|
Estado
do Mundo 2003
Capítulo
1
Uma
História do Nosso Futuro
Chris
Bright
Cerca
de 40 a 50.000 anos atrás, alguns povos do Oriente Médio
desenvolveram um tipo de ferramenta que, aparentemente, disparou
uma expansão radical da mente humana. Ou, para ser mais cuidadoso,
talvez esta ferramenta não tenha conseguido isto por si só
- o fator crítico pode ter sido uma nova forma de pensar
ferramentas. Ou talvez até uma nova forma de pensar em geral.
Seja o que for, esses povos pré-agrícolas da Idade
da Pedra aparentemente inauguraram o primeiro episódio de
uma mudança social, em larga escala, na história de
nossa espécie.1
Até
que suas inovações os destacassem, esses povos compartilhavam
uma cultura geral que prevaleceu sobre a maior parte do Velho Mundo
habitado. As principais tecnologias dessa cultura geral foram o
uso do fogo e um conjunto relativamente simples de instrumentos
feitos de lasca de pedra. Este conjunto foi o produto de quase 2,5
milhões de anos de desenvolvimento. Seu aperfeiçoamento
ocorreu num ritmo insuportavelmente lento, pelos nossos padrões
modernos - tão lento que poderia se assemelhar à mudança
evolucionária. Pode-se até argumentar que o conjunto
evoluiu mais vagarosamente do que a humanidade, uma vez que passou
de mão em mão por pelo menos duas das nossas espécies
precursoras (Homo habilis e H. ergaster) antes de chegar às
nossas mãos.
Durante
todo esse tempo, o conjunto sofreu apenas uma mudança significativa:
a transição, há cerca de 1,7 milhões
de anos, de cortadores e raspadores toscos desenvolvidos pelo H.
habilis, para os instrumentos de pedra maiores, e mais especializados,
do H. ergaster. Uma outra grande mudança, há cerca
de 250.000 anos, introduziu a tecnologia da lasca de pedra, herdada
por aqueles povos do Oriente Médio. Três espécies
humanóides, 2,5 milhões de anos e apenas dois grandes
períodos de aprimoramento parecem parcos indicadores de um
programa de domínio do planeta.
O que
esses povos do Oriente Médio conseguiram foi romper aquele
ritmo evolucionário lento de desenvolvimento tecnológico
e criar uma abertura para o aceleramento de mudanças. Conseguiram
isto, essencialmente, talhando lâminas da pedra. Em geral,
estas ferramentas em forma de lâminas eram maiores do que
as de lascas, com desenho mais apurado. Esta nova
tecnologia
é conhecida como aurinhaciana, conforme a gruta rochosa de
Aurignac, nos Pireneus franceses, onde foi originalmente identificada
por antropólogos. As lâminas aurinhacianas são
artefatos simples de dimensões modestas - uma lâmina
grande pode medir 14 centímetros de comprimento. Mas são
belas, eficientes e, às vezes, um pouco ameaçadoras.2
Dispomos
apenas de uma ou talvez duas
gerações
para nos reinventar
Por
razões que continuam obscuras, esta tecnologia ampliou-se
rapidamente. Criando uma vasta expansão da vida social e
cultural. O conjunto de ferramentas propriamente dito veio a incluir
mais e mais equipamentos novos e especializados, como agulhas de
marfim, pontas de lanças feitos de chifre de rena e cordas.
Instrumentos mais sofisticados encorajaram um comércio mais
extenso. Conchas do Mar Negro chegaram ao vale do Rio Don, 500 quilômetros
ao norte; âmbar do Báltico seguiu até o sul
da Europa. Flautas foram esculpidas de osso; a música havia
obviamente se tornado parte da vida. Uma arte visual complexa surgiu
pela primeira vez também, sob a forma de colares feitos de
osso, pinturas nas cavernas e esculturas em osso, pedra e marfim.
A inclusão de alguns desses colares e pinturas em funerais
humanos tornou-se prática generalizada - uma forte evidência
da emergência de religiões complexas. Todos esses acontecimentos
se iniciaram num espaço inferior a 10.000 anos, ou cerca
de menos da metade de 1 porcento de toda a vida anterior do conjunto
de utensílios de pedra. Num momento evolucionário,
sem qualquer precedente óbvio, a humanidade havia se reinventado.3
O desenvolvimento
da tecnologia aurinhaciana, que assinala a transição
da era paleolítica média para a superior é,
sem dúvida, a maior transformação pela qual
nossa espécie jamais passou. Todas as grandes transformações
que se seguiram - o desenvolvimento de instrumentos metálicos,
a agricultura e as várias revoluções industriais
da época mais recente - podem parecer mais dramáticas,
porém nenhuma parece conter uma divisão psicológica
tão profunda quanto a da transição aurinhaciana.
Os povos nos extremos dessas outras transformações
são seguramente humanos no sentido mais completo da expressão.
Porém o estilo de vida aparentemente muito simples e quase
estático da era pré-aurinhaciana, parece carente de
pelo menos uma característica essencial à formação
de todos os povos modernos: o hábito da inovação.
