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Publicada em 25/11/1992
ENTREVISTA:
MADONNA
Ela
é assim e nunca pede desculpas
A
artista mais famosa e censurada do mundo
diz que mostra a verdade e isto incomoda
Elio
Gaspari
Na
enciclopédia Grolier a palavra Madonna aparece em 64 verbetes.
Há a Madonna dos Rochedos, de Leonardo da Vinci, a da cadeira,
de Rafael, a do Magnificat, de Botticelli. Todas são mencionadas
uma ou duas vezes. Só Madonna Louise Veronica Ciccone, de
Bay City, Michigan, conseguiu seis citações. O sucesso
de seus discos só se compara ao de Elvis Presley, o de seus
shows ao dos Beatles e o de seu último livro - Sex - ao de
...E o Vento Levou. Vendeu 500 000 cópias em uma semana,
mais que todo o mercado editorial brasileiro em um ano.
Embalado
num saco de plástico como se fosse uma peça de alta
tecnologia e encadernado entre duas placas de metal como um convite
de sauna sadomasoquista, Sex é um álbum com 327 fotografias
de Madonna ou partes de seu corpo (todas). Já rendeu mais
de 20 milhões de dólares e reabriu pela enésima
vez a discussão em torno da má conduta da artista.
Como sempre ocorre desde que ela começou a carreira, o debate
será o prelúdio do próximo lançamento,
o filme Body of Evidence - O Corpo da Prova -, no qual faz o papel
de uma mulher que mata o marido rico (Willem Dafoe) usando o sexo
como arma. Em janeiro, quando estrear, reabrirá o debate
sobre má conduta. E assim ela continua no seu melhor papel:
a mulher mais famosa do mundo. Para quem já passou fome e
posou nua por 100 dólares, nada mau.
Rápida
como um raio e fria corno uma tartaruga, conseguiu a proeza de Sex
aos 34 anos, idade na qual a maioria das grandes modelos já
mal consegue as páginas centrais de Playboy. Alimenta-se
da inteligência de seus críticos. Ela transgride na
exata medida que a mandam recuar. Disseram que exacerbava a própria
sexualidade, exacerbou-a. Disseram que havia tintas sadomasoquistas
em seus shows, fez um álbum em que perto da metade das fotografias
tem couros, chicotes e mutilações. Criou um padrão-Madonna-de-escandalização.
A cantora Sinéad O'Connor rasgou uma fotografia do papa e
a atriz Sharon Stone fez-se fotografar de cuecas, com a mão
na pélvis, como ela há três anos. Conseguiram
alguma publicidade, mas pouco escândalo. Só Madonna
consegue ser o que um articulista do The Washington Post chamou
de "a doença social predileta da América".
Só ela consegue estar nas livrarias pelada e ao mesmo tempo
num trabalho onde se juntaram onze professores universitários
para explicar "A conexão Madonna - política de
representação, identidades subculturais e teoria cultural".
Mesmo num trabalho acadêmico, com 336 páginas de textos
e centenas de notas de página, não puderam faltar
oito fotografias, numa das quais está seminua.
Miúda
(pouco mais que 1,60 metro), Madonna trabalha como uma condenada.
Malha o corpo duas horas e meia por dia: "Um inferno".
Não tira férias há nove anos, mas em compensação
acumulou algo como 150 milhões de dólares. Vive num
mundo onde mistura deliberadarnente fantasias e trabalho. Houve
uma época em que se fazia chamar de Daisy porque se apaixonou
por uma personagem do romancista Henry James que transgrediu os
códigos do século XIX e morreu de malária.
Foi também Kit Mollesby, personagem de um romance baseado
na vida de Jane Fowles, uma escritora lésbica e doida. Atualmente
chaina-se Dita, de Dita Parlo, atriz alemã do cinema mudo
que apareceu em Atalante, do diretor francês Jean Vigo.
Ela
é uma traficante de desejos entre dois mundos. Um é
o da barra-pesada do sul de Manhattan (e de todas as grandes cidades
do mundo), onde ela entrou nua numa pizzaria para fazer uma das
fotos de Sex. Para surpresa sua, não conseguiu chocar a clientela,
apesar de a dona da casa ter soado um alarme chamando a polícia.
Outro é o das livrarias elegantes da Quinta Avenida, onde
os curiosos com caixa pagam 50 dólares por uma injeção
de escândalo na veia. Para o primeiro dos mundos o seu tipo
é comum, mas no segundo pagam-se milhões de dólares
para ver num álbum o que vem a ser o cotidiano proibido da
noite de uma cidade. Num desses mundos há pouca vergonha
e pouco dinheiro. No outro há muita vergonha, muita curiosidade
e muito medo. Enquanto eles existirem, Madonna viverá para
sempre, cada vez com mais sucesso, mais dinheiro e mais inimigos.
