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Reportagem
publicada em 13/6/1990
Sexo,
som e ambição
Em
disco, no palco e nas telas, Madonna lança
um ataque total aos anos 90 com a mais explosiva
de suas misturas de escândalo e ousadia
Incautos,
preparem-se. O furacão loiro vem aí. Mesmo para quem
tenha passado os últimos sete anos em Marte ou em estado
de privação dos sentidos, desta vez vai ser impossível
não sentir o seu sopro movido a sexo, som, fúria,
escândalo e dinheiro, muito dinheiro. Não há
como escapar. Furacões costumam varrer o mundo dos espetáculos
quando um cantor de primeira grandeza faz uma megaturnê ou
lança um disco que muda o equilíbrio de forças
nas paradas de sucessos. Ocorrem também quando um filme bate
recordes de bilheteria e se torna mania entre milhões de
espectadores em dezenas de países. Ou ainda quando algum
artista, pelo estilo ou pelo comportamento, atinge o auge absoluto,
aquele em que se torna famoso simplesmente por ser famoso. O furacão
que sopra sobre o mundo nas últimas semanas reúne
tudo isso na pele alva e no 1,63 metro de corpo musculoso de uma
única artista: a cantora, compositora, atriz, evento e rebelde
de plantão Madonna Louise Veronica Ciccone, conhecida e festejada
pelas sete primeiras letras de seu nome emblemático, a estrela
de 31 anos que se transformou no maior fenômeno do mundo pop
desde que Michael Jackson explodiu como uma supernova em 1982.
Vulgar
como sempre, mais escandalosa do que nunca, atrevida, sensual, a
profana loiraça-satanás ataca em quatro frentes quase
simultâneas, de forma que uma dá impulso à outra
e todas se concatenam numa vasta máquina de fazer sucesso.
Haja fôlego para agüentar o pique:
- No
disco, o LP I'm Breathless foi lançado no Brasil e, nos Estados
Unidos, aterrissou direto na lista dos mais vendidos. É o
melhor da carreira de Madonna, com as músicas do filme Dick
Tracy, cuja estréia para o público americano está
marcada para esta sexta-feira.
- No
cinema, adivinhem quem tem o principal papel feminino de Dick Tracy?
O filme é a versão hollywoodiana do famoso detetive
das histórias em quadrinhos.e promete ser o Batman de 1990.
Espremida nos decotes vertiginosos da cantora de cabaré Breathless
Mahoney, Madonna é a grande atração para o
público que nunca ouviu falar no detetive nem em seu intérprete
nas telas, o cinqüentão Warren Beatty. A estréia
no Brasil está prevista para o meio de julho.
- No
palco, as músicas do disco e do filme foram reunidas no show
Blond Ambition - Ambição Loira, um trocadilho com
a expressão blind ambition, ambição cega. Valem
as duas versões. A turnê mundial começou numa
sexta-feira 13 de abril, em Tóquio, no meio de uma tempestade
provocada por um tufão. Não se poderia imaginar condições
meteorológicas mais apropriadas. Em sua passagem pelo Canadá,
há duas semanas, o show contou com a participação
especial da polícia, chamada para verificar in loco as cenas
de provocação explícita apresentadas no palco.
- No
vídeo, uma das faixas do disco, Vogue, alimenta esse monumental
esquema de promoção e lançou um novo estilo
de dança, do tipo que de tempo em tempo vira modismo. Os
concursos de voguers já começaram.
TANQUE
DE GUERRA - O público brasileiro poderá sentir um
gostinho das novidades apresentadas pelas superproduções
de Madonna, com a chegada às lojas do LP I'm Breathless.
Se seguir os anteriores, mais de 600 000 brasileiros deverão
levar o disco para casa. Madonna e o cantor espanhol Julio Iglesias
são os artistas internacionais que mais discos venderam no
Brasil nos últimos anos. A loira que sobe ao palco de sutiã
costuma empatar com sua atenuadíssima morena nacional, Simone,
uma estrela do primeiro time, e, embora não alcance as supercifras
dos recordistas, bate muitos brasileiros que brilham nas paradas
de sucessos. Apesar de impressionantes, os números do Brasil
são uma ínfima gota de vinil diante da montanha de
68 milhões de discos que Madonna já vendeu no mundo
inteiro, atrás, entre os artistas da ativa, apenas dos 130
milhões de Michael Jackson e dos 115 milhões de Julio
Iglesias.
