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PREVIDÊNCIA SOCIAL
Data: 25 de abril de 1973
 

Em busca de um
INPS melhor

Na quarta-feira da semana passada, boa parte dos 600.000 aposentados e 40.000 pensionistas do Instituto Nacional da Previdência Social já tinham preocupações suficientes para quebrar a rotina de seus dias. Com a chegada da Semana Santa, as pequenas praças de todo o país, onde alguns deles se reúnem para tomar o sol da manhã, já começariam a ser invadidas por crianças sem aulas e namorados sem trabalho. No domingo, outros haveriam de vestir a melhor roupa para uma longa viagem de ônibus até o almoço de Páscoa, na casa dos filhos e com a participação dos netos. Muitos, distantes e pobres, sentiam a falta do mínimo necessário para qualquer comemoração. A semana, já o sabiam, não seria normal. Contudo, na terça-feira, esta comunidade gigantesca, silenciosa e às vezes desconfiada soube que, de Brasília, o presidente Emílio Garrastazu Medici fizera um longo discurso anunciando uma série de medidas tomadas em seu benefício.

A IMAGEM E A CRÍTICA - Se o projeto de impacto transmitido por uma cadeia nacional de rádio e televisão atingisse os políticos, advogados ou jogadores de futebol, os interessados fariam ressoar um gigantesco tambor de interpretações, elogios ou críticas. Contudo, enrugado e solitário, o aposentado brasileiro não tem qualquer semelhança com o agitado e metafísico Umberto D. criado pelo cineasta italiano Vittorio de Sica. Muitos não conseguiram compreender sequer o alcance efetivo das medidas. Mesmo assim, demonstrando até que ponto os projetos de alcance social do governo estão relacionados diretamente com a imagem do presidente da República, não procuravam discutir qualquer dos 71 artigos do "Projeto de Lei que modifica a legislação da Previdência Social e dá outras providências." Falavam sobretudo de Medici. Bonifácio Gomes de Carvalho, com 75 anos e 600 cruzeiros de proventos, velho freqüentador dos bancos da praça Cruz Vermelha, na zona de velhos sobrados do centro do Rio, reconhecia que não entendera direito a novidade, mas sabia que "isso deve ser bom, porque esse tal de Medici é um homem simpático". Zilda Pinto do Carmo, uma viúva de 52 anos que estava numa agência paulista do INPS, acrescentava: "Eu vi o presidente falar ontem na televisão. O Medici agora está humanitário. Ele vai baixar o custo de vida. Agora aumentou a nossa pensão. Então isso é bom, porque favorece." Em Porto Alegre, Olga Ramos de Oliveira, cujo marido Belcino, depois de contribuir desde 1930, aposentou-se em 1961 com 66 cruzeiros e uma doença cardíaca, sem saber que sua família fora beneficiada, mostrava-se cética. "Eles nunca aumentaram de acordo com o custo de vida. O salário aumenta uma bagatela e cada vez se ganha menos. Esse aumento que estão prometendo não vai adiantar nada. As coisas vão é piorar, sabe?"

12 BILHÕES DE SOBRA - Na verdade, tanto trabalho e tanta divulgação não foram mobilizados para piorar a vida dos aposentados e pensionistas nem dos 45 milhões de segurados e dependentes que, em graus variáveis, dependem da sombra proporcionada pela árvore do INPS, orvalhada por uma receita anual de 12 bilhões de cruzeiros.

Baseado numa longa exposição de motivos preparada pelo ministro do Trabalho, Júlio Barata, cujas dez páginas revelam uma rara e estimulante intimidade com a língua portuguesa, qualidade tantas vezes ausente nos documentos oficiais, o presidente Medici resolveu enviar ao Congresso um projeto que, dentro de poucas semanas, deverá alterar algumas das características essenciais da previdência social brasileira. Basicamente, provocará sete grandes mudanças.

Não se trata de nenhuma panacéia social e, de certa forma, representa sobretudo uma severa correção de equívocos que, pelo simples fato de terem existido, demonstram até que ponto um sistema previdenciário pode tornar-se uma usina de burocracia e de injustiças fabricadas pela incompetência. Quatro mudanças não podem ser consideradas boas pelo simples fato de favorecerem aposentados e pensionistas, pois, na verdade, custarão alguma coisa a muitos. Três haverão de irrigar dezenas de milhares de orçamentos cruelmente comprimidos.

