| O
amargo brilho do pó Aos 36 anos, Elis Regina, a melhor
cantora do Brasil, foi achada morta, trancada em seu quarto, onde tomara a derradeira
dose de cocaína 27
de janeiro de 1982 A
morte da melhor cantora brasileira provocou um choque nacional, assim que a notícia
circulou pelo rádio e pela televisão na manhã da última
terça-feira. Cheia de vitalidade nos seus 36 anos, Elis Regina de Carvalho
Costa, três filhos, passou metade de sua vida em estúdios, distribuindo
uma voz impecavelmente afinada por 27 LPs, catorze compactos simples e seis duplos,
que venderam algo como 4 milhões de cópias. Não é
um recorde Roberto Carlos vendeu quatro vezes mais , mas a qualidade é
tão boa que lhe assegurou uma das mais sólidas reputações
da música popular brasileira. Sua morte, no apartamento que ocupava nos
Jardins, em São Paulo, foi chorada com lágrimas canções
entoadas por 25 000 fãs, amigos e parentes que a visitaram no velório
do Teatro Bandeirantes, palco de seu maior sucesso, o show 'Falso Brilhante",
no centro de São Paulo. Cerca de 1000 pessoas integraram o lento cortejo
que atravessou a metade da capital paulista para enterrá-la, quarta-feira,
à tarde, no cemitério do Morumbi. Menos
de 48 horas depois de seu desaparecimento, veio o segundo choque, talvez o pior.
Desde a véspera, um véu de obscuridade cercava a morte da cantora
-a médica que a recebera no Hospital das Clínicas, para onde havia
sido levada já sem vida, não fornecera o Atestado de Óbito
por sentir-se impossibilitada de concluir por uma morte natural, o cadáver
foi assim remetido para autópsia no Instituto Médico Legal. Feitos
os exames, emergiu uma sombria conclusão: Elis Regina, dizia o laudo médico,
morreu pela intoxicação combinada de bebidas e cocaína. Antes
da divulgação do laudo, no início da noite de quarta-feira,
o diretor do IML, o polêmico legista Harry Shibata, telefonara para um amigo
, o diretor do DOPS, Romeu Tuma, com uma dúvida. "Só me restam,
a esta altura, duas hipóteses", expôs Shibata. "Ou foi barbitúrico
ou então a ingestão de cocaína com álcool, por via
oral, que provocaram a morte. Você sabe me dizer se alguém toma cocaína
diluída em líqüido?" Tuma não sabia, mas consultou delegados
especializados em drogas e a resposta foi positiva: um deles esclareceu que está
em moda a mistura de cocaína com uísque, para potencializar o efeito
da droga. RESISTÊNCIAS
FAMILIARES - O laudo, enfim divulgado na manhã de quinta-feira pelo
delegado Geraldo Branco de Camargo, que comanda o inquérito aberto sobre
a morte da cantora, é cauteloso e claro. "Na necrópsia procedida
nada encontramos digno de especial menção que pudesse explicar a
morte , escrevem os legistas José Luiz Lourenço e Chibly Hadad,
que assinaram o documento. O exame toxicológico, de suma relevância
no caso, dada a negatividade dos achados da necrópsia, veio nos fornecer
a resposta da causa mortis", acrescentam. Os dados desse exame levaram os dois
legistas a concluir que "a quantidade de álcool etílico encontrada
em nível sangüíneo revelou estar a vítima sob estado
de embriaguez e a presença de cocaína caracterizando o estado tóxico,
que em somatória podem responder pelo evento letal". Desde
que o corpo de Elis fora mandado para o IML, essa hipótese estava no ar.
Antes que se tornasse pública e oficial contudo, houve uma cortina de resistências.
