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INTERNET
1º de março de 1995
 


A rede que abraça
todo o planeta

A Internet inaugura a aldeia global
na maior aventura tecnológica da
História da humanidade

Eurípedes Alcântara, de Nova York

O americano Nicholas Negroponte costumava ser ouvido como um profeta. Diretor do Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, ele é um desses conferencistas que fascinam as platéias quando falam sobre o futuro. Entre os ouvintes de suas palestras já estiveram diversos presidentes americanos, líderes europeus e cientistas ganhadores do Prêmio Nobel. De uns tempos para cá, Negroponte deixou de ser um anunciador do amanhã. Fala do presente. A razão, segundo ele, é simples. O futuro chegou. Vamos ouvi-lo brevemente sobre o avanço dos computadores e das redes de telecomunicação:

"Há uma brincadeira com números que faz muito sucesso entre as crianças. Começa com uma pergunta: vale a pena trabalhar por 1 centavo ao dia durante um mês, dobrando o salário a cada dia? Se começarmos esse maravilhoso sistema salarial no Ano-Novo, estaremos ganhando mais de 10 milhões de dólares por dia no fim de janeiro. Essa é a brincadeira. Usando o mesmo esquema, estaríamos ganhando apenas 2,6 milhões de dólares, no total, se janeiro tivesse três dias a menos. Mas, como o mês tem 31 dias, o salário mensal vai para mais de 21 milhões de dólares. Por ser a velocidade de crescimento exponencial, aqueles últimos três dias fazem uma enorme diferença! Pois estamos nos aproximando daqueles três dias no processo de expansão dos computadores e das telecomunicações digitais. É nessa velocidade que os computadores estão entrando nas nossas vidas".

Esses "três dias" são magníficos e assustadores. O "efeito Negroponte", magistralmente descrito no seu novo livro, A Vida Digital, pode ser sentido na multiplicação do número de computadores interligados à rede mundial Internet, a mãe de todas as redes. Mudanças radicais do cotidiano, mesmo em áreas mais visíveis como a moda ou a arquitetura, nunca chocam muito porque no começo aparecem aos poucos e depois as pessoas se acostumam e não reagem mais. Com a Internet será difícil acostumar-se. Se você ainda não notou, tenha a certeza de que muito em breve vai ser obrigado a perceber. O susto, acredite, será muito grande.

Hoje, o computador pode comunicar-se com outros computadores através de uma linha telefônica. Basta que a pessoa instale no seu micro um pequeno aparelho chamado modem, que transforma os códigos digitais para o tráfego no fio, e está tudo pronto para a maior viagem que a tecnologia já ofereceu ao ser humano. O Brasil tem 50.000 pioneiros plugados na Internet e ainda está tropeçando na porta de entrada dessa aventura, mas a malha planetária de computadores que forma o sistema Internet está explodindo por todos os países, inclusive na vizinha Argentina, onde o número de inscritos cresceu mais de 8.000% no ano passado. A onda chegou também até Chiapas, a região mais pobre do México, onde os rebeldes zapatistas chefiados pelo subcomandante Marcos usam a Internet para transmitir seus comunicados. Criada pelo governo americano nos tempos incertos da Guerra Fria, com uma arquitetura tal que continuasse a funcionar como sistema de comunicação independente, mesmo que Washington fosse riscada do mapa por um ataque nuclear, a Internet nasceu sem um centro de comando. Não tem dono, nem governamental nem empresarial, cresce espontaneamente como capim e qualquer corporação venderia a alma para tê-la a seu serviço.

Como não está submetida a um núcleo de comando, nem sequer se sabe quantos membros tem exatamente no mundo. Estima-se. Seria certamente o maior negócio do planeta se alguém pudesse dominá-lo sozinho. "É mais fácil explicar o que a Internet não é do que o que ela é", diz a americana Elle Broidy, uma pesquisadora interessada em temas feministas. "A Internet não é uma entidade, não é uma instituição." Até a semana passada, a rede interligava mais de 40 milhões de pessoas em mais de 100 países, do Uruguai aos Estados Unidos, da Lituânia à Inglaterra. O mais espetacular nem é o tamanho. É o ritmo de propagação dessa onda. A Internet vem crescendo mais de 10% ao mês desde meados do ano passado e terá provavelmente 400 milhões de usuários até o final deste ano. Além desse horizonte, ninguém se arriscaria a prever. A explosão se deu em decorrência de avanços tecnológicos formidáveis nos processos de busca de informação na rede. Seu uso tomou-se tão simples quanto tirar dinheiro num caixa 24 horas.