Talvez a mais justa e oportuna de todas seja a decisão de elevar o limite mínimo dos benefícios pagos mensalmente aos pensionistas. O próprio presidente Medici reconheceu que "não era possível assistir sem constrangimento ao doloroso espetáculo de homens e mulheres, já avançados em idade, que recebem até menos de 50 cruzeiros por mês". De fato, tanto no INPS quanto nos institutos de previdência dos governos estaduais, que certamente não estão excluídos do raciocínio do presidente, ocorrem grotescas hipocrisias aritméticas.

Melhores proventos - No bairro proletário de Antônio Bezerra, em Fortaleza, a viúva Maria Alves Bernardo vende tapioca para sobreviver, apesar de receber 78 cruzeiros por mês do INPS. Contudo, Maria é duplamente feliz, pois o sistema previdenciário nacional sempre teve um teto mínimo para o pagamento de pensões e, além disso, agora ela receberá 109 cruzeiros graças à nova lei.

Sua mãe, Maria Luiza da Conceição, aos 72 anos, talvez seja uma vítima do sistema federativo. Também é viúva, de um guarda civil morto a tiros em 1929, mas, por infelicidade, não é pensionista do INPS. Está na jurisdição da previdência dos funcionários do Estado do Ceará. Graças a isso, não tem teto mínimo e, portanto, não pode exigir nada além dos dois cruzeiros que lhe são pagos por mês. Contudo, ela nunca deixou de abrilhantar as estatísticas de benemerência social da repartição estadual, onde há outros treze casos de pensionistas de 2 cruzeiros e cerca de duzentos de menos de 15.

Além de melhorar a situação dos pensionistas, espanando os casos mais cruéis, a nova lei levantou de 60% para 90% do salário mínimo regional o limite mais baixo para o pagamento de proventos de aposentadoria. Graças a esta medida, velhinhos acostumados a decifrar o valor dos centavos e o alcance de caminhadas capazes de poupar passagens sem comprometer a saúde receberão quantias que muitos poderão classificar vagamente como pequenas. Para suas vidas, porém, elas adquirirão um significado igual ao prolongamento do inverno, que lhes impõe o frio e às chuvas do verão, que lhes proíbem as caminhadas. Antônio Motta, ex-garçom da Cantina 1020, no bairro paulistano do Cambuci, mostra a sabedoria do aposentado e explica uma parte de sua rotina, aos 66 anos, ao lado da mulher de 62: "Sabe, velho come muito pouco. Minha pequena casa quem paga é um filho, que trabalha na loja Mappin e está muito bem. Os 120 cruzeiros da aposentadoria servem para pagar a prestação do rádio e algumas roupas. Tomamos muito leite e aproveitamos bem a pequena horta do quintal. Eu mesmo cultivo. Nesta idade a gente precisa mexer o corpo. Minha maior distração é passear e visitar os netos". Na quarta-feira, ele não sabia que com o discurso da terça, passará a receber, logo que a lei seja aprovada, 142 cruzeiros.

LEGITIMIDADE PARA A COMPANHEIRA - Além dos pensionistas e dos aposentados que recebiam quantias ridículas, a mudança da legislação permitirá que milhares de mulheres, unidas precariamente com trabalhadores e depois atiradas ao desamparo por falta de uma certidão de casamento, passem a ver reconhecidos seus direitos legítimos às pensões. "A figura da companheira é uma realidade que não pode ser mais posta à margem ou desconhecida", escreveu o ministro Júlio Barata. "No manuseio de inúmeros processos, tenho constatado pessoalmente situações atrozes, de mulheres que viveram à sombra da proteção de um companheiro por dezenas de anos e que, ao desaparecer este, se encontram relegadas, às vezes em idade avançada, a uma situação de total desamparo."

Às três medidas que podem ser consideradas como chuviscos de dinheiro nas roças secas de pensionistas, aposentados e companheiras, seguiram-se as outras quatro, cujas interpretações dependem em parte dos conhecimentos técnicos da meteorologia previdenciária.