Amigos da cantora e seu último namorado, o advogado Samuel Mac Dowell de
Figueiredo que a encontrou morta , tentaram evitar a realização
da autópsia, argumentando que ela não costumava usar drogas. O argumento
esquecia o aspecto legal da questão: são obrigatoriamente submetidas
a autópsia todas as pessoas a respeito das quais não se possa atestar
com certeza que tiveram morte natural. Além disso, os amigos de Elis suspeitavam
do legista Shibata, que em 1975 assinou o célebre laudo sobre a morte do
jornalista Vladimir Herzog declarando-o suicida sem ter visto o corpo remetido
ao IML pelo exército, em cujo DOI CODI ele morrera. "Ela não transava
drogas e o Shibata tem ressentimentos do Mac Dowell", dizia o compositor Edu Lobo
- referindo-se a um complicador extra, o fato de Mac Dowell ter sido um dos advogados
no processo em que a União foi condenada pela morte de Herzog. EXAME
IRREPREENSÍVEL - Também Mac Dowell teria preferido evitar o
exame médico legal e não aceitou as suas conclusões. Depois
de ser ouvido no inquérito policial, também na quinta-feira, ele
ditou uma taxativa declaração, durante entrevista coletiva em que
pediu para não responder a perguntas: "Não sabemos que esse laudo,
por si só afirma verdades, nem tem uma procedência que leve as pessoas
a acreditar nas conclusões que ele apresenta". Mac Dowell não deu
maiores precisões, nem quis explicar melhor seu ponto de vista - qualquer
polêmica, a respeito, disse ele, seria "irrelevante e inoportuna". Na
verdade, é certo que Elis Regina não morreu de causas naturais,
ou doenças, como, provou a autópsia feita por quatro médicos
- os dois que assinam o laudo, Harry Shibata e o próprio médico
da família da cantora, Alvaro Machado Jr. "O exame foi irrepreensível",
reconheceria Machado mais tarde. De fato, ao contrário do que imaginaram
diversos amigos de Elis, não se vê como a análise do laudo
do IML poderia ter sido eventualmente fraudada - por exemplo, acrescentando-se
a cocaína às vísceras, sangue e urina da cantora depois de
sua morte. Essa hipótese é claramente fantasiosa: ao ser metabolizada
pelo organismo, a cocaína transforma-se em certas substâncias, seus
metabolitos, num tempo determinado, de modo que é possível especificar
o momento em que ela foi ingerida. Por isso, a cocaína simplesmente agregada
a restos mortais é facilmente identificável. "UMA
GRANDE DAMA" - O fato é que o único elemento encontrado no corpo
de Elis capaz de matá-la é a cocaína. Resta a questão
de quanta cocaína, exatamente, a cantora ingeriu antes de morrer. O chefe
do Departamento de Psicofarmacologia da Escola Paulista de Medicina, professor
Elisaldo Carlini, lembra que o laudo não especificou a dosagem de cocaína
encontrada. Mas não é preciso haver grande quantidade para que a
droga tenha efeitos potencialmente letais. O professor Carlini estima que a cocaína,
ingerida por via oral, pode matar uma pessoa se a dose excede meio grama. Raramente
alguém ingere menos que isso - e a média de doses encontradas em
vítimas, em casos semelhantes, é de 1,2 grama. Seja como for, o
IML, anunciou para esta semana a conclusão de um exame destinado a determinar
a quantidade de cocaína que Elis tomou. As
divergências que até o final da semana passada cercavam as circunstâncias
da morte não foram provocadas, na verdade, por um conflito de versões,
mas pelo empenho do advogado Mac Dowell e de amigos da família em preservar
a imagem de Elis. Mac Dowell explicou que gostaria de evitar efeitos negativos
sobre os filhos da cantora - e contou que impediu o filho mais velho, João
Marcelo, 11 anos, de entrar no quarto onde ela estava estendida no chio. Esse
empenho, entretanto, se choca com o fato de que em casos nos quais se desconhece
a causa da morte, a lei manda que ela seja esclarecida por todos os meios, a começar
pela autópsia , e acobertar o assunto o beneficia, em última análise,
ao traficante que vendeu a Elis as drogas que a mataram. Mais
do que tudo, de fato, o laudo mostra que Elis foi uma vítima - e sua perda
seria fundamente sentida por milhares de admiradores em todo o país. O
presidente João Figueiredo enviou um telegrama de pêsames à
família, e não lhe faltaram epitáfios dignos. "Ela é
insubstituível", garantiu seu antigo parceiro Jair Rodrigues. "Essa moça
era uma grande dama da música brasileira", assegurou Tônia Carrero.