Na
festa de lançamento de Sex, num porão capaz de assustar
o marquês de Sade, do qual ela escapuliu quando achou que
a barra estava muito pesada, perguntaram-lhe qual será o
seu próximo lance. Sua resposta foi típica da rapidez
com que choca as platéias, inclusive sadomasoquista: "Vou
ser mãe". Na verdade Madonna não tem a menor
idéia do que poderá vir a ser. Poderia andar por Paris
com um garotão amarrado na cintura, como fez a cantora Edith
Piaf, ou morar num castelo da Escócia como o ex-beatle Paul
McCartney. Que tal treinar para assumir a presidência da Disney?
"Nenhuma dessas possibilidades me interessa."
Na
quarta-feira da semana passada, envolta numa echarpe de plumas rosa
e chupando um picolé vermelho, Madonna falou a VEJA.
VEJA
- Você é a artista mais famosa do mundo e também
a mais censurada de todos os tempos. Essa repressão destina-se
a domesticá-la. Por que você não baixa a bola?
MADONNA
-
Eu sou censurada porque prefiro mostrar a verdade e a verdade incomoda.
A idéia de me conformar não me passa pela cabeça.
Faço o que eu quero e vou continuar a fazer. Os artistas
não devem se conformar. Quer saber de uma coisa? Essa questão
nem me preocupa.
VEJA
- Você põe medo nas pessoas. Seu comportamento, sua
sexualidade, sua nudez e até mesmo suas roupas amedrontam.
Por quê?
MADONNA
-
Não sei, nem sou eu quem tem que saber. Eu faço minhas
coisas a sério. Não sou eu quem tem que explicar a
reação dos outros. As coisas que eu faço não
são estranhas e eu sempre fui como sou. Nunca pedi desculpas,
nem vou começar a pedir. Pelo contrário, não
vou parar minha luta.
VEJA
- E qual é sua luta?
MADONNA
-
Contra o racismo, o sexismo, a perseguição contra
homossexuais, o preconceito, a ignorância.
VEJA
- Na última frase do seu livro você diz que "muita
gente tem medo de dizer o que quer e é por isso que eles
não conseguem o que querem". Esse medo é o mesmo
em todas as áreas da sociedade?
MADONNA
- O
mesmo, de alto a baixo. Há muita repressão, muita
mistificação.
VEJA
- Você não acha que há muita gente lhe rogando
praga? De vez em quando circula o boato de que você está
com Aids.
MADONNA
- Acho
que há muita gente querendo que eu dê um mau passo,
de qualquer tipo. É gente que no fundo tem medo de mim e
finge que pensa que eu vou morrer. Digo que fingem porque no fundo
o que eles têm é apenas medo. Podem ficar esperando.
VEJA
- Você vai morrer?
MADONNA
-
Eu?
VEJA
- É.
MADONNA
-
Vou viver 300 anos.
VEJA
- O que você acha da princesa Diana?
MADONNA
-
Eu tenho pena do que fazem com ela. Todo mundo pega no pé
dessa moça. Ela não é uma artista, é
uma princesa. Casou com um sujeito para ter e criar filhos. Carcaram-na
de tal maneira que ela vive numa situação terrível.
Tudo o que se escreve sobre ela é ruim, perverso. Deviam
deixá-la em paz.
VEJA
- Mas escreve-se sobre o que de fato acontece com ela.
MADONNA
-
Coisa nenhuma. Se fosse assim de vez em quando apareceriam notícias
boas, dizendo que ela estava feliz. Nada. Só se vê
coisa ruim, Isso acontece porque as pessoas têm uma vida ruim
e querem achar ruindade na vida alheia.
VEJA
- Quem? Os jornalistas ou os leitores?
MADONNA
- As
pessoas que ficam procurando desgraça na vida dos outros
para compensar a própria infelicidade. Você sabe muito
bem que notícia boa não vende jornal nem revista.
VEJA
- Você diz que todas as revistas do mundo já publicaram
mentiras a seu respeito. Dá para tirarmos algumas dúvidas?
MADONNA
-
Quais?
VEJA
- Você sai de limusine pela noite pegando garotos no sul de
Manhattan?
MADONNA
-
Mentira.
VEJA
- Você já passou uma noite com Michael Jackson, os
dois nus comendo pipocas e vendo vídeos à luz de velas?
MADONNA
-
Mentira.
VEJA
- Você já foi sem calcinha a um desfile de modas de
Jean-Paul Gaultier e sentou-se na primeira fila, com a saia levantada?
