre o
pop e o funk, mas sem maior originali-dade. Há uma
exceção: a faixa State of Shock, na qual Michael
divide os vocais com Mick Jagger, líder dos Rolling
Sto-nes, num raro caso de simbiose perfeita entre dois
estilos muito diferentes. Nem mes-mo State of Shock,
porém, foi incluída no repertório do show Victory,
um
espetáculo claramente concebido para Michael ajudar a
família e celebrar os vinte anos de música dos irmãos
Jackson - todos eles pisan-do o palco desde a primeira
infância.
SEGURANÇA
- Para que a essa celebração nada faltasse, a
produção de Victory montou uma extraordinária
infra-estrutura técnica. 0 palco de oito andares, montado
a partir de croquis desenhados pelo próprio Michael Jackson,
tem cerca de 50 metros de comprimento por 30 de largura. A ele são
acoplados milhares de lâmpadas, sete computadores e cinco
elevadores internos. Para que esse mamute tecnológico funcionasse
sem problemas, montou-se um sistema elétrico de 12 000 volts,
quando o normal em shows de estádio é utilizar 5 000
volts. Em cada estádio da turnê estarão funcionando
100 caixas de alto-falantes, pelo menos quarenta a mais que o habitual.
E para carregar esse circo de 370 toneladas pelos Estados Unidos,
mobilizaram-se 24 caminhões com trailers e uma equipe de
100 pessoas. Naturalmente, tal estrutura exigiu um dos maiores investimentos
até hoje feitos num show musical, mas o retomo promete ser
compensador.
O cuidado
da produção de Victory com a infra-estrutura
técnica só é comparável ao dedicado
à segurança
pessoal dos músicos e das platéias. Em Kansas City,
quem não tivesse um ingresso na mão não podia
entrar
sequer no estacionamento do estádio. Nos acessos à
platéia, cada espectador passava obrigatoriamente por
um dos 38 detectores de metais instalados, prontos a
identificar qualquer arma, objeto de metal ou mesmo
latas que fossem introduzidas no estádio. 0 consumo de
bebidas alcoólicas foi terminantemente proibido
durante o show.
A maior
proteção, obviamente, ficou para o próprio
Michael Jackson. Para impedir que os fãs descobrissem
qual o seu hotel em Kansas City, foram alugados para
levá-lo até o estádio Arrowhead não
apenas um, mas
quatro helicópteros, que cruzavam os céus da cidade
pousando e decolando em locais diferentes a curtos
intervalos. Uma vez diante do público, entretanto, ele
se soltou como sempre - e como sempre ficou com toda a
atenção. De fato, embora Victory seja anunciado como
um show dos irmãos Jackson", Michael é
um
protagonista entre coadjuvantes. Nos espetáculos de
Kansas City, nas únicas três canções
em que Michael
deixava o palco e entrega-va o comando do espetáculo a
seu irmão Jermaine, era visível a movimentação
do
público em busca das carrocinhas de lanches e dos
corredores de circulação - como se aquela fosse a
hora
do intervalo.
ERA
DA TELEVISÃO - A cintilante trajetória iniciada
em Kansas City faz as pessoas se perguntarem, mais uma vez, por
que Michael Jackson é um fenômeno. Como cantor, ele
é correto e alguns meneios vocais que inventou, como uma
espécie de engasgada nos tons agudos que usa com freqüência,
são truques de grande efeito. Mas o cantor Michael Jackson
está longe de ser brilhante ou original como Elvis Presley.
Como compositor, Michael foi um dos precursores da união
do funk com o rock moderno, mas nenhuma de suas canções
pode ser classificada de revolucionária, como tantas feitas
pelos Beatles. O que Michael sabe fazer, como poucos músicos
de hoje, é dominar uma platéia com a disciplinada
ferocidade com que dança, encontrando, para cada acorde e
batida rítmica da música, um correspondente visual
em seu endiabrado balé. Michael Jackson, além disso,
é o típico artista da era da televisão. Elvis,
os Beatles e todos os outros grandes da música pop eram ouvidos,
e não vistos - exceto para aqueles que conseguiam ir a seus
shows. Todo o mundo, entretanto, já viu Michael pela televisão,
juntando música e dança num conjunto hipnótico.
