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REPORTAGEM DE VEJA
As chamas
do Islã
Revivendo
cenas que se julgavam
esquecidas na História, a revolução
iraniana irrompe com ímpeto e abre
perspectivas inquietantes no plano
internacional
Os
homens enchiam de terra sacos de estopa, levantavam barricadas
com tijolos e madeira. E muitos entre eles traziam faixas
de tecido branco na testa, símbolo muçulmano
da disposição de morrer em combate. Envoltas
em seus véus negros, os chadors, mulheres de todas
as idades ocupavam-se em uma frenética fabricação
de coquetéis Molotov. E pelas esquinas de Farahabad,
bairro no setor leste de Teerã, jovens interrompiam
os passantes para colocar-lhes nas mãos uma metralhadora,
um fuzil - o convite para juntar-se à jihad, a "guerra
santa" islâmica que começava a engolfar
o Irã.
Um
ano depois das primeiras passeatas contra o regime do xá
Mohammed Reza Pahlevi, que governou o país com mão
de ferro durante 37 anos, era toda a população
de Teerã que, como num único movimento, se sublevava
para tomar o poder pelas armas. Foi um dia sangrento, o sábado,
10 de fevereiro, na capital do Irã. Durante todo o
dia, multidões enfurecidas investiram contra quartéis,
delegacias de polícia e outros postos de resistência
da monarquia. A cidade cobriu-se de grossas espirais de fumaça
que, aqui e ali, indicavam tanques do Exército e edifícios
públicos incendiados. Tudo que se ouvia eram explosões
e tiros.
Ouviam-se
também e principalmente os gritos dos seguidores do
ayatollah Ruhollah Khomeini, o líder supremo da rebelião,
que insuflavam a turbamulta por meio de alto-falantes. No
final da tarde, combatia-se por toda a cidade. Pelo menos
200 mortos e 800 feridos haviam sido recolhidos das ruas.
E a fúria do levante popular trazia à lembrança
de um mundo assombrado cenas que se acreditava definitivamente
arquivadas nos livros de História ou nos relatos do
passado - como a tomada do Palácio de Inverno, na Revolução
Bolchevique de 1917, por exemplo, ou até mesmo a derrubada
da Bastilha, durante a Revolução Francesa, no
remoto 1789.
CAPÍTULO
FINAL - O fato é que bastaram onze dias da presença
de Khomeini em Teerã, após um exílio
de quinze anos - no Iraque, depois na França -, para
que a insurreição iraniana ganhasse os contornos
definitivos de uma revolução. Mais ainda: um
verdadeiro assalto popular ao poder, algo que os cientistas
políticos já não mais esperavam ver neste
final de século, em que ações militares,
as intervenções estrangeiras ou incontáveis
fórmulas de acomodação tornaram-se a
modalidade dominante de transformação política.
O
capítulo final da monarquia persa, velha de 2.500 anos
- e também da moderna dinastia Pahlevi, fundada pelo
pai do atual xá em 1921 -, começou na noite
de sexta-feira atrasada, quando cadetes da base aérea
Dashan Tadeh se amotinaram contra seus oficiais. As Forças
Armadas, talvez a única instituição que
ainda barrava o avanço das hordas iranianas rumo ao
poder em Teerã, começavam a ceder. Unidades
da Guarda Imperial, uma tropa de elite incondicionalmente
fiel ao governo do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, foram
chamadas para sufocar o levante. Mas os soldados mal haviam
chegado a Dashan Tadeh quando milhares de populares armados
surgiram nas imediações da base para reforçar
a posição dos cadetes. Começou então
a batalha - e o sangue não deixaria mais de correr
até a derrocada final do governo e a captura do poder
pelo ayatollah.
ASSALTO
À PRISÃO - Os combates não tardaram a
estender-se a um arsenal militar situado nas proximidades,
o de Eshratabad, e prolongaram-se durante toda a noite. Na
manhã de domingo, finalmente, renderam-se os últimos
oficiais leais ao governo. Pouco depois, o Estado-Maior das
Forças Armadas comunicava que as tropas seriam chamadas
de volta aos quartéis, "para evitar mais derramamento
de sangue e anarquia". Era, na prática, a retirada
de apoio militar ao desprestigiado governo de Bakhtiar, um
advogado de 63 anos, designado pelo xá no início
de janeiro, antes da partida do monarca para o exílio.