A velha instituição do "pé-na-cova", que na gíria dos aposentados designa quem, mesmo recebendo proventos, resolve continuar trabalhando para reforçar suas economias, levou um sério golpe e, de certa forma, poderá vir a deixar de ser lucrativa. Ela atingirá aposentados considerados pelos seus pares como ricos, mas não poupará os certamente pobres. Aos 63 anos, chefe da reportagem do vespertino carioca O Globo há trinta, o jornalista Francisco Alves Pinheiro, ou apenas Pinheiro, conseguiu manter-se na profissão e até hoje escreve uma coluna intitulada "Portugal de Hoje", onde continua sua cruzada a favor da amizade luso-brasileira. O INPS lhe paga 1.340 cruzeiros mensais. Mas é um aposentado diferente de Motta. Sua conta de telefone em fevereiro foi de 280 cruzeiros e, mesmo vivendo numa cobertura em Laranjeiras, nunca pensou em cultivar uma horta. Agora, a menos que deixe de trabalhar, terá seus proventos reduzidos a menos de 350 cruzeiros. Mas, como vive em casa própria, é difícil que venha a sofrer maiores transtornos. Nunca terá as dificuldades que surgirão para Dirceu Torres, de 66 anos, que mora numa pequena casa alugada no Núcleo Bandeirante, uma das cidades-satélites de Brasília. Atualmente, recebe 1.893 cruzeiros do INPS e 500 de um pequeno emprego como escriturário. Se quiser continuar trabalhando, em vez de receber cerca de 2.400 cruzeiros mensais, terá de se contentar com menos de 1000. Assim talvez seja melhor deixar o emprego.

ABERTURA DE MERCADO - À primeira vista, a investida contra os "pés-na-cova" pode parecer uma requintada crueldade contra velhos indefesos, mas o presidente do INPS, Luís Siqueira Seixas, um médico de 61 anos, não teria motivos para cometer injustiças em estado puro. E explica: "Esse critério vai reparar uma distorção terrível. As facilidades que os segurados encontravam no segundo emprego roubavam dos jovens uma boa parte do mercado de trabalho. Aliada à experiência profissional, tinham a preferência dos empregadores porque eram normalmente uma mão-de-obra barata. Um lugar que deveria ser preenchido por um jovem com salário de 2.000 cruzeiros poderia ser ocupado por um 'pé-na-cova' por 1.000, pois ele ia somá-los aos proventos".

"Antigamente, a gente se aposentava, ia para casa, se metia num pijama folgado e ficava parado o resto da vida. Hoje não acontece mais isso. Se a gente quiser ter uma vida razoável com a família, tem de trabalhar duro", responde, de trás do balcão de coleta de apostas para a Loteria Esportiva de sua loja em Porto Alegre, o aposentado Osmar Fortes Barcellos, o temido ponta direita Tesourinha da Seleção Brasileira de 1944 a 1950. De qualquer forma, a medida certamente dará necessárias oportunidades aos jovens, assim como, quando os "pés-na-cova" insistirem em continuar com seus empregos, patrocinará alguma economia ao INPS.

OS 5% DOS APOSENTADOS - Procurando compensar o vazamento que ocorrerá com as novas pensões e o novo limite mínimo de aposentadorias e certo de que fora do orçamento não há salvação, o INPS criou também uma nova fórmula para aumentar sua arrecadação aumentando de dez para vinte salários mínimos o teto máximo para as contribuições, enquanto baixava de 100% para 80% o mesmo teto para o pagamento dos proventos daqueles que, começando a contribuir sobre vinte salários nos próximos meses, venham a se aposentar daqui a 35 anos. Além disso, criou-se uma taxa de 5% sobre os proventos dos aposentados para reforçar a receita com que são enfrentadas as despesas com a assistência médica que, no ano passado, em setembro, já haviam chegado a 1.706 milhões de cruzeiros. Para melhorar a arrecadação, alterou-se também, com visível justiça, a porcentagem de contribuição dos trabalhadores autônomos, que era de 9%, para 16%.

Assim, procurando fugir à paranóia teocrática dos governos débeis, para cujos funcionários todas as suas medidas devem ser boas para todos e para sempre, o Ministério do Trabalho e o INPS adotaram um conjunto de medidas que, segundo prevêem, deverá trazer benefícios sociais indispensáveis, corrigindo situações anormais do próprio sistema previdenciário. A menos que cada autônomo seja casado com uma pensionista de baixos proventos e que cada "pé-na-cova" tenha uma aposentadoria abaixo do novo teto mínimo, não há dúvida de que muitas serão as vozes contra essas alterações. Contudo, a questão central está na própria atitude do INPS. Este Instituto, nascido da fusão de uma matilha de IAPs, foi batizado na catedral da demagogia, quando lhe foi atribuída a responsabilidade de zelar pela saúde de metade do povo brasileiro. Educou-se em escolas políticas de maus currículos e, depois de formado, rico e gigantesco, descobriu que não merecia grande crédito.