"Sou
um tanque de guerra em miniatura que cruza o mundo e para quem só
interessam a vitória e a competição",
define-se Madonna, numa típica declaração da
Material Girl, a garota ambiciosa que assume em uma de suas mais
conhecidas encarnações. Cantora sem cérebro
de cantora, que planeja cada passo de sua carreira com o raciocínio
estratégico e um general de campo e a sede de batalha de
Atila e Gêngis Khan, juntos, Madonna deixa para a concorrência
os ingredientes mais abstratos do sucesso, como talento e a espera
humilde de uma chance. Ela não se conta entre as 100 melhores
cantoras do mundo, seus discos não seriam classificados de
obras-primas por qualquer padrão que se usasse e, como atriz,
Madonna está para Hollywood assim como uma Lídia Brondi
ou uma Isabela Garcia estão para a Rede Globo - tem encanto
natural, não compromete, mas também fica longe de
brilhar. Madonna, no entanto, é um caso único no universo
pop de formação recente.
GAROTA
DE PROGRAMA - Quando muita gente aposta que ela vai protagonizar
mais um caso de sucesso meteórico, fadado a se esfarelar
na temporada seguinte, ela volta com cara nova, fôlego redobrado,
louca como nunca para brilhar e magnetiza platéias ainda
maiores. Para isso, há uma explicação: por
trás daqueles meigos olhos azuis e dos músculos de
halterofilista, da mistura registrada de sensualidade com atletismo,
existe uma conjunção astral que catapulta para o alto
tudo o que ela toca. Para começar, Madonna cultiva como nenhuma
outra estrela da constelação
pop a palavra-chave do comportamento nos anos 80: atitude. Há
sete anos, quando irrompeu no cenário do show business, era
difícil acreditar que uma garota de origem italiana com um
fiozinho de voz, sutiã exposto sob blusas transparentes e
uma tonelada de balangandãs pendurados nos braços
e pescoço pudesse ser mais do que uma onda passageira. Os
pais detestaram todos os nacos de carne expostos nos intervalos
entre a minissaia e o bustiê, a maquilagem exagerada, os cabelos
endiabrados - mas as filhas adoraram. Em pouco tempo, legiões
de mini-Madormas brotaram nas cidades americanas, desfilando uma
sensualidade ostensiva de provocar arrepios nas feministas históricas
e histerias femininas tradicionais. A partir daí, estava
consagrado o estilo Madonna, intemacionalizado num filme despretensioso,
Procura-se Susan Desesperadamente, em que a estrela em ascensão,
segundo a definição da crítica de cinema Pauline
Kael, se movia como "uma indolente
deusa das sarjetas", com pose de rainha e roupas de garota
de programa.
A coisinha
sexy e descabelada da fase inicial logo tratou de mergulhar mais
ainda no espírito do tempo, transformando-se na Material
Girl da música de seu maior sucesso, a mulher que quer tudo
- dinheiro, prazer e fazer o que lhe dá na cabeça.
Nada mais de acordo com uma década em que a palavra mais
pronunciada foi ganância, no sentido positivo. Madonna virou
o retrato perfeito dos anos 80, a femme fatale do fim do século.
Ambiciosa, atrevida, louca pelo poder e pela aclamação
das massas, uma máquina de fazer dinheiro em forma feminina
- forma esculpida até os limites máximos da massa
muscular em sessões diárias e obsessivas de malhação.
O caminho estava consolidado e Madonna, imprimida na memória
coletiva, não pelas suas pouco generosas qualidades musicais,
mas pelo atrevimento de bancar as próprias idéias,
de surpreender com gestos e palavras, de se renovar, mudar, ousar
outros caminhos.
CABARÉ
MECÂNICO -A ponta mais vísível desse bem-sucedido
complexo de camaleão é a verdadeira revolução
que Madonna opera em seu visual a cada cinco minutos. É praticamente
impossível se enxergar a mesma Madonna em duas fotografias
diferentes. Com a facilidade com que troca de camisa, ela fica loira,
ruiva, morena, loira de novo - a tonalidade preferida, obtida a
poder de sessões de tintura que, segundo seu cabeleireiro,
ainda vão acabar lhe custando as melenas. O cabelo cresce,
encurta, ganha apliques, cachos. Nos primeiros shows de sua carreira,
ela tanto podia estar vestida de noiva quanto de soldado. Madonna
já incorporou loiras fatais como Marilyn Monroe e Jean Harlow,
duas referências constantes, e criaturas andróginas,
vestidos rodados dos anos 50 e dançarinas de flamenco.