Neste sentido fundamental, a transição aurinhaciana
nos criou - não biologicamente, mas sim culturalmente.4
Por
ser um tipo de equivalente cultural ao "Big Bang" original,
a transição aurinhaciana pode apresentar perspectivas
importantes sobre nossa psicologia básica - e especialmente
sobre nossa capacidade de mudança. Infelizmente, todavia,
as causas da transição continuam obscuras, não
por falta de teorias. (Uma explicação, por exemplo,
evoca estresse ambiental: sabe-se que a transição
ocorreu durante uma época de instabilidade climática,
e a mudança climática poderia ter desafiado a criatividade
das sociedades em áreas onde os recursos se exauriam.)
Mas,
desviando das causas para as conseqüências, pode-se chegar
a algumas conclusões que poderiam ser úteis para entender
uma mudança social construtiva, em geral. Consideremos as
três características seguintes da transição
como um todo. Primeiro, a transição parecer ter gerado
um imenso "dividendo resolutivo": melhorou os aspectos
da vida que provavelmente tinham pouco a ver com o que porventura
tenha causado a onda inicial de inovação. Segundo,
a transição deslocou-se do simplesmente técnico
para se tornar profundamente cultural: aparentemente iniciou como
uma forma de fabricar ferramentas melhores, mas avançou para
as artes, comércio e religião. E terceiro, a transição
expandiu o mundo: criou novas formas de interpretá-lo - novas
formas de estabelecer um "contexto profundo" para a vida
social e individual como evidenciam, por exemplo, as magníficas
pinturas das cavernas que os povos da era paleolítica superior
nos legaram.
Os
Desafios a Enfrentar
O povo
que deslanchou essa transição viveu há, talvez,
2.500 gerações. Menos de 500 gerações
depois, a primeira grande cultura mundial já estava firmemente
implantada e o Homo sapiens se tornado algo mais do que apenas um
grande primata comum. Foi apenas um piscar de olhos no tempo evolutivo.
Nos, as gerações que hoje compartilham o planeta,
nos vemos frente ao desafio de inovar num nível que poderá
ser tão profundo quanto a conquista dos nossos ancestrais
distantes. Não dispomos, porém, do tempo de 500 gerações
para realizar tamanha façanha. A depender do grau de miséria
e empobrecimento biológico que estamos dispostos a aceitar,
dispomos apenas de uma ou, talvez, duas gerações para
nos reinventar. Uma piscada de um piscar de olhos. Consideremos
cinco das ameaças mais graves que os historiadores do futuro
poderão utilizar para definir nossa era.5
Primeiro,
nosso mundo é um no qual um número cada vez maior
de pessoas não dispõe de meios para manter um padrão
decente de vida. A população global hoje excede 6,2
bilhões, mais do dobro do que era em 1950, estando atualmente
projetada a atingir entre 7,9 e 10,9 bilhões até 2050.
Quase todo este acréscimo ocorrerá no mundo em desenvolvimento,
onde os recursos já estão sobre estresse agudo. Nesses
países, quase 1,2 bilhão de pessoas - quase um quarto
da população mundial - são classificados pelo
Banco Mundial como vivendo em "miséria absoluta."
Sobrevivem com menos de 1 dólar por dia, estando geralmente
muito vulneráveis a outras desgraças - seja sob a
forma de doença, seca ou falta de alimentos.6
Mundialmente,
cerca de 420 milhões de pessoas vivem em países que
não dispõem mais de terras agrícolas per capita
suficientes para cultivar seu próprio alimento. Essas nações
são forçadas a importar alimentos - uma forma arriscada
de dependência para os países mais pobres deste grupo.
Até 2025, a população dos países que
precisarão importar alimentos poderá ultrapassar 1
bilhão. A qualidade das terras agrícolas em muitos
países pobres também está em declínio;
acredita-se que aproximadamente um quarto das terras agrícolas
do mundo em desenvolvimento esteja significativamente degradado,
e ao longo dos últimos 50 anos a taxa de degradação
acelerou. Mas em muitos lugares, a maior ameaça não
será carência de terras, e sim carência de água.
Mais de meio bilhão de pessoas já vivem em regiões
propensas à seca crônica. Em 2025, este número
provavelmente terá quintuplicado, para 2,4 - 3,4 bilhões.