VALE FALAR PALAVRÃO - A cada dia, 130.000 novos usuários pulam para dentro da rede. A cada hora, 5.416 novos terráqueos são interligados. Recebem seu email, ou endereço eletrônico, uma espécie de CEP através do qual seu computador pode ser encontrado, e passam a receber mensagens vindas de qualquer parte do mundo. "Dentro de três anos, o tráfego da Internet nas redes telefônicas vai exceder todo o movimento atual de dados convencionais e de conversa das empresas", afirma Tony Rutkowski, diretor executivo da Internet Society, uma das muitas associações que se formaram em torno da rede. Diz Rutkowski: "Nenhuma outra forma de comunicação na História da humanidade cresceu tão rápido. Estamos traçando as linhas de uma nova fronteira. Não importa quanto você se sinta distante agora da Internet. Brevemente você fará parte dela."

Mas, afinal, para que serve a Internet? Serve para que milhões de pessoas separadas por milhares de quilômetros conversem horas a fio teclando suas frases nos computadores e pagando o preço de uma ligação telefônica local. Serve para consultar um livro ou um documento em 2.000 bibliotecas que podem ser acessadas, a distância, 24 horas por dia. É melhor ler Guerra e Paz, o romance épico de Tolstoi, num livro convencional. Mas que tal quando se trata de levantar informações sobre o próprio Tolstoi ou sobre religiões hindus? Uma consulta dessas não demora mais do que meia hora. Centenas de bibliotecas ao redor do mundo podem ser rastreadas automaticamente em busca da informação desejada. A Internet serve também para que pessoas com interesses comuns, como os ecologistas, os gays, os médicos ou os fanáticos por esportes, conversem com suas almas gêmeas espalhadas pelo mundo. Serve para que cientistas separados no tempo e no espaço possam trabalhar em projetos comuns, compartilhando uma mesma tela mas usando teclados diferentes, um deles em Paris e o outro em Nova York. Adeus, telefonemas internacionais a preço de caviar. Adeus, falta de informação só porque se vive numa cidade provinciana. Adeus, conversa com o vizinho maçante quando se tem o mundo inteiro para bater papo. Também dá para flertar verbalmente pela Internet. Faz-se muito esse esporte. Briga-se também. E vale soltar palavrão, procedimento comuníssimo na rede.

ROLLS-ROYCE - No ano passado, o top quark, a intangível subpartícula atômica, uma das últimas peças da matéria que faltavam ser desvendadas no quebra-cabeça teórico da estrutura do átomo, foi encontrado num trabalho feito a muitas mãos via Internet. Ah, a rede pode servir para dar uma olhada gulosa em centenas de imagens de alta qualidade das pinacotecas do Vaticano e da Instituição Smithsoniana, em Washington. Ou para montar a mais fabulosa coleção de imagens pornográficas cujas reproduções digitais trafegam pela rede sem censura. Recentemente, num escândalo cibernético, milhares de fotos eróticas foram encontradas ocupando espaço na memória de dois supercomputadores de laboratórios militares americanos. Um deles, o venerando Laboratório Lawrence Livermore, o berço da bomba de hidrogênio. A partir deste ano, a Internet será também um gigantesco shopping center. Funcionará para mostrar produtos e fechar negócios através do computador, uma novidade que vem atraindo 2.000 empresas por mês para a rede.

Na semana passada, dois anúncios nos Estados Unidos mostraram como está a velocidade das mudanças no espaço cibernético. O cartão de crédito Visa anunciou ter desenvolvido um programa de cobranças que permite lançar valores mínimos de até 31 centavos de dólar - o que abre espaço para venda de selos, chocolates e outras bugigangas que não tinham peso econômico para virar ofertas numa rede de computador. "Trinta e um centavos parecem uma gota no oceano, mas, quando se imagina que a rede terá brevemente 100 milhões de usuários, essa gota pode vir a ser o próprio oceano", diz David Melancon, diretor do cartão Visa. Ele poderia falar em quatro vezes mais, o número previsto para o fim deste ano. No outro extremo, Gary Whitaker, revendedor dos automóveis Rolls-Royce em Beverly Hills, na Califórnia, comunicou na segunda-feira que passará a anunciar na Internet, onde já estão nomes populares como a Pizza Hut e a General Motors.