MADONNA
- Mentira.
VEJA
- Você é lesbica?
MADONNA
-
Mentira.
VEJA
- Você gosta de apanhar, de levar tapas?
MADONNA
- Verdade.
VEJA
- Que sensações as palmadas lhe dão?
MADONNA
- Não
é da sua conta.
VEJA
- Você diz que a sociedade americana perdeu o senso de humor.
Quando foi que isso aconteceu?
MADONNA
- Quando
os puritanos desembarcaram do Mayflower, no século XVII.
Essa sociedade nunca teve senso de humor e não o tem hoje
porque não tem história. A América é
uma coisa muito jovem e burra para chegar a ser engraçada.
As pessoas pensam muito pouco em viver a vida. Passam muito tempo
correndo atrás de falsas questões. Como é que
você consegue desenvolver um senso de humor vivendo assim?
VEJA
- A sociedade italiana é muito mais velha e lá você
foi mais perseguida que aqui.
MADONNA
-
Em primeiro lugar na Itália há o Vaticano e as pressões
da Igreja Católica. Não se engane: os italianos gostam
muito mais da vida.
VEJA
- Qual a percentagem de americanos que consegue viver direito?
MADONNA
-
É pequena, não passa de 20%.
VEJA
- Por quais razões você acha que a sociedade americana
vai mal?
MADONNA
- Porque
nela não se diz a verdade e porque as pessoas não
se divertem, não vivem a vida com prazer. É um problema
que começa na infância e vai adiante no processo educacional.
As pessoas são educadas para terem medo de tudo. Há
medo demais por aí.
VEJA
- Você se diverte?
MADONNA
-
Muito.
VEJA
- Se você fosse homem a baixaria contra seu trabalho seria
a mesma?
MADONNA
-
Não posso saber, porque não sou homem, mas acho que
seria bem menor.
VEJA
- Quanto?
MADONNA
-
Digamos que ela seria um quinto do que é. É um palpite
razoável.
VEJA
- A obscenidade existe?
MADONNA
-
Existe e está diante das nossas caras. É o racismo,
a discriminação sexual, o ódio, a ignorância,
a miséria. Há coisa mais obscena que a guerra?
VEJA
- No seu livro você diz que é Dita Parlo, uma atriz
do cinema mudo francês. Quem é Dita Parlo?
MADONNA
-
É uma mulher que gosta da vida e da liberdade, uma persona,
uma mulher fatal, uma fantasia.
VEJA
- No seu próximo filme, Body of Evidence, você mata
um homem de tanto levá-lo para a cama. A pancadaria contra
Madonna já começou. Estão dizendo que as cenas
de sexo e de masturbação vêm a ser dignas de
uma estrela.
MADONNA
-
Devagar. Eu não mato ninguém. Sou acusada de matar.
Ou melhor, sou acusada de provocar o ataque cardíaco que
mata o sujeito. Eu acho que não foi minha culpa. Quanto à
discussão das cenas, é uma conversa velha, mas ninguém
disse que Marlon Brando não podia filmar as cenas de sexo
de último Tango em Paris porque era um astro.
VEJA
- No filme O Diabo no Corpo, do diretor italiano Marco Bellhocchio,
a atriz holandesa Maruschka Detmers decidiu fazer sexo oral com
um parceiro em cena aberta...
MADONNA
- Grande
cena.
VEJA
- Pode-se esperar que você faça coisa parecida em breve?
MADONNA
-
Euuuu?
VEJA
- É.
MADONNA
-
Nem pensar. Não vou fazer uma coisa dessas. Aliás,
nem preciso. Eu sei representar que estou transando sem precisar
transar. Aliás, será que para fazer o papel de uma
assassina eu preciso matar o ator? O artista finge.
VEJA
- Como se pode entender que as suas fantasias sexuais estejam cheias
de couros, metais e chicotes e você diga que não faz
sexo oral porque considera a situação humilhante para
a mulher? A cena do filme Na Cama com Madonna em que você
enfiou uma garrafa de água mineral na boca está na
cabeça de todas as platéias do filme.
MADONNA
-
Eu disse isso?
VEJA
- Disse, numa entrevista à revista Rolling Stone.
MADONNA
-
A cena da garrafa foi uma brincadeira. Eu estava simulando a prática
de sexo oral. Era fantasia, não me leve a sério.
VEJA
- O que você quer dizer em seu livro quando informa que tem
um "falo na cabeça".
MADONNA
- Eu
não quero dizer nada, quem diz isso é Dita Parlo.