E caía, com Bakhtiar, o último obstáculo
para a instauração da "república
islâmica" pregada por Khomeini.
Como
seria de esperar, uma explosão de júbilo tomou
conta da cidade mas a comemoração foi breve.
Em poucas horas espalharam-se rumores de que a saída
de cena das Forças Armadas não passara de um
blefe dos comandos militares. Não era verdade - mas,
no caos da revolução ainda quente, as multidões
enfureceram-se e lançaram-se a uma louca escalada de
violências. De Dashan Tadeh a massa humana dirigiu-se
contra o Palácio Golestan, uma ex-residência
do xá, atualmente destinada a hóspedes de Estado.
Depois, investiu contra o escritório do primeiro-ministro
Bakhtiar, que, àquela altura, estava desaparecido.
A casa de Bakhtiar também foi saqueada, como a sede
da missão comercial de Israel, a sede da missão
militar americana - já abandonada - e o prédio
onde funciona a Câmara Baixa do Parlamento.
À
maneira da Revolução Francesa de 1789, não
faltou nem mesmo um apoteótico assédio à
maior prisão iraniana, a de Jamshidiyeh, em Teerã.
De um só golpe, nada menos de 11.000 presos, muitos
deles criminosos comuns, ganharam a liberdade. Mas a massa
queria, também, acertar contas com alguns membros do
antigo regime ali encarcerados por corrupção.
Suas presas mais desejadas: o ex-primeiro-ministro Amir Abbas
Hovejda, que ocupou o posto por treze anos, e o ex-chefe da
odiada polícia política, a Savak, general Nematollah
Nassiri.
CABEÇAS
DECEPADAS - Hovejda e Nassiri, que haviam sido presos por
ordem do xá no final do ano passado, como uma concessão
aos opositores do regime, foram salvos do linchamento pela
chamada "guarda islâmica" de Khomeini - a
esta altura abrindo fogo não mais para derrubar o governo
mas, sim, para tentar recompor alguma ordem. Salvos, mas não
por muito tempo. Ambos foram conduzidos a um cárcere
improvisado no quartel-general do ayatollah. E, na sexta-feira,
após um julgamento sumário, Nassiri seria fuzilado
juntamente com mais três generais - as primeiras de
uma série de cabeças que, segundo se acredita,
a espada da "república islâmica" vai
decepar.
Mas,
ao mesmo tempo que estendia seu domínio sobre o país,
a rebelião começava a escapar, na semana passada,
ao controle de seu patrono Khomeini - o líder religioso
de 78 anos que, contando apenas com sua ascendência
sobre as massas, conduziu a revolta do exílio em Neauphle-le-Château,
França, a 4.500 quilômetros de Teerã.
Com a tomada de quartéis e arsenais ao longo do fim
de semana retrasado, cerca de 140.000 armas teriam caído
nas mãos dos rebeldes. E, apesar dos apelos de Khomeini
para que a população os entregasse à
"guarda islâmica", pouco mais de 10.000 haviam
sido recuperados até sexta-feira passada.
A
maior parte desse material, segundo se acredita, está
em poder de bandos anárquicos e de guerrilheiros marxistas,
como os do grupo Fedayn-e-Kalc. Criada em 1971, esta organização
uniu-se ao movimento religioso de Khomeini para a derrubada
do xá - mas, como outros grupos radicais, pretende
ir muito além da "república islâmica"
desejada pelo ayatollah. Ao que tudo indica, teriam sido esses
extremistas os responsáveis pelo ataque à embaixada
dos Estados Unidos em Teerã, na quarta-feira - explosão
de violência duramente amargada pelo novo governo.