A ESTRATÉGIA DOS BENEFÍCIOS - Libertando-se de algumas de suas atitudes paternalistas, ele parece estar disposto a percorrer caminhos mais seguros. Falando a respeito da elevação do teto máximo de dez para vinte salários mínimos, o ministro Barata disse a VEJA, com franqueza: "Assim o INPS eleva suas arrecadações, que passarão a custear toda a extensão dos benefícios do Instituto, sobretudo a dos pensionistas". E, explicando porque se diminuiu o teto máximo da aposentadoria de 100% para 80%, Luís Seixas foi igualmente claro: "Essa diferença será carreada em favor dos aposentados e pensionistas que recebem os benefícios mínimos".

Em Belo Horizonte, o chefe de Relações Públicas da delegacia regional, Sertorio Canedo, oferecia uma explicação bem mais alegórica e desestimulante: "O que o governo visa com o aumento do teto é possibilitar aos trabalhadores especializados, que recebem salários altos, uma aposentadoria condizente com a remuneração que tinham em atividade. Portanto, a medida do governo é de caráter estritamente social. O que se pretende é melhorar de fato os padrões de vida da classe média e nunca salvar o INPS da falência, pois ele não está nessa iminência. Além do mais, a falência do INPS significaria colocar em risco a própria segurança nacional".

Segundo as explicações do ministro Barata e do próprio Seixas, o conjunto das medidas fará com que o INPS arrecade mais junto aos mais ricos (em tese, os autônomos e aqueles que ganham acima de vinte salários mínimos) para distribuir uma fatia do bolo entre os mais pobres, os aposentados e pensionistas. Essa medida fará com que haja um razoável movimento de capitais do sul para o norte do país, onde está a grande parte dos casos de pensões irrisórias.

Nesse sentido, a medida é, de certa maneira, uma forma de redistribuição da renda, bem como de remanejamento da receita do INPS. Na essência, os dois fenômenos acabam se confundindo pois as imprevidências de uma sociedade não podem passar ao largo do seu sistema de previdência social. A crença de que o INPS possa vir a funcionar como uma máquina invejável que está acima dos desequilíbrios econômicos do país pode ser, no máximo, uma fantasia burocrática. E, através dos tempos, todas as vezes que a previdência social brasileira foi acometida de megalomania social, o resultado acabou sendo desastroso, sobretudo para ela.

A fórmula descoberta por Barata, Seixas e suas equipes de técnicos é sobretudo engenhosa e, se não resolve grandes problemas, tem a virtude suprema de corrigir rotas secundárias sem sobrecarregar o Tesouro e sem ameaçar a política de controle à inflação. Talvez por isso, apesar de ter sido aumentado o teto, as empresas foram poupadas de um novo custo social e não terão de contribuir com outros 8%.

OS CAMINHOS DO ABSURDO - Sabendo-se que o romancista checo Franz Kafka trabalhou durante anos como escriturário da previdência, em Praga, aprende-se a supor como pode vir a ser complicado seu funcionamento. No seu discurso, o presidente Medici apontou com precisão um dos pontos críticos da debilidade do INPS e anunciou que já está em fase de execução o Fundo de Assistência à Previdência Social, "constituído para transformação de um patrimônio, imobiliário ocioso e oneroso, em capital produtivo".

No passado, acometido de uma febre imobiliária, o sistema de previdência atirou-se à compra de imóveis. O resultado dessa insensatez é o peso de 662 milhões de cruzeiros sobre o seu ativo permanente e, num exemplo penoso, um arranha-céu na avenida Presidente Vargas, no Rio, onde algum Júlio Verne desvairado resolveu instalar, em pleno centro da cidade, numa área de alto valor comercial e sistematicamente congestionada, um ambulatório de proporções faraônicas e instalações exasperantes.

Nesse cenário de real valor, circulam 92.000 funcionários recrutados a partir de critérios de assistência familiar, assistência política e, eventualmente, nos últimos anos, de capacidade profissional. Felizmente, o INPS ainda não conseguiu superar a Rede Ferroviária Federal, com 118.000 empregados, mas deve olhar com inveja para o Banco Nacional de Habitação, que, mesmo operando em situação diversa, tem apenas 3.000.

