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REPORTAGEM
DE VEJA
Caça
ao dragão em Moscou
Reagan
e Gorbachev anunciam a morte
do dragão da guerra fria e iniciam uma
nova era nas relações entre EUA e URSS
"Os
historiadores que um dia vão descrever e avaliar o
que está sendo feito agora provavelmente ainda não
nasceram." Em sua obsessão por projetar uma visão
da História voltada para o futuro, o líder soviético
Mikhail Gorbachev pode ter exagerado, mas não escolheu
ao acaso nem levado, apenas, pelo sabor da retórica,
estas palavras para encerrar o discurso com que se despediu
do presidente Ronald Reagan, na última quinta-feira,
ao fim da quarta conferência de cúpula entre
os dois dirigentes.
Realizada
sob o signo das reformas com as quais Gorbachev vem mudando
a face e o espírito do império soviético,
a reunião de cúpula de Moscou foi tão
carregada de gestos simbólicos, de declarações
emocionadas, de cenas impensáveis até muito
pouco tempo atrás, que seus resultados, reunidos à
nova qualidade das relações entre a União
Soviética e os Estados Unidos, parecem mesmo esperar
pela análise mais serena dos historiadores ou pelas
palavras mágicas dos poetas. Se as perspectivas criadas
pelo processo deslanchado em Moscou se confirmarem, os quatro
dias passados por Reagan na capital soviética ficarão
conhecidos como um símbolo, o da fronteira que demarcou
o começo do fim da guerra fria entre as duas grandes
potências do planeta e abriu a possibilidade de desmentir
uma frase sombria, escrita por Albert Einstein em 1946: "O
poder desencadeado pelo átomo mudou tudo, exceto nosso
modo de pensar".
Pelo
que se viu em Moscou a cabeça dos homens que controlam
as máquinas de poder americana e soviética pode
ter começado a funcionar de uma maneira nova, melhor.
A morte do dragão da guerra fria foi anunciada por
ambos os dirigentes - em termos diretos por Gorbachev, com
palavras simbólicas por Reagan. "Nossos esforços
nos últimos dias mataram alguns dragões e avançaram
a luta contra os males que rondam a humanidade, as ameaças
à paz e à liberdade", proclamou o presidente
americano na despedida de Moscou, numa referência ao
monstro mitológico ancorado no cenário escolhido
para a cerimônia: o Salão São Jorge, do
Kremlin, o maior e mais suntuoso do antigo palácio
dos czares, com suas 545 placas de mármore gravadas
a ouro, seus candelabros resplandecentes e suas dezoito colunas
encimadas por estátuas representando a vitória.
Na verdade, a bela sala abriga apenas o santo e, se nela havia
dragões, eles eram Reagan e Gorbachev, cada um vendo
o monstro no outro. O mesmo Gorbachev que se cansou de denunciar
a política belicista de Reagan, naturalmente ditada
pelo "complexo industrial-militar", como "um
fator negativo permanente nas relações internacionais",
dizia agora que "aprendemos a nos entender melhor, a
levar em conta as preocupações mútuas,
a procurar soluções". O mesmo Reagan que
se colocou publicamente como um aliado de Gorbachev na luta
em favor da paz e da liberdade, apenas cinco anos atrás
apresentara a União Soviética como o "império
do mal". O mesmo Reagan, também, fez questão
de destacar o peso de seu relacionamento pessoal com Gorbachev.
"Queremos que saibam que pensamos em ambos como amigos",
disse ele, dirigindo-se ao líder soviético e
a sua mulher, Raisa. O presidente dos Estados Unidos não
usa palavras assim por mera cortesia com seus anfitriões
numa visita de Estado.
Gorbachev
foi mais incisivo ainda. O cenário que escolheu para
anunciar o fim da guerra fria - a situação de
confronto permanente entre as duas grandes potências
em todas as esferas e no mundo inteiro - foi a cerimônia
de ratificação do acordo assinado há
cinco meses, por ocasião da conferência de cúpula
de Washington. Pela primeira vez na história da era
atômica e das negociações entre as duas
superpotências para evitar o perigo de uma guerra nuclear,
esse acordo elimina uma categoria inteira de mísseis
nucleares - os foguetes de alcance intermediário instalados
pelos dois países na Europa. "A troca dos documentos
de ratificação minutos atrás significa
que a era da guerra fria acabou", disse o líder
soviético - que também não usa palavras
em vão. "Cada uma de nossas reuniões desfechou
um golpe nos alicerces da guerra fria. Cada uma delas abriu
grandes rachaduras na fortaleza da guerra fria e limpou o
caminho para a política moderna e civilizada."