O
episódio, que aguçou as apreensões de
Washington diante da revolução iraniana, só
terminou com a intervenção de uma força
armada pró-Khomeini. Depois de quase duas hora de cerco
pelos fedayin, os dezoito fuzileiros navais que defendiam
a embaixada haviam recebido ordem do embaixador William Suilivan
para que se rendessem devido ao desigual poder de fogo dos
atacantes. Neste momento, extremistas invadiram o edifício.
Eles já estavam retirando os 140 ocupantes da embaixada,
sob a mira de fuzis, quando a "guarda islâmica"
os resgatou.
SOBRE
BAIONETAS - Havia, por outro lado, um foco de resistência
do antigo regime na cidade de Tabriz, capital da província
de Azerbaijão, no norte, a 100 quilômetros da
fronteira com a União Soviética. Ali, ex-agentes
da Savak enfrentaram os populares pró-Khomeini até
quarta-feira, com um saldo de 700 mortos. Mas o fato é
que, em sua primeira etapa, a revolução fora
definitivamente vitoriosa - e seus inimigos, agora, estão
dentro dela própria. De fato, pouco ou nada restou
do regime anterior. Já na segunda-feira, o primeiro-ministro
Bakhtiar, que, segundo as primeiras versões, se teria
suicidado, apresentou sua renúncia. Este veterano oposicionista,
que abandonou os correligionários ao aceitar sua nomeação
pelo xá, passava assim o governo a um ex-companheiro
de luta política: o tecnocrata muçulmano Mehdi
Bazaran, designado para o posto por Khomeini.
Como
é natural nos momentos de grande convulsão política,
abria-se então, para o Irã e seus 35 milhões
de habitantes, um horizonte de incertezas. Mas não
apenas para o Irã - pois o dramático desfecho
da crise lança indagações que se projetam
muito além das fronteiras da antiga Pérsia.
No final da semana passada, diplomatas, estadistas e cientistas
políticos de todo o mundo debruçavam-se sobre
o fenômeno em busca de suas raízes.
PRIMEIRO
LUGAR - Apesar de seus 78 anos, quinze dos quais longe do
Irã, o ayatollah Khomeini conseguiu sobre as massas
iranianas um domínio raras vezes visto na História
- e acabou por se transformar numa das grandes figuras carismáticas
deste século. Armado unicamente com sua palavra, este
asceta de barbas brancas teleguiou multidões, manipulou
sem hesitar seu fanatismo, paralisou a economia do Irã,
fechou as torneiras do petróleo do segundo maior exportador
do mundo.
Como
tudo isso foi possível? Mas a revolução
tem ainda outros pontos intrigantes. Como explicar que, em
apenas um ano, um levante popular tenha derrubado um governo
sedimentado em 37 anos de existência e apoiado em um
dos mais poderosos e bem armados exércitos do planeta?
Não
eram poucas, na verdade, na semana passada, as reflexões
sobre a fragilidade da ordem que se apóia unicamente
sobre as baionetas. Com os bilhões de dólares
do petróleo, o xá dotou suas Forças Armadas
de quase 500.000 homens dos mais sofisticados equipamentos
de que se tem notícia - só os Estados Unidos
venderam ao Irã 12 bilhões de dólares
em armas nos últimos seis anos.
O
monarca se garantiu ainda contra seus opositores com uma brutal
polícia política - a Savak, que deu ao Irã,
em 1977, segundo a organização Anistia Internacional,
o primeiro lugar no mundo entre os países violadores
de direitos humanos.
REVOLUÇÃO
DE MAIORIA - Como se não bastasse, o xá Reza
Pahlevi também tinha a seu favor um insólito
consenso internacional. Até o último momento,
seu governo teve o apoio de países como China, Estados
Unidos e mesmo a União Soviética - os russos,
na verdade, sempre preferiram o xá, com quem estabeleceram
pacata convivência, ao visceralmente anticomunista Ruhollah
Khomeini. Mas nenhum desses pólos de sustentação,
como se viu, mostrou-se suficiente para salvar o regime. Pelo
contrário. Entre todas as revoluções
da História, a iraniana prima pela quase unanimidade
da oposição à ordem reinante. Acredita-se
que nada menos de 90% dos iranianos colocaram-se contra o
governo ao longo do ano passado.