Seu velório estava enfeitado com uma constelação de astros
de cinema, televisão, música e dança, como Lennie Dale, que
foi preso em fevereiro de 1971, no Rio, com um enorme pacote de maconha. O cortejo
que a levou ao cemitério foi coberto horas a fio pelas rádios de
São Paulo - e o esquema de acompanhamento da TV Globo incluía filmagens
de helicóptero. Os jornais da Globo dedicaram a Elis uma quantidade extras
só comparável às da morte do presidente Annuar Sadat e do
atentado contra o papa João Paulo II. FRASES
ININTELIGÍVEIS - Elis Regina teve um enterro grandioso, mas fez sua
última viagem incógnita. Quando Samuel Mac Dowell a levou inerte
para o Hospital das Clínicas, por volta das 11h40 de terça-feira,
pegou o táxi do português Manuel Gouvêa Alves, 46 anos, na
rua Melo Alves, onde fica o apartamento da cantora. A corrida até o hospital
não durou mais que quatro minutos, e Gouvêa se lembra bem da hora
porque estava ouvindo pela rádio a parte final de seu programa favorito,
o de Barros de Alencar. "Mas eu só soube que transportei Elis Regina mais
tarde, quando ouvi no rádio que ela tinha morrido", contou. " Me deu uma
tal tristeza que se eu tivesse dinheiro não trabalharia mais naquele dia". Os
dias anteriores do casal não permitiam vislumbrar um fim trágico
Elis e Samuel Mac Dowell estavam procurando uma casa para viverem juntos. À
véspera da morte, elis recebeu um grupo de amigos no apartamento, músicos
de seu conjunto e Mac Dowell. Na ocasião, contam os participantes, ela
bebeu Cinzano e uísque. Por volta das 21 horas, todos se retiraram, menos
Mac Dowell, que ficou para jantar e saiu às 23h30. "Evitei ficar até
mais tarde porque ela ia ouvir as fitas de seu novo disco", explicaria ele no
seus depoimento à polícia. Já em sua casa, o advogado telefonou
algumas vezes para a cantora, que não atendeu. Quando finalmente consegui
completar a ligação, de madrugada, ele recebeu a explicação
de Elis. "Não ouvi o telefone porque estava ouvindo as músicas no
volume mais alto". Mac Dowell , então, achou a voz dela normal. Às
9h30 da manhã de terça-feira, de seu escritório, ele voltou
a telefonar para Elis. Ela disse que não dormira de noite e, segundo Mac
Dowell, conversou normalmente - no final da ligação, porém
começou a articular as palavras muito pausadamente, disse algumas coisas
ininteligíveis com a voz distante e afinal silenciou. PRIMEIRA
EXPERIÊNCIA Mac Dowell, alarmado, deixou o escritório, pegou
um táxi na rua da Consolação e tocou para a rua Melo Alves.
Ele calcula que chegou lá às 10h30 - mais de uma hora, portanto,
antes de embarcar o corpo de Elis no táxi de Gouvêa para a viagem
até o Hospital das Clínicas. Segundo seu depoimento, esse tempo
foi gasto com o arrombamento de duas portas para que pudesse chegar ao quarto
de Elis, um telefonema para o Hospital das Clínicas, pedindo uma ambulância,
tentativas de reanimar Elis, e telefonemas para seu colega de escritório,
Mário Antônio Barbosa. Como a ambulância não chegava,
depôs Mac Dowell, sua decisão foi pegar Elis nos braços, descer
até a rua e apanhar um táxi. A essa altura chegara também
a secretária da cantora, Celina Silva, que o ajudou. O
advogado garante que encontrou no quarto de Elis um envelope vazio de Sonotrat,
antidistônico que ela usava para dormir. "Nunca tive conhecimento, nestes
seis meses de vida comum, que ela ingerisse tóxico", disse Mac Dowell à
polícia. Amigos do casal garantem, que Elis jamais usou cocaína
na presença do advogado. Mas lembram que ela experimentou drogas pela primeira
vez há pouco mais de um ano, estreando, com um cigarro de maconha. A cocaína
surgiu na sua viagem, aos EUA no início de 1981 para acertar a gravação
de um disco com o saxofonista Wayne Shorter. Antes disso, ela consumia cerveja
e vodca. ONIPOTÊNCIA
- Pelo menos um dos ex-namorados de Elis, o compositor paulista Guilherme Arantes,
28 anos, viu-a cheirando cocaína, durante o tempo em que andaram juntos
no começo de 1981, no Rio de Janeiro. Da mesma forma, um advogado amigo
de Mac Dowell lembrava no dia da morte da cantora que ela vinha consumindo a droga
ao mesmo tempo que procurava, junto ao IML, convencer os legistas da conveniência
de se dispensar a autópsia. É possível, porém, que
Elis jamais tenha sido viciada, nessa droga. Sua relação com a cocaína,
provavelmente, insere-se no mesmo tipo em que estão alguns milhares de
brasileiros, a maioria deles fora do meio artístico, ou intelectual - e
que buscam nesta droga potente um socorro eventual. A
diferença dos alucinógenos ou da maconha, capazes de patrocinar
aos seus consumidores momentos de grande alegria ou de profunda depressão,
dependendo do estado de espírito de, cada um, a cocaína -C17H2IN04,
na sua fórmula química - é uma droga de satisfação
garantida. Cheirando-se um décimo de grama, conseguem-se de 15 a 20 minutos
de uma sensação de onipotência, lucidez e segurança,
e não há a menor possibilidade, de no lugar disso vir qualquer tipo
de depressão. "O problema é que você cheira e se sente Deus.
