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IRÃ
Data: 21 de fevereiro de 1979
 



REPORTAGEM DE VEJA

As chamas do Islã

Revivendo cenas que se julgavam
esquecidas na História, a revolução
iraniana irrompe com ímpeto e abre
perspectivas inquietantes no plano
internacional

Os homens enchiam de terra sacos de estopa, levantavam barricadas com tijolos e madeira. E muitos entre eles traziam faixas de tecido branco na testa, símbolo muçulmano da disposição de morrer em combate. Envoltas em seus véus negros, os chadors, mulheres de todas as idades ocupavam-se em uma frenética fabricação de coquetéis Molotov. E pelas esquinas de Farahabad, bairro no setor leste de Teerã, jovens interrompiam os passantes para colocar-lhes nas mãos uma metralhadora, um fuzil - o convite para juntar-se à jihad, a "guerra santa" islâmica que começava a engolfar o Irã.

Um ano depois das primeiras passeatas contra o regime do xá Mohammed Reza Pahlevi, que governou o país com mão de ferro durante 37 anos, era toda a população de Teerã que, como num único movimento, se sublevava para tomar o poder pelas armas. Foi um dia sangrento, o sábado, 10 de fevereiro, na capital do Irã. Durante todo o dia, multidões enfurecidas investiram contra quartéis, delegacias de polícia e outros postos de resistência da monarquia. A cidade cobriu-se de grossas espirais de fumaça que, aqui e ali, indicavam tanques do Exército e edifícios públicos incendiados. Tudo que se ouvia eram explosões e tiros.

Ouviam-se também e principalmente os gritos dos seguidores do ayatollah Ruhollah Khomeini, o líder supremo da rebelião, que insuflavam a turbamulta por meio de alto-falantes. No final da tarde, combatia-se por toda a cidade. Pelo menos 200 mortos e 800 feridos haviam sido recolhidos das ruas. E a fúria do levante popular trazia à lembrança de um mundo assombrado cenas que se acreditava definitivamente arquivadas nos livros de História ou nos relatos do passado - como a tomada do Palácio de Inverno, na Revolução Bolchevique de 1917, por exemplo, ou até mesmo a derrubada da Bastilha, durante a Revolução Francesa, no remoto 1789.

CAPÍTULO FINAL - O fato é que bastaram onze dias da presença de Khomeini em Teerã, após um exílio de quinze anos - no Iraque, depois na França -, para que a insurreição iraniana ganhasse os contornos definitivos de uma revolução. Mais ainda: um verdadeiro assalto popular ao poder, algo que os cientistas políticos já não mais esperavam ver neste final de século, em que ações militares, as intervenções estrangeiras ou incontáveis fórmulas de acomodação tornaram-se a modalidade dominante de transformação política.

O capítulo final da monarquia persa, velha de 2.500 anos - e também da moderna dinastia Pahlevi, fundada pelo pai do atual xá em 1921 -, começou na noite de sexta-feira atrasada, quando cadetes da base aérea Dashan Tadeh se amotinaram contra seus oficiais. As Forças Armadas, talvez a única instituição que ainda barrava o avanço das hordas iranianas rumo ao poder em Teerã, começavam a ceder. Unidades da Guarda Imperial, uma tropa de elite incondicionalmente fiel ao governo do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, foram chamadas para sufocar o levante. Mas os soldados mal haviam chegado a Dashan Tadeh quando milhares de populares armados surgiram nas imediações da base para reforçar a posição dos cadetes. Começou então a batalha - e o sangue não deixaria mais de correr até a derrocada final do governo e a captura do poder pelo ayatollah.