Essa característica explica, em parte, por que ele é
o primeiro grande ídolo de um novo veículo de comunicação:
o videoclip. Nos dois últimos anos, Michael conquistou o
posto de músico mais popular do mundo através dos
três videoclips que lançou nesse período, com
as canções Beat lt, Billie Jean e Thriller, maciçamente
veiculados por emissoras de TV do mundo inteiro e vendidos também
em cartuchos de videocassete. Enquanto muitos artistas mantêm-se
em evidência através de LPs anuais, Michael adotou
uma nova estratégia. Lançou um bom LP e o divulgou
exatamente com o que falta às canções do disco:
seu desempenho como dançarino.
Além
dessa estratégia original, Michael exibe outros
indiscutíveis trunfos. Em primeiro lugar, Michael foi
criado para ser um cantor-dançarino desde os 5 anos de
idade, pela mão de ferro de seu pai, que sonhava - e
conseguiu -ter um grupo de filhos artistas. Suas
biografias costumam relatar lembranças infantis em que
Michael, ouvindo a algazarra dos colegas na rua, era
obrigado a ficar em casa estudando acordes musicais ou
passos de dança. Desde que me entendo por gente,
minha rotina inclui 7 horas diárias de ensaios, ele
conta. Aos 11 anos de idade já era uma estrela de
razoável brilho. E, na atual fase de sua carreira,
desenvolveu um perfil de apelo irresistível para as
legiões de fás infantis e adolescentes.
IDENTIDADE
SEXUAL - Vivendo em isolamento na
espetacular mansão da família Jackson em Encino, nas
vizinhanças de Los Angeles, Michael, além disso,
construiu um espesso segredo sobre sua vida pessoal e
sentimental. Há dois anos não recebe nenhum
jornalista. Suas aparições em público são
cercadas de
um aparato que o mantém sempre isolado. Mesmo
defendido das hordas de fás, ele se fecha quando
esteve na Casa Branca para ser homenageado pelo
presidente Reagan, chegou a trancar-se por alguns
momentos num banheiro, perturbado com a presença de
estranhos à sua volta. Tudo isso, naturalmente, levou
a um espectro infinito de especulações e fantasias
sobre quem é Michael Jackson.
Sua
identidade sexual é uma delas. Recentemente, na
falta de uma entrevista com Michael, um jornalista
americano foi compensado pela família com uma
autorização para percorrer a mansão de Encino
- e, ao
entrar no quarto de Michael, topou com ele e um amigo.
Foi o bastante para que sua reportagem viesse
carregada de insinuações: o quarto estava a meia-luz,
a mão do amigo estava -úmida. Outros se lançam
a à
destilar o significado das letras de suas músicas.
Billie Jean, assim, seria um hino de hostilidade ao
sexo feminino. Afinal, não se trata da história de
um
rapaz em plena fuga das garras de uma mulher
predatória, que o acusa injustamente de tê-la
engravidado?
Tais
especulações, ao mesmo tempo, despertam desejos
de proteção em relação ao ídolo
misterioso que não tem
namorada, não come carne e dorme num colchão estendido
no chão. Some-se a isso sua terrível timidez e um
certo ar de bicho de pelúcia desamparado, e tem-se um
personagem que qualquer criança desejaria para sua
prateleira de brinquedos. 0 importante sobre Michael
é que sua imagem foi construída com dedicação
e
disciplina, diz o escritor negro Nelson George, um
respeitado especialista em música popular americana.
Afinal, o que é o Super-Homem, senão uma fantasia
infantil de onipotência? As crianças sempre gostaram
desse tipo de coisa.
Sua
capacidade para conquistar faixas de público além
das crianças parece encontrar explicação numa
outra
esfera. Michael Jackson atinge ouvintes de todas as
idades exatamente por não se dedicar a atingir nenhum.
