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GUERRA FRIA
Data: 8 de junho de 1988
 
REPORTAGEM DE VEJA

Caça ao dragão em Moscou

Reagan e Gorbachev anunciam a morte
do dragão da guerra fria e iniciam uma
nova era nas relações entre EUA e URSS

"Os historiadores que um dia vão descrever e avaliar o que está sendo feito agora provavelmente ainda não nasceram." Em sua obsessão por projetar uma visão da História voltada para o futuro, o líder soviético Mikhail Gorbachev pode ter exagerado, mas não escolheu ao acaso nem levado, apenas, pelo sabor da retórica, estas palavras para encerrar o discurso com que se despediu do presidente Ronald Reagan, na última quinta-feira, ao fim da quarta conferência de cúpula entre os dois dirigentes.

Realizada sob o signo das reformas com as quais Gorbachev vem mudando a face e o espírito do império soviético, a reunião de cúpula de Moscou foi tão carregada de gestos simbólicos, de declarações emocionadas, de cenas impensáveis até muito pouco tempo atrás, que seus resultados, reunidos à nova qualidade das relações entre a União Soviética e os Estados Unidos, parecem mesmo esperar pela análise mais serena dos historiadores ou pelas palavras mágicas dos poetas. Se as perspectivas criadas pelo processo deslanchado em Moscou se confirmarem, os quatro dias passados por Reagan na capital soviética ficarão conhecidos como um símbolo, o da fronteira que demarcou o começo do fim da guerra fria entre as duas grandes potências do planeta e abriu a possibilidade de desmentir uma frase sombria, escrita por Albert Einstein em 1946: "O poder desencadeado pelo átomo mudou tudo, exceto nosso modo de pensar".

Pelo que se viu em Moscou a cabeça dos homens que controlam as máquinas de poder americana e soviética pode ter começado a funcionar de uma maneira nova, melhor. A morte do dragão da guerra fria foi anunciada por ambos os dirigentes - em termos diretos por Gorbachev, com palavras simbólicas por Reagan. "Nossos esforços nos últimos dias mataram alguns dragões e avançaram a luta contra os males que rondam a humanidade, as ameaças à paz e à liberdade", proclamou o presidente americano na despedida de Moscou, numa referência ao monstro mitológico ancorado no cenário escolhido para a cerimônia: o Salão São Jorge, do Kremlin, o maior e mais suntuoso do antigo palácio dos czares, com suas 545 placas de mármore gravadas a ouro, seus candelabros resplandecentes e suas dezoito colunas encimadas por estátuas representando a vitória. Na verdade, a bela sala abriga apenas o santo e, se nela havia dragões, eles eram Reagan e Gorbachev, cada um vendo o monstro no outro. O mesmo Gorbachev que se cansou de denunciar a política belicista de Reagan, naturalmente ditada pelo "complexo industrial-militar", como "um fator negativo permanente nas relações internacionais", dizia agora que "aprendemos a nos entender melhor, a levar em conta as preocupações mútuas, a procurar soluções". O mesmo Reagan que se colocou publicamente como um aliado de Gorbachev na luta em favor da paz e da liberdade, apenas cinco anos atrás apresentara a União Soviética como o "império do mal". O mesmo Reagan, também, fez questão de destacar o peso de seu relacionamento pessoal com Gorbachev. "Queremos que saibam que pensamos em ambos como amigos", disse ele, dirigindo-se ao líder soviético e a sua mulher, Raisa. O presidente dos Estados Unidos não usa palavras assim por mera cortesia com seus anfitriões numa visita de Estado.

Gorbachev foi mais incisivo ainda. O cenário que escolheu para anunciar o fim da guerra fria - a situação de confronto permanente entre as duas grandes potências em todas as esferas e no mundo inteiro - foi a cerimônia de ratificação do acordo assinado há cinco meses, por ocasião da conferência de cúpula de Washington. Pela primeira vez na história da era atômica e das negociações entre as duas superpotências para evitar o perigo de uma guerra nuclear, esse acordo elimina uma categoria inteira de mísseis nucleares - os foguetes de alcance intermediário instalados pelos dois países na Europa. "A troca dos documentos de ratificação minutos atrás significa que a era da guerra fria acabou", disse o líder soviético - que também não usa palavras em vão. "Cada uma de nossas reuniões desfechou um golpe nos alicerces da guerra fria. Cada uma delas abriu grandes rachaduras na fortaleza da guerra fria e limpou o caminho para a política moderna e civilizada."

