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REPORTAGEM DE VEJA
A revolução
de Gorbachev
No
ano setenta da revolução,
e sob o vigor de uma nova liderança,
a União Soviética manobra para
refazer a História
Roberto
Pompeu de Toledo, de Moscou
"O
que está em jogo é a habilidade da União
Soviética em entrar no novo milênio de maneira
digna de uma grande e próspera potência. Sem
o trabalho duro e a completa dedicação de cada
um não será nem mesmo possível preservar
o que já foi conseguido."
Mikhail Gorbachev
"Duas
Romas caíram. Resta uma terceira, invencível,
e não haverá outra."
Monge Phlotkee, escrevendo ao czar Vassily
III, no século XVI, a propósito da queda de
Bizâncio e do papel de Moscou
Segundo
uma anedota que circulou na União Soviética
nos tempos de Leonid Brejnev, líder do país
entre 1964 e 1982, certa vez reuniram-se num mesmo trem os
três dirigentes que se sucederam ao pioneiro Vladimir
Lênin no comando da nação - Josef Stálin,
Nikita Kruchev e o próprio Brejnev. A certa altura
o trem parou, porque faltavam trilhos à sua frente.
Stálin, o primeiro a dar as ordens, mandou fuzilar
metade dos funcionários da ferrovia e condenou a outra
metade, enquanto recrutava os camponeses da região
para o trabalho forçado de construir novos trilhos.
Mais adiante o trem parou de novo, pelo mesmo motivo, e desta
vez coube a Kruchev assumir a situação. Sua
estratégia foi reabilitar os funcionários postos
em desgraça por Stálin e ordenar-lhes que retirassem
os trilhos atrás do trem e os colocassem na frente.
Enfim, na parada seguinte, foi a vez de Brejnev, que ordenou
aos passageiros: "Fechem todas as cortinas e balancem
os corpos para trás e para frente". O trem continuava
parado, mas pelo menos, dentro dele, tinha-se a impressão
de movimento. A mesma anedota sofreu um adendo depois da espetacular
ascensão de Mikhail Sergeievitch Gorbachev, de 56 anos,
o homem que, com uma mancha na testa e cheio de autoconfiança,
assombrou o mundo com o ímpeto de furacão com
que assumiu o poder, em março de 1985. Quando chegou
a vez de Gorbachev haver-se com o problema do trem, primeiro
ele entregou-se a uma frenética doutrinação
dos passageiros. Depois convidou-os a descer e a gritar alto,
em coro: "Faltam trilhos! Faltam trilhos!".
No
fim deste 1987 comemoram-se os setenta anos da Grande Revolução
de Outubro, como dizem os soviéticos - aquele extraordinário
momento de 1917 em que Lênin e um punhado de seguidores,
como que pegando a História no contrapé, forçaram
passagem entre a falência do reinado dos czares e os
escombros da I Guerra Mundial para invadir o século
XX com um regime de tipo único no planeta. Eles queriam
tudo - o perfeito regime da bonança, da justiça
e da igualdade. De Lênin a Gorbachev alguma água
passou sob as pontes do Rio Neva, na antiga capital, Petrogrado,
rebatizada de Leningrado, e do Rio Moskva, em Moscou, para
onde foi retransferida a sede do governo. Hoje, os setenta
anos da Revolução coincidem com um fascinante
momento de questionamento - o qual, entre muitos outros sinais,
é revelado pela anedota do trem. Enquanto sob a liderança
morna, quase preguiçosa, de Brejnev, os problemas eram
jogados debaixo do tapete, com Gorbachev os soviéticos
são convidados a encará-los. Brejnev era o líder
para quem tudo corria da melhor maneira, no melhor dos mundos.
Gorbachev esforça-se por denunciar o que está
errado. Se há um traço principal em sua liderança,
até agora, é a proclamação incessante
de que há problemas e de que esses problemas poderão
se transformar em perigos a curto prazo. "Vivemos uma
situação de pré-crise", disse ele
no fim do mês passado, durante uma reunião do
Comitê Central do Partido Comunista.