ASSALTO À PRISÃO - Os combates não tardaram a estender-se a um arsenal militar situado nas proximidades, o de Eshratabad, e prolongaram-se durante toda a noite. Na manhã de domingo, finalmente, renderam-se os últimos oficiais leais ao governo. Pouco depois, o Estado-Maior das Forças Armadas comunicava que as tropas seriam chamadas de volta aos quartéis, "para evitar mais derramamento de sangue e anarquia". Era, na prática, a retirada de apoio militar ao desprestigiado governo de Bakhtiar, um advogado de 63 anos, designado pelo xá no início de janeiro, antes da partida do monarca para o exílio. E caía, com Bakhtiar, o último obstáculo para a instauração da "república islâmica" pregada por Khomeini.

Como seria de esperar, uma explosão de júbilo tomou conta da cidade mas a comemoração foi breve. Em poucas horas espalharam-se rumores de que a saída de cena das Forças Armadas não passara de um blefe dos comandos militares. Não era verdade - mas, no caos da revolução ainda quente, as multidões enfureceram-se e lançaram-se a uma louca escalada de violências. De Dashan Tadeh a massa humana dirigiu-se contra o Palácio Golestan, uma ex-residência do xá, atualmente destinada a hóspedes de Estado. Depois, investiu contra o escritório do primeiro-ministro Bakhtiar, que, àquela altura, estava desaparecido. A casa de Bakhtiar também foi saqueada, como a sede da missão comercial de Israel, a sede da missão militar americana - já abandonada - e o prédio onde funciona a Câmara Baixa do Parlamento.

À maneira da Revolução Francesa de 1789, não faltou nem mesmo um apoteótico assédio à maior prisão iraniana, a de Jamshidiyeh, em Teerã. De um só golpe, nada menos de 11.000 presos, muitos deles criminosos comuns, ganharam a liberdade. Mas a massa queria, também, acertar contas com alguns membros do antigo regime ali encarcerados por corrupção. Suas presas mais desejadas: o ex-primeiro-ministro Amir Abbas Hovejda, que ocupou o posto por treze anos, e o ex-chefe da odiada polícia política, a Savak, general Nematollah Nassiri.

CABEÇAS DECEPADAS - Hovejda e Nassiri, que haviam sido presos por ordem do xá no final do ano passado, como uma concessão aos opositores do regime, foram salvos do linchamento pela chamada "guarda islâmica" de Khomeini - a esta altura abrindo fogo não mais para derrubar o governo mas, sim, para tentar recompor alguma ordem. Salvos, mas não por muito tempo. Ambos foram conduzidos a um cárcere improvisado no quartel-general do ayatollah. E, na sexta-feira, após um julgamento sumário, Nassiri seria fuzilado juntamente com mais três generais - as primeiras de uma série de cabeças que, segundo se acredita, a espada da "república islâmica" vai decepar.

Mas, ao mesmo tempo que estendia seu domínio sobre o país, a rebelião começava a escapar, na semana passada, ao controle de seu patrono Khomeini - o líder religioso de 78 anos que, contando apenas com sua ascendência sobre as massas, conduziu a revolta do exílio em Neauphle-le-Château, França, a 4.500 quilômetros de Teerã. Com a tomada de quartéis e arsenais ao longo do fim de semana retrasado, cerca de 140.000 armas teriam caído nas mãos dos rebeldes. E, apesar dos apelos de Khomeini para que a população os entregasse à "guarda islâmica", pouco mais de 10.000 haviam sido recuperados até sexta-feira passada.

A maior parte desse material, segundo se acredita, está em poder de bandos anárquicos e de guerrilheiros marxistas, como os do grupo Fedayn-e-Kalc. Criada em 1971, esta organização uniu-se ao movimento religioso de Khomeini para a derrubada do xá - mas, como outros grupos radicais, pretende ir muito além da "república islâmica" desejada pelo ayatollah. Ao que tudo indica, teriam sido esses extremistas os responsáveis pelo ataque à embaixada dos Estados Unidos em Teerã, na quarta-feira - explosão de violência duramente amargada pelo novo governo.