Tanto Elvis Presley quanto os Beatles exigiam de seus
fãs algum tipo de identificação. Michael Jackson
não
prega coisa alguma e, para acompanhar suas canções
ou
piruetas, basta bater o pé ou tamborilar os dedos ao
ritmo marcado. Por isso mesmo, em sua festa todos
podem entrar.
SÓSIAS
BRASILEIROS - Trata-se de uma festa que recebe a cada dia mais
adesões. Nos Estados Unidos, a jacksonmania há pelo
menos um ano deixou de ser um fenômeno apenas musical para
invadir os hábitos e o comportamento dos jovens. Podem-se
encontrar réplicas exatas de Michael Jackson nas ruas e não
há adolescente que não tenha incorporado a seu guarda-roupa
algum item do figurino do cantor: a luva solitária, o chapéu
enfeitado, as calças pretas que deixam meias brancas à
mostra, os óculos escuros, ou suas vistosas jaquetas bordadas.
A jacksonmania cruzou continentes e, nos últimos meses, aportou
também no Brasil. Para constatar o fenômeno basta,
por exemplo, ligar a TV: nada menos de cinco programas de auditório,
transmitidos pelas redes nacionais, mantêm concursos para
escolher o mais perfeito sósia brasileiro de Michael Jackson,
ou o grupo de dançarinos que melhor imita seus trejeitos.
A maioria
dos concorrentes que se apresentam nesses
concursos não são simples calouros, mas profissionais
que vivem de sua suposta semelhança com o cantor. Como
os integrantes do trio carioca Revelation, que
ganharam 500 000 cruzeiros ao vencer o concurso do
programa Cassino do Chacrinha, da TV Globo. Formado
por Marcos, Oswaldo e Esio - este último filho do
mestre-sala Delegado, da escola de samba Mangueira -,
todos na faixa dos 18 anos, o Revelation apresenta-se
regularmente em boates do Rio de Janeiro, atua como
manequim de publicidade e, em caso de apresentações
fora da cidade, cobra cachê fixo de 1,8 milhão de
cruzeiros.
Também
nas academias de dança a jacksonmania abriu seu
espaço. Hoje há pelo menos vinte academias entre Rio
e
São Paulo que mantêm turmas regulares de break, tipo
de dança popularizado a partir de Michael Jackson.
Esse estilo de dança começa a influenciar também
os
sambistas. Freqüentemente flagro minhas passistas
imitando os trejeitos de Michael Jackson", espanta-se
o empresário Sargentelli, que há anos mantém
shows de
samba autêntico em suas boates mas que, nos últimos
meses, aderiu à jacksonmania: contratou para encenar
seus shows um Andy Jackson", imitador de Michael e
encarregado de um número humorístico.
CELEBRAÇÃO
- Também o mundo da moda já incorporou o
estilo Michael Jackson. O estilista carioca Luís de
Freitas, por exemplo, dono das etiquetas Mr. Wonderful
e Miss Divine, lançou há meses a coleção
3 x 8, em que
reproduz os figurinos de Michael Jackson com um toque
de humor. A gravata-borboleta preta que Michael usa no
videoclip de Beat It, na concepção de Freitas,
transformou-se num pequeno morcego de borracha. Já a
confecção Kaos Brasilis, de São Paulo, oferece
um
serviço inédito: por cerca de 500 000 cruzeiros, um
cliente pode adquirir um traje completo de Michael
Jackson, com personalizados que o tornam algo mais que
uma fantasia.
Nem
mesmo os cabelos de Michael Jackson, de corte
peculiar e constante aparência molhada - o wet look
constituem segredo para os jacksonmaníacos
brasileiros. No salão Black Roots, no centro de São
Paulo, o cabeleireiro Zezinho é especialista em fazer
cortes iguais ao de Michael. Armado com paciência de
escultor e uma poção especial à base de cremes
e óleos
capilares (que deixa os cabelos crespos ondulados,
não alisados, explica), Zezinho fabrica cerca de
cinco Michael Jackson por dia, a 15 000 cruzeiros cada
um. Na semana passada, um dos que se submeteram à sua
tesoura foi o bancário Cláudio Ambrósio, de
25 anos.