Depois, quando o efeito passa, você começa a achar desagradável
não ser Deus", confessa um consumidor. Assim,
Arthur Conan Doyle encontrou no pó alguns dos complexos estratagemas vividos
polo seu personagem Sherlock Holmes. Mas se o escritor usava a cocaína
para divagar, outro consumidor, o papa Leão XIII, se valia dela como uma
ajuda temporal para resolver os assuntos da Igreja. A onipotência ao alcance
do todos fez da cocaína um produto do grande consumo na alta hierarquia
do fascismo italiano e o espalhafatoso marechal alemão Hermann Goering,
ao ser preso pelos aliados em 1945, teve de ser submetido a um complexo programa
do desintoxicação, dada a sua dependência em relação
à coca. INSEGURA
- Nesse sentido, a cocaína, com sua ação sobre o córtex
cerebral, difere das drogas popularizadas na década do 60, que se poderiam
chamar de produtos do "esquerda". Ela é essencialmente da "direita": é
a droga de quem não quer novidades, mas apenas poder. A cocaína
faz do preguiçoso um prodígio de energia, do tímido um audaz,
do lento um rápido, mas, na essência, não traz nenhuma idéia,
como, por exemplo, as que o escritor inglês Aldous Huxley teve ao tomar
a mescalina que lhe ofereceu o tema para "As Portas da Percepção".
Para um cantor, por exemplo, a cocaína garante que ele terá coragem
de enfrentar a platéia, enquanto as drogas alucinógenas estão
longe disso, e as anfetaminas, se asseguram a euforia, garantem também
uma segura depressão na ressaca. Apesar
de sua competência profissional, Elis Regina se confessava uma pessoa profundamente
insegura - e extraía um pouco do autoconfiança no consumo da cocaína.
Dona de um caráter e comportamento conturbados, que freqüentemente
a faziam expressar-se de maneira tortuosa e torturada, Elis não conseguiu,
como muitos outros colegas do mundo artístico, adquirir a segurança
que procurava sem pagar um alto preço por ela. Sua provável inexperiência
no convívio com a droga leyou-a à fatal ingestão da semana
passada - e abriu sua vida pessoal a uma investigação certamente
penosa e dolorida para os que viviam próximos a ela. "Nada
tenho a esconder", desabafou Samuel Mac Dowell, ao final da semana passada, em
conversa com um advogado amigo, José Carlos Dias, destacado militante da
Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. A
confirmação de que Elis ingeriu cocaína acabaria por derrubar
a barreira de discrição que Mac Dowell tentou colocar sobre o caso
e que nos próximos dias estará sob a mira das investigações
oficiais. Depois da divulgação do laudo médico, o inquérito
policial em andamento terá três objetivos: saber se Elis era viciada
em cocaína, apurar se houve "induzimento, auxílio ou instigação
ao suicídio" e descobrir o fornecedor da droga. Por enquanto, o inquérito
está próximo da estaca zero. O
delegado Geraldo Branco de Camargo dispõe de poucos dados para resolver
as três incógnitas. A rigor, apenas uma pessoa conhece bem a história
da morte de Elis, o advogado Mac Dowell e talvez conheça apenas parte
do que aconteceu. Ele nega com veemência que tenha discutido com Elis nos
telefonemas que trocaram de madrugada enquanto a governanta Maria das Dores
Souza ouviu Elis encerrar uma conversa telefônica, por volta do meia-noite
de segunda-feira, com um palavrão. Mas o próprio delegado não
encontrou pistas nos pri-meiros cinco depoimentos que colheu: "Em princípio,
não vejo conflitos no que disseram os depoentes", diz Camargo. A busca
no apartamento da cantora também nada revelou: os únicos medicamentos
encontrados pela polícia eram pediátricos. A
tarefa do delegado Camargo não será facilitada pela biografia contraditória