O
dirigente soviético falando em modernidade e civilização
no relacionamento com os Estados Unidos, o presidente americano
falando em amizade e aliança com a União Soviética
- isso é mudança. Mas a cúpula de Moscou
ofereceu mais ainda em matéria de palavras e cenas
inesperadas. Entre estas, talvez a mais representativa tenha
sido o discurso pronunciado por Reagan na Universidade de
Moscou, a mais importante da URSS, à sombra de um gigantesco
busto de Lênin - um cenário que, durante os preparativos
para a conferência de cúpula, assessores da Casa
Branca tentaram mudar a todo custo, preocupados com a imagem
do presidente. Os assessores estavam errados. Os soviéticos
não deixaram Lênin mudar de lugar e Reagan não
deixou de falar o que pretendia. Ambos os lados saíram
ganhando, salvo o bom gosto, pelo caráter monumentalista
da cabeça de Lênin, um homem de hábitos
modestos que o realismo socialista transforma em ícone
megalomaníaco. Ao exaltar as virtudes da democracia
e da liberdade num discurso em que misturou Michael Jackson
e Butch Cassidy para pintar um retrato da vida americana contemporânea,
Reagan ofereceu uma imagem carregada de um simbolismo talvez
até mais poderoso do que as palavras celebrando o fim
da guerra fria.
No
mesmo discurso, o presidente abriu um capítulo à
parte para falar sobre as reformas através das quais
Gorbachev começa a mudar a vida política, econômica
e social da União Soviética. Dirigindo-se aos
600 estudantes presentes no auditório, Reagan observou
que eles estão vivendo "um dos momentos mais trepidantes
e carregados de esperança da História soviética,
um momento em que o primeiro sopro de liberdade agita o ar
e faz o coração bater acelerado, um momento
em que as energias acumuladas durante um longo silêncio
anseiam por ser libertadas". Os dirigentes soviéticos
podem não ter gostado da crítica implícita
em expressões como "primeiro sopro de liberdade"
e "longo silêncio", pois detestam que "venham
em nossa casa dar lições", segundo as palavras
do porta-voz oficial Gennadi Gerasimov. Mas é muito
significativo que as críticas ao obscurantismo e à
estagnação do sistema soviético, feitas
por Gorbachev em particular e pela cúpula dirigente
em geral, como consta, por exemplo, do documento que será
discutido na decisiva Conferência Extraordinária
do Partido Comunista convocada para o próximo dia 28,
sejam muito mais duras e incisivas do que as alusões
veladas do presidente americano.
Cauteloso
de um lado, de outro Reagan não poupou palavras ao
se pôr em campo numa pregação em favor
dos direitos humanos e da liberdade religiosa. Para isso,
as ocasiões foram escolhidas a dedo: a visita ao mosteiro
Danilov, transformado durante muito tempo em fábrica
de bicicletas e agora restaurado como sede da Igreja Ortodoxa
Russa, uma recepção oferecida a dissidentes
na embaixada americana, o encontro com intelectuais e artistas
na Casa dos Escritores. Em todas elas, o presidente americano
usou como bandeira frases tiradas da obra de Alexander Soljenítsin,
o prêmio Nobel de Literatura que retratou sua experiência
pessoal nas prisões stalinistas, transformou-se num
símbolo de resistência ao repressivo sistema
soviético e acabou expulso da URSS em 1974.