Segundo
disse a VEJA o professor Thomas Ricks, do Departamento de
História da Universidade de Georgetown, em Washington,
este particular faz da revolução iraniana um
dos mais profundos movimentos sociais deste século.
Ele lembra que a revolução comunista na Rússia,
por exemplo, foi feita pelos bolcheviques, uma minoria dentro
da sociedade. No Irã, diversamente, é ínfimo
o número de defensores da velha ordem.
Mas
o que dá ao fenômeno iraniano um caráter
ainda mais intrigante é sem dúvida seu conteúdo
religioso. Seria a rebelião o primeiro rebento de um
renascimento islâmico? Existem, hoje, entre 750 milhões
e 1 bilhão de muçulmanos no mundo. Trata-se
da única religião em expansão - e, além
do mais, é a crença dominante nos países
detentores das principais reservas conhecidas de petróleo.
80.000
MESQUITAS - Esses fatos, por si só, bastam para explicar
a apreensão com os perigos de contágio da insurreição
iraniana. Pode-se enganar, contudo, quem interpreta a revolução
como um fenômeno exclusivamente religioso. "Não
houve uma revolução islâmica no Irã",
acredita o professor inglês Freddy Halliday, diretor
do Transnational Institute de Londres. "O que aconteceu",
disse ele na semana passada a VEJA, "foi uma revolução
contra a velha classe política, na qual só existiu
um elemento catalisador organizado: a religião."
É
certo que o xiismo, a seita muçulmana que é
a religião oficial do Irã, é tradicionalmente
vinculado às questões políticas. Mas
é possível, como quer o professor Halliday,
que o movimento religioso não tenha sido o motor da
rebelião popular mas, sim, seu canal de expressão.
Privados, sob o regime ditatorial do xá, de imprensa
livre, partidos políticos representativos e entidades
estudantis, os iranianos voltaram-se para o único fórum
que permanecera aberto: as 80.000 mesquitas existentes no
Irã. Mas a mais importante contribuição
do clero para o movimento subversivo foi emprestar-lhe sua
secular estrutura de comunicações no interior
do país. Quando os ayatollahs ditavam palavras de ordem
políticas para a população, elas eram
imediatamente transmitidas, para baixo, em direção
a uma rede de 18.000 mullahs - espécie de sacerdotes
paroquiais - e, ainda num degrau inferior, para 600.000 saias,
crentes considerados como "descendentes diretos"
do profeta Maomé.
TRANSTORNOS
- Durante a revolta dos últimos meses, esta rede foi
ainda acrescida com a participação dos bawaris,
os comerciantes tradicionais que existem em todas as cidades
iranianas. Muito ligados ao clero, eles recolhem dízimos
sobre seus ganhos. Por tradição, nomeiam líderes
comunitários para organizar as procissões religiosas
- e existem mais de 5.000 só em Teerã. É
compreensível, assim, que milhões de iranianos
tenham se reunido com tanta freqüência nos últimos
meses para clamar pelo fim da monarquia. E se entende, também,
como a rebelião obteve tantos recursos materiais. Mas
por que a insatisfação com o regime teria chegado
só agora ao ponto de ebulição?
As
revoluções se desencadeiam, segundo a clássica
fórmula do professor americano Crane Brinton, de Harvard,
"nos momentos em que crescem as expectativas de ascensão
econômica e social por parte das massas". E o caso
do Irã parece ajustar-se com perfeição
ao modelo teórico. A quadruplicação dos
preços do petróleo em 1973/1974 multiplicou
por 20 a renda do Irã com a exportação
do produto, chegando a uma receita de nada menos que 24 bilhões
de dólares anuais - o dobro do total das vendas externas
brasileiras. Mas o fato é que o Irã não
chegou a se estruturar como uma sociedade capitalista - passou
do estágio feudal, vigente até alguns anos atrás,
para um mero estado de crescimento desordenado.