É verdade que existem ineficiências gigantescas e,
em grande parte, evitáveis no sistema atual de abastecimento
de alimentos e água, porém mesmo um provável
aumento mínimo da população, da ordem de 27
porcento ao longo do próximo meio século, dificilmente
incrementará estabilidade social ou ecológica.7
Uma
segunda ameaça: nosso mundo encontra-se sob uma profunda
mudança geoquímica. Certas formas de poluição
estão alterando os ciclos químicos globais que "regulam"
processos-chave do ecossistema. O ciclo do carbono é o mais
conhecido. Uma imensa quantidade de carbono que havia sido tirada
de circulação há milhões de anos - através
da absorção dos vegetais que, por sua vez, foram transformados
em carvão e petróleo - está sendo hoje re-introduzida
na atmosfera. As emissões anuais de carbono provenientes
da queima de combustíveis fósseis atingiram um volume
recorde de 6,55 bilhões de toneladas em 2001, elevando a
concentração atmosférica de dióxido
de carbono para 370,9 partes por milhão, o maior nível
registrado em, pelo menos, 420.000 anos e provavelmente em 20 milhões
de anos. Uma vez que o dióxido de carbono retém calor,
sua concentração cada vez maior provavelmente provocará
uma mudança climática acelerada.8
Os
ciclos do nitrogênio e fósforo, ambos reguladores importantes
do crescimento vegetal, estão sendo submetidos a uma ampliação
semelhante. O nitrogênio se torna biologicamente disponível
quando é convertido da sua forma elementar inerte, através
da "fixação" em moléculas que também
contêm hidrogênio e oxigênio. Isto ocorre naturalmente
pela ação de certos micróbios do solo e através
da queda de raios. Mas as atividades humanas incrementaram muito
o ritmo de fixação, principalmente através
da produção de fertilizantes, queima de combustíveis
fósseis e o cultivo generalizado de grãos que freqüentemente
têm colônias de micróbios fixadores de nitrogênio
em suas raízes. A destruição de florestas e
terras alagadas libera um grande volume de nitrogênio adicional,
já fixado, que havia sido seqüestrado em vegetais e
solos. No todo, as atividades humanas devem ter no mínimo
duplicado a liberação de nitrogênio fixo para
350 milhões de toneladas anuais. (Esta cifra não inclui
mudanças na parte marinha do ciclo do nitrogênio, ainda
não suficientemente conhecida.)9
O ciclo
do fósforo está sendo incrementado principalmente
pela produção de fertilizantes. O fósforo no
fertilizante origina-se em geral da extração mineral
- uma ampliação radical do processo natural de sua
liberação, através da desagregação
das rochas. A liberação anual de fósforo sofreu
aumento em sua taxa natural a um fator de 3,7, atingindo 13 milhões
de toneladas por ano.10
Uma
vez que ambos, fósforo e nitrogênio fixo, são
nutrientes vegetais, a presença em quantidades imensamente
maiores que as naturais pode provocar mudanças ecossistêmicas
profundas. Em ecossistemas aquáticos, esta poluição
por nutrientes conduz à eutrofização - denso
desenvolvimento de algas que causa obstrução da luz
solar e queda aguda dos níveis de oxigênio dissolvido.
No solo, a poluição por nutrientes pode homogeneizar
comunidades vegetais diversificadas ao encorajar um desenvolvimento
excessivo de espécies daninhas com melhor capacidade de absorverem
o excesso de nutrientes. Muito nitrogênio também predispõe
muitas espécies vegetais a doenças e ataque de insetos.
(Os vegetais, como as pessoas, podem ser "glutões.")
Sob certas formas, o excesso de nitrogênio fixo também
é um importante componente da deposição de
ácidos, mais conhecida como chuva ácida (embora grande
parte da poluição chegue sob a forma de gases e poeira,
ao invés de chuva ou neve). O efeito imediato da chuva ácida
é acidificar o solo e a água, mas também provoca
mudanças de longo prazo em solos que a tenham recebido de
forma crônica: lixivia cálcio e magnésio, nutrientes
vegetais essenciais, e libera alumínio da matriz mineral
que o mantém biologicamente inerte. O alumínio liberado
é tóxico para vegetais e vida aquática.11
Uma
terceira ameaça: nosso mundo está cada vez mais oprimido
pelos riscos de longo prazo associados a produtos químicos
tóxicos. Numa estimativa extremamente conservadora, por exemplo,
a produção global de lixo nocivo atingiu 300-500 milhões
de toneladas anuais. Dependendo da composição do lixo,
sua destinação final pode envolver condensação
(primeiro passo costumeiro da água contaminada), incineração,
reciclagem ou neutralização através de tratamento
químico ou biológico - todos com graus variados de
eficácia. Ou o lixo pode ser injetado em poços profundos
ou despejado em aterros, na esperança que permaneça
- pelo menos por tempo suficiente até que se torne problema
de outros. Obviamente, muitos materiais não classificados
como lixo nocivo - ou lixo propriamente dito - também são
grandes poluentes. Pesticidas, compostos anticongelantes utilizados
para descongelar as asas de aviões, arseniatos cuprosos na
madeira tratada para uso externo: consideramos cada um desses materiais
como produto e não lixo, porém, sob uma perspectiva
ambiental, isto é contabilidade falsa. Todos acabarão
ao ar livre, seja na sua forma original ou como produtos decompostos
(igualmente nocivos).12
Nossa
capacidade de rastrear os materiais que percorrem nossa economia
é muito superficial, fornecendo apenas uma vaga idéia
do insulto químico que estamos infligindo ao nosso mundo
natural - e aos nossos corpos. Mas, há boas razões
para achar que este insulto é gigantesco e crescente. Há,
por exemplo, evidências generalizadas da poluição
de aqüíferos (depósitos de água subterrânea)
por produtos petroquímicos, metais pesados, nitratos de fertilizantes
e outros produtos tóxicos. A poluição de aqüíferos
é uma questão grave pois eles freqüentemente
contribuem com mais da metade do volume de lagos e rios; são
também uma das fontes principais de água potável
e água de irrigação. Considerando que a água
circula muito lentamente pelos aqüíferos - sua renovação
completa leva, em geral, vários séculos - esta poluição
se torna irreversível.13