Em
plena era da glasnost, Soljenítsin é um dos
poucos autores contemporâneos cujas obras continuam
proibidas na União Soviética. Suas idéias
políticas, no entanto, são repudiadas por grande
parte da elite intelectual que forma na linha de frente das
reformas impulsionadas por Gorbachev. "Livros como Um
Dia na Vida de Ivan Denissovich e o Arquipélago Gulag
são excepcionais, mas não consigo ler as obras
mais recentes de Soljenítsin. Ele se transformou num
extremista político e religioso", comentou o historiador
Roy Medvdev, conhecido por sua independência de pensamento
muito anterior à atual abertura. Reagan sem dúvida
foi movido pelo intuito de provocar os dirigentes soviéticos
ao citar copiosamente o escritor proibido e pedir a publicação
de suas obras. A grande surpresa que Gorbachev poderá
fazer é concordar com ele e os precedentes apontam
nesse caminho. Afinal, Gorbachev é o homem que telefonou
a Andrei Sakharov para anunciar pessoalmente que o infame
exílio interno enfrentado em Gorki pelo mais famoso
dissidente soviético durante sete anos estava encerrado.
Na noite da última terça-feira, Gorbachev compartilhou
com Sakharov e mais uma centena de convidados a bisque de
lagosta, o supremo de frango com molho de trufas e o suflê
de cenoura, regados a vinhos selecionados, servidos durante
o jantar oferecido pelo presidente dos Estados Unidos na embaixada
americana em Moscou.
A
presença de Sakharov e de sua mulher, Elena Bonner,
recebidos com atenções especiais pelo secretário
de Estado George Shultz, num jantar oferecido a Gorbachev,
apresentou um retrato vigoroso do que está acontecendo
na União Soviética na era da glasnost, mas não
o único. Declarações como as feitas por
Boris YeItsin, o ex-chefe do Partido Comunista em Moscou que
perdeu o cargo por se lançar com muita ânsia
na campanha reformista, pedindo a cabeça de Yegor Ligachev,
seu rival conservador na cúpula soviética, ofereceram
ao presidente Reagan, em primeira mão, uma amostra
de valor inestimável das mudanças promovidas
por Gorbachev. O próprio encontro de Reagan com os
dissidentes, com todo o seu potencial de irritação
- as mudanças necessárias devem ser feitas "sem
interferências alheias nos assuntos internos nem sermões",
reclamou Gorbachev -, causou menos mal-estar, por exemplo,
do que a reunião de seu antecessor, Jimmy Carter, com
oposicionistas brasileiros em 1978.
A
União Soviética definitivamente mudou e Reagan
também - e é difícil dizer qual transformação
influencia mais a outra. A diferença no relacionamento
entre as duas superpotências começou a ganhar
contornos claros em dezembro passado, quando Gorbachev foi
a Washington para firmar o histórico acordo de eliminação
dos mísseis intermediários. Foi lá que
se quebrou o gelo ainda presente em seus encontros anteriores
- em Genebra, em 1985, e em Reikjavik, no ano seguinte -,
foi lá que Gorbachev se firmou perante a opinião
pública dos EUA como uma espécie nova de dirigente
soviético, foi lá que ele, num gesto magistral
de propaganda, desceu de sua limusine em pleno centro de Washington
e cumprimentou uma multidão de americanos estupefatos.
Se Gorbachev escolheu a Avenida Pensilvânia para mostrar
que não tem medo de povo e é diferente de seus
sisudos antecessores, foi na Praça Vermelha que Reagan
transmitiu sua mensagem mais importante aos soviéticos.
O
passeio, não previsto pela minuciosa agenda da conferência
de cúpula, aconteceu na manhã de terça-feira.
Ao contrário do que ocorrera em Washington com Gorbachev,
Reagan não estava sozinho. Com sua fantástica
capacidade de manipular o maior instrumento da cultura ocidental
- a televisão -, o líder soviético fez
de tudo para roubar a cena - explicou minuciosamente os detalhes
do mais conhecido conjunto arquitetônico da URSS, dirigiu-se
ao pequeno público presente e até pegou uma
criancinha no colo, o pequeno Alyosha, animando-o a cumprimentar
o "vovô Reagan". Mas coube ao presidente americano
a declaração que ficará gravada na história
do passeio dos dois dirigentes pela Praça Vermelha.
Indagado, a certa altura, se mantinha a celebrizada expressão
"império do mal" para caracterizar a União
Soviética, ele respondeu: "Não, isso é
coisa de outro tempo, de outra era".
Foi
longo o caminho percorrido entre o império do mal do
passado e a aliança no combate ao dragão da
guerra fria esboçada na última semana. A militância
de Reagan no anticomunismo mais visceral data de muito tempo.