Depois
de tantas experiências, ela chegou aos modelos do show de
sua turnê atual, certamente os mais extravagantes de todos
os que já passaram pelos palcos do rock. As roupas são
uma mistura dos figurinos dos filmes Laranja Mecânica e Cabaré
com os trajes que aparecem nos anúncios especialmente dirigidos
a cavalheiros de preferências pouco ortodoxas, daqueles que
se arrepiam todos ao zunido de um chicote. Numa paródia de
si mesma, Madonna estufa os seios já fartos com sutiãs
cônicos, aperta-se em corpetes, enfia a cinta-liga sobre um
terno de risca de giz. "É uma mistura muito sexy de
feminilidade com um toque masculino, uma mistura que se parece muito
com Madonna", diz Jean-Paul Gaultier, o enfant terrible da
alta costura francesa e figurinista de Blond Ambition, cujo encontro
com a atleta sensual do rock era tão inevitável como
o de dois contra-torpedeiros numa piscina - ambos compartilham a
mesma perversa predileção pela extravagância
e o exagero.
PANCADARIA
- Metida nesses figurinos alucinados, Madonna desfila por cenários
como um templo grego transformado em igreja, um salão de
baile dos anos 30 e, claro, uma cama. Enorme, forrada de lençóis
vermelhos, na compahia de sete brutamontes. A música que
sai de sua garganta é Hanky Panky, um rock onde ela professa
uma determinada predileção sexual, de forma tão
direta e inocente que faria Nelson Rodrigues corar. Foi esta cena
que os policiais de Toronto viram-se convocados a espiar, sugerindo
à produção do show que a suprimisse. Como uma
Valquíria dos direitos das mulheres que gostam de um certo
jogo duro no calor da batalha, Madonna explicou ao público
o que acontecia nos bastidores e provocou: "Vocês acreditam
em liberdade de expressão?" Todo mundo, ou pelo menos
a maioria das 30 000 pessoas presentes, gritou que sim. O show continuou.
A controvérsia
deflagrada no Canadá continuou dias depois em Nova York,
numa entrevista de televisão. O apresentador Arsenio Hall
perguntou se a mulher da música Hanky Panky é uma
personagem autobiográfica. Madonna metralhou de volta sugerindo
que Hall teria mantido um relacionamento amoroso com o ator Eddie
Murphy, seu companheiro no filme Um Príncipe em Nova York.
A baixaria esquentou. O apresentador trouxe à tona a boataria
desatada pela própria Madonna quando, em outro programa de
televisão, desfilou em companhia de uma de suas melhores
amigas, a atriz cômica Sandra Bernhard. Madonna disse na época
que as duas freqüentavam um bar de lésbicas em Nova
York. Sandra, mais específica, garantiu que já tinha
freqüentado não só o bar como a cama da amiga
e de seu marido, o ator Sean Penn, de quem a cantora se divorciou
em meio a rumores tétricos de pancadarias domésticas.
Madonna ficou furiosa e respondeu de volta. A certa altura, ninguém
sabia mais quem estava dormindo com quem ou apanhando de quem. "Ela
me desmoralizou na frente de milhões de espectadores",
queixou-se Hall, depois do programa.
DELÍCIAS
DO PODER - Plantar e administrar polêmicas é uma das
principais atividades da outra mulher que existe por trás
da estrela: a aplicada e competente administradora, a Madonna S.A.
Ao contrário dos artistas que entregam a gerência de
suas carreiras a empresários, Madonna dirige pessoalmente
as três firmas que cuidam de seus negócios: a Boy Toy,
no campo da música, a Siren, encarregada dos contratos e
direitos cinematográficos, e a empresa especializada em vídeos,
que atende pelo sugestivo nome de SlutCo - slut é um dos
sinônimos, em inglês, para prostituta. Ela tem sob seu
controle centenas de funcionários e não hesita em
pôr a mão na massa - uma tremenda massa. Nos últimos
quatro anos, a garota materialista faturou 90 milhões de
dólares. "É maravilhoso ter poder. Eu lutei por
isso a vida inteira. Acho que é exatamente isso que todo
ser humano quer-, diz o furacão loiro.
Como
sinais ostensivos das delícias do poder, Madonna tem um Mercedes
560 SL preto e um Thunderbird 1957 coral na garagem, fincada no
topo do topor das colinas de Hollywood, a morada das estrelas. A
mobilia é italiana, do século XVIII. Em cima da lareira,
um Léger. Pelas outras paredes, uma coleção
de fotógrafos famosos, um quadro de Diego Rivera e dois de
sua mulher, Frida Kahlo, a atormentada mexicana que Madonna sonha
em interpretar nas telas do cinema.