Na
verdade, Gorbachev está colocando dentro da URSS aquelas
perguntas duras, alimentadas na realidade e terrivelmente
factuais, que, até agora, só eram feitas fora
do país - e pelos mais incômodos críticos
do regime soviético. Não tem sido fácil,
para o mundo exterior, entender esse Gorbachev irrequieto,
impaciente em seu desejo de ver as coisas se moverem e tomado
de um vigor duplicado pelo contraste com a liderança
velha e doente a que veio suceder. Exatamente o que ele quer
e até onde está disposto a ir - eis uma questão
que intriga e apaixona nesse líder de 56 anos de idade
que fez quase toda sua carreira em sua província natal,
Stavropol, ao sul de Moscou, e irrompeu de forma fulminante
das sombras da política doméstica para a cena
mundial. A rigor, a liderança que se esconde atrás
do Kremlin nunca deixou de intrigar o Ocidente, mas Gorbachev
chegou com características especiais, entre as quais
não é a menor o magnetismo pessoal e o charme
burguês de se fazer acompanhar da mulher, Raisa, nas
viagens e outros compromissos.
Com
todo seu capital de campeão de audiência no Ocidente,
Gorbachev não é invulnerável às
ironias em seu próprio país. Mesmo a anedota
do trem tem uma segunda intenção, menos lisonjeira
- a de caracterizá-lo como líder que fala muito
mas não faz, que grita diante dos problemas mas não
os soluciona. Não há dúvida de que, nestes
dois anos, o que Gorbachev construiu de mais vistoso está
no campo dos gestos e das palavras. O melhor dele está
embalado na palavra glasnost - transparência, em russo
-, movimento pelo qual a imprensa ganhou uma certa descompressão,
obras artísticas antes proibidas foram divulgadas e
os próprios líderes passaram a abordar problemas
antes inabordáveis. Quanto à outra palavrinha
mágica do vocabulário-base do novo líder
- peristroika, ou reestruturação, rótulo
que resume seu desejo de revolucionar as relações
econômicas do país -, por enquanto ela continua
basicamente uma promessa para o futuro.
Daí,
porém, a caracterizar Gorbachev como um líder
fátuo, que fala mas não faz, vão uma
distância e uma injustiça - em primeiro lugar,
porque a glasnost tem um valor em si. "Breve, glasnost
será uma palavra russa tão conhecida no mundo
quanto a palavra sputnik", extasia-se o poeta Yevgeny
Yevtuchenko, que há 25 anos vem conseguindo equilibrar-se
entre o que quer colocar em seus versos e o que os censores
permitem que coloque. Outro escritor, Ieremei Parnov, autor
de romances históricos de vastas tiragens, resumiu
a glasnost para VEJA com uma fórmula que toca fundo
a essência do gorbachevismo. "A conquista mais
importante foi que agora temos a tendência de ver as
coisas como são, não como queremos que sejam",
disse Parnov.
Começa-se
a compreender Gorbachev quando se imagina um médico
que já precisou seu diagnóstico, mas que, para
acertar na cura, ainda consulta seus livros de receitas. O
diagnóstico é de que a URSS teve seu crescimento
perigosamente estagnado durante a última década
do reinado de Brejnev, de que o moral do povo se esgarçou
e de que entre ela e os países adiantados do Ocidente
abriu-se um descompasso, cada vez mais amplo, que ameaça
desbancar o país de sua condição de potência
mundial. Está-se a anos de distância do ufanismo
brejneviano, época em que oficialmente se considerava
a URSS na fase do "socialismo avançado" e
a um passo do "comunismo". Na linguagem marxista,
isso significaria que o país já teria ultrapassado
a fase mais dura de "construção do socialismo"
e se colocaria na véspera da situação
de paraíso social, sem conflitos nem entraves, a que
a teoria chama de comunismo.
Em
teoria, quando se considera a União Soviética,
está-se diante da segunda potência industrial
do planeta. Para impor respeito o país assenta-se num
arsenal de 10.000 cabeças nucleares. E para mostrar
de que fantásticas proezas é capaz tem astronautas
que voam pelo espaço com mais segurança e desembaraço
do que os americanos, vitimados na carne e no moral com o
desastre da nave Challenger. Visita-se Moscou ou Leningrado,
porém, e sente-se nas coisas mais simples a disparidade
existente entre o status de superpotência da URSS e
as realidades de seu dia-a-dia.