da cantora. "Eu sou de Peixes, que é simbolizado por um peixe virado para
a direita c outro para a esquerda. Tem hora que estou com o peixe de cima e está
tudo bem. Mas aí entra o peixe de baixo e complica tudo", ela costumava
dizer. Seu comportamento em público era descrito por amigos como "careta". É
o que explica retratos tão diferentes que fazem dela mesmo os amigos mais
chegados dos quais Elis cobrava atenção, telefone-mas, carinho,
mas em relação aos quais era capaz de repentinas explosões
de generosidade. Quando soube que sua amiga Ione Cirilo estava sem dinheiro, pagou
todas as prestações que ela devia sem dizer uma palavra à
amiga. Em outro repente, na greve dos operários do ABC, em 1980, doou 180
000 cruzeiros para o fundo de greve e arrecadou entre amigos, durante um jantar,
mais 70 000. "Eu não vim para os canapés, vim para a feijoada",
justificava-se com uma ponta do misticismo que sempre a envolveu. As
razões que a levaram à morte podem continuar envoltas em mistério,
mas a morte não conseguiu- lhe roubar o sucesso. Num único dia da
semana passada, a Odeon, gravadora do seu último LP, Elis Regina, recebeu
19 000 pedidos de cópias do disco, que vendera nos últimos dois
anos modestas 50 000 unidades. Nas próximas semanas, a Polygram vai lançar
uma caixa de discos com sua obra, e a WEA anuncia seu último disco inédito,
Elis em Montreux, para breve. De Elis Regina ficou a voz exatamente o que esse
complexo ser humano tinha de melhor. A
perfeita alquimista Misturando
técnica e emoção, Elis resistiu às fórmulas
fáceis e se tornou a maior cantora do Brasil Em
dezoito anos de carreira, Elis Regina percorreu com sucesso o destino dos artistas
que jamais se contentam com o brilho do próprio ofício. A melhor
cantora da música brasileira - ou, pelo menos, a dona da mais perfeita
alquimia entre técnica e emoção vestia a fama como se fosse
um daqueles vestidos caros, que, por belos, devem ser sempre trocados. A cada
vitória ela safa, inquieta, em busca de uma nova parada: "Sempre vou viver
como camicase. É isso que me faz ficar de pé", confessava. E
foram muitos os vôos vitoriosos dessa estrela desde que ela chegou ao Rio
de Janeiro, em 1963, com 18 anos e 36 000 cruzeiros na mala. Aquela pequena gaúcha
de 1,53 m ("Meu problema são 10 centímetros a mais; então
estaria tudo resolvido") desceu nervosa numa música popular enriquecida
pela melodia da bossa nova e empobrecida pela escassez de intérpretes que
levava ao reinado de Nara Leão, desafinada, porém levemente soturna,
como se queria. Agitada,
chamaram-na "Pimentinha" . Movendo os braços para cima e para baixo, foi
ridicularizada pelo cronista Sérgio Porto, que dizia não saber se
ela era "uma cantora que nada ou uma nadadora que canta". Havia nela, porém,
uma pessoa enérgica, inquieta e, acima de tudo, uma cantora afinada. Não
conseguiu ancorar-se num gênero que lhe garantisse o sucesso comercial,
como sucedeu a Maria Bethânia no modelo "amor inesquecível". Muito
menos agarrou-se à repetição de adoráveis recursos,
como faz Roberto Carlos. Faltou-lhe a alegria contagiante de Gal Costa e o pique
de Rita Lee. Mas tinha algo que faltava a todos e, por isso, nas próximas
décadas, quando se procurar a voz desta época, ela estará
num disco de Elis. CORTEJADA
PELA ESQUERDA - Poucos são os cantores brasileiros que se fizeram acompanhar
por tantos compositores novos. Elis foi a primeira a gravar o desconhecido baiano
Gilberto Gil e o mineiro Milton Nascimento. Há pouco anos, descobrira João
Bosco, Aldir Blanc e Belchior. Nesta semana, começaria um novo LP onde
incluíra uma compositora, Irinéia Maria, que nem sequer vira pessoalmente.