Em sua época de Hollywood, como presidente do Sindicato
dos Atores, Reagan endossou ativamente a decisão de
fechar as portas do império do cinema a qualquer comunista,
declarado ou suspeito. "Eles participavam de uma conspiração
dirigida pela União Soviética contra os Estados
Unidos. Em tempos de guerra, isso é traição",
justificou ele em sua autobiografia. Mais tarde, já
na vida política, Reagan destacou-se como um adversário
duro da détente, a distensão iniciada sob o
comando de Richard Nixon - até a semana passada, o
último presidente americano a visitar a URSS. "Os
russos vivem dizendo que têm por objetivo impor ao mundo
o seu sistema ridículo e incompetente", declarou
ele num discurso pronunciado em 1975. "O que pode acontecer
diante disso? Eles desistem dessa meta, ou o seu sistema cai
por terra ou nós teremos que usar as nossas armas algum
dia."
Essa
militância incansável contra o império
do mal ajudou a levar o ex-ator e ex-govemador da Califórnia
à Casa Branca num momento em que grande parte do eleitorado
americano via os Estados Unidos como uma potência abalada
e retraída. A princípio, a visão que
o presidente americano tinha da União Soviética
- e do melhor modo de lidar com ela - continuou inabalável.
"Enquanto eu estive aqui, nenhum soviético entrou
neste prédio", costumava vangloriar-se Richard
Pipes, especialista em assuntos soviéticos da Casa
Branca entre 1981 e 1982, um dos muitos assessores ultraconservadores
de que Reagan se cercou em seu primeiro mandato. O quadro
começou a mudar quando uma confluência feliz
de fatores entrou em ação. De um lado, a ascensão
de Gorbachev ao poder, com sua ânsia por alcançar
resultados rápidos e eficientes na melhoria de relações
com os Estados Unidos para poder se concentrar nas reformas
internas, e de outro, a própria evolução
da trajetória política de Reagan - um homem
realista, que costuma dizer a respeito dos soviéticos:
"Precisamos viver no mesmo planeta com estes sujeitos"
- à medida que via chegar o fim de seu segundo e último
mandato e aumentava a tentação de entrar para
a História não como o cowboy belicista dos primeiros
tempos, mas como o estadista que deixou uma herança
de pacificação.
Nenhum
desses passos, no entanto, poderia substituir o tipo de contato
direto que Reagan teve na semana passada com os soviéticos,
em seu próprio país, e sua sofrida história.
Mais de uma vez, à margem dos discursos oficiais, Reagan
confessou-se emocionado. Mas foi a mulher do homem que em
certa ocasião previu que no futuro o comunismo seria
lembrado apenas como "um capítulo triste e um
tanto bizarro da História da humanidade" quem
melhor resumiu a importância das lições
diretas de História. Vestindo um impecável conjunto
amarelo do estilista Adolfo, Nancy Reagan foi visitar Leningrado
num intervalo de sua interminável disputa com Raisa
Gorbachev. Lá, ela passou por um curso intensivo de
história russa e soviética.
A
primeira escala foi diante do imponente Monumento aos Defensores
Históricos de Leningrado, erguido em memória
aos 650.000 habitantes da antiga capital russa que morreram
ao longo dos 900 dias em que as tropas da Alemanha nazista
mantiveram a cidade sitiada, num dos episódios mais
dramáticos da II Guerra Mundial. Da tragédia
da guerra Nancy passou para o fausto dos czares, exposto no
Palácio de Verão, onde funciona o Museu do Hermitage.
A primeira-dama americana extasiou-se como costuma acontecer
com todos os visitantes, diante de uma das maiores coleções
de arte do mundo exposta em salões iluminados por candelabros
de prata e repletos de peças de mobiliário revestidas
de ouro, mármore, lápis-lazúli e malaquita.
Mesmo para Nancy Reagan, no entanto, o luxo foi demais. Uma
sela de montaria da época dos czares, cravejada de
diamantes, marcou a guinada. "Quando vi o que eles usavam
nos cavalos, em comparação com o nível
de vida do povo, compreendi de algum modo o que aconteceu
e por que aconteceu", confessou ela.