A composição
dos próprios poluentes, especialmente os sintéticos,
também é uma questão grave. Sabe-se que cerca
de 50.000-100.000 produtos químicos sintéticos estão
sendo produzidos, tais como plásticos, pesticidas, lubrificantes,
solventes, etc. Outros são criados involuntariamente, como
subprodutos industriais ou como produtos decompostos de materiais
manufaturados. Muitos sintéticos não são danosos,
mas já foi constatado que outros são extremamente
perigosos, mesmo em quantidades ínfimas. Câncer, imunodeficiência,
anormalidades hormonais e defeitos congênitos estão
entre os riscos associados a eles - tanto para a vida silvestre
quanto para as pessoas. Alguns desses produtos tóxicos se
bioacumulam - ou seja, contaminam seres vivos em concentrações
crescentes nos elos cada vez mais altos da cadeia alimentícia,
uma tendência que representa perigo especial a predadores
de alto-nível, como águias, cetáceos e nós
mesmos. Muitos produtos sintéticos são hoje penetrantes
em quantidades minúsculas, e muitos têm meias-vidas
medidas em centenas de anos. Assim, por muitos séculos futuros,
os próprios seres vivos serão um reservatório
de contaminação.14
Uma
quarta ameaça: nosso mundo está sujeito a um grau
sem precedentes de mistura biótica. Números crescentes
de organismos, de praticamente todos os tipos, se deslocam através
do sistema comercial global e surgem em regiões onde não
são nativos. Essas espécies exóticas viajam
na água de lastro dos navios, em material de embalagem, em
produtos de madeira natural, em embarques de produtos agrícolas
e por muitos outros meios. A maioria deles não sobrevive
em seus novos lares, porém uma pequena parcela consegue implantar
colônias. Quando uma espécie exótica não
encontra nada em seu novo lar que mantenha sua população
sob controle, pode cair numa farra reprodutiva. Dependendo de qual
tipo seja, uma espécie invasiva poderá privar as espécies
nativas de alguns recursos essenciais, propagar uma epidemia ou
atacar as nativas diretamente.15
Nosso
mundo está cada vez mais oprimido pelos riscos de longo prazo
associados a produtos químicos tóxicos.
O resultado
freqüentemente vai além da supressão das vitimas
imediatas das espécies exóticas para incluir outras
espécies que dependem, de alguma forma, dessas vítimas.
Por exemplo, a formiga argentina, altamente invasiva está
desalojando muitas espécies nativas de formigas em regiões
áridas dos trópicos e zonas temperadas quentes; a
perda das formigas nativas, por sua vez, suprime as espécies
vegetais que dependem delas para a polinização ou
dispersão de sementes. A uma certa altura, uma cascata de
efeitos ecológicos provocará mudanças profundas
na comunidade invadida através da simplificação
da sua estrutura, alterando seus ciclos de nutrientes e homogeneizando
sua composição de espécies. Embora não
haja estatísticas abrangentes sobre o problema, o desenvolvimento
do sistema comercial praticamente garante o crescimento dos níveis
de invasão. Mais e mais comunidades naturais diversificadas
no mundo estão sob ameaça de serem dominadas por um
número relativamente pequeno de organismos altamente invasores.16
E finalmente,
uma quinta ameaça: seja qual for a forma de mensuração,
nosso mundo está num estado constante de declínio
ecológico. As florestas tropicais primárias, em geral
os mais diversificados ecossistemas do planeta, estão desaparecendo
num ritmo que, provavelmente, excede 140.000 quilômetros quadrados
por ano - uma área quase do tamanho do Nepal. Toda a cobertura
florestal global, que hoje representa aproximadamente um quarto
da superfície terrestre do globo, excluindo a Groenlândia
e Antártida, pode já ter sido reduzida à metade,
desde os primórdios da agricultura. Cerca de 30 porcento
da floresta sobrevivente está gravemente fragmentada ou degradada
e, só nos anos 90, o declínio da cobertura florestal
global está estimado em mais de 4 porcento. Terras alagadas,
outro tipo altamente diversificado de ecossistema, encolheram em
mais de 50 porcento durante o último século.17
O que
parece perfeitamente comum após
o fato,
quase sempre pareceria como
um
milagre antes.
Recifes
de coral, os ecossistemas aquáticos mais diversificados do
mundo, estão sofrendo os efeitos da pesca predatória,
poluição, disseminação de epidemias
e do aumento das temperaturas da superfície marinha que muitos
especialistas relacionam à mudança climática.
No final de 2000, estimava-se que 27 porcento dos recifes de coral
do mundo estivessem gravemente danificados, contra apenas 10 porcento
em 1992. Em todos os oceanos, a pesca predatória está
causando um prejuízo ainda maior: cerca de 60 porcento dos
pesqueiros mundiais estão, hoje, sendo explorados no limite,
ou além, da sua capacidade - um convite para uma extensa
destruição ecológica. De acordo com a IUCN
- World Conservation Union, aproximadamente um quarto dos mamíferos
do mundo está ameaçado de extinção,
como também 12 porcento das aves mundiais. Não existem
dados abrangentes para outros grupos de organismos, mas em amostras
de outras classes de vertebrados, os níveis de perigo eram
igualmente altos: 25 porcento para répteis, 21 porcento para
anfíbios e 30 porcento para peixes.18
Milagres
Normais
Essas
avaliações de danos freqüentemente têm
algo de irreal por não ter nenhuma relação
óbvia com a vida comumente vivida - pelo menos pelos prováveis
leitores deste livro. Há várias razões para
esta desconexão. Em primeiro lugar, grandes economias tendem
a deslocar os efeitos maléficos do comportamento do comportamento
propriamente dito. Poucos de nós jamais se defrontaram com
lixo tóxico, degradação do solo ou extração
mineral ou madeireira insustentáveis, que apóiam nossos
padrões coletivos de consumo. Deve estar presente aqui também
um problema psicológico básico, uma vez que grande
parte da degradação ambiental não está
claramente visível. Seres humanos conhecem seus mundos, em
grande parte, baseados na visão; ameaças invisíveis,
especialmente as de longo prazo, não parecem afetar nossas
forças evolutivas.