A italianinha
de Bay City, Michigan, chegou lá - e não tem a menor
intenção de desocupar a vaga. O ataque multimídia
em quatro frentes - disco, vídeo, show e filme - é
a prova de que Madonna nem pensa na hipótese de se transformar
em ícone dos anos 80 e deixar passar em branco a nova década.
A moda das viragos musculosas já se esfumou, a ganância
voltou a ser uma palavra feia, os analistas de tendências
garantem que se vive tempos de introspecção e modéstia,
a Aids continua a empurrar o sexo para as paredes do lar. Enfiada
em seu visual do momento, Madonna, no entanto, permanece a beldade
beligerante, atrevida, ousada, uma sensualidade agressiva, a menininha
que pede colo uma hora e na outra arranca a dentadas a mão
que a afaga. É impossível prever se a fórmula
vai continuar a dar certo nos anos 90. Caso não funcione,
pode-se ter certeza de que ela aparecerá com uma novidade
enorme, exagerada, escandalosa.
SUBSTÂNCIAS
OLEOSAS - Se o escritor americano Norman Mailer estava certo quando
descreveu Marilyn Monroe como um "stradivarius do sexo",
referindo-se ao maiscaro e perfeito dos violinos, Madonna deveria
ser chamada de o trombone do erotismo. Ou todos os metais da orquestra
da sensualidade desde que cada um tocasse uma música diferente
e desafinassem todos ao mesmo tempo. Madonna imita Marilyn, mas
os tempos mudaram, e radicalmente, quanto ao apelo erótico
das artes e dos espetáculos para o grande público.
Enquanto o mito sexual dos anos 50 se apoiava na ingenuidade juvenil,
nos trejeitos, no sorriso e na voz inocentes (a cena em que um exaustor
lhe levanta o vestido no filme O Pecado Mora ao Lado é o
emblema dessa situação), a roqueira calca firme na
sexualidade perversa, trombeteada em gestos e letras explícitas.
Na
verdade, a inocência que Marilyn aparentava nas telas tinha
como substrato um sem-número de histórias e boatos
sórdidos que circulavam a seu respeito nos bastidores de
Hollywood e na imprensa marrom. Na vida privada, dizia-se, Marilyn
era uma voraz devoradora de homens, uma ninfomaníaca pecaminosa
que participava de orgias incessantes e trocava de amantes e maridos
com a velocidade que se embebedava e drogava. Com Madonna acontece
quase o contrário. Nos shows de sua atual turnê, ela
canta vestindo lingerie estilizada, se enrosca em guapos mancebos
besuntados de substâncias oleosas, simula masturbar-se em
êxtase e berra palavrões enquanto profana símbolos
do catolicismo. Nas entrevistas e fotos, a garota materialista se
farta de realçar os lábios carnudos, a voz lúbrica
e é pródiga em fazer alusões à sua sensualidade.
Já na vida privada, ela administra sua sexualidade como uma
executiva de grande empresa cuida de seus negócios. Seu suposto
romance com Warren Beatty, por exemplo, parece mais uma fusão
de empresas que um romance. Em termos de afirmação
de imagem sexo-satânica, fazendo rodar por tabela a caixa
registradora, nada melhor que um namoro entre Beatty - o legendário
garanhão hollywoodiano, hoje com bem-vividos 53 anos - e
a roqueira de pélvis perversa.
DIVAS
VARONIS -De Marilyn a Madonna, o reino das artes transformou a farra
íntima em espetáculo público. O pecado insinuado
nos corredores virou cena estilizada no palco. De sussurrado em
rumores, sexo passou a ser gritado em clipes, shows e discos. Essa
passagem foi realizada cipalmente através do rock. Dos requebrados
cândidos de Elvis Presley chegou-se à lubricidade de
Mick Jagger, às tortuosidades andróginas de David
Bowie, Michael Jackson e, na apoteose, à vulgaridade atroz
de Madonna. Onde iremos parar?, perguntam os velhos, os sensíveis,
os caretas e os delicados. Os filósofos Theodor Adorno e
Max Horkheimer forneceram uma pista ao analisar a indústria
cultural americana nos anos 40 e 50, enfatizando a pasteurização
lancinante da produção média de Hollywood.
"Durante séculos a humanidade se preparou gostar de
Victor Mature e Mickey Rooney", ironizaram, horrorizados, os
filósofos da Escola de Frankfurt. Pois durante séculos
a humanidade se preparou para chegar ao rock - e o rock atapetou
com sutiãs esquisitos a passarela que levou Madorina à
glória. Outras divas varonis virão, vocês verão.
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