O episódio, que aguçou as apreensões de Washington diante da revolução iraniana, só terminou com a intervenção de uma força armada pró-Khomeini. Depois de quase duas hora de cerco pelos fedayin, os dezoito fuzileiros navais que defendiam a embaixada haviam recebido ordem do embaixador William Suilivan para que se rendessem devido ao desigual poder de fogo dos atacantes. Neste momento, extremistas invadiram o edifício. Eles já estavam retirando os 140 ocupantes da embaixada, sob a mira de fuzis, quando a "guarda islâmica" os resgatou.

SOBRE BAIONETAS - Havia, por outro lado, um foco de resistência do antigo regime na cidade de Tabriz, capital da província de Azerbaijão, no norte, a 100 quilômetros da fronteira com a União Soviética. Ali, ex-agentes da Savak enfrentaram os populares pró-Khomeini até quarta-feira, com um saldo de 700 mortos. Mas o fato é que, em sua primeira etapa, a revolução fora definitivamente vitoriosa - e seus inimigos, agora, estão dentro dela própria. De fato, pouco ou nada restou do regime anterior. Já na segunda-feira, o primeiro-ministro Bakhtiar, que, segundo as primeiras versões, se teria suicidado, apresentou sua renúncia. Este veterano oposicionista, que abandonou os correligionários ao aceitar sua nomeação pelo xá, passava assim o governo a um ex-companheiro de luta política: o tecnocrata muçulmano Mehdi Bazaran, designado para o posto por Khomeini.

Como é natural nos momentos de grande convulsão política, abria-se então, para o Irã e seus 35 milhões de habitantes, um horizonte de incertezas. Mas não apenas para o Irã - pois o dramático desfecho da crise lança indagações que se projetam muito além das fronteiras da antiga Pérsia. No final da semana passada, diplomatas, estadistas e cientistas políticos de todo o mundo debruçavam-se sobre o fenômeno em busca de suas raízes.

PRIMEIRO LUGAR - Apesar de seus 78 anos, quinze dos quais longe do Irã, o ayatollah Khomeini conseguiu sobre as massas iranianas um domínio raras vezes visto na História - e acabou por se transformar numa das grandes figuras carismáticas deste século. Armado unicamente com sua palavra, este asceta de barbas brancas teleguiou multidões, manipulou sem hesitar seu fanatismo, paralisou a economia do Irã, fechou as torneiras do petróleo do segundo maior exportador do mundo.

Como tudo isso foi possível? Mas a revolução tem ainda outros pontos intrigantes. Como explicar que, em apenas um ano, um levante popular tenha derrubado um governo sedimentado em 37 anos de existência e apoiado em um dos mais poderosos e bem armados exércitos do planeta?

Não eram poucas, na verdade, na semana passada, as reflexões sobre a fragilidade da ordem que se apóia unicamente sobre as baionetas. Com os bilhões de dólares do petróleo, o xá dotou suas Forças Armadas de quase 500.000 homens dos mais sofisticados equipamentos de que se tem notícia - só os Estados Unidos venderam ao Irã 12 bilhões de dólares em armas nos últimos seis anos.

O monarca se garantiu ainda contra seus opositores com uma brutal polícia política - a Savak, que deu ao Irã, em 1977, segundo a organização Anistia Internacional, o primeiro lugar no mundo entre os países violadores de direitos humanos.

REVOLUÇÃO DE MAIORIA - Como se não bastasse, o xá Reza Pahlevi também tinha a seu favor um insólito consenso internacional. Até o último momento, seu governo teve o apoio de países como China, Estados Unidos e mesmo a União Soviética - os russos, na verdade, sempre preferiram o xá, com quem estabeleceram pacata convivência, ao visceralmente anticomunista Ruhollah Khomeini. Mas nenhum desses pólos de sustentação, como se viu, mostrou-se suficiente para salvar o regime. Pelo contrário. Entre todas as revoluções da História, a iraniana prima pela quase unanimidade da oposição à ordem reinante. Acredita-se que nada menos de 90% dos iranianos colocaram-se contra o governo ao longo do ano passado.