De
forma mais genérica, é possível que nossa própria
adaptabilidade inerente, até certo ponto, funcione contra
nós - impedindo-nos de perceber a gravidade da situação.
Homo sapiens é o animal terrestre supremo, haja vista os
sucessos de nossos ancestrais distantes. O fogo e algumas ferramentas
simples de pedra foram todo o equipamento que necessitaram para
colonizar continentes inteiros. Somos uma espécie generalista
e não uma espécie especialista. Não somos como
pandas, sanhaços ou orquídeas. Somos mais como dentes-de-leão,
estorninhos e ratos. Não precisamos de um alto nível
de integridade natural para progredir - e aparentemente não
estamos predispostos a reagir com alarme à sua perda.
Porém
o maior obstáculo à nossa própria reinvenção
pode ser simplesmente um tipo de paralisia da esperança.
É possível perceber claramente que nossas economias
modernas são tóxicas, destrutivas em escala gigantesca
e tremendamente injustas -poder ver tudo isto e ainda ter dificuldade
para imaginar uma reforma eficaz. Não é que seja difícil
visualizar os caminhos que uma reforma teria que percorrer; nesta
altura, temos uma idéia razoavelmente clara de onde teremos
que chegar (pelo menos em nível técnico, quando não
em nível cultural). Na economia energética, por exemplo,
o caminho da reforma se distancia dos combustíveis fósseis,
direcionando-se para fontes renováveis, como a energia eólica
e solar. Na produção de materiais, distancia-se da
dependência primária na mineração e se
dirige a ciclos de reutilização contínua. No
comércio, o caminho presumivelmente conduziria a um compromisso
significativo com questões ecológicas, como bioinvasão
e sociais, como a perda de produção local. E nas relações
internacionais, o caminho poderia começar com um reconhecimento
do óbvio: construímos uma economia global que destina
um quarto da humanidade à miséria da pobreza absoluta,
enquanto os 20 porcento da parcela mais rica da população
mundial representam 86 porcento do consumo privado total. Mesmo
que descartemos os insultos à razão e ética,
é difícil conceber que tipo de "segurança"
um mundo assim poderia oferecer.19
Todavia,
apesar da necessidade óbvia de mudanças e apesar da
nossa óbvia competência técnica, ainda é
difícil acreditar que mudanças reais e fundamentais
sejam possíveis. Estamos acostumados a constantes variações
nos detalhes do cotidiano, entretanto a estrutura básica
do status quo sempre parece extremamente inalterável.
Mas
não é. Mudanças profundas para melhor realmente
ocorrem, mesmo que sejam difíceis de perceber porque um dos
efeitos mais comuns do sucesso é aceitá-lo como natural.
O que parece perfeitamente normal após o fato, quase sempre
pareceria um milagre antes. Ou, às vezes, talvez mais do
que um milagre: as conseqüências da transição
aurinhaciana provavelmente não seriam compreensíveis
antes do fato. Consideremos dois milagres normais da nossa própria
era - duas mudanças onde o esforço tecnológico
criou uma imensa oportunidade cultural, e onde os benefícios
se acumularam desproporcionalmente aos custos.
Vejamos
primeiramente a erradicação da varíola. Em
janeiro de 1967, quando a Organização Mundial de Saúde
(OMS) anunciou um programa destinado a eliminar a varíola
dentro de uma década, a doença contaminava 10-15 milhões
de pessoas anualmente, principalmente crianças. Matou 1,5-2
milhões, deixando muitos dos sobreviventes cegos ou desfigurados
pelas marcas da doença. Mais de 1 bilhão de pessoas,
29 porcento da população mundial da época,
vivia em países onde a doença era endêmica.
Mesmo nos países industrializados, onde programas abrangentes
de vacinação a haviam eliminado como ameaça
endêmica, a varíola continuou representando um problema
crônico de segurança, devido aos riscos de contaminação
do exterior.20
Quando
foi anunciado, o programa da OMS foi considerado ingênuo por
muitos cientistas e autoridades da saúde pública.
Havia surgido de um acordo decidido na XII Assembléia de
Saúde Humana, em maio de 1959, que também determinava
a eliminação da varíola mas pouco conseguiu.
Os precedentes com outras doenças foram igualmente decepcionantes.