O dirigente soviético falando em modernidade e civilização no relacionamento com os Estados Unidos, o presidente americano falando em amizade e aliança com a União Soviética - isso é mudança. Mas a cúpula de Moscou ofereceu mais ainda em matéria de palavras e cenas inesperadas. Entre estas, talvez a mais representativa tenha sido o discurso pronunciado por Reagan na Universidade de Moscou, a mais importante da URSS, à sombra de um gigantesco busto de Lênin - um cenário que, durante os preparativos para a conferência de cúpula, assessores da Casa Branca tentaram mudar a todo custo, preocupados com a imagem do presidente. Os assessores estavam errados. Os soviéticos não deixaram Lênin mudar de lugar e Reagan não deixou de falar o que pretendia. Ambos os lados saíram ganhando, salvo o bom gosto, pelo caráter monumentalista da cabeça de Lênin, um homem de hábitos modestos que o realismo socialista transforma em ícone megalomaníaco. Ao exaltar as virtudes da democracia e da liberdade num discurso em que misturou Michael Jackson e Butch Cassidy para pintar um retrato da vida americana contemporânea, Reagan ofereceu uma imagem carregada de um simbolismo talvez até mais poderoso do que as palavras celebrando o fim da guerra fria.

No mesmo discurso, o presidente abriu um capítulo à parte para falar sobre as reformas através das quais Gorbachev começa a mudar a vida política, econômica e social da União Soviética. Dirigindo-se aos 600 estudantes presentes no auditório, Reagan observou que eles estão vivendo "um dos momentos mais trepidantes e carregados de esperança da História soviética, um momento em que o primeiro sopro de liberdade agita o ar e faz o coração bater acelerado, um momento em que as energias acumuladas durante um longo silêncio anseiam por ser libertadas". Os dirigentes soviéticos podem não ter gostado da crítica implícita em expressões como "primeiro sopro de liberdade" e "longo silêncio", pois detestam que "venham em nossa casa dar lições", segundo as palavras do porta-voz oficial Gennadi Gerasimov. Mas é muito significativo que as críticas ao obscurantismo e à estagnação do sistema soviético, feitas por Gorbachev em particular e pela cúpula dirigente em geral, como consta, por exemplo, do documento que será discutido na decisiva Conferência Extraordinária do Partido Comunista convocada para o próximo dia 28, sejam muito mais duras e incisivas do que as alusões veladas do presidente americano.

Cauteloso de um lado, de outro Reagan não poupou palavras ao se pôr em campo numa pregação em favor dos direitos humanos e da liberdade religiosa. Para isso, as ocasiões foram escolhidas a dedo: a visita ao mosteiro Danilov, transformado durante muito tempo em fábrica de bicicletas e agora restaurado como sede da Igreja Ortodoxa Russa, uma recepção oferecida a dissidentes na embaixada americana, o encontro com intelectuais e artistas na Casa dos Escritores. Em todas elas, o presidente americano usou como bandeira frases tiradas da obra de Alexander Soljenítsin, o prêmio Nobel de Literatura que retratou sua experiência pessoal nas prisões stalinistas, transformou-se num símbolo de resistência ao repressivo sistema soviético e acabou expulso da URSS em 1974.