Tentando
utilizar o dinheiro do petróleo, o governo lançou-se
a um vasto programa de desenvolvimento acelerado e acenou
com um futuro cheio de promessas. Mas não conseguiu
nem teve tempo de trazer parcelas consideráveis da
população para os benefícios do sistema
- ou de criar na sociedade iraniana interesses que combinassem
com os seus. Na verdade, a injeção de capital
na economia, sem a necessária competência administrativa
para geri-lo, acabou trazendo mais transtornos que benefícios
para o cidadão. Esta é, entre outras, a análise
do professor americano Marvin Zones, diretor do Centro de
Estudos sobre Oriente Médio da Universidade de Chicago
e autor de um dos mais respeitados estudos recentes sobre
o Irã.
TEIMOSIA
- Entre outras conseqüências, o Irã, antes
auto-suficiente em produção de alimentos, tornou-se
gradativamente dependente de importação para
50% do consumo. Grandes massas de população
emigraram para as zonas urbanas - Teerã, por exemplo,
ganhou 1 milhão de habitantes em cinco anos. E, nas
cidades, os novos contingentes vieram agravar a carência
de infra-estrutura sanitária, serviços médicos
e escolas - sem falar no desemprego. Paralelamente, cerca
da metade das receitas do petróleo era destinada anualmente
à compra de armamentos. O restante, como se pode imaginar,
não bastava para melhorar significativamente o lote
do cidadão comum.
A
extraordinária inépcia na gerência da
economia acabou obrigando a uma política de contenção.
Em agosto de 1977, com a inflação por volta
de 50% ao ano, e uma dívida externa calculada em 10
bilhões de dólares, o governo resolveu restringir
o crédito. Para agravar as coisas, este momento de
frustração das expectativas abertas pelo petróleo
coincidiu com uma tímida política de liberalização
política. Ou seja, ao mesmo tempo que se aprofundava
a insatisfação popular abriam-se canais para
sua manifestação. E esta combinação,
segundo Marvin Zones, teria sido fatal para o regime.
Há
quem veja ainda na rebelião iraniana um típico
caso de crise de modernização, a exemplo da
que levou à revolução chinesa na década
de 40. Assim, para Ira Klein, professor de História
da American University, em Washington, os acontecimentos da
semana passada seriam apenas o ápice de um processo
revolucionário iniciado no Irã no começo
do século: a adaptação da velha ordem
política à nova realidade econômica do
país. Segundo este raciocínio, a monarquia teria
sido eliminada de forma pacífica há muitos anos,
não fosse a teimosia de nações estrangeiras
no sentido de mantê-la - como foi o caso do golpe patrocinado
em 1953 pelos Estados Unidos para repor o xá Reza Pahlevi
no trono. Temporariamente contido, o processo histórico
estaria agora apenas seguindo seu curso.
TRABALHO
ÁRDUO - O fato é que a intransigência
do regime do xá em abrir espaço político
para a oposição acabou radicalizando a frente
antigovernamental.
Agora,
as conseqüências disso deverão revelar-se
com toda sua força. Em primeiro lugar, o país
está falido. Não bastasse o corte nas receitas
do petróleo, o novo governo deverá enfrentar
a conseqüência da inevitável fuga de capitais
que precedeu a queda da monarquia. Só em novembro e
dezembro passados, diante da absoluta incapacidade de se tocar
qualquer negócio no país, mais de 3 bilhões
de dólares fugiram do Irã.
Por
outro lado, o colapso da produção causado pelas
greves prolongadas exigirá um árduo trabalho
de reconstrução. No caso do petróleo,
particularmente, acredita-se que a produção
não voltará aos níveis anteriores antes
de pelo menos um ano - mesmo que o novo governo se empenhe
neste sentido, o que ainda não se sabe se acontecerá.
Mais árduos, contudo, prometem ser os problemas na
frente política. Já na semana passada, com a
república ainda nascendo, surgiram as primeiras fissuras
na coalizão oposicionista que conduziu a luta contra
o xá. E o confronto principal, ao que tudo indica,
será entre a esquerda e os religiosos.
"CONSELHO
REVOLUCIONÁRIO" - Mais que o minúsculo
Partido Comunista do Irã, o Tudeh - na clandestinidade
desde 1949 - são os extremados grupos marxistas-leninistas
que estão pressionando para influenciar a nova ordem.