Tinha tudo para dar certo, e deu, naquilo que sabia fazer muito bem: cantar. Surgiu
sorridente, com seus dentes pequenos e o cabelo curto, e assim poderia ter ficado
por anos e anos, como eterna parceira de Jair Rodrigues. Mas recuou em busca de
maior perfeição técnica, roçou o perigo das interpretações
frias e, em 1975, com o show 'Falso Brilhante" conseguiu combinar a cantora emocionada
de antes com a técnica conquistada, firmando-se num estilo em que morreu
insuperável. Mas,
se o camicase voou bem no ofício, também afundou em ressentimentos
e inimizades na vida. Como, numa de suas distorções, o meio cultural
brasileiro exige do artista não apenas a arte mas uma espécie de
atestado de idoneidade política de direita para o governo e de esquerda
para a oposição , Elis morreu filiada ao Partido dos Trabalhadores,
depois de um, percurso sinuoso e agressivamente patrulhado. Em 1969, ela cantou
na Olimpíada do Exército e em 1972 nas cerimônias pomposas
do Sesquicentenário da Independência. Por isso, foi colocada no "cemitério
dos mortos vivos" que o cartunista Henfil presente ao seu enterro gerenciava
na ocasião. Ela partilhava esse campo-santo com Marília Pêra,
Roberto Carlos, Tarcísio Meira, Glória Menezes e Pelé. Em
1978, cortejada pela esquerda, fazia campanha para o professor Fernando Henrique
Cardoso, candidato do MDB ao Senado por São Paulo. Mas, aos amigos, confessava
que preferia o veterano Franco Montoro. A
participação de Elis em manifestações oposicionistas
reconciliou-a com a esquerda e, com o tempo, as mesmas patrulhas que apedrejaram
passaram a afagá-la, tudo num esforço inútil quer do ponto
de vista estético, quer no aspecto político. É improvável
que ela tenha trazido votos a candidatos da oposição, assim como
é certo que não foi pela sua participação em festas
do regime que a ditadura viveu tanto. Esteticamente, ela, que lançava novas
músicas e novos nomes, pouco acrescentou à sua biografia cantando
músicas simpáticas A esquerda, pelo simples motivo de que Barbra
Streisand e Joan Baez não são a mesma pessoa. A
irrequieta personalidade da "Pimentinha" levava as pessoas a querer afinar, sem
sucesso, a sua conduta. E, a cada "desafino" de Elis, brotavam sarcasmos. O maledicente
compositor Carlos Imperial, ao saber que ela se casaria com o produtor Ronaldo
Bôscoli, comentou: "Bem feito para os dois". Mas isso era pouco. A cantora
Maysa garantia ter a prova de que faltava caráter a Elis: ela a teria induzido
a beber numa noite, para derrubar sua apresentação num palco que
ocupava em seguida. A acusação seria indiscutível se viesse
de um semi-abstêmio como Roberto Carlos. Maysa, porém, dificilmente
precisaria ser induzida a mais um copo. AGUERRIDA
E AGRESSIVA - "Elis vivia sempre com a corda esticada, a mil por hora, e mudava
de opinião em fração segundos", observou na semana passada
o compositor Edu Lobo. O psicólogo Roberto Freire, a quem no sucesso do
show "Falso Brilhante" ela atribuiu às emoções que distribuía
do palco, tornou-se, meses depois, "um mau-caráter aproveitador". Roberto
Carlos, de quem ela morreu amiga, já fora "infantil e fugaz". E seu segundo
marido, o compositor César Camargo Mariano, com quem vivera feliz no alto
da serra da Cantareira por nove anos e dois filhos, virou, com o fim do casamento,
"um explorador". Como cantora, podia influenciar pessoas. Como pessoa, não
conseguia fazer muitos amigos. Pudera.
Teve um rápido romance há um ano com o cantor Fábio Júnior
e, ao encerrá-lo, fulminou o ex-namorado: "Ele foi como um sorvete, gostoso
e rápido, mas brigamos quando eu disse que ele estava com saudade do plim-plim
da Globo". Aguerrida antes e agressiva depois, Elis sempre suportou mal o presente.