Não é apenas por ostentar números grandiosos que a Internet é um fenômeno. Tampouco por permitir o acesso a textos de bibliotecas e a reproduções de quadros famosos dos grandes museus, como o Louvre, de Paris. Nem pelos avanços tecnológicos criados com a operação da rede. Mais que tudo isso, a Internet é uma experiência humana rara, é a concretização da profecia da aldeia global. Está acontecendo agora, diante desta geração. "A sensação é tão fantástica que me sinto um astronauta em órbita. Não porque mereça, mas por mero acaso, por pertencer a uma geração que teve acesso à comunicação global sem limites", diz o ator Robert Redford, um veterano membro da rede.

BOEING E CARROÇA - Em cada época, surge um grupo de inovações que toma conta da indústria e marca o ritmo de toda a sociedade. No século passado, foram as ferrovias e as máquinas a vapor. No pós-guerra, a manufatura. Nos anos 80, a prestação de serviços puxou o crescimento da economia. Os anos 90 estão entregues à alta tecnologia, à indústria da informação e de transformação digital. Ela se define pelo poder de empacotar todas as manifestações culturais na forma de bits, a unidade menor na linguagem dos computadores. "Nossa época está sendo marcada pela transformação dos átomos em bits", diz Nicholas Negroponte, do MIT. "Essa transformação já está tendo um impacto sem precedentes nas leis de propriedade intelectual, na educação, sem falar nos meios de comunicação e na indústria de diversão."

Exatamente porque os átomos estão sendo transformados em bits, no sentido de que ganham a nova forma nas entranhas do computador, é que a Internet é uma estrutura impressionante, maior do que ela mesma, fisicamente falando. A melhor imagem para descrevê-la é a de uma infovia, uma estrada digital por onde trafegam riquezas devidamente transformadas em bits. Transformar átomos em bits significa digitalizar, reescrever a informação contida na voz, na cor, nas luzes, nas letras, nos filmes e nas formas, colocando tudo isso para viajar de uma tela para outra. O membro da Internet é o radioamador dos anos 90, falando com o mundo todo de um escritório no fundo de casa, só que seu instrumento de comunicação está para o radiotransmissor assim como o Boeing está para a carroça. Viaja-se em ambos, claro. Canções podem ser digitalizadas - como já são nos CDs musicais - e assim passeiam pela Internet. Jornais inteiros são igualmente transformados em bits e postos à disposição de assinantes. Dinheiro pode também trafegar como mensagem cibernética, na forma de números de cartão de crédito. Os bits são a maior riqueza deste fim de século, ou sua mais completa tradução.

A Internet carrega essa riqueza com muita eficiência. A rede tem basicamente três tipos de computador interligados. Os do primeiro tipo são computadores "servidores", grandes fornecedores de informações e programas. Em geral, pertencem a uma universidade ou instituição de pesquisa, ou então a uma grande empresa que estoca nele uma descrição de seus produtos. Os do segundo tipo são os nódulos, grandes máquinas que agem como os servidores, fornecendo informações, mas também ajudam a escoar o tráfego de informações na rede. Acontece que as mensagens passam por redes de uso científico e militar superdimensionadas que estariam funcionando do mesmo jeito, mesmo que nós, os usuários de fora, não existíssemos. Os computadores do terceiro tipo, mais numerosos, são os dos usuários, nós, que estamos na rede para receber e não para dar. É claro que os receptores estão longe de ser passivos. Passam mensagens, entram em discussões, cravam pontos de vista sobre isso ou aquilo. As possibilidades de se exibir são infinitas. De repente, qualquer um pode ser um best-seller mundial. Uma página de texto colocada por qualquer membro da Internet pode ser lida por milhões de pessoas.

TV no computador - O tráfego mais pesado de informações passeia por cabos ópticos, apelidados de T3, que compõem a coluna dorsal da rede, interligando os nódulos de maior movimento. Com a espessura de um fio encapado de eletricidade, esses cabos podem suportar um tráfego de 45 milhões de bits por segundo. Isso significa que um único cabo pode transportar o equivalente a todas as palavras que todos os grandes jornais brasileiros publicam por dia - em apenas meio segundo. Para agüentar um tráfego equivalente em automóveis e caminhões, a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, teria de ter a largura de 800.000 quilômetros, o dobro da distância da Terra à Lua. Há cabos mais limitados que funcionam como estradas de uma pista só e, finalmente, existe o equivalente às estradas vicinais - que chegam a um grupo de usuários depois de ser construídas por empresas interessadas em vender o acesso à Internet a um determinado número de clientes.