Campanhas de erradicação freqüentemente obtiveram
resultados promissores em algumas regiões, mas sempre fracassaram
quando ampliadas em nível global. O primeiro desses esforços,
uma campanha para erradicar o parasita intestinal ancilóstomo,
foi lançado em 1913 no rastro de um programa bem-sucedido
de controle, no sudeste dos Estados Unidos. Mas, no início
dos anos 20 ficou claro que o parasita não era suficientemente
conhecido para ser eliminado em todos os lugares. A campanha global
contra a febre amarela, iniciada em 1918, surgiu de sucessos anteriores
no Panamá e em Cuba, porém o objetivo de erradicação
teve que ser abandonado no início dos anos 30 após
a descoberta, por pesquisadores na América do Sul, da febre
amarela em mamíferos silvestres - reservatórios da
patogenia que não tinham como eliminar.21
A erradicação
da malária seguiu o mesmo caminho. No final dos anos 30,
no Nordeste do Brasil, uma campanha contra um recém-chegado
mosquito africano, Anopheles gambiae, a erradicou totalmente em
menos de dois anos. Este mosquito é o mais importante transmissor
da malária da África. Sua remoção do
Brasil foi uma conquista impressionante, mas este sucesso foi um
precedente enganoso: a erradicação global da malária,
iniciada em 1955, começou a desacelerar em meados dos anos
60. Foi abandonada em 1969 após ser reconhecido que, na maioria
das áreas endêmicas, não era possível
suprimir os mosquitos por tempo suficiente para expurgar da população
humana os parasitas causadores da doença. (Vide Capítulo
4.) No final dos anos 60, o conceito de erradicação
da doença como objetivo programático começou
a ser desmistificado. Em seu livro publicado em 1965, Man Adapting,
o renomado cientista e filósofo René Dubos captou
a atitude predominante: "programas de erradicação,"
escreveu ele, "virão a se tornar um item de curiosidade
nas prateleiras de bibliotecas, como todas as utopias sociais."22
Falta
de credibilidade não foi o único problema da campanha
da varíola. Havia uma carência crônica de recursos,
faltava-lhe qualquer autoridade além da moral e nem sempre
foi considerada como prioridade nos países em desenvolvimento,
onde a varíola era quase sempre apenas uma entre muitas ameaças
graves à saúde pública. Mas, apesar de todos
os obstáculos, a campanha teve sucesso - graças à
persistência, disposição de se adaptar a condições
variadas e um conhecimento profundo das fraquezas da patogenia.
(A varíola foi um bom alvo para erradicação
por não ser "vetorizada" - sua transmissão
se dava diretamente de uma pessoa para outra - e por haver uma vacina
confiável contra ela.) O último caso mundial de varíola
"natural" (não de laboratório) ocorreu na
Somália, em 26 de outubro de 1977, apenas 10 meses além
da meta estabelecida para erradicação. O custo total
do programa da OMS provavelmente atingiu menos de US$ 300 milhões
(equivalentes hoje a US$700-800 milhões). Mesmo em termos
econômicos simples, todos os países se beneficiaram
pois não havia mais necessidade de medidas preventivas contra
a doença. Estima-se que os Estados Unidos, o maior doador
individual para a campanha, recupera sua contribuição
total a cada 26 dias. Não ocorrendo liberação
do patógeno de um dos seus estoques conservados artificialmente,
a varíola provavelmente é um problema resolvido e
o mundo, conseqüentemente, um lugar melhor para se viver.23
A erradicação
da varíola exigiu a cooperação de milhares
de autoridades e trabalhadores de campo - e milhões de pais
de crianças não vacinadas. Porém, como programa
da OMS, foi apenas uma mudança de cima para baixo. Em muitas
frentes, todavia, mudanças construtivas provavelmente dependerão
muito mais da iniciativa pública - de um senso de direção
fornecido por organizações não-governamentais
e um grande número de pessoas, individualmente. Mudanças
de baixo para cima serão provavelmente mais difusas e menos
"focadas," mas aqui, também, há precedentes
encorajadores.
Consideremos
o crescimento populacional, um dos maiores problemas ambientais
e, de certa forma, um dos menos "públicos." O aumento
em nossos números é uma conseqüência agregada
de atitudes pessoais a respeito do sexo e procriação
- temas dos mais privados. Mudanças significativas nesta
frente é um tipo fundamental de mudança cultural e,
sob o ponto de visto comum, não é algo que possa ocorrer
rapidamente. Nas sociedades que valorizam grandes famílias,
pode-se esperar que o tamanho ideal da família se reduza,
mas apenas gradualmente.
Seguramente
este ponto de vista tem forte apoio comprobatório. O precedente
básico para tal mudança é a transição
demográfica européia, um acontecimento complexo onde
a melhoria do saneamento, nutrição, educação
e os padrões gerais de vida acompanharam declínios
na mortalidade infantil e na quantidade média de partos por
mulher (conhecida como taxa de fertilidade total ou TFT). A transição
demográfica européia levou mais de 100 anos. No final
do Século XIX a TFT continental situava-se em torno de 4
ou 5; atualmente, a média continental caiu abaixo da "taxa
de reposição" de 2,1. (A longo prazo, uma população
que mantenha uma TFT de 2,1 se estabilizará: o número
de nascimentos se tornará igual ao número de mortes.)24
Para
os demógrafos, a lição da experiência
européia era clara: o declínio até a taxa de
reposição é gradual porque as mudanças
sociais necessárias são complicadas, dispendiosas
e lentas no seu amadurecimento. Mas, no final dos anos 80, os especialistas
começaram a perceber um padrão que não se encaixava
no precedente europeu. Vários países do Leste da Ásia
estavam passando pela transição "clássica"
(ou seja, TFTs declinantes e padrões de vida crescentes),
porém dentro de um espaço de tempo radicalmente comprimido.