Em plena era da glasnost, Soljenítsin é um dos poucos autores contemporâneos cujas obras continuam proibidas na União Soviética. Suas idéias políticas, no entanto, são repudiadas por grande parte da elite intelectual que forma na linha de frente das reformas impulsionadas por Gorbachev. "Livros como Um Dia na Vida de Ivan Denissovich e o Arquipélago Gulag são excepcionais, mas não consigo ler as obras mais recentes de Soljenítsin. Ele se transformou num extremista político e religioso", comentou o historiador Roy Medvdev, conhecido por sua independência de pensamento muito anterior à atual abertura. Reagan sem dúvida foi movido pelo intuito de provocar os dirigentes soviéticos ao citar copiosamente o escritor proibido e pedir a publicação de suas obras. A grande surpresa que Gorbachev poderá fazer é concordar com ele e os precedentes apontam nesse caminho. Afinal, Gorbachev é o homem que telefonou a Andrei Sakharov para anunciar pessoalmente que o infame exílio interno enfrentado em Gorki pelo mais famoso dissidente soviético durante sete anos estava encerrado. Na noite da última terça-feira, Gorbachev compartilhou com Sakharov e mais uma centena de convidados a bisque de lagosta, o supremo de frango com molho de trufas e o suflê de cenoura, regados a vinhos selecionados, servidos durante o jantar oferecido pelo presidente dos Estados Unidos na embaixada americana em Moscou.

A presença de Sakharov e de sua mulher, Elena Bonner, recebidos com atenções especiais pelo secretário de Estado George Shultz, num jantar oferecido a Gorbachev, apresentou um retrato vigoroso do que está acontecendo na União Soviética na era da glasnost, mas não o único. Declarações como as feitas por Boris YeItsin, o ex-chefe do Partido Comunista em Moscou que perdeu o cargo por se lançar com muita ânsia na campanha reformista, pedindo a cabeça de Yegor Ligachev, seu rival conservador na cúpula soviética, ofereceram ao presidente Reagan, em primeira mão, uma amostra de valor inestimável das mudanças promovidas por Gorbachev. O próprio encontro de Reagan com os dissidentes, com todo o seu potencial de irritação - as mudanças necessárias devem ser feitas "sem interferências alheias nos assuntos internos nem sermões", reclamou Gorbachev -, causou menos mal-estar, por exemplo, do que a reunião de seu antecessor, Jimmy Carter, com oposicionistas brasileiros em 1978.

A União Soviética definitivamente mudou e Reagan também - e é difícil dizer qual transformação influencia mais a outra. A diferença no relacionamento entre as duas superpotências começou a ganhar contornos claros em dezembro passado, quando Gorbachev foi a Washington para firmar o histórico acordo de eliminação dos mísseis intermediários. Foi lá que se quebrou o gelo ainda presente em seus encontros anteriores - em Genebra, em 1985, e em Reikjavik, no ano seguinte -, foi lá que Gorbachev se firmou perante a opinião pública dos EUA como uma espécie nova de dirigente soviético, foi lá que ele, num gesto magistral de propaganda, desceu de sua limusine em pleno centro de Washington e cumprimentou uma multidão de americanos estupefatos. Se Gorbachev escolheu a Avenida Pensilvânia para mostrar que não tem medo de povo e é diferente de seus sisudos antecessores, foi na Praça Vermelha que Reagan transmitiu sua mensagem mais importante aos soviéticos.

O passeio, não previsto pela minuciosa agenda da conferência de cúpula, aconteceu na manhã de terça-feira. Ao contrário do que ocorrera em Washington com Gorbachev, Reagan não estava sozinho. Com sua fantástica capacidade de manipular o maior instrumento da cultura ocidental - a televisão -, o líder soviético fez de tudo para roubar a cena - explicou minuciosamente os detalhes do mais conhecido conjunto arquitetônico da URSS, dirigiu-se ao pequeno público presente e até pegou uma criancinha no colo, o pequeno Alyosha, animando-o a cumprimentar o "vovô Reagan". Mas coube ao presidente americano a declaração que ficará gravada na história do passeio dos dois dirigentes pela Praça Vermelha. Indagado, a certa altura, se mantinha a celebrizada expressão "império do mal" para caracterizar a União Soviética, ele respondeu: "Não, isso é coisa de outro tempo, de outra era".