A tecnologia de transmissão de dados evolui tão depressa que a velocidade das transmissões se multiplicará a cada ano, a cada mês. Há várias implicações. Uma delas: qual a diferença que haverá em breve entre televisão e jornal? Já está ocorrendo agora que ambos, o jornal e a televisão, viajem até o usuário das redes pelo cabo telefônico, para ser vistos na tela do computador. Para embaralhar ainda mais a questão, tanto o jornal quanto a televisão serão mostrados na forma de vídeos, fotos coloridas, textos e áreas interativas - em que o espectador-leitor pode mandar suas opiniões, encomendar um jornal só com notícias de esporte ou comentários sobre finanças. A televisão CNN anunciou em novembro passado que estará transmitindo a Olimpíada de Atlanta, no ano que vem, pelo computador de uma rede comercial que já tem 2 milhões de membros nos Estados Unidos, o CompuServe.

Em contrapartida, o jornal The New York Times mantém numa rede comercial concorrente, a America Online (1,8 milhão de assinantes), seu serviço de transmissão on line que manda pelo computador fotos e textos do jornal. Quase todas as grandes revistas americanas, como Fortune, Forbes, People, Business Week, estão oferecendo suas edições nas grandes redes. A revista Time mantém na rede America Online um animado serviço para a criançada e os adolescentes, o Time for Kids. O jornal O Estado de S. Paulo estreou entre as publicações brasileiras na Internet, na semana passada, via Worldnews, uma empresa de Washington que colocou na rede também o primeiro comercial brasileiro, do Unibanco.

As redes comerciais oferecem serviços mais caros e diferenciados. Ao contrário da Internet, que não tem dono, os serviços comerciais custaram uma fortuna para ser montados, colocam ações na bolsa e disputam clientes entre si. Basicamente, eles são mais organizados do que a Internet. É mais fácil se conectar com eles pelo telefone, e graficamente as seções ficam mais organizadas na tela. Ninguém pode dizer até quando, pois alguns programas de busca na Internet, como o Mosaic e o Netscape, são graficamente tão bonitos quanto os menus das redes comerciais.

O que está ocorrendo é que as redes comerciais estão numa corrida desenfreada para ver quem oferece mais serviços da Internet. Uma delas, a Prodigy, uma iniciativa da IBM com a Sears que custou 1 bilhão de dólares, saiu na frente para surpresa de muita gente. A Prodigy foi a primeira a oferecer conexão com a WWW, a área multimídia da Internet. A America Online promete uma versão para daqui a dois meses. O CompuServe, que já tem alguns milhares de usuários no Brasil, não tem previsão de quando oferecerá esse cobiçado canal.

A imensa avalanche de novidades que a Internet está lançando na praça é resultado sobretudo dos avanços na área dos computadores. As máquinas portáteis de hoje fazem mais tarefas do que os gigantescos computadores empresariais do passado. E custam quase nada. Os modelos Macintosh são vendidos hoje por um terço do que valiam há apenas vinte meses. Em maio começam a ser oferecidos os primeiros clones, cópias autorizadas, dos Macintosh. Seu preço ficará abaixo dos 1.000 dólares. Aliás, está-se firmando uma meta não declarada da indústria de que 1.000 dólares é o preço máximo que se pode cobrar por um computador de uso doméstico. Isso é a conseqüência natural do fato de que o computador se está transformando num eletrodoméstico.

BANDEIRA ATUAL - Em breve, a maioria dos computadores estará plugada na Internet, cujo potencial é tamanho que a rede mundial hoje parece muito mais uma solução à procura de um problema. Para os países pobres, onde o que não falta são problemas, a Internet pode oferecer inúmeras soluções. Sua aplicação na educação parece mais do que óbvia. Nos países ricos, onde há recursos de multimídia de sobra nas escolas, a rede mundial ainda não colou como ferramenta didática. O mais recente levantamento do Centro para a Criança e a Tecnologia dos Estados Unidos descobriu que apenas 4% das escolas utilizam a Internet em salas de aula e apenas 22% dos professores se dizem familiarizados com a rede embora 73% concordem que a Internet é potencialmente útil para o ensino.

Um computador ligado à Internet em cada sala de aula de escola pública brasileira. Eis uma bandeira de luta adequada aos tempos atuais. Quem achar utópico que dê um desconto. Um computador em cada sala dos professores. Custaria uma fração do orçamento do Ministério da Educação e muito menos do que se gasta, por exemplo, com avaliações do método Paulo Freire, que só dá certo em países que dão errado como Moçambique e Cuba. Professor não come bits nem a Internet é a solução para todos os problemas, mas a rede mundial representa uma das raras janelas que a tecnologia moderna abriu e que se descortina com a mesma amplitude para os países ricos e pobres.

 
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