Antes eu usava o corte black, filosofava ele à
frente do espelho, após o corte. Mas agora a
realidade, é outra. A julgar pelo sucesso de Michael
Jackson e, agora, do show Victory, Ambrósio tem razão.
Com sua dança, sua timidez e seu carisma, Michael
determinou novos padrões para boa parte dos jovens. E,
se suas canções não trazem o brilho de outros
grandes
ídolos do rock, pelo menos uma façanha ele conseguiu:
reunir milhões de pessoas, em dezenas de países, na
mais esfuziante celebração já promovida pela
música
popular.
Joseph Jackson, o pai vilão
Nem
os milhões de dólares que ganha com suas músicas,
nem o posto de músico mais popular do mundo foram até
agora suficientes para que Michael Jackson resolvesse
o mais difícil impasse de sua carreira: a relação
tempestuosa que mantém com seu empresário. Para
qualquer artista, seria simples trocar de empresário.
Para Michael, isso significaria demitir seu próprio
pai. Aos 53 anos, Joseph Jackson, ou Joe, é ainda o
patriarca que, desde 1965, quando os Jackson ensaiaram
seus primeiros passos no palco, dirige o destino
profissional dos filhos. Durante a ascensão do
conjunto, no final dos anos 60, Joseph aparecia como o
pai compreensivo e encorajador de cinco meninos
prodígios. Hoje, com os cabelos arrumados mais ou
menos no mesmo wet look celebrizado por Michael, sua
imagem é mais próxima à do vilão, o
fiscal prepotente
e possessivo de todos os passos o astro e de seus
irmãos. No último ano, à medida que Michael
transformava-se numa megaestrela, suas relações com
o
pai iam se tomando cada vez mais difíceis.
Os
problemas mais sérios se concentraram na própria
concepção da atual turnê dos Jackson alegadamente
imposta a Michael por Joseph como a última grande
oportunidade de fazer os irmãos ganharem um bom
dinheiro, valendo-se deste momento de pico no
prestígio do superastro. Michael não gostou da idéia.
Para ele, hoje em dia, cantar com os irmãos num show e
num disco em que cada músico desempenha papéis da
mesma importância é como se Frank Sinatra, depois de
consagrado, voltasse a ocupar o posto de crooner numa
orquestra de dança. Michael acabou aceitando a
incumbência unicamente para resolver a situação
financeira dos irmãos, dois dos quais, ao que se
informa, estariam com problemas de dinheiro. Logo,
porém, sobreveio novo curto-circuito, quando seu pai
escolheu
O encarregado da organização da turnê: o empresário
Don King, cuja experiência se limitava à área
do boxe
e por quem Michael não oculta antipatia e
desconfiança.
TEMPESTADE
FAMILIAR - O primeiro passo de King
deixaria Michael em pânico: o empresário escolheu,
para patrocinar a turnê, a Pepsi-Cola. Trata-se de um
produto que jamais freqüentaria a mesa de Michael
Jackson, que é vegetariano e confessa horror a
refrigerantes artificiais. O tempo fechou
definitivamente quando Joseph e Don King anunciaram
sua disposição de fazer da turnê dos Jackson
não só a
mais espetacular, mas também a mais lucrativa de que
se tem notícia, e fixaram o preço do ingresso em 30
dólares, com um mínimo de quatro ingressos para cada
comprador, contra os 20 dólares, no máximo, defendidos
por Michael. Segundo uma fonte ligada à equipe dos
Jackson, atualmente Michael e seu pai evitam falar um
com o outro em reuniões de trabalho.
De
qualquer forma, o início triunfal significa uma
vitória para Joseph Jackson, um ex-operador de
guindastes na construção civil que, no início
dos anos
60, economizava no orçamento doméstico para comprar
instrumentos musicais para os filhos. Hoje Joseph
ostenta o êxito de sua dinastia seja na suntuosa casa
que a abriga, na Califórnia, seja cobrindo-se de jóias
extravagantes. Tudo indica, no entanto, que para
amainar a tempestade familiar Joseph terá que recuar
do posto de empresário bem-sucedido para voltar a ser
apenas o pai de antigamente.
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