Foi longo o caminho percorrido entre o império do mal do passado e a aliança no combate ao dragão da guerra fria esboçada na última semana. A militância de Reagan no anticomunismo mais visceral data de muito tempo. Em sua época de Hollywood, como presidente do Sindicato dos Atores, Reagan endossou ativamente a decisão de fechar as portas do império do cinema a qualquer comunista, declarado ou suspeito. "Eles participavam de uma conspiração dirigida pela União Soviética contra os Estados Unidos. Em tempos de guerra, isso é traição", justificou ele em sua autobiografia. Mais tarde, já na vida política, Reagan destacou-se como um adversário duro da détente, a distensão iniciada sob o comando de Richard Nixon - até a semana passada, o último presidente americano a visitar a URSS. "Os russos vivem dizendo que têm por objetivo impor ao mundo o seu sistema ridículo e incompetente", declarou ele num discurso pronunciado em 1975. "O que pode acontecer diante disso? Eles desistem dessa meta, ou o seu sistema cai por terra ou nós teremos que usar as nossas armas algum dia."

Essa militância incansável contra o império do mal ajudou a levar o ex-ator e ex-govemador da Califórnia à Casa Branca num momento em que grande parte do eleitorado americano via os Estados Unidos como uma potência abalada e retraída. A princípio, a visão que o presidente americano tinha da União Soviética - e do melhor modo de lidar com ela - continuou inabalável. "Enquanto eu estive aqui, nenhum soviético entrou neste prédio", costumava vangloriar-se Richard Pipes, especialista em assuntos soviéticos da Casa Branca entre 1981 e 1982, um dos muitos assessores ultraconservadores de que Reagan se cercou em seu primeiro mandato. O quadro começou a mudar quando uma confluência feliz de fatores entrou em ação. De um lado, a ascensão de Gorbachev ao poder, com sua ânsia por alcançar resultados rápidos e eficientes na melhoria de relações com os Estados Unidos para poder se concentrar nas reformas internas, e de outro, a própria evolução da trajetória política de Reagan - um homem realista, que costuma dizer a respeito dos soviéticos: "Precisamos viver no mesmo planeta com estes sujeitos" - à medida que via chegar o fim de seu segundo e último mandato e aumentava a tentação de entrar para a História não como o cowboy belicista dos primeiros tempos, mas como o estadista que deixou uma herança de pacificação.

Nenhum desses passos, no entanto, poderia substituir o tipo de contato direto que Reagan teve na semana passada com os soviéticos, em seu próprio país, e sua sofrida história. Mais de uma vez, à margem dos discursos oficiais, Reagan confessou-se emocionado. Mas foi a mulher do homem que em certa ocasião previu que no futuro o comunismo seria lembrado apenas como "um capítulo triste e um tanto bizarro da História da humanidade" quem melhor resumiu a importância das lições diretas de História. Vestindo um impecável conjunto amarelo do estilista Adolfo, Nancy Reagan foi visitar Leningrado num intervalo de sua interminável disputa com Raisa Gorbachev. Lá, ela passou por um curso intensivo de história russa e soviética.

A primeira escala foi diante do imponente Monumento aos Defensores Históricos de Leningrado, erguido em memória aos 650.000 habitantes da antiga capital russa que morreram ao longo dos 900 dias em que as tropas da Alemanha nazista mantiveram a cidade sitiada, num dos episódios mais dramáticos da II Guerra Mundial. Da tragédia da guerra Nancy passou para o fausto dos czares, exposto no Palácio de Verão, onde funciona o Museu do Hermitage. A primeira-dama americana extasiou-se como costuma acontecer com todos os visitantes, diante de uma das maiores coleções de arte do mundo exposta em salões iluminados por candelabros de prata e repletos de peças de mobiliário revestidas de ouro, mármore, lápis-lazúli e malaquita. Mesmo para Nancy Reagan, no entanto, o luxo foi demais. Uma sela de montaria da época dos czares, cravejada de diamantes, marcou a guinada. "Quando vi o que eles usavam nos cavalos, em comparação com o nível de vida do povo, compreendi de algum modo o que aconteceu e por que aconteceu", confessou ela.