Tome-se
um carro, para começar, e se constatará que
os buracos das ruas, assim como as condições
do veículo, em geral já muito rodado e com um
desenho de segunda classe, são de qualidade, por assim
dizer, latino-americana. Já ao descer do automóvel
e necessitar de qualquer coisa, o visitante enfrentará
problemas maiores - os serviços, na URSS, podem descer
ao padrão africano. Num restaurante, depois de uma
espera colossal, jamais se deve manter a expectativa de que
o garçom perguntará se o freguês prefere
seu bife bem ou malpassado. Não se chegou a esse grau
de atenção. Tampouco se pode confiar que existam
todos os pratos do cardápio. Nem sempre a relação
coincide com as imprevisíveis disponibilidades da cozinha.
Os
russos costumam sair às ruas armados sempre de uma
sacola na mão e dinheiro no bolso. Estão sempre
prevenidos porque, quando menos se espera, se pode deparar
com um armazém que esteja vendendo tomates, por exemplo
- e é bom garantir a compra na hora porque, assim como
o tomate esteve sumido da praça por semanas a fio,
depois dessa breve aparição sumirá outra
vez. Russo também tem o costume de muitas vezes entrar
nas lendárias filas que se formam no país sem
saber o que se está vendendo. Primeiro garante-se o
lugar para depois se ver o que há para comprar.
À
distribuição lotérica dos artigos de
consumo soma-se outro problema sua qualidade. "Precisamos
acabar com a fixação nos grandes números",
afirma o escritor e jornalista Vitaly Korotich, editor da
revista Ogoniok, a mais em moda hoje em Moscou. "Sempre
produzimos o dobro, em metais, do que os EUA, mas nossos metais
são piores. Também produzimos mais sapatos do
que qualquer país do mundo, mas na Hungria encontrei
sapatos brasileiros e comprei-os. São melhores."
O
dinamismo de Gorbachev contrasta com a natureza rústica
e inepta da URSS do dia-a-dia, mas é preciso dar ao
líder vários descontos. Precisa-se ter em conta,
por exemplo, a natureza das sucessões em Moscou, caracterizadas
por um ritmo que faz com que dois anos no poder - metade de
um mandato ou quase isso numa democracia ocidental - não
sejam nada na URSS. "Sucessões de liderança
são marcos na história soviética",
escreve o professor americano Seweryn Bialer, um especialista
em URSS. "Nenhum prazo determinado existe para o ocupante
do cargo máximo. Os termos em que exercerá o
poder também não são claros, nem seus
direitos e obrigações."
Em
princípio, um líder da URSS liga-se ao poder
até que a vida os separe. Nesse sentido, as sucessões
no país lembram a sucessão de um império
antigo. Da mesma forma, as marcas deixadas pelos líderes
são como as marcas dos antigos imperadores. Um soviético
tem na ponta da língua a época em que foram
construídos os edifícios de sua cidade. "Este
é da era de Stálin", dizem. "Aquele
outro foi erguido sob Kruchev." Imagine-se se um brasileiro
saísse por sua cidade dizendo que tal edifício
revela a marca de Castello Branco ou que aquele outro foi
erguido sob José Sarney. Em Moscou se está como
em Roma, onde se sabia perfeitamente que tal coluna é
de Augusto e tal arco de Adriano.
A
comparação de Moscou com Roma é do tempo
dos czares mais remotos. Para eles sua capital era a "Terceira
Roma", depois da própria capital do Império
Romano e de Bizâncio, dotada da mesma missão
civilizatória. Não é por acaso que a
comparação possa voltar à mente, hoje:
Moscou continua comandando um império. Além
das quinze repúblicas que formam a "União"
a que se refere o nome oficial do país, incluem-se
ainda nele vinte "repúblicas autônomas",
tudo isso englobando nas imensidões de seu território
mais de 100 nacionalidades e outros tantos idiomas. Um asiático
da República do Turcomenistão é para
um russo tão estrangeiro quanto para um francês
é um boliviano. Os tipos morenos da República
da Geórgia, no sul do país, habituados a um
clima tão ameno quanto o da Itália, nada têm
a ver com os russos da Sibéria, que se cobrem de peles
e se movem em trenós.