Na Indonésia, Japão, Cingapura, Coréia do Sul,
Taiwan e Tailândia, as TFTs estavam em queda pelo menos desde
os anos 60; atualmente, todos esses países atingiram a taxa
de reposição, ou em breve o farão. Suas transições,
a maioria das quais levou apenas 25-30 anos, são atribuídas
ao rápido crescimento econômico aliado a vários
avanços técnicos e administrativos, principalmente
programas bem-desenvolvidos de planejamento familiar e melhorias
substanciais na saúde e educação.25
Entretanto,
os demógrafos não viram nessas transições
motivos para maiores revisões no projeto populacional global.
Nem, em retrospecto, deveriam: a população mundial
quase quadruplicou ao longo do Século XX, e embora seja verdade
que os TFTs dos países industrializados hoje sejam, em média,
1,6, a grande maioria da humanidade não vive em regiões
prováveis de passarem por transições demográficas
clássicas, aceleradas ou não. A Coréia do Sul
não é modelo para a Índia, China ou Nigéria.
Assim, já na primeira metade dos anos 90, as estimativas
comuns estabeleciam que a população global estava
aumentando num ritmo de 86-90 milhões por ano, e continuaria
a crescer neste ritmo por muitos anos. Por exemplo, o relatório
da Conferência Internacional sobre População
e Desenvolvimento, realizada no Cairo em 1994, citou projeções
atuais da ONU para sua estimativa que "incrementos populacionais
anuais provavelmente se manterão próximos a 90 milhões
até o ano 2015."26
A grande
maioria da humanidade não vive em regiões prováveis
de passarem por transições demográficas clássicas.
Todavia,
mais uma vez, as expectativas razoáveis sofreram o ataque
de mudanças imprevistas. Oito anos após a conferência
do Cairo, o incremento do aumento populacional anual está
agora estimado em torno de 77 milhões. Este número
menor resulta, em parte, de um tipo de reformulação
contábil: os demógrafos hoje acham que o incremento
anual na ocasião da conferência do Cairo era provavelmente
cerca de 81 milhões, e não 86-90 milhões. Mas,
acredita-se que o saldo reflita um declínio real do incremento
da ordem de 4 milhões de pessoas. (Observe-se que a população
como um todo ainda está aumentando; o declínio está
no número de pessoas acrescidas a ela a cada ano.) Esta queda
no incremento assinala uma nova tendência. Até o início
dos anos 90, o incremento estava crescendo; hoje está em
declínio e este declínio está projetado a continuar.27
A nova
tendência é conseqüência de dois acontecimentos
inesperados, um dos quais é uma má notícia:
o total de mortes causadas pela AIDS já atinge hoje um volume
que afeta as estatísticas populacionais globais. Mas o motivo
principal do declínio não é o aumento de mortes,
e sim menos nascimentos. Em cerca de uma dezena de países
populosos em desenvolvimento, as TFTs caíram substancialmente,
mesmo sem melhorias significativas nos padrões de vida. O
Irã, por exemplo, reduziu sua TFT de 5,6 em 1985, para 2,0
em 2000, apesar de uma longa e debilitante guerra com o Iraque,
entre 1980 e 1988, estagnação econômica e a
hostilidade inicial do governo revolucionário ao controle
da natalidade - uma postura que foi revertida em 1989.28
A agricultura
orgânica é hoje o setor
de
maior crescimento da economia agrícola
mundial
Mesmo
onde os declínios ainda não trouxeram a TFT para o
nível de reposição, eles são, não
obstante, impressionantes. Por exemplo, Bangladesh, um país
extremamente pobre, viu sua TFT declinar de 7 nos anos 70, para
3,3, entre 1996 e 2000. Nem Bangladesh ou o Irã obteve grandes
melhorias em seus padrões de vida, mas ambos compartilham
um importante quadro social: ambos conseguiram desenvolver programas
extensos de planejamento familiar que gozam de forte apoio oficial
e ampla aceitação popular.29
Um
exemplo mais amplo desta mudança pode ser encontrado na América
Latina e no Caribe, uma região que hoje tem uma TFT global
de cerca de 2,5, abaixo da média de 6,0 na primeira metade
dos anos 60. Não é surpresa que aqui, também,
a queda da TFT freqüentemente se relacione com uma maior disponibilidade
de serviços de planejamento familiar, particularmente o uso
de anticoncepcionais. O que é de certa forma surpreendente,
por outro lado, é que a tendência seja visível,
mesmo em alguns dos países mais pobres da região -
Peru, por exemplo. No Índice de Desenvolvimento Humano de
2002, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para
o Desenvolvimento, o Peru está classificado em 8o lugar entre
os 12 países sul-americanos, entretanto esta nação
viu sua taxa de uso de anticoncepcionais elevar-se de aproximadamente
40 porcento das mulheres casadas, no final dos anos 70, para 64
porcento, em 1996. O TFT do Peru caiu de mais de 5 para 3, durante
o mesmo período.30
Naturalmente,
essas "transições a preço módico"
já estavam em andamento na ocasião da conferência
do Cairo. E, de certa forma, visíveis. Mas eram muito difíceis
de serem percebidos porque o padrão não foi reconhecido.