Segundo disse a VEJA o professor Thomas Ricks, do Departamento de História da Universidade de Georgetown, em Washington, este particular faz da revolução iraniana um dos mais profundos movimentos sociais deste século. Ele lembra que a revolução comunista na Rússia, por exemplo, foi feita pelos bolcheviques, uma minoria dentro da sociedade. No Irã, diversamente, é ínfimo o número de defensores da velha ordem.

Mas o que dá ao fenômeno iraniano um caráter ainda mais intrigante é sem dúvida seu conteúdo religioso. Seria a rebelião o primeiro rebento de um renascimento islâmico? Existem, hoje, entre 750 milhões e 1 bilhão de muçulmanos no mundo. Trata-se da única religião em expansão - e, além do mais, é a crença dominante nos países detentores das principais reservas conhecidas de petróleo.

80.000 MESQUITAS - Esses fatos, por si só, bastam para explicar a apreensão com os perigos de contágio da insurreição iraniana. Pode-se enganar, contudo, quem interpreta a revolução como um fenômeno exclusivamente religioso. "Não houve uma revolução islâmica no Irã", acredita o professor inglês Freddy Halliday, diretor do Transnational Institute de Londres. "O que aconteceu", disse ele na semana passada a VEJA, "foi uma revolução contra a velha classe política, na qual só existiu um elemento catalisador organizado: a religião."

É certo que o xiismo, a seita muçulmana que é a religião oficial do Irã, é tradicionalmente vinculado às questões políticas. Mas é possível, como quer o professor Halliday, que o movimento religioso não tenha sido o motor da rebelião popular mas, sim, seu canal de expressão. Privados, sob o regime ditatorial do xá, de imprensa livre, partidos políticos representativos e entidades estudantis, os iranianos voltaram-se para o único fórum que permanecera aberto: as 80.000 mesquitas existentes no Irã. Mas a mais importante contribuição do clero para o movimento subversivo foi emprestar-lhe sua secular estrutura de comunicações no interior do país. Quando os ayatollahs ditavam palavras de ordem políticas para a população, elas eram imediatamente transmitidas, para baixo, em direção a uma rede de 18.000 mullahs - espécie de sacerdotes paroquiais - e, ainda num degrau inferior, para 600.000 saias, crentes considerados como "descendentes diretos" do profeta Maomé.

TRANSTORNOS - Durante a revolta dos últimos meses, esta rede foi ainda acrescida com a participação dos bawaris, os comerciantes tradicionais que existem em todas as cidades iranianas. Muito ligados ao clero, eles recolhem dízimos sobre seus ganhos. Por tradição, nomeiam líderes comunitários para organizar as procissões religiosas - e existem mais de 5.000 só em Teerã. É compreensível, assim, que milhões de iranianos tenham se reunido com tanta freqüência nos últimos meses para clamar pelo fim da monarquia. E se entende, também, como a rebelião obteve tantos recursos materiais. Mas por que a insatisfação com o regime teria chegado só agora ao ponto de ebulição?

As revoluções se desencadeiam, segundo a clássica fórmula do professor americano Crane Brinton, de Harvard, "nos momentos em que crescem as expectativas de ascensão econômica e social por parte das massas". E o caso do Irã parece ajustar-se com perfeição ao modelo teórico. A quadruplicação dos preços do petróleo em 1973/1974 multiplicou por 20 a renda do Irã com a exportação do produto, chegando a uma receita de nada menos que 24 bilhões de dólares anuais - o dobro do total das vendas externas brasileiras. Mas o fato é que o Irã não chegou a se estruturar como uma sociedade capitalista - passou do estágio feudal, vigente até alguns anos atrás, para um mero estado de crescimento desordenado.