Assim como foi capaz de voar para Nova York em busca do "sorvete" e de moê-lo
depois, sustentava, enquanto o romance durou, que vivia um grande amor. Mesmo
no palco, passava por explosões capazes de fazer com que o produtor Roberto
de Oliveira dissesse, em tom de brincadeira, ""ela tem tudo para ser a Judy Garland
brasileira, mas não bebe". Em
1977, antes de entrar no palco onde pouco depois sua grande rival Maria Bethânia,
ela teve uma crise de choro e recusou-se a cantar. Temia audiência, mas
ao dominá-la, saiu coberta de aplausos e chegou feliz ao camarim, onde,
pouco depois, começou a quebrar tudo. Por quê? Ouvira os aplausos
dados a Bethânia e julgara-se batida. "Quem é melhor? Eu ou a Bethânia",
perguntava com alguma insistência, há poucos anos, sem segurança
suficiente para acreditar na sinceridade de quem lhe garantia que era ela. SEVERO
APRENDIZADO - Era a melhor porque poucas cantoras tinham o seu espectro vocal.
Rita Lee admite que não tem a metade da extensão de Elis. Bethânia
sabe que lhe faltam os agudos. Gal, com extensão e agudos, tem graves pouco
educados. Elis Regina, que no início da carreira esbanjava tanto agudos
quanto fricotes, foi buscar pelo exercício os graves que lhe faltavam e,
ao final de um severo aprendizado, era capaz de acompanhar as difíceis
construções harmônicas de Milton Nascimento que já
machucaram tantos intérpretes. Assim
como não há quem lhe tire os méritos de grande cantora e
intérprete, nenhuma briga poderia tirar-lhe a conduta profissional impecável
com músicos e colegas. Não apenas protegia valores jovens como,
também, defendia os interesses de quem trabalhava ao seu lado. Há
dois anos, quando fazia no Canecão o show "Saudades do Brasil", soube que
o empresário Mário Priolli negara um aumento aos bailarinos. "Ou
aumenta a moçada ou eu paro com o show", disse a Priolli recebendo de volta
o aumento. Doou dinheiro para entidades de defesa do direito autoral, e , recentemente,
quando um grupo de cantores foi a Brasília pedir ao governo que liberasse
o disco da taxação dos supérfluos, fulminou a iniciativa:
"Isso é defender as gravadoras. Elas é que têm de se preocupar
com essa questão e não os artistas, de quem já tiram sua
riqueza". Depois
do rompimento com o compositor Camargo Mariano, Elis recompôs sua vida sentimental
com o advogado Samuel Mac Dowell Figueiredo. Trocou a casa ecológica da
serra da Cantareira, onde fazia longas análises dos confortos da vida silvestre,
por um apartamento no centro dos espigões paulistas. Deixou o espiritismo
que a levava a psicografar mensagens de um avô índio, perdeu o interesse
pela parapsicologia e concentrou--se nas virtudes do vegetarianismo ostensivamente,
só bebia guaraná em pó. Ao lado de tanta excentricidade,
porém, estava uma vocação caseira. Comia suas verduras mas
oferecia aos convidados lombo de porco com alecrim e molho de cerveja. Metódica,
acompanhava atentamente a educação dos filhos, a arrumação
dos copos, e era capaz de irritar-se se as suas meias coloridas fossem arrumadas
fora da escala cromática que pacientemente concebera. "Eu conheci o sucesso
sem estar preparada para enfrentar a vida", reconhecia Elis numa daquelas frases
que soam proféticas depois que se morre. No
seu caso, porém, esse despreparo aparente não se refletiu quando
ela chegou morta ao Hospital das Clínicas, mas sobretudo nos dias em que,
vivíssima, era aplaudida em seus shows. A razão dessa angústia
poderia estar na origem humilde, mas nem todos os artistas nascidos humildes são
ostensivamente angustiados no sucesso: a imagem serena de Roberto Carlos prova
isso à exaustão. A melhor explicação, e a única
capaz do desembocar num copo onde se misturam álcool e cocaína às
10 horas da manhã, está numa competitividade exacerbada. Compulsão
esta germinada numa menina que aos 11 anos cantava no Clube do guri, programa
de calouros de Porto Alegre, e aos 22 casou-se de vestido cumprido com noivo de
fraque na capela Mayrink, templo do pernosticismo social carioca. SEGURANÇA
FUGAZ - Elis nunca foi uma artista publicamente envolvida com drogas Pelo
contrário. Ao longo de toda a década do tropicalismo ela hostilizou
o desbunde chegou a sugerir que se desligassem as tomadas dos palcos onde subisse
Caetano Veloso, para que não pudesse ligar a guitarra elétrica.