Nancy,
com certeza, não se converteu ao comunismo por força
de uma sela luxuosa. Mas o seu comentário merece ocupar,
naquela história futura prevista por Gorbachev, um
lugar muito maior do que seus arrufos com Raisa durante uma
visita em que as duas começaram de mãos dadas,
na esperança de desmentir o óbvio mal-estar
que sentem uma na presença da outra, e terminaram quase
que discutindo publicamente. Quando a mulher de Ronald Reagan
admite compreender, de alguma maneira, as causas da Revolução
Russa, o dragão da guerra fria leva outro golpe. Uma
declaração como essa vale por dez apresentações
formais dos casais Reagan e Gorbachev no camarote real do
Teatro Bolshoi, para assistir a trechos das peças mais
clássicas do balé russo. Qualquer dirigente
soviético levaria um presidente americano ao Bolshoi,
um compromisso obrigatório em ocasiões desse
porte. Só com os Gorbachev como anfitriões,
no entanto, é que poderia acontecer a reunião
de cúpula da glasnost. E provavelmente só com
os Reagan como hóspedes aconteceriam manifestações
tão espontâneas, quase ingênuas, de respeito
e até encantamento por um povo e sua história
que pareciam passar em branco até pouco tempo atrás.
Reagan
ficou particularmente emocionado com a reação
popular à sua caminhada pela Rua Arbat, no centro de
Moscou, a vitrine mais ostensiva das mudanças que ocorrem
na União Soviética. Decidido apenas dois dias
antes do início da conferência, o passeio de
Reagan e Nancy foi mantido em segredo até o fim. O
Serviço Secreto americano, encarregado da segurança
presidencial, tentou insistentemente vetar a idéia
e a KGB quase entrou em pânico - reagindo, como sempre,
com socos e cotoveladas -, mas tudo deu certo. "O presidente
falou a semana inteira sobre a curiosidade e a amizade que
identificou nas expressões dos soviéticos. Para
ele, foi um dos pontos altos da visita", confidenciou
ao fim do encontro um assessor da Casa Branca.
O
sucesso da conferência de cúpula de Moscou inscreve-se,
assim, no terreno mais sutil das reações pessoais,
de um lado, e das perspectivas abertas para o futuro, de outro.
Em matéria de resultados concretos, a colheita foi
fraca. Não se conseguiu, afinal, costurar o ambicioso
acordo de redução pela metade dos mísseis
nucleares de longo alcance dos dois países - prometido
na cúpula de Washington, mas emperrado pelas complexas
disputas em torno de como executar um programa com essa dimensão.
Apesar das declarações otimistas dos dois dirigentes,
há uma descrença generalizada quanto à
possibilidade de que o acordo seja assinado ainda durante
o mandato de Reagan numa quinta conferência de cúpula.
Sempre que pôde, Gorbachev fez questão de deixar
registrada a sua decepção. "O senhor Reagan
perdeu uma oportunidade importante de dar um passo adiante",
reclamou ele em entrevista coletiva na última quarta-feira.
A própria realização dessa entrevista
- a primeira de um líder soviético em seu próprio
país - foi um marco no longo caminho que, cada uma
a sua maneira, as duas partes têm percorrido. Gorbachev
também disparou palavras ácidas para Reagan
por suas declarações em favor dos direitos humanos
- "um jogo de cena pelo qual não tenho a menor
admiração".
Habilmente,
no entanto, todas as questões que com certeza causariam
maior atrito foram concentradas nos dias iniciais da conferência.
A cúpula de Moscou pôde, assim, terminar com
um tom otimista. As engrenagens da guerra fria começaram
a rodar para trás - e são poucas, por enquanto,
as garantias reais de que não possam rolar para a frente,
outra vez. Há um longo, muito longo caminho pela frente
até que um presidente americano possa pensar em guardar
a mala negra com os códigos que acionam a ordem de
disparar os mísseis do arsenal nuclear dos Estados
Unidos - uma bagagem que o acompanha por toda parte e dá
a medida exata do que aconteceria se a guerra fria ficasse
quente. Mas a cúpula realizada sob o signo da Primavera
de Moscou abriu a possibilidade de encurtar um pouco esse
caminho.
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