O
significado da palavra "soviético" - conceito
em que os russos propriamente ditos se incluem como apenas
a metade da população da URSS, de 285 milhões
de habitantes - toma forma e conteúdo quando se passeia
pela Praça Vermelha, lugar de peregrinação
para os visitantes que chegam de todos os cantos do império.
Olha-se para um canto e depara-se com um grupo de armênios.
Olha-se para outro e flagra-se uma família do Usbequistão
que se oferece em versão três gerações
- pais, crianças e avós. O pai, Bahredi, em
roupas mais modernas, explica que já esteve outras
vezes em Moscou, mas é a primeira em que está
trazendo os velhos, enrolados em trajes típicos. Ele
acrescenta com orgulho que o velho é veterano da "Grande
Guerra Patriótica", como os soviéticos
chamam a II Guerra Mundial. A velha, por sua vez, ganhou o
título de "Mãe Heroína", por
dar à luz onze filhos.
É
um paradoxo que a URSS, pioneira do socialismo e do "mundo
novo", seja ao mesmo tempo o último dos impérios
à moda antiga, onde se agrupam nacionalidades diversas,
distintos idiomas e terras distantes - como o Império
Austro-Húngaro ou o Império Otomano. Isso só
complica o impulso reformador de Gorbachev. Na verdade, por
enquanto, o novo senhor do Kremlin apenas afia suas armas
- e uma das que vêm sendo mais bem afiadas é
a imagem de marca do país. Contra a idéia de
uma União Soviética cinzenta, fechada e inflexível,
Gorbachev ataca com inovações como a conferência
de imprensa que agora é concedida aos jornalistas no
auditório de um prédio da Avenida Zubovski pertencente
ao Ministério das Relações Exteriores.
Nesse auditório, às terças e quintas-feiras,
um jornalista com experiência de seis anos como correspondente
em Nova York, Guenadi Guerassimov, transformou-se num dos
símbolos mais visíveis da glasnost ao aceitar
o papel de porta-voz do Ministério do Exterior - e,
por extensão, do governo em geral, já que não
há em outros ministérios figura equivalente.
Nada mais banal, em outras partes, do que um porta-voz para
dar conta dos atos do governo. Na URSS, o hábito, instituído
há um ano, é um marco dos novos tempos.
Aos
56 anos, como Gorbachev, Guerassimov exibe ternos de fino
corte e um humor frio, capaz de oferecer aos jornalistas comentários
como o que fez a propósito do escândalo dos marines
americanos acusados de se embriagar e promover orgias na Embaixada
dos Estados Unidos em Moscou. "Sinto que, depois do grande
triunfo de Granada, os marines tenham conhecido nesse episódio
sua primeira derrota", disse. O humor e os ternos - mais
o inglês impecável - sugerem que têm fundamento
as análises de que há no fenômeno Gorbachev
um substrato de geração, ou seja: a ascensão
ao comando de uma geração mais educada, segura
de si e sofisticada. Por que essa geração demorou
tanto a chegar ao poder? "Por polidez", respondeu
Guerassimov a VEJA. "Nós não poderíamos
chegar aos velhos e dizer: 'Olha, vocês já ficaram
muito tempo'. Tínhamos que obedecer ao processo democrático,
o nosso próprio processo democrático."
No
fundo Guerassimov é como Raisa Maximova, a mulher de
Gorbachev - um enfeite. Mas os enfeites têm seu peso
no jogo de gestos e simbolismos que constitui a política.
O que Gorbachev mostrou sobretudo, nestes dois anos, é
que é um grande político, hábil na alternância
das ousadias com o cálculo de até onde é
possível avançar. "Ele não é
um voluntarista como Kruchev, um impulsivo com boas intenções
mas fraco nas bases", analisa Guerassimov. "Também
não é outro Pedro, o Grande, que quer virar
o país do avesso. Ele tem caminhado por consenso, única
forma de se fazer as coisas politicamente."
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