Seu quartel-general é a Universidade de Teerã
e foram eles, na verdade, que tomaram a dianteira nos combates
de rua. Os esquerdistas também conquistaram posições
junto aos trabalhadores dos campos petrolíferos e,
agora, querem uma "participação" na
feitura do programa do governo. O problema é que não
se trata bem de uma "participação"
- e sim, a julgar por suas extraordinárias exigências,
de uma virtual captura do governo.
Entre
outras coisas, os fedayin, estimulados pelas armas que detêm,
querem a criação de um "exército
popular" para substituir as atuais Forças Armadas.
Pleiteiam também a transformação do conselho
de representantes eleitos das comissões de greve em
um "conselho revolucionário" - o que eqüivaleria,
na prática, a um soviete. E querem nada mais nada menos
que o controle das grandes instituições nacionalizadas,
como a Companhia Nacional de Petróleo e a Rádio
e Televisão Nacional.
Ao
mesmo tempo que lida com a economia e duela com a esquerda
armada, o novo primeiro-ministro Mehdi Bazargan terá
que começar a construir as instituições
da "república islâmica" pretendida.
Por enquanto, tudo que se sabe é que Bazargan pretende
convocar um plebiscito popular sobre o abandono formal da
monarquia, eleições para uma Assembléia
Constituinte e, no futuro, para um novo Parlamento. Mas como
funcionará o país neste período de transição?
Será realmente a nova "república islâmica"
uma tentativa de copiar o sistema que vigorava na Arábia
sob Maomé ou o califa Omar, 1.300 anos atrás?
É pouco provável que o governo agora empossado
pretenda realmente abolir todos os elementos de modernização
da vida iraniana - mesmo porque tal empreitada seria simplesmente
inviável. Mas os passos concretos a serem dados nas
próximas semanas permanecem marcados pela mais absoluta
incerteza.
"ESTADOS-CLIENTES"
- Esta falta de definições é particularmente
grave no campo das relações internacionais.
Constata-se, de imediato, que o ocidente perdeu um de seus
mais importantes peões no Oriente Médio. Com
seus 2.600 quilômetros de fronteira com a União
Soviética, o Irã era uma base ideal para os
sofisticadíssimos aparelhos americanos de acompanhamento
eletrônico das atividades militares e espaciais soviéticas.
Mais que isso, o Irã tem sido uma fonte vital de petróleo
para todo o mundo ocidental. E, para completar, empenhava-se
de bom grado na missão de "policiar" o estratégico
golfo Pérsico.
Mas
a derrota ocidental no Irã não se limita à
perda de "um verdadeiro protetorado", como observa
o jornalista americano Richard Burt. Mais grave que isso é
a admissão do fracasso do sistema de "Estados-clientes",
que floresceu nos anos da guerra fria. Segundo esse sistema,
a defesa ocidental passou a basear-se em pactos regionais
centrados em "Estados-clientes" - países
intermediários que se alinham aos interesses estratégicos
americanos em troca de ajuda econômica e militar. A
lição da revolução iraniana, segundo
Burt, é que os "Estados-clientes" já
não são mais confiáveis.
COM
A OLP - Mas o país mais diretamente prejudicado com
a derrubada do xá é sem dúvida Israel.
Sob Reza Pahlevi, o Irã foi o único membro da
Organização de Países Exportadores de
Petróleo (Opep) a ignorar o embargo de petróleo
para Telavive decretado pelos árabes, em 1973. E, até
o início, da crise iraniana, ainda era responsável
por 60% do petróleo consumido naquele país.
O Irã, daqui para frente, está firmemente alinhado
com a OLP (Organização de Libertação
da Palestina) - e aí está mais um dado capaz
de complicar consideravelmente a política internacional.
Com a União Soviética e os Estados Unidos acusando-se
mutuamente pela radicalização do conflito no
Irã, também a détente sofre abalos. Em
suma, a primeira revolução feita sob a égide
do Islã nos tempos modernos ainda tem contornos imprecisos
- e o mundo todo, nas próximas semanas, estará
acompanhando inquieto seu desenrolar.
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