Nada mais "careta". Afinal, em sua casa havia uma garrafa de vermute, bebida improvável
na prateleira de alguém que efetivamente procura álcool. Assim,
a cocaína não entrou no quarto de dormir do Elis pela porta do modismo,
mas precisamente pelo pique, pela sustentação que dá ao competitivo,
pela segurança fugaz que oferece aos tensos. Nesse sentido, o próprio
pó é a quintessência do caretismo. Paradoxalmente,
ela morreu quando se orgulhava de viver com um homem, com quem "não poderia
competir", pois Mac Dowell, ao contrário de todos os seus namorados e maridos,
ligados ao mundo do espetáculo, é um bem-sucedido advogado, que,
antes dela, jamais chegara sequer aos bastidores. "Passei anos complicando as
coisas, agora quero voar", dizia há poucos meses. E, de fato, pelas primeiras
reações de quase todos os seus amigos, ela vivia não só
um período de grande densidade artística, desde o sucesso do show
"Trem Azul", do ano passado, como também de muita felicidade pessoal. A
seleção de seu próximo disco, que deveria aparecer em março,
poderia ser a grande surpresa. Mostrava-se segura ousando gravar "O Amor", que
Gal Costa acabara de colocar nas lojas sem grande sucesso. E, além de novamente
oferecer nomes novos, vinha com velhos sucessos como "Till There as You", dos
Beatles. Seu último disco "Elis Regina", vendeu 52 000 cópias, desempenho
medíocre para uma estrela e auspicioso para um estreante. Mesmo vendendo
pouco, ela era um dos melhores cachês de shows e, no fim das contas, a pobre
menina de 1963 estava rica, mas, sempre perseguida pela maledicência, era
acusada de avarenta, num mundo de inveja onde quem não é acusado
disso tem fama do pródigo, pois nada há de mais anormal do que se
ver num artista alguém normal, ou, pelo menos, alguém muito parecido
com as demais pessoas. Sua
normalidade, tão pouco explorada, não se extingue na repetição
do talento, mas vai a alguns pontos até mesmo raros. Nada tinha de falsa
vaidade das estrelas. Recusou uma sugestão para que seu carro tivesse chofer,
vestia-se conservadoramente e, na hora de construir uma casa na serra, da Cantareira,
passou numa empresa de pré-fabricados, mandou embrulhar uma e nela viveu
feliz muitos anos. Jamais fez concessões ao escândalo ou ao gênero
heroína do fotonovela. Todos os seus romances tiveram endereço e,
se dependesse dela, a imprensa jamais os alcançaria. Sempre
manteve os filhos fora da linha de tiro dos espetáculos. Agora, deverá
se esclarecer com quem ficam João Marcelo, filho do Ronaldo Bôscoli,
a quem ela proibia que visitasse a criança, de 11 anos, Pedro, de 6, e
Maria Rita, de 4, ambos vindos de seu casamento com César Camargo Mariano.
Se a sua vontade de que os três nunca se separem puder ser cumprida, ficarão
todos com seu irmão Rodrigo ou com os avós, que vivem em São
Paulo, trazidos e mantidos por ela desde que o sucesso tirou-a definitivamente
de Porto Alegre. "FAÇO,
MAS COM MEDO" - Para todos, desde os amigos até os parentes, o segundo
choque da morte de Elis, provocado pelo laudo médico, será, por
algum tempo, o mais difícil de absorver. No entanto, é certo que
sua memória haverá de resistir às circunstâncias dramáticas
do fundo sua vida, assim como a cantora americana Janis Joplin, morta com uma
dose excessiva de heroína em 1970, não teve sou valor artístico
julgado pelos padrões do sua vida conturbada. Só morta, Elis Regina
conseguiu abrir o caminho para que a julgassem como artista, sem misturar a isso
sua vida pessoal e suas decisões erráticas. Afinal, ninguém
acreditava nessa pessoa audaciosa quando ela dizia que "morro do medo, faço
todos os espetáculos me borrando do medo, todos os dias. Faço, mas
com medo. E se mandar parar, eu paro, porque medo eu tenho". Esse
medo, porém, era convertido em agressividade nas relações
cotidianas e em inspiração sublime no palco. E Elis, que sabia quem
ela era, alcançava as maledicências que a perseguiam: "No dia em
que alguém for reorganizar o sou fichário na pasta ou no compartimento
Elis Regina, vai ter muito trabalho. "Eu não tenho a menor intenção
de ser simpática a algumas pessoas. Me furtam o direito inclusive de escolher.
Sou obrigada a aceitar quem passar pela frente. Me tomam por quem? Um imbecil?
Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam,
na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que
estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina do
Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo.
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