A partitura musical dos maus momentos da previdência foi preparada por furiosos legisladores que acumularam portarias, decretos, despachos, pareceres e leis conflitantes, revogadas, descumpridas e inúteis. O resultado disso é que no INPS, freqüentemente, uma decisão deve ser tomada ao sabor de oito legislações diferentes. O que é uma sorte, pois a previdência estadual do Ceará consegue equilibrar 240.

DOENÇA COM FOLGA SEMANAL - Os trabalhadores, figurantes do espetáculo, acabam servindo para compor imensas filas e recitar queixas compreensíveis. Muitas de suas desgraças acabam caindo na área da assistência médica que, em muitos postos, só é prestada nos dias úteis, como se houvesse uma relação entre o metabolismo e a divisão gregoriana do calendário. Contudo, o próprio ministro Barata reconhece que a acumulação dessa assistência é errada. Nesse caso, seria necessário descobrir uma fórmula capaz de descongestionar as funções do INPS, tomando-se, porém, o cuidado de não atirar em exercício findo a obrigação social do Estado de zelar pela saúde das camadas mais pobres.

O funcionamento da máquina previdenciária, apesar da burocracia e de alguns casos fatais, parece estar operando de forma regular. Em todo o país, um trabalhador com os documentos em ordem, consegue se aposentar em um período que vai de vinte a trinta dias. A menor desordem na papelada, porém, pode representar uma velhice nervosa. O advogado Jacob Goldemberg, auditor da Justiça Militar, segundo sua esposa, Ana, morreu de desgosto ao ver negado um abono por tempo de serviço. Dirceu Lopes, o "pé-na-cova" de Brasília, trabalhou 39 anos mas perdeu catorze porque a empresa onde trabalhava não recolhia a sua parte aos cofres do Instituto.

Algumas firmas, beneficiadas por uma fiscalização sonolenta, tangenciam a criminalidade. Romildo de Souza Turque, um servente de 26 anos que ficou inválido ao levar nove tiros numa rixa de botequim, no Rio, está entrevado num hospital do INPS. E, segundo um enfermeiro, ainda está bem, pois quando receber alta, como inválido, deverá liberar o leito. Então, começará a percorrer o último trecho do caminho de sua desgraça. Era contribuinte, com carteira assinada pelo empreiteiro Ozias Azevedo. Como este não pagava ao INPS, segundo Turque, ele não pode aposentar-se. Seguindo um velho hábito, o empregador diz que ele só trabalhou um dia e, com a carteira assinada, desapareceu. Pode ser verdade, mas um episódio narrado pelo servente parece desmentir essa versão: "Ele veio aqui me visitar uma vez e tentou levar minha carteira".

AS DUAS CULPAS - Por falta de papéis o ator Procópio Ferreira, de 75 anos, quase perdeu sua aposentadoria. Ele prefere não falar a respeito do incidente: "Isso não interessa mais, o assunto está morto". Mas Seixas explica: "Ele não tinha os comprovantes necessários. Conseguiu porque era uma figura conhecidíssima do público, a quem podia inclusive recorrer para provar que trabalhava há muitos anos. Agora, imagine um obscuro cantor de tangos que fez sucesso na década de 20 ou um velho artista de circo do interior". Esses dramas, na verdade, são sempre provocados por uma mistura de distração do trabalhador e freqüente má fé ou irresponsabilidade do empregador e, se alguma culpa pode ser atribuída ao INPS, ela está apenas na fiscalização e numa certa tolerância com os devedores que vêm desaparecendo aos poucos mas que, em muitos casos, serviu até para controlar as opiniões políticas de caloteiros.

Apesar de tudo, para a maioria dos aposentados que conseguiram deixar o trabalho com proventos razoáveis, o INPS, com todos os seus defeitos, é uma verdadeira dádiva. Carlos Pinto, um dos mais assíduos freqüentadores da praça Cruz Vermelha, tem outras queixas, contra os jogadores de damas, "a barra pesada que vem para a praça de noite", o barulho do trânsito da avenida Mem de Sá, a distância de quatro quarteirões que o separa do tranqüilo Campo de Santana e a sua doença cardíaca, que aflige seus 78 anos. Solitário num apartamento de quarto e sala conjugados, diz que "todas as mulheres da minha vida já passaram desta para melhor". Ao INPS, manda flores: "Faço radiografias mensalmente. Se não fosse o Instituto, não teria dinheiro para tantos cuidados".