Será
que esses vários declínios da TFT significam que o
crescimento populacional logo deixará de ser um grande problema
social e ambiental? Dificilmente. Na realidade, as projeções
médias das Nações Unidas para o crescimento
populacional global foram recentemente aumentadas ligeiramente.
As projeções médias são freqüentemente
consideradas como o melhor indicador da direção das
tendências populacionais. (Vide Capítulo 3.) Há
várias formas pelas quais as TFTs atuais se fatoram nessas
projeções. Primeiramente, se tratam de países
basicamente da África sub-saariana onde as TFTs continuam
altas e onde os demógrafos não prevêem declínios
significativos no futuro próximo. Também, em países
populosos, até mesmo TFTs "moderados" podem produzir
aumentos gigantescos no tamanho da população. A Índia
é, de longe, o exemplo mais dramático disto: com uma
população de pouco mais de 1 bilhão e uma TFT
de 3,2, sua população aumenta em 17,6 milhões
de pessoas ao ano. Nem é inevitável que TFTs "moderadas"
continuem simplesmente em queda constante: infelizmente, durante
os últimos anos, houve uma desaceleração no
declínio da TFT em vários países de alta densidade
demográfica, inclusive Bangladesh, Índia e Nigéria.
E mesmo após o TFT de um país cair abaixo da taxa
de reposição, sua população pode continuar
a expandir durante décadas - um fenômeno conhecido
como "ímpeto populacional." A China, por exemplo,
tem um TFT de apenas 1,8, mas sua população de quase
1,3 bilhão ainda aumenta a uma taxa de 11,5 milhões
por ano.31
O ímpeto
populacional é mais fácil de entender se pensarmos
em termos da estrutura etária da população.
Sociedades que recentemente atingiram a taxa de reposição
tendem a ser desproporcionalmente jovens: geralmente há muitos
jovens e muito menos idosos. Uma vez que a maioria das mortes ocorre
entre os idosos, não há inicialmente mortes suficientes
para compensar os nascimentos, mesmo com uma TFT de 2,1. As mortes
compensatórias ocorrem mais tarde, à medida que o
inchaço demográfico jovem se desloca para a meia-idade
e além. Enquanto isto, a população continua
a crescer. Em geral, a TFT do mundo em desenvolvimento encontra-se
hoje um pouco abaixo de 3, cerca da metade do que era em 1970. A
projeção atual da TFT dos países em desenvolvimento
indica uma taxa média de 2,17 para 2050.32
Essas
transições demográficas inesperadas não
dão motivos para complacência, mas proporcionam alguma
esperança. Não estamos inevitavelmente fadados ao
pior cenário demográfico - uma distopia planetária,
apinhada e desnaturada, de guerra, pobreza e doença.
Há
esperança também em muitas outras áreas - em
projetos de base ampla, embora freqüentemente só parcialmente
realizados, e que ainda não estão plenamente integrados
à visão mundial predominante. Essas mudanças
podem ser percebidas, por exemplo, na agricultura orgânica,
que é hoje o setor de maior crescimento da economia agrícola
mundial e que poderá revigorar comunidades rurais em países
tão diversificados como Filipinas, Suécia e Estados
Unidos. Podem ser percebidas nas tecnologias de energia renovável,
onde avanços técnicos acelerados e custos declinantes
de produção estão incrementando a capacidade
de geração eólica e fotovoltaica à ordem
de 25 porcento ao ano, ou mais. (Vide Capítulo 5.)33
Pode
haver esperança até para aquela causa mais famosa
e de menor sucesso da agenda ambiental: a conservação
da natureza tropical. O parque - um conceito freqüentemente
detratado como politicamente irrealista em grande parte dos trópicos
- vem calmamente provando seu valor ao longo das últimas
décadas. Os parques contêm quase tudo que resta da
natureza em escala majestosa em Cuba, República Dominicana,
Gana, Índia, Madagascar, Filipinas, África do Sul
e Tailândia; eles contêm a maioria do que resta em muitos
outros países latino-americanos, africanos e asiáticos.
Grandes investimentos nesta abordagem simples - essencialmente destacando
áreas naturais - são tão cruciais para o bem-estar
do planeta como os investimentos em energia renovável ou
planejamento familiar.34
Cerca
de 50.000 anos após a inovação ter se tornado
um traço humano, vivemos num mundo que é cada vez
mais do nosso feitio. Mas não é menos misterioso e
desafiador do que o mundo habitado por aqueles inovadores da Idade
da Pedra. Sob muitos aspectos, a distância entre eles e nós
é tão gigantesca que seria quase impossível
medi-la. Nossas tecnologias e conscientização social
dificilmente teriam um paralelo em sua cultura. Todavia, sob certos
aspectos fundamentais, nossas lutas ecoam as suas. Nós, também,
dependemos das conquistas tecnológicas para catalisar mudanças
culturais. Nós também temos o hábito de criar
"dividendos solutivos." E quem sabe? Talvez daqui a 50.000
anos nossos descendentes distantes se indagarão como conseguimos
ampliar seu mundo em modos que nós mesmos não poderíamos
ter imaginado.
Copyrights
© 2003 - WWI-Worldwatch Institute / UMA-Universidade Livre
da Mata Atlântica.
Autorizada
a reprodução citando fonte e site www.wwiuma.org.br
|