VEJA
- Mas aqui nesta sala a única pessoa que se comunica com
Dita Parlo é você.
MADONNA
- Certo.
O falo é associado à masculinidade, à força
guerreira. Eu tenho essas características na minha cabeça,
não preciso tê-las entre as pernas. A minha masculinidade
é cerebral.
VEJA
- Você gosta dessa masculinidade?
MADONNA
- Gosto,
assim como gosto da feminilidade.
VEJA
- No seu livro há uma série de conselhos de sedução
feminina: não ir para a cama nos primeiros cinco encontros,
bom perfume, ligas e uma situação inesperada em cada
ocasião. Que mais?
MADONNA-
Olhar no olho sempre que possível. Tocar.
VEJA
- Começando por onde?
MADONNA
-
Pelo rosto.
VEJA
- No seu tempo de garota você não contava tudo o que
fazia nem ao padre-confessor. Hoje você diz que ninguém
sabe quem é Madonna nem ninguém saberá. Mesmo
assim, há dez anos você achava que seria o que é
hoje?
MADONNA
-
Há dez? Eu sou a mesma pessoa desde os 5 anos de idade.
VEJA
- Qual você acha que foi o maior homem da vida de Marilyn
Monroe: Joe di Maggio, Arthur Miller, John Kennedy ou Robert Kennedy?
MADONNA
- Foi
o pai dela.
VEJA
- O que você acha de Marlene Dietrich ter tido um caso com
o general George Patton, comandante dos tanques americanos durante
a II Guerra, verdadeiro arquétipo do machão?
MADONNA
-
E por que não?
VEJA
- Você gostaria de fazer o papel de Evita Perón. Não
lhe constrange o fato...
MADONNA
-
De Perón ter sido um fascista?
VEJA
- Ele fascista e ladrão, ela uma demagoga.
MADONNA-
De maneira nenhuma. Ela é uma figura muito importante. Quando
um personagem tem um lado ruim, isso não significa que deixe
de ser fascinante. Evita Perón é um personagem fantástico.
Muitas pessoas têm os seus defeitos e apesar disso não
chegam a ser sequer interessantes.
VEJA
- Em 1989 quando lhe entregaram o troféu de Artista da Década,
você o lambeu. Pode-se esperar que algum dia na cerimônia
de entrega dos prêmios da academia você lamba um Oscar?
MADONNA
- Não
me lembro desse caso. Quem será que me deu o título
de Artista da Década? Bem, eu não lamberia o Ocear.
Eu o esfregaria, para que ele beijasse o meu bundol.
VEJA
- No seu livro há uma fotografia na qual você está
numa numa pizzaria. Sua equipe teve que sair logo porque a dona
chamou a polícia, apesar de a freguesia não ter dado
muita importância à chegada da moça nua. Quando
você entrou, o que achava que ia acontecer?
MADONNA
- Eu
achava que ia comer uma pizza.
VEJA
- Mas mesmo em Nova York não é comum uma mulher entrar
numa pizzaria só com sapatos de salto alto pretos.
MADONNA
-
Eu achava que ia ganhar uma pequena quantidade de pizza e uma grande
quantidade de atenção.
VEJA
- Por que você não foi à televisão?
MADONNA
- Porque
é chato. Você vê televisão nos Estados
Unidos? É uma coisa chatíssima.
VEJA
- O que você acha de Hillary Clinton?
MADONNA
- Ela
devia parar de pedir desculpas por ser uma mulher com uma carreira
própria.
VEJA
- Você começou a comprar quadros da mexicana Frida
Kahlo, mulher de Diego Rivera, antes que ela se transformasse num
ícone de feminismo e suas obras começassem a ser vendidas
a mais de 1 milhão de dólares. Depois você disse
que pretendia filmar a vida dela. O que você quer, libertar
Frida Kahlo da vida atormentada que ela viveu ou quer vingá-la?
MADONNA
- Quero
mostrar o triunfo dela sobre o acidente que a levou a passar por
dezenas de cirurgias e a ammarou a uma cadeira de rodas.
VEJA
- Mas triunfo mesmo ela só teve depois de morta.
MADONNA
-
Pois quero mostrar isso também. A vida de uma grande mulher,
seu sofrimento, sua glória.
VEJA
- Imagine que você fosse Gregor Samsa, o personagem de Franz
Kafka. Um dia você acorda e virou um inseto, talvez uma barata.
O que você faria?
MADONNA
- Primeiro
eu ia procurar um lugar onde ninguém pudesse me pisar. Depois
ia ver se achava outros insetos no pedaço. Ia procurá-los
e acabaria encontrando-os. Então, a gente faria uma boa turma
e iria se divertir.
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