EXCENTRICIDADE NÃO FALTA - Em Porto Alegre, Olga Ramos de Oliveira, ao lado de seu marido Belcino Cardoso de Lima, emudecido por dois derrames, ataca: "Felizmente até hoje não precisei dele porque os médicos atendem mal e muitas vezes nem olham os doentes". Contudo, há até mesmo visões excêntricas da previdência social. José Francisco de Araújo, aos 77 anos, em Belo Horizonte, confessa que não entende como alguém pode lhe dar 196 cruzeiros todo mês. "Eu sei. Eu paguei, mas não esperava que durasse tanto assim e fosse tanto dinheiro". E há também trabalhadores sem qualquer instrução a respeito de seus direitos, como Frederico Sampaio de Souza, carpinteiro em Belém desde os 15 anos, que, aos 59 anos, pergunta: "Como é isso de se aposentar?" Logo depois, reconhece que não sabe o nome da firma para a qual trabalha.

Exemplos como esse são capazes de ilustrar as dificuldades que acabam chegando à previdência social, onde, em tese, deve-se exigir que a máquina funcione com os mesmos adjetivos com que gosta de ser elogiada. Mas, equilibrando-se entre erros de passados remotos e recentes, a previdência social poderá começar a seguir caminhos melhores. As mudanças introduzidas em sua legislação haverão de permitir alguns benefícios a milhares de aposentados e pensionistas e, sobretudo, abrir algumas janelas em seu abafado orçamento.

Como vem fazendo há três anos, o governo federal, com seu novo projeto de impacto, divulgou uma série de medidas caracterizadas sobretudo pela engenhosidade da fórmula. Presumir que raiou um novo dia na previdência social brasileira seria repetir os velhos erros que desmoralizaram os institutos e colocaram em perigo a própria idéia de um Instituto Nacional. Da mesma forma, julgar que tudo não passou de uma operação de repasse entre compartimentos orçamentários seria uma grave injustiça.

CAUTELA LEGISLATIVA - O próprio presidente da República explicou que "no planejamento e no preparo da nova legislação, resguardou-se o preceito constitucional que veda a concessão ou aplicação de benefícios sem que exista a correspondente fonte de custeio. Na captação de recursos, destinados a aprimorar o sistema de proteção aos segurados, cuidou-se ainda de não criar instrumentos que embaracem o persistente esforço do governo no combate à inflação".

Graças a uma equipe de funcionários do Ministério do Trabalho, o sistema conseguiu respeitar todos esses princípios. Por isso, talvez tenham sido improcedentes as críticas de alguns parlamentares, segundo os quais as medidas já haviam sido propostas pela Câmara e lá arquivadas pela bancada do governo como inconstitucionais. Na verdade, o mérito do governo não está em ter conseguido aumentar as pensões de viúvas e os proventos de pobres velhos, mas sim em ter lançado mão de uma legislação astuta, capaz de proporcionar esses benefícios sem onerar o erário, desmoralizar a previdência ou açucarar a voracidade da inflação.

No INPS, Seixas, empossado há sete meses, tem procurado "mudar a feição da previdência". Dispondo de verbas superiores à de qualquer Estado da União, excluindo-se São Paulo, ele dirige uma equipe de quinze secretários que coordenam áreas específicas. Só há pouco tempo é que ele introduziu reuniões com a presença de todos, para que cada um saiba o que está acontecendo na área alheia. Calmo e evitando frases grandiloqüentes, mandou pregar, nas paredes de todos os postos do país, cartazes com os seguintes dizeres: "Cumpram o seu dever, atendam os segurados com boas maneiras e recebam os meus cumprimentos". Essa medida é, na pior das hipóteses, uma modesta contribuição para a melhoria da imagem do INPS.

E tudo indica que ela poderá melhorar. Não só pelos projetos recentes, como também pelo desaparecimento de mentalidades epopeicas dentro da administração do Ministério do Trabalho. Há pouco mais de um ano, a serenidade e a precisão de Barata contrastava com a pirotecnia de seu secretário-geral, Armando de Brito, que, antes de ser demitido, era capaz de qualquer esforço para convencer um jornalista a escrever frases inócuas como "assim é o INPS. Apesar do seu esforço hercúleo, às vezes é mal compreendido".

 
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