Tentando utilizar o dinheiro do petróleo, o governo lançou-se a um vasto programa de desenvolvimento acelerado e acenou com um futuro cheio de promessas. Mas não conseguiu nem teve tempo de trazer parcelas consideráveis da população para os benefícios do sistema - ou de criar na sociedade iraniana interesses que combinassem com os seus. Na verdade, a injeção de capital na economia, sem a necessária competência administrativa para geri-lo, acabou trazendo mais transtornos que benefícios para o cidadão. Esta é, entre outras, a análise do professor americano Marvin Zones, diretor do Centro de Estudos sobre Oriente Médio da Universidade de Chicago e autor de um dos mais respeitados estudos recentes sobre o Irã.

TEIMOSIA - Entre outras conseqüências, o Irã, antes auto-suficiente em produção de alimentos, tornou-se gradativamente dependente de importação para 50% do consumo. Grandes massas de população emigraram para as zonas urbanas - Teerã, por exemplo, ganhou 1 milhão de habitantes em cinco anos. E, nas cidades, os novos contingentes vieram agravar a carência de infra-estrutura sanitária, serviços médicos e escolas - sem falar no desemprego. Paralelamente, cerca da metade das receitas do petróleo era destinada anualmente à compra de armamentos. O restante, como se pode imaginar, não bastava para melhorar significativamente o lote do cidadão comum.

A extraordinária inépcia na gerência da economia acabou obrigando a uma política de contenção. Em agosto de 1977, com a inflação por volta de 50% ao ano, e uma dívida externa calculada em 10 bilhões de dólares, o governo resolveu restringir o crédito. Para agravar as coisas, este momento de frustração das expectativas abertas pelo petróleo coincidiu com uma tímida política de liberalização política. Ou seja, ao mesmo tempo que se aprofundava a insatisfação popular abriam-se canais para sua manifestação. E esta combinação, segundo Marvin Zones, teria sido fatal para o regime.

Há quem veja ainda na rebelião iraniana um típico caso de crise de modernização, a exemplo da que levou à revolução chinesa na década de 40. Assim, para Ira Klein, professor de História da American University, em Washington, os acontecimentos da semana passada seriam apenas o ápice de um processo revolucionário iniciado no Irã no começo do século: a adaptação da velha ordem política à nova realidade econômica do país. Segundo este raciocínio, a monarquia teria sido eliminada de forma pacífica há muitos anos, não fosse a teimosia de nações estrangeiras no sentido de mantê-la - como foi o caso do golpe patrocinado em 1953 pelos Estados Unidos para repor o xá Reza Pahlevi no trono. Temporariamente contido, o processo histórico estaria agora apenas seguindo seu curso.

TRABALHO ÁRDUO - O fato é que a intransigência do regime do xá em abrir espaço político para a oposição acabou radicalizando a frente antigovernamental.

Agora, as conseqüências disso deverão revelar-se com toda sua força. Em primeiro lugar, o país está falido. Não bastasse o corte nas receitas do petróleo, o novo governo deverá enfrentar a conseqüência da inevitável fuga de capitais que precedeu a queda da monarquia. Só em novembro e dezembro passados, diante da absoluta incapacidade de se tocar qualquer negócio no país, mais de 3 bilhões de dólares fugiram do Irã.

Por outro lado, o colapso da produção causado pelas greves prolongadas exigirá um árduo trabalho de reconstrução. No caso do petróleo, particularmente, acredita-se que a produção não voltará aos níveis anteriores antes de pelo menos um ano - mesmo que o novo governo se empenhe neste sentido, o que ainda não se sabe se acontecerá. Mais árduos, contudo, prometem ser os problemas na frente política. Já na semana passada, com a república ainda nascendo, surgiram as primeiras fissuras na coalizão oposicionista que conduziu a luta contra o xá. E o confronto principal, ao que tudo indica, será entre a esquerda e os religiosos.