Nancy, com certeza, não se converteu ao comunismo por força de uma sela luxuosa. Mas o seu comentário merece ocupar, naquela história futura prevista por Gorbachev, um lugar muito maior do que seus arrufos com Raisa durante uma visita em que as duas começaram de mãos dadas, na esperança de desmentir o óbvio mal-estar que sentem uma na presença da outra, e terminaram quase que discutindo publicamente. Quando a mulher de Ronald Reagan admite compreender, de alguma maneira, as causas da Revolução Russa, o dragão da guerra fria leva outro golpe. Uma declaração como essa vale por dez apresentações formais dos casais Reagan e Gorbachev no camarote real do Teatro Bolshoi, para assistir a trechos das peças mais clássicas do balé russo. Qualquer dirigente soviético levaria um presidente americano ao Bolshoi, um compromisso obrigatório em ocasiões desse porte. Só com os Gorbachev como anfitriões, no entanto, é que poderia acontecer a reunião de cúpula da glasnost. E provavelmente só com os Reagan como hóspedes aconteceriam manifestações tão espontâneas, quase ingênuas, de respeito e até encantamento por um povo e sua história que pareciam passar em branco até pouco tempo atrás.

Reagan ficou particularmente emocionado com a reação popular à sua caminhada pela Rua Arbat, no centro de Moscou, a vitrine mais ostensiva das mudanças que ocorrem na União Soviética. Decidido apenas dois dias antes do início da conferência, o passeio de Reagan e Nancy foi mantido em segredo até o fim. O Serviço Secreto americano, encarregado da segurança presidencial, tentou insistentemente vetar a idéia e a KGB quase entrou em pânico - reagindo, como sempre, com socos e cotoveladas -, mas tudo deu certo. "O presidente falou a semana inteira sobre a curiosidade e a amizade que identificou nas expressões dos soviéticos. Para ele, foi um dos pontos altos da visita", confidenciou ao fim do encontro um assessor da Casa Branca.

O sucesso da conferência de cúpula de Moscou inscreve-se, assim, no terreno mais sutil das reações pessoais, de um lado, e das perspectivas abertas para o futuro, de outro. Em matéria de resultados concretos, a colheita foi fraca. Não se conseguiu, afinal, costurar o ambicioso acordo de redução pela metade dos mísseis nucleares de longo alcance dos dois países - prometido na cúpula de Washington, mas emperrado pelas complexas disputas em torno de como executar um programa com essa dimensão. Apesar das declarações otimistas dos dois dirigentes, há uma descrença generalizada quanto à possibilidade de que o acordo seja assinado ainda durante o mandato de Reagan numa quinta conferência de cúpula. Sempre que pôde, Gorbachev fez questão de deixar registrada a sua decepção. "O senhor Reagan perdeu uma oportunidade importante de dar um passo adiante", reclamou ele em entrevista coletiva na última quarta-feira. A própria realização dessa entrevista - a primeira de um líder soviético em seu próprio país - foi um marco no longo caminho que, cada uma a sua maneira, as duas partes têm percorrido. Gorbachev também disparou palavras ácidas para Reagan por suas declarações em favor dos direitos humanos - "um jogo de cena pelo qual não tenho a menor admiração".

Habilmente, no entanto, todas as questões que com certeza causariam maior atrito foram concentradas nos dias iniciais da conferência. A cúpula de Moscou pôde, assim, terminar com um tom otimista. As engrenagens da guerra fria começaram a rodar para trás - e são poucas, por enquanto, as garantias reais de que não possam rolar para a frente, outra vez. Há um longo, muito longo caminho pela frente até que um presidente americano possa pensar em guardar a mala negra com os códigos que acionam a ordem de disparar os mísseis do arsenal nuclear dos Estados Unidos - uma bagagem que o acompanha por toda parte e dá a medida exata do que aconteceria se a guerra fria ficasse quente. Mas a cúpula realizada sob o signo da Primavera de Moscou abriu a possibilidade de encurtar um pouco esse caminho.

 
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