"CONSELHO REVOLUCIONÁRIO" - Mais que o minúsculo Partido Comunista do Irã, o Tudeh - na clandestinidade desde 1949 - são os extremados grupos marxistas-leninistas que estão pressionando para influenciar a nova ordem. Seu quartel-general é a Universidade de Teerã e foram eles, na verdade, que tomaram a dianteira nos combates de rua. Os esquerdistas também conquistaram posições junto aos trabalhadores dos campos petrolíferos e, agora, querem uma "participação" na feitura do programa do governo. O problema é que não se trata bem de uma "participação" - e sim, a julgar por suas extraordinárias exigências, de uma virtual captura do governo.

Entre outras coisas, os fedayin, estimulados pelas armas que detêm, querem a criação de um "exército popular" para substituir as atuais Forças Armadas. Pleiteiam também a transformação do conselho de representantes eleitos das comissões de greve em um "conselho revolucionário" - o que eqüivaleria, na prática, a um soviete. E querem nada mais nada menos que o controle das grandes instituições nacionalizadas, como a Companhia Nacional de Petróleo e a Rádio e Televisão Nacional.

Ao mesmo tempo que lida com a economia e duela com a esquerda armada, o novo primeiro-ministro Mehdi Bazargan terá que começar a construir as instituições da "república islâmica" pretendida. Por enquanto, tudo que se sabe é que Bazargan pretende convocar um plebiscito popular sobre o abandono formal da monarquia, eleições para uma Assembléia Constituinte e, no futuro, para um novo Parlamento. Mas como funcionará o país neste período de transição? Será realmente a nova "república islâmica" uma tentativa de copiar o sistema que vigorava na Arábia sob Maomé ou o califa Omar, 1.300 anos atrás? É pouco provável que o governo agora empossado pretenda realmente abolir todos os elementos de modernização da vida iraniana - mesmo porque tal empreitada seria simplesmente inviável. Mas os passos concretos a serem dados nas próximas semanas permanecem marcados pela mais absoluta incerteza.

"ESTADOS-CLIENTES" - Esta falta de definições é particularmente grave no campo das relações internacionais. Constata-se, de imediato, que o ocidente perdeu um de seus mais importantes peões no Oriente Médio. Com seus 2.600 quilômetros de fronteira com a União Soviética, o Irã era uma base ideal para os sofisticadíssimos aparelhos americanos de acompanhamento eletrônico das atividades militares e espaciais soviéticas. Mais que isso, o Irã tem sido uma fonte vital de petróleo para todo o mundo ocidental. E, para completar, empenhava-se de bom grado na missão de "policiar" o estratégico golfo Pérsico.

Mas a derrota ocidental no Irã não se limita à perda de "um verdadeiro protetorado", como observa o jornalista americano Richard Burt. Mais grave que isso é a admissão do fracasso do sistema de "Estados-clientes", que floresceu nos anos da guerra fria. Segundo esse sistema, a defesa ocidental passou a basear-se em pactos regionais centrados em "Estados-clientes" - países intermediários que se alinham aos interesses estratégicos americanos em troca de ajuda econômica e militar. A lição da revolução iraniana, segundo Burt, é que os "Estados-clientes" já não são mais confiáveis.

COM A OLP - Mas o país mais diretamente prejudicado com a derrubada do xá é sem dúvida Israel. Sob Reza Pahlevi, o Irã foi o único membro da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) a ignorar o embargo de petróleo para Telavive decretado pelos árabes, em 1973. E, até o início, da crise iraniana, ainda era responsável por 60% do petróleo consumido naquele país. O Irã, daqui para frente, está firmemente alinhado com a OLP (Organização de Libertação da Palestina) - e aí está mais um dado capaz de complicar consideravelmente a política internacional. Com a União Soviética e os Estados Unidos acusando-se mutuamente pela radicalização do conflito no Irã, também a détente sofre abalos. Em suma, a primeira revolução feita sob a égide do Islã nos tempos modernos ainda tem contornos imprecisos - e o mundo todo, nas próximas semanas, estará acompanhando inquieto seu desenrolar.

 
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